Rebobinando #54

Nos anos 2000 os EUA passaram por uma de suas mais tensas eleições da história (pelo menos até a chegada de Trump). Numa das melhores jogadas da DC Comics em anos, a editora decidiu levar ao cargo mais alto da política americana um outro homem de negócios com um passado escuso! Sim, deixando para trás George W. Bush e Al Gore, Lex Luthor foi eleito o 43° Presidente dos Estados Unidos da América! E hoje a Rebobinando é sobre ele!

Para acabar com tudo o que está aí, vote Luthor presidente!

Todos sabemos que as histórias saem originalmente nos EUA com pelo menos de um a dois anos de antecedência. Aqui no Brasil, as histórias que tinham Lex Luthor como presidente passaram a ser publicadas em Janeiro de 2002 (não por acaso, ano de eleições presidenciais no Brasil também) nas revistas da terrível Linha Premium da Abril Jovem, a partir de Superman #18. A edição continha um mix de diversas edições americanas como Superman #162-164 e cinco histórias de Superman: Lex 2000 uma edição especial “comemorativa” da eleição do famigerado careca.

Antes de mais nada, um pouquinho de história. Pouca gente lembra, mas essa foi de fato uma das eleições mais tensas dos Estados Unidos na época. Saídos de um escândalo sexual envolvendo Bill Clinton, o Partido Democrata estava meio “queimado” com a população mais conservadora. Em contrapartida, o oponente dele, George W. Bush, não era lá a “lâmpada mais brilhante do lustre”, se é que você entende o meu anglicismo. Como sabemos que o sistema eleitoral americano pode ser meio confuso, basta saber que a diferença entre os dois candidatos era tão pequena que foi preciso fazerem inúmeras recontagens de votos, que acabaram dando a vitória a Bush! Até esse ponto, já estava todo mundo de saco cheio.

Surfando nessa onda de desesperança geral no país diante da poítica, a editora DC Comics decidiu, um ano antes, começar uma campanha nas histórias do Superman. Mal sabiam eles que Bush, considerado um vilão por muitos, acabaria sendo eleito no fim. Mal sabiam eles ainda que um outro supervilão da vida real, também magnata e também com, ahem, “problemas capilares” seria eleito quase da mesma forma dezesseis anos depois. Aparentemente a DC tem algum poder de previsão do futuro assim como os Simpsons.

Uma decisão “super” bem pensada!

A campanha

Algumas das histórias presentes em Superman: Lex 2000 contam em detalhes as razões e as maquinações de Lex para chegar à presidência. Numa das histórias, praticamente sem balões, ficamos sabendo que a eterna inveja que Luthor sente do Superman é um dos maiores fatores que o levam a ingressar na política. Em um dia particularmente ruim, ele é confrontado vez após vez com a imagem do herói atrapalhando sua vida nos detalhes mais toscos. Desde uma paquera até um lanche na rua.

Nos EUA nenhum presidente pode ter uma empresa sob o seu comando enquanto está no comando do país. Logo, Lex precisaria encontrar um novo CEO para comandar a Luthorcorp. Nesta época, Thalia Al’Ghul, havia renegado seu pai e saído da Liga das Sombras. Sabendo quem ela era, Luthor foi atrás de convencê-la para comandar sua empresa. Sob a nova alcunha de Thalia Head (pronuncia-se / heed /), ela acaba aceitando. Em outras conexões com as histórias do Batman, nesta época uma das sagas que estava bombando nas revistas do Homem-Morcego era Terra de Ninguém. Nesta história, após um terremoto que destruiu boa parte de Gotham City, o governo americano cortou ligações da cidade com os Estados Unidos e isolou o território, declarando-o… bom… “terra-de-ninguém”.

Luthor promete o futuro e o amanhã. E carrega o público como ratinhos seguindo uma flauta.

Lex construiu sua campanha em cima da forma como o governo anterior tratou a questão da cidade. Tendo recentemente salvado Metrópolis ao lado de Superman de um ataque de Brainiac 13, Lex teve acesso a um mcguffin chamado Vírus B-13. O vírus implementado pelo vilão fez uma espécie de upgrade na cidade inteira, transformando-a numa versão futurista do século LXIV (séc. 64, gente). Assim sendo, ele prometeu reconstruir e re-incorporar Gotham city da mesma forma que salvou Metrópolis!

Durante a campanha também, houve uma crise com a Atlântida de Aquaman, causada inadvertidamente (??) pelo super-vilão. Num ato totalmente impensado, Arthur Curry e seus soldados invadem Metrópolis e raptam Luthor para ser julgado no fundo do mar. Superman conta com a ajuda da Justiça Jovem para lidar com a invasão atlante e é surpreendido ao chegar em Atlântida, percebendo que Luthor fez um acordo com Aquaman para resolver tudo sem guerra. Posteriormente, ao voltar para casa após um comício esclarecendo o caso, ele sofre um atentado que acaba fazendo sua popularidade subir. QUALQUER SEMELHANÇA COM A REALIDADE É MERA COINCIDÊNCIA.

O atentado! E a subida na popularidade! Hummm… onde já vi isso antes?

Lex se lançou como candidato independente, sem concorrer pelo partido Democrata ou pelo Republicano (o que não é impossível, embora incomum). Desta forma, a DC também não tomava lados, sabiamente. Para ganhar ainda mais o coração dos eleitores, numa jogada incrível ele acaba escolhendo ninguém menos do que o amigo de infância de Clark Kent, ex-Senador pelo estado do Kansas, Pete Ross, para a vice-presidência de sua chapa. Com o General Sam Lane como Secretário de Defesa e Amanda Waller como Secretária de Assuntos Meta-Humanos, estava pronto o caminho de Lex Luthor para a Sala Oval.

A eleição

Em uma série de histórias vemos a reação de diversos personagens à eleição de Luthor. Entre eles, acompanhamos um “Este é a sua vida” do vilão montado por ninguém menos que Cat Grant, sua Secretária de Imprensa. Assim como, claro, a reação de Superman à notícia. Ele foi até os confins do Sistema Solar para destruir alguns asteróides num surto de raiva e indignação! No fim, ele invade a “festa da vitória” no gabinete de campanha de Luthor e, em frente a várias testemunhas ele se vê obrigado a cumprimentá-lo pela vitória!

Essa deve ser a PIOR. SENSAÇÃO. DO MUNDO.

Com a ajuda de vários amigos e como algumas dessas histórias se passaram perto do fim do ano, numa celebração de Natal entre membros da Liga da Justiça, Superman discute sobre temas como eleições, o direito de voto (que nos EUA não é obrigatório), democracia e, claro, esperança. Como símbolo da esperança, Superman se vê obrigado a praticamente questionar sua própria existência numa adaptação de “Os Fantasmas de Scrooge” quando Liri Lee, dos Homens Lineares, surge em seu apartamento. Ela lhe mostra que sua depressão com a eleição de Luthor o levaria a abandonar a Terra e que isto causaria inúmeros desastres no futuro, que levariam o vilão a dominar o mundo!

No fim, a reação do Batman acaba sendo a mais bacana. Ele acaba invadindo o edifício da Luthorcorp na noite em que a notícia da vitória foi dada, e dá um ultimato ao careca. Ou ele fica com a presidência, ou fica com o recém-re-adquirido anel de kriptonita. Luthor cresce para cima do homem-morcego e o força a sair do prédio com as mãos abanando. Batman, claro, não deixa isso barato, mas isso fica para depois.

Batman põe o Presidente contra a parede.

A presidência.

Durante sua permanência na Casa Branca, várias sagas foram publicadas. Entre elas a restauração de Gotham City e sua participação em Bruce Wayne: Fugitivo. Luthor encomendou o assassinato da então namorada de Bruce Wayne, Vesper Fairchild, como forma de retaliação à decisão de Bruce de cortar todos os laços das Empresas Wayne com o governo americano assim que Lex pisou na Sala Oval. Nessa mesma saga ele acidentalmente descobre a identidade secreta do herói e consegue ainda implicar o Batman no assassinato. Posteriormente durante a saga Mundos em Guerra, ele acaba descobrindo que Clark Kent e Superman são a mesma pessoa! E isso o leva à história que traz a sua queda.

Lana Lang conta a Clark que o filho dela com Pete também se chama “Martha” na esperança de serem amigos… não… péra.

A saída da presidência

De posse das mais importantes informações do mundo, as identidades secretas de Batman e Superman, Luthor começa uma campanha de difamação de ambos os heróis. Inicialmente ele consegue culpar o homem-de-aço pela aproximação de um meteorito gigante de kriptonita e oferece um prêmio pela cabeça do herói. Em uma história que foi muito bem adaptada para animação, chamada Superman/Batman: Inimigos Públicos, Luthor perde a cabeça após as inúmeras derrotas em sua tentativa de difamar e derrotar os dois, e acaba usando sua super-armadura junto com uma infusão do super-esteróide venom (do vilão Bane) com kriptonita. No fim, Batman acaba conseguindo que Luthor confesse seus planos diante das câmeras, trazendo então o fim de seu período presidencial.

Tô LendoPontos Fortes
  • Reviravoltas. Pra mim, foi uma das idéias mais corajosas da DC desde a Morte do Superman. Dar este tipo de poder a um dos maiores vilões da editora e um dos vilões mais conhecidos do mundo foi uma grande reviravolta no status quo das histórias do Superman. Antes, o Super poderia capturá-lo e levá-lo à justiça, mas o Presidente-do-fucking-USA é praticamente intocável. E isso foi muito maneiro.
  • Super-vilão. A história foi tão marcante que virou cânone do personagem. Até hoje, em várias mídias, desde os desenhos da Liga até seriados como Smallville, Luthor sempre tem a “sombra” da presidência pairando sobre sua cabeça.
Tô LendoPontos Meh
  • Acesso. É difícil ler todas essas histórias em um volume só, mesmo online. O período da presidência de Luthor durou uns bons três anos, dentro das histórias e na vida real. Então são muitas histórias e várias sagas para acompanhar. Pode ser que no Mercado Livre e afins você consiga achar as coleções de alguém da fase Premium da Abril Jovem, mas vai acabar te custando os olhos da cara.
  • Desenhos. Jezuis, as histórias do Superman tinham uns desenhistas horrorosos nessa fase, hein? Tirando, sei lá, o Ed McGuinnes e algumas histórias de edições especiais com nomes grandes como Art Adams e Joe Madureira (eu curto, sorry), o resto era bem sofrível.

“No tempo certo, ele vai cair!”

Supervilões na presidência, portanto, não é algo incomum. Tanto na arte quanto na vida. Mas se tem uma coisa que me acalmou o coração enquanto eu lia essas histórias para escrever a coluna desta semana, é que independente de tudo, é preciso ter esperança! Mesmo que a chegada de um candidato odioso que representa tudo de ruim na humanidade como Lex Luthor e que sua presença na liderança dos EUA tenha sido uma ameaça ao restante do mundo, devemos ter o próprio Superman como exemplo. E manter a esperança de que dias melhores virão.

Por essas e outras, Lex Luthor: Presidente dos EUA é uma saga que vale cinco rebobinandos! 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2018-10-16T15:40:17+00:00 15 de outubro de 2018|4 Comentários
  • Ricardo Varotto

    Me bateu uma vontade imediata de ler. Valeu…

    • Cara, me deu um pouco de medo enquanto eu lia, por conta do momento atual, mas a história no geral é bem bacana. Na internet você pode procurar por um encadernado chamado “Lex 2000” ou um outro chamado “Superman: President Luthor” que tá mais completo.

  • Roberto Hunger Junior

    É impressionante, todos os sites e blog´s de cultura pop estão desenterrando referências nos quadrinhos, filmes e livros que remetem ao momento atual do país… Quase um grito coletivo! E mesmo assim, com tanta gente se manifestando e tentando alertar a população , bom… Sabemos o que ocorrer em seguida.

    • A gente faz o que pode, né? Continuemos tentando…