Rebobinando #60 | Gotcha! Uma Arma do Barulho

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A Sessão da Tarde teve uma época áurea nos idos dos anos 80. Antes de só passar reprises De Repente 30, ela passava reprises de filmes como Curtindo a Vida Adoidado, Top Gun, Goonies e Mulher Nota 1000. Todos eram exibidos sem se importar com cenas de sexo, nudez, ou violência, porque, claro, eram os anos 80. Não era uma época para amadores! Só que nem a Sessão da Tarde daquela época sobrevivia só com reprises de filmes bons, e vez ou outra a gente era obrigado a ver coisas como o tema da Rebobinando de hoje: Gotcha, Uma Arma do Barulho!

Pra entrar no clima, vamos curtir um sonzinho!

Pois é, não é muita gente que lembra desse filme, pra falar a verdade. E recentemente ele entrou no catálogo da Netflix (ba-baaaam) e eu resolvi dar uma olhada nessa história de novo, porque na minha memória de garoto esse filme era I R A D Í S S I M O. Ledo engano, jovem Kadu. Errou feio, garoto. Errou rude.

Tudo isso porque, obviamente, na minha cabeça de garoto, tudo o que eu lembrava era que o filme tinha um cara que corria pelo campus de uma faculdade (ou escola, ou whatever, porque eu não prestava atenção nisso) com uma pistola de dardos tranquilizantes atirando em espiões russos (ou whatever porque eu também não entendia nada de história). Sabia que tinha uma mulher gata, Linda Fiorentino, que já tem “linda” no nome não é a toa. E tinha aquela fantasia de ser pego no meio de uma conspiração e virar um “agente secreto por acidente” e salvar o mundo com uma pistola de dardos ou coisa semelhante. Por esses parcos motivos eu ADORAVA esse filme e, provavelmente, durante um tempo na escola posso ter brincado com uns amigos de “gotcha”, mas com elásticos e munição de papel. Pobre da minha professora.

O filme ainda tenta forçar uma quebradinha da quarta parede no final, a la “Ferris Bueller”.

Só que o filme era bem ruim, além da tradução do nome ser horrível. Afinal era uma época onde quase todas as comédias da Sessão da Tarde tinham um “sobrenome” que era “do barulho”, ou “quase perfeito”, ou “por engano”. Claro, ele não teria o menor apelo se o nome fosse “Te Peguei”, ou algo assim, mas me dá nervoso até hoje que o sobrenome seja “uma ARMA do barulho”. Tipo, o foco do filme NEM É A ARMA! A tal da arma de tranquilizantes “do barulho” tem um foreshadowing nos 5 primeiros minutos de filme e só aparece de novo depois nos últimos 10 minutos! E O FILME TEM UMA HORA E QUARENTA DE DURAÇÃO! Enquanto eu sofria assistindo este filme de novo, eu ficava me perguntando o tempo inteiro “ei, e a arma? Quando ela vai aparecer de novo?” E ela só aparece depois de muita confusão!

Pegadinha do Plantão Médico!

Anthony Edwards viria a ser mais conhecido pelo seu papel em Plantão Médico, anos depois, mas em 1985 ele ainda tinha cabelo e uma carinha de garoto o suficiente para se passar por um adolescente recém-chegado à faculdade. Nos anos seguintes ele ainda apareceria ao lado de Tom Cruise em Top Gun (1986) e em A Vingança dos Nerds II (1987). Além dele, ainda havia a já mencionada Linda Fiorentino em iníciozinho de carreira. Mais tarde ela figuraria em diversos outros filmes, porém eu acredito que você vá se lembrar mesmo é de Men In Black (1997). Além dos principais, não haviam muitos atores dignos de nota, a não ser o melhor amigo do protagonista, o estereótipo do latin lover, Manolo, interpretado pelo grande Jsu Garcia. Quem? Pois é. E eu aqui perdendo o meu tempo na página do IMDb

Como a maioria estava em início de carreira, parecia também que nenhum dos atores estava ligando muito para o roteiro ou para o trabalho no filme. Tudo soa meio caricato ou charlatanesco demais. O plot inteiro da história, se você analisar bem, acaba sendo só a vontade do protagonista de “dar uma” e perder a virgindade! Tudo o que acontece na história até o momento final é porque um estudante de veterinária está pensando mais com a cabeça de baixo do que com a de cima! O nome original do filme é “Gotcha!” porque se baseia num jogo que existia na época entre alunos de faculdade, que envolvia perseguições e pistolas de paintball. Como o nome do jogo na vida real era “assassino” ou “tag” (o nosso popular “pique-pega”), a produção achou por bem dar um outro nome mais bonitinho. E colocando o protagonista para repetir a palavra “gotcha!” a cada kill, eles ainda arriscavam popularizar o nome.

Claro que na dublagem o cara dizer “gotcha!” perde todo o sentido. Mas quem se importa, né? JÁ QUE O NOME DO FILME CHAMA A ARMA DE GOTCHA E NÃO O JOGO! Afe.

Anthony Edwards nas duas sequências: Gotcha! Parte II – Um bigodinho do Barulho! e Gotcha! Parte III – Uma Calvície do Barulho!

Pique-pega!

O filme começa com um tom meio sombrio de perseguição. Como se estivéssemos desavisados, vemos o protagonista, Jonathan Moore preparando sua arma e apontando para alguém dentro do campus da faculdade onde estuda. Ele tenta atirar e erra! O alvo percebe e dá início a uma perseguição até que Jonathan consiga alvejá-lo, em frente a uma garota. Ela se desespera e acha que o cara tá morto, mas o nosso herói explica que não. Que é só um jogo de paintball e tals. A garota fica pau da vida e manda Jonathan ir catar coquinho porque ele sujou o suéter dela e vai embora. É importante lembrar dessa garota porque mais pro final ela reaparece, viu?

Enfim, descobrimos que o nosso herói é um virjão, doido pra pegar alguém, e com um amigo pegador. Durante uma aula em que o professor leva a porra dum TIGRE enjaulado pra sala de aula, somos apresentados à tal da arma de tranquilizantes. Descobrimos que os dois planejam uma viagem para a França para “estudar francês” e, bom, vocês sabem mais o quê.

Manolo e Jonathan, os dois “bad boys” visitando a Cidade do Amor…

Na frança, Manolo sai passando o rodo em geral e Jon fica só passeando pela cidade, conhecendo museus e cafés enquanto o amigo pega alguma doença venérea. É nesses passeios que ele conhece Sasha Banicek, que se apresenta como uma courier de algum país da Europa Oriental. De alguma maneira Jonathan não desconfia que uma mulher mais velha do que ele realmente esteja afim de um garoto, e vai na onda dela. Jon se separa do amigo Manolo que vai continuar a viagem para a Espanha, e segue com seu novo amor para a Alemanha. Só nisso aí já era pra ele ter percebido uns sinais de alerta, mas ele ignora. Durante um passeio em BerlimOcidental, ela lhe conta que precisa “dar uma passadinha” em Berlim Oriental para “pegar uma coisa”, tipo, a trabalho. Ótario e apaixonado, Jonathan continua com ela. Até que tudo vai por água abaixo.

E nisso vai boa parte do filme, viu? Se você tentar re-assistir pra ver os tiroteios de paintball tranquilizantes, perceba que a maior parte da história envolve um garoto seguindo uma paixão de ocasião pelos lugares mais perigosos da Europa em plena Guerra Fria. Por fim, Sasha planta um objeto na mochila de Jonathan e pede que ele vá embora de Berlim Oriental sem ela, que está sendo perseguida, CA-LA-RO, por um agente russo! TAN-DAN-DAAAAAN! Temos aí mais uma boa meia hora de filme com Jonathan correndo pra lá e pra cá na Alemanha que nem um idiota até conseguir chegar ao aeroporto e voltar para os EUA. Mas adivinha só quem também veio para a América? O agente russo! TAN-DAN-DAAAAAN!

Na boa, um cara com uma pinta dessas, vindo direto da Alemanha, em plena Guerra Fria… como é que ele me passa pela alfândega americana?

Paranóico e com ninguém acreditando em suas histórias, nosso herói descobre que o objeto plantado por Sasha era um rolo de filme contrabandeado da KGB. Não ficamos sabendo exatamente o que tem no filme, mas sabemos que a CIA também o quer. E numa furada de roteiro que até agora eu não entendi, uns agentes da “companhia”, invadem o apartamento de Jonathan em busca do rolo de filme, mas isso só faz aumentar a paranóia do garoto! Ele entra em contato com a agência de espionagem americana e combina de entregar o pacote em uma de suas sedes. Chegando lá ele descobre que Sasha, seu grande amor, na verdade é uma agente americana! TAN-DAN-DAAAAAN! Chamada Cheryl Brewster! TAN-DAN-DAAAAAN!  Nascida e criada em Pittsburgh! TAN-DAN-D… ok, chega.

E AÍ! FINALMENTE! Temos a tal cena da faculdade. Nos 10 minutos finais de filme, Jonathan arranja de encontrar Sasha, digo, Cheryl na faculdade para bater uma D.R. e devolver o rolo de filme. Mas o agente russo veio com seus amigos e é finalmente hora de Jonathan Moore criar um par de bolas e matar todos eles! Mentira. Ele vai até a sala de aula onde fica guardada a arma de tranquilizantes e age como se estivesse no jogo com seus amigos, eliminando os espiões russos um por um.

Sasha, aparentemente a pior agente da CIA.

Tô LendoPontos Fortes
  • Difícil. Difícil mesmo, viu? Sei lá tem algumas piadas boas? O filme se vende como uma comédia-de-ação, mas a ação é meio morosa e a comédia não diz muito a que veio. Se o roteiro fosse completamente reestruturado talvez ele ficasse bom? Existem inúmeros filmes de “espião por acidente”, desde True Lies até, bom Espião por Acidente. Mas poucos conseguem ser tão hilários quanto um com o Bill Murray, chamado O Homem que Sabia de Menos. É tudo o que Gotcha! queria ter sido e não foi.
  • Disponível. Tem na Netflix. E talvez em alguma banca de DVDs perdidos das Lojas Americanas.
Tô LendoPontos Meh
  • Todos. Nossa, é incrível como um filme que a gente amava quando criança pode parecer simplesmente insuportável depois que a gente cresce. Pode ser só incômodo meu, ou eu que tô velho demais pra isso, ou só que o filme é ruim mesmo. Desde a música de abertura que eu coloquei ali em cima, até a cena final.

Como se não bastasse o total sub-aproveitamento da Linda Fiorentino, linda, maravilhosa, agente da CIA, mulher mais velha e madura. Ainda colocam ela pra querer ficar com o bunda-mole do Anthony Edwards no fim do filme só porque ele brincou de paintball com uns espiões russos que eram o triplo da idade dele! Sem contar que temos uma cena final que é simplesmente horrorosa de um machismo atroz!

Lembra da garota que o Jonathan deu mole no início do filme e mandou ele ir pastar? No finzinho ela reaparece andando pelo campus logo após o acontecido e eles se encontram. Jonathan, que já tem uma namorada, agente da CIA, vem de conversinha mole e a garota, visivelmente irritada manda ele ir pastar de novo. Claro. O cara foi babaca com ela no início do filme e depois me vem com “oi, como vai o seu suéter?”. Mas aí.

AÍ.

O cara se chateia com o fora da garota, e aí.

AÍ.

ELE ME PEGA A ARMA DE TRANQUILIZANTE.

VISUALIZA.

ELE PEGA A ARMA DE TRANQUILIZANTE QUE ELE USOU PRA DERRUBAR OS AGENTES DA KGB!

ELE PEGA “A GOTCHA”!

E ME DÁ UM TIRO NA GAROTA!

NA BUNDA!

PORQUE ELA DEU UM FORA NELE!

E filme acaba com o frame do dardo tranquilizante pregado na bunda da garota e um “ai”.

THE END.

Na boa, gente. Gotcha! Uma Arma do Barulho vale só uma Rebobinando. 📼

E olhe lá.

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2018-11-26T17:46:04+00:00 26 de novembro de 2018|3 Comentários
  • Ricardo Varotto

    Cara, existem basicamente três resultados possíveis quando assistimos a material da nossa infância:

    – O primeiro é o melhor cenário: o filme/desenho/etc ainda funciona bem e você continua considerando muito bom.

    – No segundo, você faz uma análise fria e chega à conclusão que é uma bosta, mas baseado em uma série de outros critérios sentimentais você gosta mesmo assim.

    – ou, finalmente, o pior caso: você descobre que é uma merda e termina pensando “por que eu não fiquei com as minhas memórias”.

    Faz tempo que eu não assisto, mas acredito que Gotcha! se enquadre na terceira categoria (mas eu tenho o DVD).

    Enfim.

    Paciência.

    Da próxima vez assista a “Te Pego Lá Fora” e seja feliz.

    P.S.: “Uma arma do barulho” is fuck.

    • Hahahah. Eu sei bem disso. Sofri de decepção logo na primeira Rebobinando quando falei de Curto Circuito. Mas agora é meio que trabalho, né? Eu preciso pelo menos rever as coisas até o final pra poder falar delas aqui. Se não fosse por isso, talvez eu tivesse largado o filme no meio.

      Mas o pior é que eu lembrava que ele era genuinamente legal, então a porrada de descobrir que era um filme medíocre foi até maior.

      Mas tá anotada a sugestão de “Te Pego Lá Fora”.

      • Ricardo Varotto

        “Te pego lá fora” ainda funciona muito bem, na minha humilde opinião.