Rebobinando #49

Muita gente diz que Guerra Infinita é o mais audacioso crossover da história! Mal sabem essas pessoas que a vida de uma fã de quadrinhos é repleta de eventos tão ou mais audaciosos do que esse a cada duas semanas, praticamente. Nos iniciozinho dos anos 90, a Abril Jovem publicou por aqui uma série de crossovers entre a Marvel e a DC chamado de Grandes Encontros (o que não envolve uma Fátima Bernardes de 15 metros, infelizmente) e hoje a Rebobinando é sobre um deles! Com muito DRAMA! AÇÂO! E MAIS DRAMA COM UM POUQUINHO DE DRAMA EXTRA EM CIMA! Sim, hoje vamos falar de Os Fabulosos X-men & Os Novos Titãs!

O Ego Espiritual da Ravena vs a Força-Fênix!

– Opa, Kadu! Peralá! Os “novos” Titãs? Não é “jovens” Titãs?

Bom, sim. Eles são jovens. Mas também são novos, né? E pô, pega meio mal chamá-los de “os novinhos titãs”. Brincadeira! 😉 É que desde o início de sua publicação no Brasil, por volta de 1986, os Teen Titans foram traduzidos como “Novos Titãs”. Só com a chegada do primeiro desenho animado no Cartoon Network é que a equipe passou a ser conhecida como “Jovens Titãs”. O que pra mim é um nome bem mais apropriado! Recentemente, na DC pós-Renascimento, o nome do gibi finalmente foi alterado para ficar mais de acordo com as outras traduções. Então, se você não conhecia a equipe antes, meu pequeno Teen Nerd, taí uma ótima oportunidade de procurar pelo nome antigo nos sebos da vida. Disponha. 😉

Grandes Encontros

Publicado em Janeiro de 1982 nos EUA (eu tinha acabado de nascer, olha só que curioso) The Uncanny X-men & The New Teen Titans faziam parte de uma série de crossovers planejados entre a Marvel e a DC para serem lançado na época. Outros crossovers envolviam duas edições de Super-Homem & Homem-Aranha e uma edição de Batman & Hulk. Ambas as editoras trouxeram seus peso-pesados para trabalhar em conjunto em prol de um aumento significativo de vendas.

A escolha dos X-men e dos Novos Titãs não foi por mero acaso (embora eu sempre ache que colocar o Batman contra o Hulk foi porque alguém perdeu alguma aposta ou algo assim). Ambos envolviam equipes de heróis que tinham passado por uma reformulação recente que alavancou um pouco mais as vendas, graças aos nomes de Chris Claremont na Marvel e Marv Wolfman na DC. Os dois abusavam do drama novelesco entre seus personagens o que acabou gerando muitas acusações de “plágio” pelos fãs dos mutantes, já que a equipe de adolescentes da DC surgiu muito tempo depois. Os roteiristas, claro, riam e tomavam um chopp no bar da esquina onde todos os funcionários de ambas as editoras se encontravam diariamente.

Muralha da Fonte? Tá mais pra “mulharas de texto”, né Claremont?

Desculpa, é mentira. Mas o fato é que os caras eram mesmo todos amigos, o que de certa facilitou a produção dos crossovers. X-men & Titãs, no entanto, acabou sendo produzido inteiramente pela Marvel, com apenas uma supervisão de leve de Lein Wein, o editor dos Titãs na época. A história ficou por conta de Claremont enquanto os desenhos ficaram a cargo do magnífico Walt Simonson!

Aqui no Brasil a história foi publicada duas vezes pela Abril Jovem! Primeiramente, antes até da primeira edição de Novos Titãs sair por aqui em 1986, o crossover foi publicado em Grandes Heróis Marvel #9, de 1985. Depois, juntamente com os outros crossovers do evento em Grandes Encontros Marvel & DC #2, em 1993. Desnecessário dizer que foi esse que eu li!

As capas de Grandes Heróis Marvel #9 e Grandes Encontros #2.

A história

Tirando do caminho toda aquela enrolação de universos diferentes, até porque esse encontro aconteceu ANTES de Guerras Secretas (1985) e Crise nas Infinitas Terras (1986), a história parte do princípio que os Titãs e os Mutantes vivem no mesmo universo, na mesma Nova Iorque! Parece super esquisito você ver o Ciborgue comentando sobre algum estrago feito por uma batalha dos X-men na cidade como se fosse só por um acaso do destino que eles não tenham trombado uns com os outros. Mas funciona muito bem para uma história como essa em que tanta coisa acontece!

Tudo começa com Metron e Darkseid nos limites do universo encarando a Muralha da Fonte. Segundo os Novos Deuses do lendário Jack Kirby, a Fonte seria quase como a Força de Star Wars. É a origem de todo o universo conhecido e permeia a tudo e a todos igualmente. A tal Muralha da Fonte é um limite praticamente literal do universo. Ela é intransponível e todos aqueles que tentaram atravessá-la para tentar conhecer os segredos do outro lado tiveram fins horríveis! Muitos inclusive ficaram aprisionados na própria Muralha por toda a eternidade!

Um dos “gigantes prometeanos” de Kirby em New Gods #5, aprisionado por tentar atravessar a Muralha da Fonte!

É nesse lugar bucólico que os dois conversam e Darkseid diz ter os meios para ajudar Metron a atravessar tamanho obstáculo em sua insaciável busca por conhecimento. Claro que dá errado e, ao atravessar, Metron abre uma fenda na Muralha. O que faz Darkseid sorrir e bancar o vilão clássico. Aquele que diz algo tipo “tudo corre conforme o plano, muahahaha”. O lance é que ele quer ter acesso direto à Fonte e assim utilizar seu poder para governar o universo, claro. Com a “ajuda” de Metron ele consegue abrir uma brecha, mas para ter um acesso completo ele precisa de uma força maior para quebrar a barreira. Uma força cósmica. A Força-Fênix!

O único porém é que até onde se sabe, a Fênix morreu na Terra, junto com Jean Grey. E é para lá que o vilão manda seus parademônios. Eles invadem a Mansão X e recuperam resquícios psíquicos de Jean e da Fênix da mente dos X-men. Com isso conseguem encontrar pontos na Terra onde a Força agiu e lá montam estruturas que serão capazes de capturar a energia cósmica residual e realizar o que até então parecia impossível: ressuscitar a Fênix Negra! Claro que mal sabíamos nós que no futuro isso seria mais lugar-comum do que ver os pais do Batman morrendo em todo filme.

E com vocês a mais nova dupla sertaneja, Dark Phoenix e Darkseid!

No lado dos Titãs, Ravena acaba tendo um sonho-premonição sobre a existência de uma ave de fogo capaz de destruir o universo. Ao contar sobre o seu sonho para Estelar, ela se recorda de quando estava em uma nave Shi’ar e viu a Fênix Negra dizimar um sistema solar inteiro. Preocupada, ela convoca os Titãs e todos partem para a Mansão X em busca de respostas. Todo mundo sabe que num crossover os heróis tem que brigar entre si antes de resolver os problemas em questão. Sabendo disso, Claremont subverte esse clichê fazendo os Titãs chegarem na Mansão X sem os X-men e tendo que salvar o Professor X de mais um ataque dos parademônios de Darkseid. Enquanto isso, os X-men estão espalhados pelo mundo enfrentando Slade, o Exterminador, tentando impedi-lo de juntar as energias cósmicas da Fênix.

Novamente contra todas as expectativas, todos os heróis falham e são capturados por Slade e Darkseid. A Fênix acaba sendo ressuscitada, porém de maneira imperfeita, já que Colossus conseguiu danificar um dos coletores de energia dos vilões. Essa “falha” permite que os X-men consigam apelar para a “metade-Jean” da Fênix Negra e convencê-la de que está sendo manipulada pelo “Cara-de-pedra”. BAM BUM BABOOM! Tudo acaba, Fênix desaparece, #CiclopeSofre, Darkseid é incorporado à Muralha da Fonte, Titãs e X-men apertam as mãos e…

Metron reaparece, feliz por ter conseguido o que queria, o que quer que seja.

Ninguém esperava esse grande encontro entre os Titãs e os Mutantes!

Sucesso

Não sei aqui no Brasil, mas lá fora o gibi é reverenciado como um dos melhores crossovers já feitos. Quando eu li na época eu não fazia muito ideia de quem eram os X-men dessa época, muito menos os Novos Titãs, então tudo ficou meio perdido para mim. Mas constam em alguns sites hoje em dia que foi neste crossover que Darkseid começou a ser estabelecido como “O” grande vilão da DC comics. Até então ele era basicamente um vilão do gibi dos Novos Deuses e nada mais. O Exterminador começou a ganhar um pouco mais de popularidade depois desse crossover também, talvez porque Marv Wolfman tenha sacado que ele tinha mais potencial e começou a usá-lo mais nas histórias.

Quer dizer, precisou de um time de artistas da Marvel pra dar um “up” em dois dos maiores vilões da DC! #TeamMarvel #ChupaDC

Foi nessa edição também que a Muralha da Fonte apareceu pela primeira vez! Na cabeça do mestre Kirby ela era um lugar inatingível, mas hoje depois de reboots e renascimentos, até o Lex Luthor já chegou lá. Mas foi graças à Walt Simonson que tivemos o primeiro vislumbre real deste marco cósmico do universo DC. Foi também a primeira vez que vemos uma ressurreição da Fênix Negra e, de certa forma, esse impacto ficou meio que canon nos X-men pros anos seguintes. Pelo menos até a Jean Grey voltar de novo. E de novo. E de novo. E de novo…

HEY, TEACHER! LEAVE THE KIDS ALONE!

X-men & Novos Titãs Parte 2

Reza a lenda de que havia planos para fazer uma segunda edição deste Grande Encontro, nos mesmos moldes de Homem-Aranha & Super-Homem, desta vez com Marv Wolfman encabeçando o roteiro e a DC produzindo o gibi. Porém graças a desentendimentos entre as editoras sobre a produção de JLA & Avengers acabaram engavetando ambos os projetos. Uma pena. Com o cancelamento deste projeto em 82, levaria alguns anos até Marvel e DC se entenderem de novo e produzirem novos crossovers.

Tô LendoPontos Fortes
  • O melhor de dois mundos! Foi o melhor time de X-men. Embora sempre haja controvérsias sobre “qual o melhor time de X-men”, não há dúvida que a equipe de Giant-Size X-men #1 é uma das mais amadas pelos fãs. Juntamente com a equipe dos “Novíssimos” Titãs. A equipe de The “New” Teen Titans é tão marcante que é referência para todas as produções recentes da equipe, dos desenhos animados à nova série do serviço de streaming DC Universe.
  • Roteiro. Uma baita história. Acontece coisa pra burro em apenas 60-e-poucas páginas, mas Claremont consegue ser incrivelmente sucinto em algumas partes o que já é impressionante por si só.
  • Arte. Não é segredo que eu curto muito a arte do Walt Simonson. E é sempre um “plus a mais” ter uma arte boa ilustrando uma história bacana. Ele não é desses desenhistas que enchem tudo com muitos detalhes, mas tem uma noção de ação muito boa e faz umas splash pages bem fodonas.
Tô LendoPontos Meh
  • Republicação. Não tem. Não se acha. Nem lá, nem aqui. Só online. No Brasil dá pra achar no “sebo virtual” que é o Mercado Livre as duas edições da Abril (GHM #9 e GEMDC #2) por valores diversos, mas nada absurdo. Mas como o lance de direitos autorais das duas editoras deve ser um mar revolto cheio de monstros, acho seguro dizer que não veremos um encadernado com essas histórias tão cedo.

Muito antes de Vingadores vs X-men, Ciclope já havia usado a Força-Fênix para derrotar Darkseid, quem diria?

Se você ainda tem guardado, leia e guarde de novo. Eu não tenho. Por alguma razão as únicas Grandes Encontros que eu guardei foram as do Aranha e Super-Homem. Razão essa chamada “Homem-Aranha”, claro.

Lembro até hoje que eu achei super esquisito ler em 1993 histórias com os heróis que pareciam ser tão antigas até descobrir por causa desta coluna que elas eram realmente antigas, cerca de dez anos! Até agora, no momento em que escrevo este parágrafo, eu estou completamente bolado com o fato de que eu li pela primeira vez aos 11 anos uma história que havia sido escrita no mês seguinte ao que eu nasci. Isso só prova que sempre há uma Rebobinando para cada um de nós, não é?

Metron deixando uma ponta solta para a continuação que nunca veio!

Quando eu era mais novo eu tinha que catar isso em gibis mais antigos, sebos e outras revistas sempre olhando aquelas caixinhas de texto com um asterisco dizendo que “tal história havia sido publicada na edição tal e coisa”. Agora é mais fácil, mas espero que pelo menos a Rebobinando esteja servindo de guia pra você velho nerd relembrar seus clássicos e pra você novo nerd conhecer as histórias publicadas antes de você nascer.

De qualquer maneira, Grandes Encontros Marvel & DC #2 – Os Fabulosos X-men & Os Novos Titãs vale tranquilamente cinco rebobinadas! 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2018-09-11T11:38:20+00:00 10 de setembro de 2018|13 Comentários
  • Jean Carlos

    Opa Kadu, esse eu tenho a colecao completa, o meu favorito e Batman vs Hulk, adorava esses Crossover quando via https://uploads.disquscdn.com/images/ed00fb2e5201d96e5bd0c3f90d8699bc0611819085ff0a1455d3230c631eb2de.jpg na banca ja comprava logo. Vale sim 5 rebobinadas.

  • Roberto Hunger Junior

    Serei obrigado a mostrar sua coluna para amigos só por causa disto: “Quer dizer, precisou de um time de artistas da Marvel pra dar um “up” em dois dos maiores vilões da DC! #TeamMarvel #ChupaDC”. kkkk. E também por que foi uma ótima lembrança, a arte desta revista envelheceu bem demais. Eu tive ela também. Há muito, muito tempo atrás.

    • Hahahahaha. Pode mostrar, mas acho que vou ter sonhos-premonitórios sobre tretas em breve!

      E sim, Walt Simonson é bem foda, me arrependo de não ter dado a devida atenção a ele na época.

  • Boa lembrança Kadu! Essa é uma das poucas coisas que guardei de formatinho, muita coisa foi pra doação.

    • Guarde com o seu coração! Tive que ir no read comics online pra ler de novo.

  • Ricardo Varotto

    Apesar de minha coleção estar guardada em caixas na casa de meus pais, normalmente só de olhar a capa eu já me lembro imediatamente da revista. Por algum motivo, não estou 100% de ter essa, mas como eu tenho as Grandes Heróis Marvel da época desde o número 1 até pelo menos o final dos anos 80, e você diz que se trata do número 9, acredito que essa esteja por lá. Tenho de arrumar um lugar para essas revistas poderem sair das caixas…

    • Pois é, eu fiquei surpreso que ela saiu na Grandes Heróis Marvel ainda mais em se tratando de um crossover com heróis da DC. Mas a capa existe e o Guia dos Quadrinhos me confirmou, hehehe. Com certeza você deve ter lá. 😉

  • Ricardo Varotto

    Comentário completamente off topic, mas eu fiquei chocado e vou fazer aqui mesmo. Acabei de ver uma foto recente do Frank Miller e fiquei pasmo de como o cara está envelhecido. Ele tem 61 anos, mas está aparentando ter uns vinte a mais do que isso.

  • Alan Antunes

    Nossa! Li essa revista na época do desenho dos X-Men. E como curti. Tinhaum enredo redondo, que com o desenho euconhecia a Fênix. E os personagens da DC já eram parcialmente conhecidos dos superamigos : ) outras mídias também ajudavam a ler HQ.