Rebobinando #59 | Imagine… a DC Comics de Stan Lee

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Stan Lee se foi. Às vezes esquecemos que os nossos ídolos não são imortais e que, mesmo chegando a viver 95 anos, uma hora a namoradinha do Thanos bate em sua porta e pimba. O mundo fica um pouquinho mais triste. Como não dá pra Rebobinando de hoje falar sobre toda a obra de Stanley Lieber e seus comparsas, escolhi falar de sua incursão pela Distinta Concorrência! Vamos falar de “Imagine a DC Comics de Stan Lee”!

Imagens clássicas são clássicas, não importa o Superman.

Às vésperas de comemorar seu 96° aniversário no próximo 28 de dezembro, Stanley Martin Lieber acabou indo pro Valhalla na semana passada. Deixando uma legião de fãs orfãos de sua invejável energia e criatividade, Stan “The Man” deixa também um legado enorme com inúmeros personagens que influenciaram e influenciam até hoje um sem número de criadores e desenhistas. Sempre trabalhando em parceria com outros grandes mestres dos quadrinhos como Steve Ditko e Jack Kirby, hoje em dia é praticamente impossível não topar com algumas de suas mais memoráveis criações, seja no cinema, na TV, nos serviços de streaming, etc. etc.

Como um nerd nascido nos anos 80 e crescendo nos anos 90, nunca cheguei a ler nenhuma história do vovô Stan in loco, tipo, ao vivaço, sabe? Sempre foram reedições de histórias antigas, ou uma ou outra história mais atual onde ele ainda arriscava um roteiro, um argumento, sempre galgado em sua fama de criador. Lembro que o meu primeiro contato com a “pessoa” de Stan Lee acabou sendo no filme Barrados no Shopping (Mallrats, de 1995) do Kevin Smith. Até então eu sabia que ele existia, que ele havia criado o Homem-Aranha que eu curtia desde 1990, mais ou menos, mas não processava ainda o status de “Lenda Viva dos Quadrinhos” dele. Em seguida, comprei uma edição especial chamada Homem-Aranha vs Rei do Crime: Até a Morte, que contava também com a participação do Demolidor! Esse gibi foi um dos senão o primeiro contato que eu tive com o jeito de escrever dele.

Lembro de ter achado meio tosquinho na época, e até hoje quando eu leio algo mais “atual” dele, sinto como se estivesse lendo algo super datado. Mas acho que esse é o charme, né? Se pararmos para pensar que o auge do trabalho dele foi por volta dos anos 60-70 e que o jeito dele escrever foi meio revolucionário pros quadrinhos da época, acho que dá até pra passar. Longe de mim querer criticar o cara responsável pela maioria dos heróis que eu curto, né? O jeito único dele escrever foi algo que chamou muita atenção na época, como a maioria dos gibis se passavam em lugares inexplorados, com aventureiros ou super-heróis em cidades fictícias, tudo era muito distante do leitor. Stan foi um cara que trouxe tudo isso pra junto do público-alvo, e além de situar tudo em cidades conhecidas, como Nova Iorque, ele praticamente colocava os leitores dentro da história.

Esse mérito ninguém tira dele. O cara foi um gênio na hora de colocar os personagens no mundo!

Nanananananananana!

A Distinta Concorrência

Em 2001, Stan Lee já não estava na Marvel há bastante tempo. Houve um certo rebuliço na época quando a DC Comics anunciou então uma série originalmente chamada “Just Imagine”, escrita por ninguém menos que o ex-cabeça da Marvel. A premissa era de imaginarmos um universo onde ele escreveria os maiores personagens da editora, como se fossem dele mesmo. Stan teve carta branca para brincar com todos os principais heróis e reestruturá-los ao estilo Marvel. Ou seja, origens trágicas repletas de acidentes químicos e alter egos com nomes aliteráveis.

Seriam 12 edições, uma a cada mês, iniciando em setembro de 2001 com “Imagine… o Batman de Stan Lee” (Just Imagine… Stan Lee’s Batman). As edições seguintes viriam apresentando outros personagens: Mulher-Maravilha, Superman, Lanterna Verde, Flash, Liga da Justiça, etc. Cada edição contava ainda com a participação de outros nomes de peso dos quadrinhos Joe Kubert, John Buscema, Dave Gibbons, Jerry Ordway, Kevin Maguire, Jim Lee… só medalhão! Aqui no Brasil, infelizmente, apenas seis das doze edições foram publicadas, também entre 2001-02, com uma diferença de dois meses apenas!

Essa Mulher-maravilha é DO PERU, HEIN? HEIN?

Fora de Época

Então, é aquele negócio, né? Ninguém tira o mérito de um cara como o Stan Lee em renovar todo o conceito de histórias em quadrinhos dos anos 60 pra cá. A cada par de décadas sempre tem alguém que acaba reformulando o jeito de contar histórias, vide Alan Moore nos anos 80, e Bendis por volta dos 2000. E apesar dessa série ser exatamente o que  diz no prefácio de cada edição, um “exercício criativo divertido”, todas as histórias soam meio… datadas. Se você juntar a isso o traço da maioria dos desenhistas, tipo John Buscema e Joe Kubert, tudo acaba parecendo mesmo que foi criado pelo Stan Lee, lá nos anos 60.

Aí eu não sei se bateu uma decepção nos leitores, que esperavam algo mais moderno, mas o fato é que as primeiras edições venderam bastante por conta do hype, mas conforme o ano foi passando as vendas foram caindo. Chegando ao ponto das últimas edições venderem menos da metade da quantidade das primeiras. Uma pena, porque ao reler, eu sinto que o “exercício criativo” proposto pela série era esse mesmo de uma “volta no tempo”, com gângsteres, lutadores de luta-livre, experimentos científicos no quintal de casa, etc. etc.

Já vi hentai o suficiente pra saber onde iss vai dar…!

Ah, que isso! Imagina!

Vou me ater apenas às edições publicadas no Brasil, rapidamente. Se você achar interessante reler as edições seguintes com o “Just Imagine” de Robin, Shazam, Catwoman, Aquaman, Sandman, e Crisis, recomendo procurar pela internet. É bem legal.

Batman (por Stan Lee e Joe Kubert)

Com um “quê” de Peter Parker, Wayne Williams era um garoto do gueto que vivia com a sua mãe, doente. Seu pai, um policial, havia sido morto recentemente em serviço pelas mãos de um gângster local chamado Handz. Wayne foi incriminado por Handz em um roubo no local onde ele trabalhava e foi mandado para a prisão. Lá seus únicos amigos eram um cientista, também preso, e um morcego que lhe visitava toda noite. Na prisão Wayne treinou mente e corpo planejando sua vingança. Ao sair da prisão ele criou um uniforme e fez fortuna como o lutador misterioso “The Batman” no torneio de luta-livre. Com a vida ganha, ele encontrou seu antigo amigo cientista e o chamou para criar equipamentos que o ajudassem a livrar o mundo do crime. Juntos eles uniram forças e Wayne Williams finalmente pôde enfrentar Handz novamente, saciando sua sede de vingança.

Mulher-Maravilha (por Stan Lee e Jim Lee)

Maria Mendoza era filha de um juiz na cidade de Cuzco, no Peru. Dominados pelo gângster local, Señor Guitez, a polícia e seu pai se fazem de cegos diante da exploração da população da região. Investigando um sítio arqueológico inca comandado pelo arqueologista Steve Trevor, Maria descobre um cajado mágico pertencente ao deus do sol inca, que lhe confere poderes. Na tentativa de impedir a morte de seu pai pelo gângster, que havia ganhado poderes graças a umas runas demoníacas, Maria se transforma na Mulher-Maravilha! Em sua luta com o Señor Guitez demônio, ela acaba caindo em Los Angeles e vira assistente de um famoso jornalista da cidade, enquanto investiga onde foram parar as outras runas demoníacas.

Superman (por Stan Lee e John Buscema)

Diferente de quase todas as origens, o Superman de Stan Lee tinha uma vibe de Capitão Marvel (o da Marvel, não o da DC). Salden era um policial em seu planeta e usava uma espécie de traje de vôo. Em uma tentativa de prender um bandido chamado Gorrok, os dois ficam presos em uma nave e caem na Terra. Salden então descobre que ele virou uma espécie de “super-homem” na Terra devido à baixa gravidade, já que em seu planeta a gravidade era 100 vezes maior. E por que a atmosfera é menos densa, ele também desenvolve uma espécie de “visão telescópica”. Com tudo isso, ele resolve se disfarçar até encontrar meios de voltar ao seu planeta e vai trabalhar num… circo! Heheh. Enfim, ele acaba descobrindo que a Terra ainda não tem condições de fazer viagens interplanetárias, porque estamos ocupados demais investindo em tecnologia para lutar em guerras e combater o crime. Ele então resolve combater ambos para ajudar a humanidade a se desenvolver o suficiente e ele poder voltar para casa.

Lanterna Verde (por Stan Lee e Dave Gibbons)

Len Lewis, um cientista, estava em busca da “árvore da vida”, a Yggdrasil das lendas nórdicas. Ao encontrar a árvore em um lugar na África, ele acaba sendo atacado por um grupo de devotos do Reverendo Darkk, um vilão que aparece em segundo plano em todas as histórias da série até então. Deixado para morrer, Len é “fagocitado” pela árvore e retorna à vida como uma espécie de combatente ecológico do planeta! Ele surge como uma “lanterna” para guiar o mundo e salvaguardar a natureza. Desta forma, o “verde” do Lanterna Verde ganha todo um novo significado.

Flash (por Stan Lee e Kevin Maguire)

Filha de um cientista que trabalhava para uma organização criminosa, Mary Maxwell é uma fã de histórias em quadrinhos. Quando a organização chamada S.T.E.A.L.T.H. descobre onde eles moram, seu pai passa a viver fugindo de cidade em cidade, carregando-a a tiracolo. Numa dessas fugas, Mary cai no oceano em meio à uma névoa esverdeada, que a deixa muito doente. Sendo um especialista em DNA, seu pai prepara um soro à base de DNA de beija-flor e resolve aplicar em sua filha para “acelerar seu metabolismo”. Durante um novo ataque à sua casa, ele acaba injetando soro demais na sua própria filha, dando a ela poderes de supervelocidade. O cientista morre logo em seguida e Mary resolve desmantelar a organização para vingar a morte do pai. Com um dos visuais mais bacanas dessas reimaginações, ela se torna a Flash!

Liga da Justica (por Stan Lee e Jerry Ordway)

O vilão Reverendo Dominic Darkk está querendo chamar uma entidade maléfica chamada Crise para Terra. Para tanto ele precisa de um medalhão que está em posse de seu filho, Adam Strange. Para conseguir capturá-lo, Darrk monta sua prórpia “Patrulha do Destino”, formada por três detentos que estavam para ser executados pelos crimes hediondos que cometeram: Parasita, Exterminador e Arrasa-Quarteirão. Ao salvar o garoto, o Lanterna Verde convoca os heróis da Terra para impedir esse desastre e todos eles se unem para formar a Liga da Justiça!

Tô LendoPontos Fortes
  • Volta no tempo. Ler uma história do Stan Lee é como voltar para um tempo em que você ainda não havia nascido. Tudo pode soar meio bobo e inocente, mas acaba sendo tudo muito divertido.
  • Arte. Como só tem desenhista fodão, cada edição é um desbunde de clássicos. Ajuda ainda mais a ambientar as histórias num período bem anterior a telefones celulares e internet.
  • Exercício Criativo. As Elseworlds da DC já trabalharam isso à exaustão, sempre nas mãos de outros artistas. Nó já vimos um Super-Batman, um Super-homem Soviético, um Batman Lanterna Verde, etc. etc. Então tem um certo charme ver como seriam os heróis da DC se eles fossem feitos pela Marvel.
Tô LendoPontos Meh
  • Inconsistente. Enquanto tem algumas histórias muito boas (Flash, Catwoman) tem outras muito fuéns (Superman, Wonder Woman). Mesmo curtindo bastante o estilo do Stan Lee tem que ter um pouco de determinação para terminar de ler tudo.
  • Pela metade. Como eu disse antes, aqui no Brasil só foram publicadas as seis primeiras edições então pra ler o resto só importando ou lendo pela internet mesmo.
  • Datado. Não é um ponto exatamente ruim pra mim, mas pra muita gente os diálogos podem soar terrivelmente antigos e fora de moda, além de alguns pontos das origens, tipo ficar milionário com luta-livre E identidade secreta, ou trabalhar no circo.

Imagina se ela tropeça?

 

Apesar de tudo, é uma pena perder alguém como o Stan Lee. Eu sempre achei que teria a oportunidade de conhecê-lo algum dia num meet & greet qualquer de uma Comic Con em San Diego. É sempre um baque perceber que seus ídolos não duram pra sempre. Mas temos toda uma obra enorme para lembrarmos de como ele foi importante e revolucionário para toda uma geração de leitores!

Por conta disso, Imagine… o Universo DC de Stan Lee vale quatro rebobinadas! 📼📼📼📼

E você? Tem alguma história preferida do vovô Stan? Como você acha que seria a Image Comics de Stan Lee ou a  Dark Horse de Stan Lee?

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2018-11-26T17:48:02+00:00 19 de novembro de 2018|7 Comentários
  • Roberto Hunger Junior

    Está ai algo que na época eu deixei passar e não “lee”… Mas agora até que deu vontade. Acho que o motivo foi por causa de RAVAGE 2099, eu achei o personagem fraco na época, os roteiros deles foram chatos e não me interessei por nada que fosse “atual” do Stan lee mais, contudo hoje eu veria com outros olhos, eu com carinho. Mas a culpa foi do Ravage.

    • Eu totalmente te entendo. Mas me pergunto onde você conseguiu ler Ravage 2099 na época? Pq eu não lembro de muita coisa do personagem ter saído por aqui, não. Ainda assim, acho que segue um pouco mesmo a linha dos personagens da DC “criados” pelo Stan Lee: A premissa é boa, mas a história em si é meio fraca. Sei lá, eu gostava muito dele, mas ele não evoluiu muito o estilo de escrever, convenhamos.

      Ainda assim, acho que o estilo cabe muito melhor aqui no “Just Imagine” do que em algo “futurista” tipo o Universo 2099.

  • Eu concordo com o ponto negativo de “inconsistência”. Tem ideia boa com ideia fraca que dá uma desanimada de ler todo o material. Eu mesmo tive “preguiça” de ler até hoje a liga, por exemplo.

  • Ricardo Varotto

    Boa dica. Vou procurar.

    • Vale sim. É só lembrar que é pra soar meio antiquado mesmo.

      • Ricardo Varotto

        Tudo bem, eu sou um cara antiquado.