Rebobinando #55

“Eu lembro, eu lembro do cinco de novembro. A pólvora, a traição, o ardil. Não vejo porque tentar me esquecer de uma traição tão vil”. Com estas palavras, Alan Moore abre um de seus mais famosos clássicos, sua ode ao pessimismo e o combate ao fascismo e autoritarismo. Hoje a Rebobinando relembra o cinco de novembro e também V de Vingança.

“Foi quando meu pai me disse, Vêêêê, você é a ovelha negra da famílieee!”

Eu sou um leitor tardio desses clássicos dos anos 80. Como já mencionei por aqui, nasci no fim de 1981 e portanto seria bem complicado eu acompanhar histórias que foram publicadas um, ou dois anos depois de eu existir. Se bem me recordo só fui ler Watchmen e V de Vingança por ocasião dos filmes, tive a oportunidade de comprá-los um pouco antes de suas respectivas estreias em uma das inúmeras republicações do material em terras brasileiras. Nesse ponto, já tínhamos passado dos anos 2000 e eu já tinha pra lá de 20 anos, idade o suficiente (creio eu) para aproveitar ao máximo as histórias e suas nuances.

Publicada originalmente no Brasil como uma minissérie em cinco edições, em 1989, pela editora Globo, V de Vingança nasceu de fato em 1982, na Inglaterra em uma publicação chamada Warrior. A revista era um tipo fanzine, no sentido de que nada mais era do que uma coletânea com histórias de diversos artistas. Alan Moore era um dos que tinha pelo menos duas na publicação: Marvelman (que depois viria a ser conhecido como Miracleman) e V de Vingança, em parceria com David Lloyd. Essa revista Warrior era criação de um cara chamado Dez Skinn. Ele havia sido o editor responsável pelo selo e revista Marvel UK, criado em 1972 e que publicava material original de criadores britânicos para a Casa das Ideias. A Warrior tinha a mesma vibe da Marvel UK, porém, sem ligação com a Marvel, obviamente.

Duas das capas da “Warrior” com V de Vingança.

Porém, na Marvel UK, Dez Skinn chegou a trabalhar com David Lloyd em uma história que era um revamp de um herói dos anos 30, Night Raven. Ao convidar Moore para escrever para a nova revista, ele sugeriu que trabalhasse com Lloyd em algo parecido. O Mago Barbudo sacou então uma idéia que ele tinha usado para um concurso anos antes, a de um terrorista chamado The Doll (A Boneca) que enfrentava um regime totalitário nos anos 80 e pensou em adaptar o contexto dos anos 30 de Night Raven para esse mesmo personagem, agora chamado Vendetta (“Vingança” em inglês)! Lloyd, no entanto, disse que não tinha mais saco de procurar referências históricas para desenhar carros alemães de 1928 e que queria algo diferente! Então eles saíram de um passado distante e moveram a ambientação para um futuro próximo e distópico!

Guerreiro Britânico

A publicação original de V de Vingança se deu pelos 26 exemplares da revista até o seu cancelamento, em 1985. Não sendo inicialmente uma das histórias favoritas dos fãs, ela foi ganhando uma sobrevida graças ao estilo da revista de possuir um mix variado de artistas. Cada capítulo continha por volta de sete páginas, todas em preto-e-branco. Até o cancelamento de Warrior, no número #26, a história já havia completado dois dos três tomos que formam a história total. Muito embora os dois capítulos finais do Tomo II (o Capítulo 13: Valores e Capítulo 14: Vinhetas) não tenham sido publicados, mesmo já tendo sido terminados.

A capa do encadernado da Editora Globo, e as duas capas das edições da Via Lettera.

O que aconteceu então foi uma corrida entre várias editoras para terminar de publicar a história. E como Alan Moore adora este tipo de atenção (muahaha) isso acabou não acontecendo por mais ou menos três anos. Em 1988, ele e a DC Comics finalmente chegaram a um acordo e V de Vingança foi re-publicada em uma minissérie em 10 edições, colorida por Steve Whitaker e Siobhan Dodds.

Finalmente no Brasil, como eu disse antes, ela saiu em cinco edições pela Globo em 1989 e, no ano seguinte, num encadernado. Depois em 1998-99, ela saiu em uma mini em duas edições pela Via Lettera. Até finalmente sair num encadernado belíssimo pela Panini em 2006, pouco antes da estreia do filme em terras tupiniquins. Então se você quiser versões diferentes da mesma história, o que não falta em opção!

Pleased to meet you! Hope you guess my name!

Nuances e Detalhes.

Na boa, pra mim essa é uma das melhores histórias do Alan Moore. Eu curto muito o estilo rebuscado do cara, e acho que ele é uma pessoa inteligentíssima, muito embora carrancudo. Talvez os mais inteligentes carreguem esse fardo da carranca porque todo mundo é meio burro perto deles… mas o fato é que eu acho ele um dos maiores criadores de quadrinhos vivo e ponto! Porque ele consegue passar de histórias de super-heróis para sci-fi, para distopias, para tantos outros estilos diferentes que eu nem

E o fato dele ser super inteligente traz consigo algo que eu considero muito mágico nas obras dele, que são as referências! E tipo, não é uma referência tipo, “Tony Stark conhece Gálaga”, sabe? As referências não são meras piadas jogadas, mas elas estão no estilo das obras, no visual, nos livros que os personagens lêem, nas citações que saem de suas bocas. Num resumo, tirado de uma entrevista que saiu com ele na Warrior #17, chamada “Behind the Painted Smile (ou “Por Trás do Sorriso Pintado”, em tradução livre), ele enumera quais as inspirações por trás de V de Vingança:

George Orwell. Aldous Huxley. Thomas Disch. Juiz Dredd. “Repent, Harlequin!” Said the Ticktockman, de Harlan Ellison, Catman, The Prowler in the City at the Edge of the World, também do mesmo autor. Dr. Phibes and Theatre of Blood, de Vincent Price. David Bowie. O Sombra. Night Raven. Batman. Fahrenheit 451. Os textos da New Worlds school of science fiction. A pintura surrealista “Europa Após a Chuva” de Max Ernst. Thomas Pynchon. A atmosfera dos filmes britânicos sobre a Segunda Guerra. O Prisioneiro. Robin Hood. Dick Turpin…

E, sério, se você jogar no google cada uma dessas referências, você encontra algum tipo de paralelo na graphic novel. Se você tiver tempo e paciência (tipo quando você cai no TV Tropes e esquece da vida), dá uma olhada nesse link e divirta-se lendo sobre todas as referências encontradas na obra.

O nome do Tomo I, “Europe after the Reign” é um trocadilho com o nome deste quadro “Europe after the rain”, que Max Ernst pintou após a II Guerra Mundial.

Preto no branco.

Meu primeiro contato com o David Lloyd foi meio estranho. Achei a arte do encadernado um tanto esquisita, me perdoem os fãs. Mas eu tava acostumado com os quadrinhos de ação de super-heróis que tem um estilo claramente distinto. Ao ler o encadernado pela primeira vez eu fiquei com a sensação de que o estilo da arte cabia na história, mas tinha algo meio… fora do lugar. Não sabia se era a impressão, ou as alterações que a edição brasileira precisava fazer para a tradução ou o que era. Até eu pesquisar sobre as origens da história para a coluna.

Veja bem, a revista britânica Warrior era impressa em preto-e-branco! A arte original de V de Vingança foi toda feita com isso em mente! Não querendo desmerecer o trabalho dos coloristas que vieram depois, mas rola uma diferença até de percepção e de clima ao ler sobre os percalços de Evey, Finch e V num mundo fascista sem cores.

“Força através da Pureza, e Pureza através da Fé” é quase um “Inglaterra acima de tudo e Fé acima de todos”!

David Lloyd não trabalhou com escalas de cinza, hachuras, linhas de contorno, ou mesmo onomatopéias na história (eu bolei quando percebi isso, acho que só tem uma onomatopéia, absolutamente necessária, infelizmente)! É tudo preto no branco! E cara, o trabalho dele fica mais foda depois que você percebe isso! Inclusive, a pedido dele, Moore deixou de lado o uso das caixas narrativas, o popular “enquanto isso…” ou “em outro lugar…”. O máximo que você vê na obra são as datas e uma ou outra citação ou diálogo passando por cima de outras cenas.

Minha opinião sobre a arte do cara mudou muito depois de perceber o trabalho que ele teve com a história original. Ainda assim, ele diz preferir a versão colorida, mas mesmo supervisionando o trabalho dos coloristas, eu acredito que o que ele fez originalmente, com os recursos que ele podia usar, são muito superiores ao trabalho atualmente comercializado.

Não que as cores estejam ruins, veja bem… mas muito da arte original acaba se perdendo, infelizmente.

A Vingança

V de Vingança é uma história, bem, de vingança! D’oh! Mas obviamente é bem mais do que isso. Moore trabalhou nela de forma novelizada. Sabe quando você assiste uma novela e você tem a trama principal e núcleos diferentes de personagens que acabam interagindo uma hora ou outra? E que no fim, todas aquelas ações individuais levam seus respectivos personagens aos seus merecidos fins, sejam eles bons ou maus? A estrutura narrativa de V de Vingança é detalhadamente concebida. Os foreshadowings estão nos lugares certos, os flashbacks estão colocados diegeticamente* na história e tudo leva a uma única conclusão possível.

Essa precisão cirúrgica da trama acaba sendo até curiosa se você lembrar que o protagonista, V, é um anarquista! Não à toa o símbolo de V que ele pinta é igualzinho ao símbolo da anarquia, só que de ponta-cabeça.

E o bacana aqui também é a visão política de Moore, que dá uma base firme para que nós criemos uma empatia com V, mesmo jamais vendo o seu rosto. V é  um planejador metódico e um anarquista no sentido mais básico da palavra. Ele não é como o Coringa, uma pessoa que opera no caos. Ele é uma pessoa que acredita que os seres humanos são capazes de se auto-regular e não depender de nenhum governante para lhes dizer o que fazer! O caos que ele cria é metodicamente planejado. Sua vingança é cuidadosamente arquitetada. Ele elimina um a um os seus algozes só para então derrubar o algoz-master, o Líder, o fascista Adam Susan, e consequentemente o Establishment.

Adam Susan, o líder fascista admite que é… errr… fascista! Já é muito mais do que muita gente por aí, né?

É uma história sobre dualidades. Anarquia versus Fascismo. Cada um governa a si próprio versus um único governante autoritário. Preto e branco. Luz e sombra. E os Vs…

Se você leu Watchmen, você percebeu que Moore adora uns temas estilísticos recorrentes. Em V de Vingança isso também é notório, em especial na letra V. Há quem diga que a dualidade da trama está presente até nesta letra pois, se você fizer um “v” com os dedos, você tem o número “dois”. Achei curioso, porém exagero. Mas de curiosidades, a números, aos títulos de cada capítulo da obra você encontra diversos Vs pela trama afora. Alguns mais óbvios, outros nem tanto.

Multimídia: O gibi, a cifra da música, a capa do disco e o disco, com a canção “Este Vil Cabaré”.

Long Play, e etc.

Descobri também, que durante a publicação original na Warrior Alan Moore pediu a seu querido amigo, David J da banda de gothic rock Bauhaus, que musicasse uma canção que ele havia escrito para a história. Pedido feito, pedido atendido e foi lançado posteriormente um LP com a música, juntamente com o capítulo que lhe dá o nome, Este Vil Cabaré, como encarte. O capítulo vem com a cifra da música e se você for bom no teclado, poderá tocá-la sem o menor problema!

Em 2006 foi lançado o filme, pela Warner Bros. Escrito e produzido pelas Irmãs Wachowski, o filme conta com um elenco britânico de peso, com Hugo Weaving no papel de V e Natalie Portman como Evey. No fim das contas, acabei indo ver o filme só depois de ler a graphic novel e apesar de achar que foi bacaninha, algo me incomodou profundamente. Algo que muda fundamentalmente a mensagem original de Alan Moore e que, depois de ler uma entrevista dele sobre o filme, descobri que ele concorda comigo.

Enquanto a o gibi é sobre Anarquia x Fascismo, o filme é sobre Democracia x Fascismo. Sobre isso, Moore foi mais ácido do que eu, obviamente:

“O filme virou uma parábola da Era Bush, pelas mãos de pessoas tímidas demais para fazer uma sátira política sobre seu próprio país… Virou uma distorcida, frustrada e impotente fábula liberal americana falando sobre alguém com valores liberais enfrentando um Estado governado por neo-conservadores – o que não é de modo algum o tema do gibi. V de Vingança era sobre fascismo, era sobre anarquia e era sobre a Inglaterra.”


*eu não acredito que usei “diegeticamente” num texto aqui na Rebobinando, mas taí. Faculdade de Comunicação serviu pra algo, né?

Tô LendoPontos Fortes
  • Putz, tudo. Acho que essa vai ser uma das primeiras rebobinando sem pontos fracos.
  • Alan Moore. É o cara na sua melhor forma. Seja falando sobre governos autoritários ou magia, ele é foda. Mas quando ele é pessimista, ele é mais foda ainda.
  • David Lloyd. Relê a parte que eu falei sobre a arte dele aqui.
Tô LendoPontos Meh
  • Se você não leu, deveria ler. Ainda mais no contexto político que estamos vivendo hoje. Boa sorte.

Boa noite! ISSO a Globo não mostra!

Eu tenho muito para falar sobre V de Vingança. Ainda mais hoje em dia, quando percebemos o quanto estamos dando largas passadas para um caminho tenebroso. Esta é uma história principalmente sobre vingança, claro. Com um governo fascista de pano de fundo. Na história recente do nosso país passamos por um período sombrio, os anos de chumbo, chamamos. Não por acaso, foi mais ou menos na mesma época em que Alan Moore escreveu isto. É um retrato de sua época, e muito embora o Tatcherismo britânico não tenha se comparado aos 21 anos de ditadura militar no Brasil, foi um período difícil para todo mundo.

Não a toa, o que dá início ao plot, na cabeça de Moore era que o partido trabalhista da Inglaterra ganharia de lavada sobre os conservadores. O que faria com que a Inglaterra se desarmasse nuclearmente e passasse razoavelmente incólume pela Terceira Guerra Mundial entre EUA e Rússia que destruiria boa parte do mundo. E o que acabou me chamando a atenção foi na introdução de Moore, republicada em cada edição, dizendo que “seria uma ingenuidade acreditar que seria necessário algo tão dramático quanto uma guerra nuclear para lançar a Inglaterra ao fascismo”.

Hitler, Stalin, Mussolini, Tatcher, Trump, ENTRE OUTROS, NÉ?

E é curioso pensar no mesmo para cá. E porque não, em países vizinhos que não precisaram de muita coisa para instaurar um regime autoritário com um maluco inseguro no poder. Em outra parte da história, aliás, V aparece na televisão em rede nacional e se indaga como líderes autoritários, “malversadores, larápios e lunáticos” chegaram ao poder? E ele ainda pergunta “quem os elegeu?” Ao que a população assiste calada, enquanto os soldados do governo invadem a emissora.

E é isso. A arte é algo para se fazer pensar. Mesmo os quadrinhos, uma mídia conhecidamente escapista, pode trazer a reflexão tão necessária que precisamos em horas difíceis. E se até mesmo o gibi mais pessimista do mundo, escrito pelo autor mais pessimista dos quadrinhos pode terminar com aquela pontinha de esperança nas pessoas, porque não podemos fazer o mesmo?

No fim, Moore em entrevista disse que “não queria ensinar as pessoas a pensar, mas gostaria que elas refletissem sobre o extremismo de alguns eventos recorrentes pela história”. E é esse o desejo que eu deixo pros leitores da Rebobinando desta semana, reflitam sobre a História e sobre esta história, reflitam sobre o que Alan Moore falou e vejam que Ele Não está errado. 😉

Para uma das Obras-Primas de Alan Moore eu dou, sei lá, treze de cinco rebobinadas! 📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼

E você? O que você acha de V de Vingança? Conta aí!

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2018-10-29T16:16:21+00:00 22 de outubro de 2018|2 Comentários
  • Hahahahahahahahahahaahah adoro o número de rebobinadas

    • Wink, wink, nudge, nudge, say no more, say no more. 😉