Rebobinando #61 | Deuses Americanos

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Hoje a Rebobinando vai tratar de um tema diferente. Diferente, pero no mucho, já que estamos falando de Neil Gaiman! Autor de premiadíssimas obras, tanto na literatura quanto nos quadrinhos, com várias adaptações para o cinema, televisão, etc. etc. Ajoelha no milho, pega um terço e presta continência à bandeira dos US of A que hoje nós vamos falar de Deuses Americanos!

Eu amo o Neil Gaiman. Sério. Amo mesmo, de paixão. Mas esse amor todo não vem de tão longa data assim, na verdade. Bom, mais ou menos, já que ele surgiu na mesma época em que o livro-tema de hoje, Deuses Americanos, foi publicado. Eu era um jovem mancebo recém-chegado na faculdade, um ávido leitor de quadrinhos e livros de ficção científica e fantasia. Em 2002 eu passeava por uma dessas mega-livrarias de um dos shoppings do Rio de Janeiro e me deparei com um livro que estampava em letras garrafais o nome N E I L  G A I M A N. Parei pra prestar atenção.

Eu ainda não havia lido a série do Sandman que saía pelo selo Vertigo da DC Comics. Pelo que me consta agora, ela já havia sido encerrada em 1998 depois de ser publicada por inteiro pela editora Globo. Mas eu conhecia o nome. Não me era estranho, justamente por conta dessa série e de uma ou outra história que havia passado pela minha mão, como a da edição #9 de Spawn. Até ali ele era apenas “mais um roteirista maneiro” do mundo dos quadrinhos, mas que também escrevia livros. Para todos os efeitos, Deuses Americanos foi a primeira obra dele que eu li.


Os Deuses de Outrora

Inicialmente publicado em 2001 na Inglaterra, o livro só chegou ao Brasil pela Editora Conrad em 2002. Conhecida pela publicação de vários mangás, a editora tinha uma fama de publicar muita coisa voltada para o público nerd, fã de quadrinhos. Outros títulos do universo de Sandman, bem como a série Discworld de Terry Pratchett também foram publicados pela editora. Não deve ser difícil de achar nos sebos ou na internet.

Durante muito tempo, inclusive, o livro ficou fora de catálogo. Não sei bem o porque, mas lembro de comentar com um amigo meu alguns anos atrás, antes do livro ganhar novas reimpressões, obviamente, que a edição antiga (a que eu tenho até hoje) estava com o preço nas alturas, algo em torno de R$ 250,00 pra cima!!! Ele até sugeriu que eu vendesse e tirasse uma grana, mas eu jamais faria isso (a não ser que tivesse chegado na casa das centenas de milhares). A procura era tanta que a editora estava perdendo dinheiro ao não reimprimir o título. Coisas deste tipo, inclusive, levaram o próprio Gaiman a rever o seu conceito sobre “pirataria na internet” e ter seus livros compartilhados online.

No início era o caos…

Em Deuses Americanos, o que mais me capturou logo de cara foi a premissa. Reza a lenda, ou melhor, nos contam os filósofos que “Deus não criou ou homem, e sim o homem que criou Deus”. Partindo deste princípio, Gaiman estendeu a idéia ao máximo. E se foi isso mesmo? E se os deuses, partindo do princípio que foram criados pela humanidade, só conseguem manter seus poderes, seus domínios, graças a crença de seus fiéis? E se eles fossem completamente dependentes um do outro e para sobreviver, esses deuses deveriam fazer como os artistas e “ir até onde o povo está”?

Nisso ele criou um universo inteiro cheio de possibilidades de histórias maravilhosas sobre como os deuses de antigamente precisaram se mudar, se adaptar, em busca da manutenção de seus fiéis para poderem simplesmente continuarem existindo. E como toda história precisa de um conflito para ser interessante, e se esses deuses tivessem que encarar uma disputa com os “novos deuses” da modernidade, incorporados nos nossos “vícios” e “devoção” diários, como a televisão, a internet, a tecnologia, as teorias da conspiração, a globalização, a mão invisível do mercado, etc.

Shadow e Wednesday, por David M. Buisan

Lembro de quanto eu me toquei do que de fato estava acontecendo na história, e quem era quem dentro dela, foi um dos maiores mindfucks que eu já tive lendo qualquer livro. Não à toa é um dos meus preferidos, não só do mesmo autor, mas de todos os tempos (tá ali juntinho do Jurassic Park, do Michael Crichton). Eu não sabia, mas àquela altura, Gaiman já havia lançado outros clássicos dele: primeiro Belas Maldições (Good Omens, em 1990), que ele escreveu em parceria com Terry Pratchett (hilário, vale a pena procurar); depois com Lugar Nenhum (Neverwhere, em 1996); e finalmente Stardust – O Mistério da Estrela (Stardust, em 1999), que virou filme com o Demolidor, a Baronesa, o Superman e a Mulher-Gato e outros tantos atores de filmes de heróis.

Depois de ler quase todos esses na sequência, a gente acaba percebendo um pouco o esquema de plot do Gaiman de um protagonista meio boboca jogado num mundo novo que conta com a ajuda de uma garota (ou um velho, no caso de Deuses Americanos) para mudar de vida e salvar o dito mundo novo. Mas mesmo assim, os universos e os personagens que ele desenvolve no processo são tão ricos que eu não me importo e acabou curtindo tudo do mesmo jeito. E aparentemente só recentemente os estúdios estão dando atenção ao rico trabalho do Gaiman já que além de Stardust ter virado um filme em 2007 (meio bobinho, ok), Neverwhere já virou uma novela de rádio pela BBC, e Belas Maldições já está virando série, assim como Deuses Americanos, que está indo para a segunda temporada.

Texto Sagrado

Sem querer dar muito spoiler pra quem não leu, a história acompanha do ex-detento Shadow Moon. Ele sai da prisão um dia antes da sua liberação por conta de problemas na famíilia e, no caminho de casa, ele acaba encontrando um senhor misterioso com um olho de vidro que se apresenta como Mr. Wednesday (Sr. Quarta-feira, em inglês). Dado o nome e a premissa, nós já sabemos que ele é um deus disfarçado que precisa da ajuda de Shadow para realizar algum propósito secreto e sinistro. Para tanto, os dois percorrem os Estados Unidos atrás de outros deuses que possam oferecer algum tipo de auxílio a Wednesday, enquanto são perseguidos pelas forças contrárias dos deuses da sociedade moderna.

Outro aspecto bacana do livro é que cada capítulo é precedido de um pequeno prólogo, um conto, falando sobre outras encarnações de deuses antigos levando a vida na América, como uma súcubus que marca encontros para se alimentar de homens, ou um deus indiano trabalhando como taxista. É muito interessante encontrar e descobrir quais são as versões novas dos deuses antigos que interferem na história também, como alguns deuses egípcios, outros nórdicos, e indígenas.

Sr. Nancy e Mídia, em fanart da internet. | Créditos na imagem

Tô LendoPontos Fortes
  • Neil Gaiman. Sério, acho ele fantástico. Se você curte na mesma medida ou até menos do que eu, ainda assim é um deleite ler esse livro.
  • Esperto. Você vai se sentir super esperto lendo Deuses Americanos e reconhecendo algumas divindades. Além disso, é praticamente uma aula-relâmpago sobre teologia, que com certeza vai interessar muita gente.
  • Seriado. Virou série de televisão. Se você é daqueles que curte ver o filme antes, sinta-se à vontade! Mas eu sempre vou recomendar ler o livro antes da série.
  • Personagens fodas! Tem muito, mas muito personagem bacana! Entre eles, o Sr. Nancy, que acaba protagonizando a “continuação” de Deuses Americanos. Depois de ler o livro, recomendo emendar em seguida com Os Filhos de Anansi (Anansi Boys, 2005).
Tô LendoPontos Meh
  • Disponibilidade. Acho que hoje em dia está mais fácil de achar. Vi algumas edições de capa nova, mas aí também não tenho muitas garantias quanto a uma nova tradução ou algo assim. Eu gosto muito da edição antiga da Conrad, não troco por nada deste mundo.
  • Plot. É um plot típico do Neil Gaiman, como eu falei. E como é de praxe, ele dá muitas voltas até chegar aos finalmentes. Eu ainda acho que ele recheia essas voltas com bastante coisa interessante, mas pode ser que isso seja um problema para algumas pessoas.
  • Continuações. Apesar dele prometer desde sempre que vai escrever uma continuação de Deuses Americanos, até o momento não saiu nada além de dois contos com Shadow Moon, e Filhos de Anansi, que não é bem uma continuação, mas um shared universe. Então se você quiser mais coisas nessa ambientação, só lamento.

O que me inspirou a escrever sobre Neil Gaiman e Deuses Americanos na Rebobinando de hoje foi um tuite do Bill Sienkiewicz, parabenizando-o pelos 30 anos de Sandman. Mas como eu não reli nada de Sandman recentemente, fiquei meio enrolado para escrever sobre. Diferente do livro que eu sei quase todo de trás pra frente de tanto que eu já o reli.

Portanto, fica a dica se você ainda não pegou essa obra prima nas mãos. E se você quiser, já tem o aval do Neil para pegar emprestado ou ler digitalmente onde você puder, porque vale bem a pena. Garanto que você vai querer comprar um exemplar depois.

Deuses Americanos vale cinco rebobinandos! 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2018-12-03T20:41:48+00:00 3 de dezembro de 2018|9 Comentários
  • E tem a opção em quadrinhos que já esteve Nas Prateleiras! 😉

    http://cavernadocaruso.com.br/nas-prateleiras-38-deuses-americanos/

    • Ahhh, puxa. Esqueci. Podia ter colocado um jabá pra ti no texto. =/

  • Jean Carlos

    Você falou bem Kadu, Neil Gaiman é fantástico e Deuses Americanos foi uma das melhores obras dele.

    • Opa, obrigado Jean.

      Eu tenho um carinho muito grande por esse livro, na verdade. Acho ele muito foda.

  • Luan Frainer

    Adoro Deuses Americanos, apesar de pequenas coisas me incomodarem como o Shadow Moon que eu acho um personagem bem meia boca, alguns Deuses estão desatualizados hoje em dia como o Deus da Internet, mas, eh uma leitura muito gostosa e o Mr. Wednesday eh um excelente personagem e quando vc descobre quem ele eh, realmente explodiu minha cabeça. Uma das coisas que mais gosto eh quando ele apresenta os Deuses Antigos, e todo o conflito deles com os Novos Deuses. Excelente livro.

    • Pois é, os protagonistas dos livros do Gaiman geral têm esse problema de serem meio bobocas, meia-boca mesmo. Às vezes eu acho que eles são só um “escada” pra ele apresentar um mundo fantástico cheio de detalhes e regrinhas que ele inventou na cabeça.

      É verdade que ele está meio desatualizado com relação às divindades modernas, mas pelo menos na série eles já deram uma adaptada nisso. 😉

  • Ricardo Varotto

    Também sou Gaimanete safado, e costumo dizer que se ele escrever rótulo de xampu ou de garrafa de pinga, eu já corro para ler. Meu primeiro contato foi mesmo com as HQs de Sandman, mas o primeiro livro dele que li foi Good Omens. A partir daí, como eu já disse, se ele escrever eu leio.

    • Hahaha. Eu conhecia a do rótulo de xampu, mas tô morrendo aqui com o rótulo de pinga, hahah.

      Tamo junto na Gaimanização!

      • Ricardo Varotto

        Improvisei… 🙂