Rebobinando #62 | Aquaman Vol. 2

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Ele usa camiseta laranja! Ele fala com peixes! Ele é o saco de pancadas das piadas com os Superamigos! O Namor é infinitamente melhor que ele, mas ainda assim perdeu em Marvel vs DC! Quem é? Claro que é o Aquaman! Mas em 1986 ele teve uma história bacana e é ela que vamos rebobinar hoje: Aquaman Vol. 2!

As capas das edições americanas da minissérie.

Com certeza essa foi uma história que passou batida por muita gente na época. Eu confesso que esta é mais uma daquelas edições da Rebobinando onde eu uso um cheat code e falo sobre algo que eu não li especificamente na época, mas que é antigo e pode ser que algum de vocês tenha lido e achado maneiro e tals. Obviamente eu sou marvete, mas isso não me impede de curtir e ler coisas da DC que eu ache maneiras. Mas sobre o Aquaman? É meio difícil, sabe? Era isso, ou aquela fase em que ele perde a mão (que eu li e acho irada). Mas como essa mini é mais antiga, achei que seria bacana falar dela aqui hoje.

Em 1985 a DC Comics tinha acabado de passar por uma crise. Digo, uma Crise nas Infinitas Terras. Todo mundo sabe como isso ocorreu (caso não, em breve eu faço uma Rebobinando sobre ela) e que o multiverso da editora foi sumariamente eliminado deixando apenas uma linha de tempo “correta”. Foi o primeiro grande reboot da DC e junto com ele vários personagens da editora sofreram drásticas alterações. Em 1986 diversas minisséries foram lançadas re-apresentando estes personagens com novas origens, novos poderes, novas relações com seus personagens secundários e galeria de vilões. Foi nessa levada que o Superman de John Byrne alcançou um sucesso estrondoso, revitalizando o personagem por anos a fio. Só que a primeira minissérie dessa leva de reboots veio com o loirinho dos mares, nosso querido Aquaman.

Aqui no Brasil a história saiu em quatro edições da revista Superamigos da Editora Abril Jovem. No mix das edições #31-34, além das histórias do Aquaman, contavam também com histórias do Superman, do demônio Etrigan, da Tropa dos Lanternas Verdes e do Monstro do Pântano (de Alan Moore!!!). Tudo em formatinho, nos melhores sebos do Brasil.

As capas das edições brasileiras de “Superamigos” com a história de Aquaman Vol.2.

A minissérie

Publicada entre fevereiro e maio de 1986, a mini Aquaman (conhecida posteriormente como Aquaman – Volume 2) tentou modernizar o personagem para a nova década e chegou até a dar um uniforme bacana pra ele, meio “stealth” para ele “se camuflar” nas correntes do oceano. Deram uma repaginada em sua origem, que já era muito parecida com a origem do personagem que conhecemos até hoje. Porém o escritor Neal Pozner dedica quase uma edição inteira recontando em detalhes o crescimento de Arthur Curry e o relacionamento dele com o pai, Tom Curry e seu meio-irmão, Orm, o Mestre do Oceano.

A mini foi até bem recebida, e a história é bem bacana, introduzindo elementos místicos na mitologia do personagem, bem como expandindo o “universo oceânico” com várias tribos e cidades atlantes diferentes, com suas respectivas culturas, línguas e até fisiologia. Porém por conta de diferenças criativas, o restante da série acabou sendo sumariamente cancelado, deixando os fãs a, ahem, “ver navios”. O herói só seria visto novamente dois anos depois, em 1988, numa edição especial e depois, no mesmo ano, na minissérie Invasão!

Coisa de irmão. Depois é só mandar abraçar que tá tudo resolvido.

A história

Tudo começa com um conto das civilizações atlantes antes da grande submersão. É uma lenda de doze poderosos magos atlantes que forjaram doze artefatos místicos conhecidos como as “jóias do zodíaco” e cada uma tem bonitinha o símbolo de uma das doze casas do zodíaco. Conta essa lenda que dois irmãos lutaram pelo domínio do poder das jóias, o que levou a uma grande destruição e o afundamento do continente atlante, trazendo consigo uma era do gelo e aparentemente o fim dos dinossauros (???). Enfim, logo em seguida somos apresentados à cidade-sede do Aquaman, Nova Veneza, na Flórida. Ela é impiedosamente atacada pelo Mestre do Oceano, o que leva Aquaman, Mera e Aqualad a tentar defendê-la.

Aquaman resolve tirar satisfação com o seu meio-irmão durante o ataque e chega até a esquecer de salvar pessoas por estar cego de tanto ódio. O Mestre do Oceano provoca o herói cada vez mais, até que ele se descuida e perde uma disputa de forças. Orm olha nos olhos de Arthur e diz que matá-lo ali seria muito fácil, então o deixa desacordado e simplesmente desaparece. Ao acordar, Aquaman fica perdido com o desaparecimento do seu meio-irmão como se fosse um fantasma, ao mesmo tempo em que toma uma dura de Mera por focar apenas na luta e não em salvar sua cidade e seus amigos.

Como é que se enforca alguém embaixo d’água?

Ao mesmo tempo, em Atlântida, o Rei Vulko (cientista, amigo de Arthur) está em maus-lençóis porque desde que Aquaman decidiu “abrir” as fronteiras do reino ao mundo exterior e ao contato com outros países, o povo está insatisfeito. Durante uma manifestação, Vulko descobre que o Selo de Atlântida, o símbolo-real máximo de sua cultura, foi roubado. Sem ele, Vulko não tem condições de governar (sabe-se lá o porquê) e vê seu próprio exército bater em sua porta, querendo declarar guerra à superfície por achar que foram eles que roubaram o Selo Real.

Vulko convoca Aquaman em segredo e diz desconfiar de que os verdadeiros culpados estão em uma cidade atlante vizinha, chamada Thierna Na Oge. Ele envia o herói para lá com urgência, mas não sem antes presenteá-lo com um novo uniforme, que o ajudaria a passar despercebido pelos outros atlantes, por “camuflá-lo” com as correntes oceânicas. Achei até uma boa desculpa para o uniforme se essa parada da camuflagem não funcionasse uma vez só na história inteira. Inclusive, ao chegar na cidade vizinha, ele tenta entrar escondido, mas é rapidamente visto pelos guardas e capturado. Ou seja, não adiantou de nada essa camuflagem de meia tigela. Pede seu dinheiro de volta, Aquaman.

Aquaman acorda acorrentado ao lado de Nuada Silverhand, regente de Thierna Na Oge.

A própria cidade está passando por uma espécie de golpe de estado, pois o símbolo real deles, um tal de Lia Fail, também acabou de ser roubado! Arthur acaba conhecendo a ex-regente, Nuada Silverhand, na prisão. Ela foi deposta por sua irmã, Bres, que não possui as mesmas habilidades mágicas, mas que domina o conselho real composto por doze magos muito poderosos. Nuada fica impossibilitada de usar sua magia plenamente enquanto for “barrada” por essas doze pessoas. Numa espécie de julgamento às pressas, Aquaman é condenado a lutar pela própria vida enfrentando uma fera milenar inimiga do povo de Thierna Na Oge. Yadda, yadda, luta vai, luta vem, Aquaman e Nuada escapam. Porém ele percebe que não pode ser coincidência que dois símbolos reais possam ter sido roubados ao mesmo tempo e por pessoas diferentes. Desconfiando de uma conexão entre o sumiço dessas duas relíquias, Aquaman pede a Nuada que use seus poderes para tentar localizar seu Lia Fail. Sem impedimentos, ela consegue achar o objeto em uma outra cidade atlante, chamada Marzoon. Chegando lá, os dois são atacados pelos selvagens locais e descobrem que estão todos sendo dominados por ninguém menos que o Mestre do Oceano!

TAN-DAN-DAAAAN! Como se não houvesse dúvida, Arthur e Nuada são capturados e levados ao castelo de gelo do vilão, onde ele pode se gabar mais uma vez de ter vencido seu irmão e rival Aquaman. E chega até a ser engraçado ver o tipo de provocação que ele faz, chamando o herói por apelidos escrotinhos, sabe? Tipo “bafo de peixe”, “miolo de camarão” e tals. O que vai deixando Aquaman mais e mais enfurecido, ao ponto dele parecer meio que uma criança fazendo birra, diante da ameaça de seu meio-irmão.

A arte de Greg Hamilton tem seus momentos bacanas, tipo esse.

Arthur acaba contando a Nuada sobre a sua infância como o “filho de dois mundos” e como seu pai era um misantropo que escolheu morar num farol para se afastar das pessoas. Ao salvar e conhecer Atlanna, Tom Curry mudou seu modo de ver o mundo. Antes de falecer, no entanto, Atlanna finalmente contou aos dois de onde veio e porque seu filho tinha as habilidades especiais que tinha. Tom tomou para si treinar seu filho para se tornar o melhor e, no futuro, ocupar seu lugar de direito no trono de Atlântida, sem precisar da ajuda de ninguém.

Aí então vem a parte horrível da história. Tom Curry, após a morte de sua esposa, sentiu falta de contato humano e acabou conhecendo na cidade uma outra mulher. Depois de um tempo, pediu ela em casamento e ela, por achar que não encontraria coisa melhor, aceito! Juro que está escrito assim na história. Os dois tiveram um filho que chamaram de Orm Marius. Mas Tom não conseguia se conectar a nenhum dos dois porque eles eram mundanos demais! Depois de casar com uma rainha atlante e ter um filho que ele treinava para ser super-herói, casar com uma mulher comum e ter um filho comum era entediante demais pra ele! Aí óbvio que ele ignorava os dois e só dava atenção ao Aquaman.

Na boa, o pai do Aquaman era um BABACA.

COM TODA RAZÃO DO MUNDO Orm cresceu ressentido com seu pai e seu meio-irmão. E buscou derrotá-lo de qualquer forma. Em sua busca por poder, ele encontrou uma biblioteca atlante antiga, contando das doze jóias do zodíaco que eu mencionei lá no início. Acontece que ele começou a procurá-las e ao achar uma ficava cada vez mais fácil encontrar a próxima e a próxima. Desta forma, o Mestre do Oceano conseguiu juntar seis jóias do zodíaco, duas das quais são, obviamente, o Selo de Atlântida e o Lia Fail. Orm vai juntando cada vez mais poder, mas ainda sem matar Aquaman. Tudo o que ele quer é jogar na cara do irmão que ele é melhor em tudo e isso vai deixando o herói cada vez mais furioso.

É quando Nuada, sábia que só, explica que diferente da ciência, que é baseada na razão, a magia é baseada na emoção. E só com o foco de uma emoção muito forte, alguém consegue acumular muito poder. O Mestre do Oceano conseguiu concentrar o poder das primeiras jóias que capturou só com o ódio que nutria pelo Aquaman, porém, canalizando o ódio de seu próprio irmão, ele conseguiu acumular cada vez mais e mais, se tornando uma ameaça cada vez maior. Se não fosse impedido logo, talvez ele não conseguisse ser parado nunca mais.

Aquaman vs Mestre do Oceano, uma batalha EMOCIONANTE. Literalmente.

É aí que ela ajuda Aquaman com uma espécie de “sessão de terapia” mágica. Colocando o herói em contato com os seus próprios sentimentos, com relação ao pai, à mãe, ao trono de Atlântida, ao irmão, aos membros da Liga da Justiça e tudo mais. Conforme ele vai ganhando mais consciência dos seus próprios sentimentos, Orm vai aos poucos perdendo contato com o poder das jóias, até culminar numa declaração de amor ao próprio irmão, causando assim a implosão de todo o poder acumulado.

Sem acreditar que a declaração do seu amor foi o que causou a morte de seu irmão, Aquaman faz as pazes consigo mesmo, renascendo como um novo homem, mais seguro de si e de seu lugar no mundo. Ele recupera o selo real e dá carona a Nuada até sua casa. No epílogo, vemos o braço do Mestre do Oceano sair do meio dos escombros, chamando por Arthur…

Tô LendoPontos Fortes
  • A História. Contei ela toda aqui porque acho que deve ser difícil de encontrá-la por aí. A parte inicial meio que enrola um pouco, mas eu curti bastante esse lado emocional do herói. Sempre achei o Aquaman meio metido a besta e, em boa parte dessa minissérie ele age como tal, mas o fim parece dar uma redimida nesse lado meio “mimado” dele.
  • A arte. O desenhista Craig Hamilton tem seus altos e baixos nas edições. Sempre que ele faz uma ilustração de página inteira eu acho maneiríssimo, porque parece que ele se dedica muito aos detalhes, porém no restante da edição fica com uma cara de tudo feito na preguiça com uma quadrinização meio tosca e confusa.
  • O uniforme. Confesso que o uniforme laranjinha não é o meu preferido. O Azul também não é lá essas coisas, cheio de detalhe que parece meio chato de desenhar, mas ainda assim, não é o laranjinha.
Tô LendoPontos Meh
  • Disponibilidade. A revista é bem velha. Numa pesquisa rápida pelas internete, pude ver que não há muitas edições disponíveis e todas estão meio que com as capas super amareladas nas fotos e tal. Pode ser melhor e mais fácil achar um formato digital pra ler.
  • Sem continuidade. Uma pena que a revista não tenha ido pra frente por conta de diferenças criativas, porque eu gostei bastante da história e fiquei curioso onde Neal Pozner queria levar essa trama. Das tais doze jóias, seis foram encontradas e terminam a minissérie completamente gastas de poderes mágicos. Ainda há outras seis espalhadas por aí, mas acho que ninguém, nem o Geoff Johns quis fechar essa ponta solta.

Taí, junto com o início da fase do Aquaman-Pirata-com-Mão-de-Arpão, essa é uma das histórias do Aquaman que eu mais curti. Não precisa reinventar o personagem do jeito mais tatibitate que nem nos Novos 52 ou Aquaman: Rebirth. Sem essa coisa de querer ficar explicando que ele “não fala com os peixes” ou querer “desconstruir” as piadinhas que o Cartoon Network e os Superamigos fizeram dele. É só escrever uma história bacana!

Stupid Sexy Aquaman.

O filme novo taí virando a esquina e eu vibrei quando escolheram o Jason Momoa para o papel, muito embora eu ainda ache que ele daria um Lobo incrível. Ainda bem que as piadas com peixes já saíram do caminho naquele desastre de trem que foi o filme da Liga da Justiça, agora tem espaço pra ser só um filme bacana, divertido, com um herói fodão. Que fala com peixes.

E você? Tem memória de alguma outra história do Aquaman que você mais goste? Melhor mesmo era a versão dos Superamigos? Contaí.

A minissérie Aquaman Vol. 2 vale um bate-papo com uns dois peixinhos, um peixe tropical e um tubarão! 🐟🐟 🐠🦈

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2018-12-06T02:32:18+00:00 9 de dezembro de 2018|9 Comentários