Rebobinando #56

Tortura, morte e ressurreição. São temas caros, em especial aos católicos, e reproduzidos constantemente na época da Páscoa, em meio a ovos de chocolate e coelhos fofinhos. É um tema bem recorrente em histórias de super-heróis também, ainda mais se esse super-herói for católico! Isso mesmo, a Rebobinando de hoje vai falar de uma das sagas mais memoráveis do Homem-Sem-Medo: A Queda de Murdock!

Capas de algumas das edições de Superaventuras Marvel com o arco de histórias.

O Demolidor é um dos meus heróis favoritos. Na verdade, arrisco dizer que ele é o meu segundo herói favorito (o primeiro, claro, é o Cabeça-de-Teia). Mas esse amor pelo personagem veio um tanto tardio, no meu caso. A primeira coisa que eu li de fato do herói foi só em 1996, com uma edição encadernada lançada pela Abril Jovem de “O Homem Sem Medo”, pelas mãos dos competentíssimos Frank Miller e John Romita Jr. Era também uma das primeiras coisas do Miller que eu cheguei a ler, juntamente com algumas edições soltas de Sin City.

E vou confessar uma opinião altamente impopular aqui. Eu tenho um pouco de preguiça do Frank Miller. Não me entendam mal, acho que por volta dos anos 80 foi quando ele criou todos os seus melhores trabalhos, e entre eles eu coloco o que considero pérolas da narrativa: O Homem Sem Medo e Batman Ano Um. Não por acaso duas histórias revisionistas de origem. Acho que o cuidado que ele tem em estabelecer os personagens que se tornaram os heróis que conhecemos hoje em dia é muito bacana. Raramente tivemos chance de ver o Batman antes de ser “O” Batman, por exemplo. Pelo menos até aquela época. E isso é uma liberdade que acho que qualquer autor gostaria de ter ao escrever um personagem com quase 80 anos.

A degradação moral, física e psicológica de Matt Murdock nas splash pages de Mazzuccheli.

Eu tenho preguiça mesmo é daquelas histórias de um herói ultra-macho numa cidade de ultra-machos que sozinho tem que ser o mais ultra-macho e derrotar todos enquanto todas as mulheres da história são prostitutas que não cobram o herói ultra-macho porque ele é, bom, ultra-macho. Ah, e eles tomam 56 tiros ao mesmo tempo, mas continuam em pé até derrotar o vilão, e morrem dando o dedo do meio para a sociedade. Mas esse sou só eu. E apesar de AMAR All-star Batman & Robin: The Boy Wonder, justamente pelo clima de paródia, eu curto bem mais o trabalho dele quando é menos caricato. Como por exemplo na série mensal do Demolidor.

Herói e vilão. Figuras emblemáticas de ressurreição e morte.

Renascido

Born Again (nome original de “A Queda de Murdock”) é um arco de histórias publicado nos EUA em 1986, entre as edições #227-231 de Daredevil. Devido ao grande sucesso da história, ela acabou sendo republicada em diversos encadernados, geralmente adicionando mais umas duas ou três edições da série mensal (#226 e #232-233) como prelúdio ou prólogo. Aqui no Brasil a primeira publicação se deu incrivelmente um ano depois, em 1987, entre as edições #61-68 da revista mensal Superaventuras Marvel. Posteriormente o arco foi publicado em diversos encadernados que saíram pela Abril mesmo e pela Panini.

Com a saída da equipe criativa da série mensal do Demolidor em vias de acontecer, o então editor, Ralph Macchio, o Karatê Kid da Marvel, convidou Frank Miller para retornar à Cozinha do Inferno. Frank, por sua vez, usou o prestígio que tinha por ter salvado a revista do cancelamento previamente, para exigir que David Mazzuccheli (lê-se dêividi matsu-quéli) fosse o desenhista da série. Os dois posteriormente trabalhariam juntos novamente no ano seguinte, com Batman: Ano Um para a DC Comics.

Nas horas vagas, o editor da Marvel Ralph Macchio pintava cercas e lutava karatê.

Arte Sacra

Obviamente, eu acabei lendo uma das reimpressões da história nos anos seguintes e isso acabou sendo um pouco depois d’eu ter tido contado com Ano Um. E cara, se eu já tinha achado os desenhos do cara fodas na história do Batman, a arte dele no Demolidor é de outro mundo! As splash pages que ele compôs pra essa história me deixaram de queixo caído, não só pelo detalhamento, mas pelas referências também.

Como eu havia dito antes, muitas das histórias do Demolidor se relacionam diretamente com o catolicismo. Afinal o herói é católico, mas ao mesmo tempo se veste de dêmonio para combater o crime! E mesmo que o tema pascal de morte e ressurreição não seja estranho a personagens de quadrinhos no geral, aqui ele acaba sendo muito mais pertinente. E, novamente, a arte acaba traçando paralelos com algumas imagens sacras conhecidíssimas como a Pietà. Ou mesmo a posição de Cristo crucificado, ou ainda os próprios nomes dos capítulos, como Apocalipse, Purgatório ou Pária, etc…

“Pietà” por dois tialianos. Mazzuccheli e Michelangelo.

A queda

A história consiste em uma vingança exercida pelo Rei do Crime. Como de praxe nas histórias do Frank Miller, tudo começa com uma prostituta. Neste caso em específico é a querida Karen Page! A ex-secretária e ex-namorada de Matt Murdock havia se afastado das histórias depois que resolveu seguir a carreira de atriz. Miller, numa triste reviravolta, fez dela uma vítima do show business que acabou se viciando em heroína. Depois disso a carreira dela caiu numa espiral de dependência que a levou a se tornar atriz de filmes pornôs no México. Uau. Que derrota.

Desesperada por mais uma dose da droga, ela acaba cometendo o maior erro de sua vida e vende a informação da identidade secreta do Demolidor. Ela consegue o que quer e a informação começa a ser vendida até chegar às mãos do maior gângster da Marvel, Wilson Fisk. Numa ação super organizada, Fisk decide primeiro “testar” a informação e, ao longo de seis meses, ele vai erodindo aos poucos a vida de Matt Murdock. Usando de sua influência maligna no mundo dos negócios, ele acaba fazendo com que o dinheiro de Matt fique retido pelo Imposto de Renda, que as prestações de seu apartamento não constem como pagas, que suas contas se acumulem, e que “testemunhem” contra ele dizendo que o viram fazer comprar uma testemunha para vencer um caso. Nisso ele perde sua licença de advogado, seu dinheiro, sua casa e começa a se tornar paranóico.

Karen Page se desespera e Matt tem sonhos mórbidos com o Rei do Crime.

Afastado de todos os seus amigos, e posteriormente descobrindo em se tratar de um plano executado pelo Rei do Crime, ele começa a perder a cabeça e agride ferozmente bandidos e um policial até resolver tomar sua vingança em mãos e partir para cima de Fisk pessoalmente. A batalha não dura muito e, à beira da morte, ele é jogado em um rio dentro de um táxi para ser dado como morto.

Enquanto isso, Fisk decide eliminar todos que tiveram algum contato com a informação de que Matt Murdock é o Demolidor. Karen Page começa a ser perseguida pelos capangas do Rei e resolve buscar ajuda em NY. Numa fuga desesperada, auxiliada por um traficante local, ela consegue chegar até a cidade, mas não consegue achar Matt. Ao mesmo tempo, Ben Urich começa uma investigação para saber o que houve com Matt. Ao saber da história que levou o herói a perder sua licença de advogado, Urich vai atrás do policial que testemunhou contra ele. A investigação é atrapalhada por uma série de capangas infiltrados do Rei do Crime, o que acaba levando à morte do policial e Urich com todos os dedos da mão quebrados como um aviso.

Numa das cenas mais tensas, Ben Urich é intimidado ao ouvir o assassinato de sua testemunha pelo telefone.

Após fugir do táxi naufragado, Matt volta à cidade ferido e acidentado até ser encontrado por uma freira e levado à missão de um convento para se recuperar. Descobrimos finalmente qual a relação da freira que o salvou com uma freira que o visitou em O Homem Sem Medo, logo após o acidente que lhe fez perder a visão. Trata-se de Maggie Murdock, mãe de Matt. Essa história não avança muito aqui, mas fica uma ponta solta para ser resolvida depois. Matt se recupera e decide reclamar sua vida de volta e começa a agir pelas sombras, buscando respostas.

Fisk continua mais e mais paranóico ao saber que Murdock pode ainda estar vivo, já que não encontraram seu corpo no táxi. Ele tenta armar outros planos para fazer com que o herói reapareça. Um envolvendo um paciente psiquiátrico vestido de Demolidor enviado para matar Foggy Nelson e outro envolvendo a contratação do mercenário ultranacionalista Bazuca. Os dois planos dão erradíssimos, e acabam chamando a atenção até do Capitão América e os Vingadores!

Matt vs Demolidor

Após uma batalha que destrói boa parte da Cozinha do Inferno, o Demolidor consegue derrotar Bazuca e levá-lo até Ben Urich que escreve uma matéria revelando o acontecido e expondo Wilson Fisk mais uma vez. Sua fachada de homem de negócios fica manchada, ele perde o respeito da maioria de seus comandados e sua influência se esvai.

Matt Murdock segue então livre para recuperar sua vida de volta.

Tô LendoPontos Fortes
  • Frank Miller. Esse era o ponto onde o cara estava no auge, apesar de usar esse backstory horrível para a Karen Page, acho que podemos dar um voto de confiança porque eram os anos 80 e todo mundo estava viciado em alguma coisa naquela época.
  • David Mazzuccheli. A arte do cara tá incrível. Se você quiser mandar enquadrar qualquer uma daquelas splash pages, vai ficar lindo no seu quarto. Obra de arte.
  • Fácil de Achar. Teve muitas reimpressões desde 1987. A mais recente, se não me engano saiu no ano passado pela Panini.
  • Adaptação. A terceira temporada de Demolidor na Netflix (da-daaam) é uma livre adaptação deste arco de histórias. E mesmo com seus altos e baixos, eu ainda acho essas séries uma das melhores coisas da Marvel ultimamente.
  • Tensão. É uma história tensa como poucas nos quadrinhos. A paranóia de Matt e a perseguição sofrida por Karen e Ben Urich são algumas das coisas mais tensas que eu já li.
Tô LendoPontos Meh
  • Longa leitura. Não que isso seja um ponto ruim exatamente, mas Frank Miller tem a tendência de ser bastante prolixo. Sua escrita se adapta bem para filme e tv, mas às vezes, só às vezes parece que tem informação demais no texto e que metade daquilo já seria o suficiente pra você entender a história.
  • Final em aberto. Não sei quanto as outras reimpressões, mas a que eu achei no momento termina com muita ponta solta e eu tive que catar pelo menos duas edições posteriores pra saber como tudo se resolveu. É uma boa pesquisar quais encadernados possuem as edições #232-233 de Daredevil antes de comprar.

Bazuca cria caos e destruição, e os Vingadores aparecem pra ajudar!

Eu sempre vou recomendar aos leitores novos que busquem o Miller desta fase. Um dos melhores. E se você ainda não assistiu toda a terceira temporada de Demolidor, como eu, é uma boa ideia dar uma lida antes, só pra efeitos de preparação mesmo. São mídias diferentes e tal, mas eu acho super legal ver essa transposição do gibi pra tela.

Acredito que Demolidor: A Queda de Murdock vale umas boas quatro rebobinandos! 📼📼📼📼

E você? Já leu? Vai ler? Qual a sua história preferida do personagem? Comenta aí!

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2018-10-29T16:14:06+00:00 29 de outubro de 2018|4 Comentários
  • Ricardo Varotto

    Ainda tenho essas SAM’s todas guardadas. Uma época fantástica para o Demolidor (na verdade, fantastica para a gente, para ele o bicho estava pegando). Terminei de ver a terceira temporada na Netflix e gostei muito. Acho que acertaram tudo o que não deu certo nas outras séries (Luke Cage, Punhos de Gerro, …).

    • Pois é. Eu reli a saga e agora tô na metade da terceira temporada de DD e tô gostando horrores. Conseguiram adaptar um bocado de detalhes da trama original que me deixaram muito feliz.

      E concordo com relação às outras série PdF e LC eu mal comecei e já desisti de ver. Talvez eu termine se tiver tempo livre depois…

  • Roberto Hunger Junior

    Cara, ainda acho a melhor obra do Miller. Deveria ser leitura obrigatória no ensino médio, pelo MEC .

    • Hahah. Com certeza! Eu ainda gosto muito de O Homem Sem Medo também, que é tipo “Demolidor Ano Um”, né? Mas reler A Queda de Murdock foi muito nostálgico, me pareceu até melhor do que eu lembrava.