Rebobinando #44 | Changeman

Início/Destaques, Leia!, Rebobinando/Rebobinando #44 | Changeman

Do finalzinho dos anos 80 ao início dos 90, eles foram os heróis de muita gente nos fins de tarde. Um horário que depois foi ocupado por vários programas de receita e que disputava seriamente com a Sessão Aventura na Globo. A “onda japonesa” que invadiu as tardes da criançada começou com um grupo de heróis bem colorido, “vem cá aqui e senta aí” que hoje a Rebobinando é sobre Changeman!

Pra começar, abre um passatempo e dá um play nesse vídeo aqui. De nada.

Eu já vinha querendo falar deles há um tempo, mas eu sempre me enrolava e acabava falando de outra coisa. Depois que o Caruso, o Studart e o Ulisses falaram sobre os tokusatsus nos Três Elementos, eu percebi que essa era uma chance que não dava pra deixar passar. E aqui estou eu.

Changeman foi um dos meus programas favoritos na TV quando pequeno. Sendo uma criança que estudava de manhã, dificilmente eu conseguia assistir aos desenhos do Xou da Xuxa. Claro, He-Man e Thundercats eu amava e assistia muito durante as férias, mas ainda assim qualquer coisa que passasse à tarde era muito mais negócio pra mim. Portanto numa escolha entre Globo vs SBT (e Manchete), os dois últimos levavam só porque me davam o que eu queria num horário que me facilitava.

Changeman foi o primeiro tokusatsu que eu tive contato e lembro até hoje do primeiro episódio que eu peguei passando na TV, por acidente. Era um em que o Hayate, o Change Gryphon, estava separado dos outros e fugia por uma ponte tipo Indiana Jones no meio de uma floresta. Fiquei curioso de ver aquele carinha de olho puxado e roupa maneira, todo de preto, correndo de algo. Aí apareceram vários soldados Hidler (Riddler?) e eles começaram a lutar.

“Vamos Change!” “Ok!” “Changeman!” *solo de guitarra irado*

Pronto. Fui fisgado.

Daí pra diante foi mais luta, os outros apareceram, o Hayate penteou o cabelo (ele era o mais irado), transformação, Gyoday, Robô Gigante e fim. Cara. IMAGINA A MAGIA que foi prum guri de seis anos ver uma parada dessas na televisão. No dia seguinte eu só conseguia falar sobre isso no colégio e, enquanto alguns já conheciam, outros colegas não. De qualquer maneira, não deu muito tempo e tava todo mundo vendo.

Jaspion e Changeman surgiram juntos, mas logo em seguida vieram Flashman, Spielvan, Black Kamen Rider e outros tantos que é difícil até de manter a conta. Em meados dos anos 90 a febre mudou das séries pros animes (eu falo A-NÍ-ME, dá licença), e a Globo entrou com o tokusatsu made in USA e de repente eu perdi o interesse. Mas essa fase da minha vida ainda tem um lugar especial no coração.

Oh, yes! Colorir é lutar até cair!

Os tokusatsu

Vamos chover no molhado porque vai que tem alguém que não sabe? “Tokusatsu” significa “série de efeitos especiais” em japonês e engloba tudo que é seriado de super heróis feito na Terra do Sol Nascente. Dentro disso existem várias categorias que classificam os próprios heróis como os Metal Heroes (como Jaspion, Metalder, Spielvan, etc), os Kamen Riders, e os Super Sentais (ou “Super Esquadrões”, em japonês).

Obviamente, Changeman era um dos Super Sentais e eu tenho a impressão de que é uma daquelas coisas que mais fazem sucesso no Brasil do que no país de origem, tipo Caverna do Dragão. Tendo em vista que a equipe é apenas mais uma de uma tonelada de outras séries produzidas anualmente no Japão.

Alguns dos produtos de Changeman lançados no Brasil: O LP com músicas do seriado, o gibi Heróis da TV e Change Kids.

Só mais recentemente eu fui descobrir (ou entender) qual foi o processo de trazer este tipo de seriado pra cá, com a história da Everest Video e o sucesso entre os “alugadores de fita” do século passado e o posterior licenciamento para a Rede Manchete. Acho que foi uma visão de mercado espetacular comparável à de Haim Saban alguns anos depois e a transformação dos Sentais nos Power Rangers.

Uma pena que a TV brasileira não tinha o hábito (ou a grana) para adaptar algo do tipo pro nosso público.

Dengeki Sentai Changeman

O Esquadrão Relâmpago Changeman foi a nona série de Super Sentai a ser exibida no Japão. Durando apenas uma temporada de 55 episódios, o seriado foi exibido lá entre 1985 e 1986, sendo seguido por Flashman. Aqui no Brasil a Manchete começou a exibir a série em 1988 e só terminou pra lá de 1994. Até aí acho que até o seriado já tinha mudado de emissora, sendo exibido na CNT/Gazeta. Ou seja, ninguém mais se importava.

A série contava a história de uma equipe militar da Terra (ou do Japão, nunca saquei bem até que ponto isso era estabelecido) que lutava contra um Império Intergaláctico Gozma. Liderado pelo Senhor Bazoo, o Império já havia conquistado inúmeros planetas e estava de olho na Terra.

Os vilões Buba, Shima e Rainha Ahames.

Durante uma sessão de treinamento especialmente árdua, os integrantes da força militar terrestre são atacados pelos soldados Hidler (que só hoje eu descobri que na verdade deveriam ser “Soldados Hydra”, mas dada a pronúncia esquisita do japonês, virou / HY-DO-RA / que acabaram traduzindo aqui ao pé da letra e ficou do jeito que conhecemos). Praticamente derrotados, os cinco e heróis são salvos pelo próprio planeta Terra, que os escolheu para serem seus defensores. Banhados pela Força Terrena, eles ganharam os poderes de animais mitológicos para combater as forças do mal!

Eles deveriam se chamar Soldados Thriller? Hein? Hein?

Os defensores da Terra

Tsurugi Hiryu – Change Dragon, líder da equipe. Bravo e destemido, ex-oficial da força aérea.

Shou Hayate – Change Gryphon, ex-guarda florestal. Metido a galã, sempre com um pente de cabelo à mão e meio mulherengo.

Yuma Ozora – Change Pegasus, era do Exército e funcionava como o alívio cômico da equipe. Desafinado pra caramba.

Sayaka Nagisa – Change Mermaid, cientista e estrategista da equipe. Era a “musa” de 11 entre 10 moleques espinhentos só porque durante as lutas dava pra ver a calcinha dela por baixo da minissaia.

Mai Tsubasa – Change Phoenix, a espiã motoqueira e porradeira da equipe. Não levava desaforo pra casa e botava medo em todo mundo.

Ozora, Tsuruji e Hayate (em pé); Mai e Sayaka (embaixo).

Com uma galeria de vilões bem marcante, as histórias tinham uma certa seriedade acima do comum. Quer dizer, pra quem estava acostumado com aquela coisa de bem contra o mal e lições de moral dos desenhos americanos. Muitos dos capangas na verdade eram pessoas chantageadas pelo Senhor Bazoo para trabalharem pra ele. E alguns dos monstros, mesmo sendo umas fantasias engraçadas, às vezes se inspiravam em uns elementos do terror japonês que assustavam muito.

Lembro especificamente de morrer de medo do fantasma do Comandante Giluke, e de um monstro que raptava as mães de Tóquio e as transformavam em monstros de cabelos compridos tipo a Samara de “O Chamado”. Além disso, o episódio onde mostraram que o Gyoday era um monstro solitário pq era o último de sua espécie e o episódio onde o Buba morre foram especialmente marcantes.

A poética morte do pirata espacial Buba!

Tô LendoPontos Fortes
  • Mudança de Paradigma. Como falei antes, diferente dos desenhos americanos, Changeman se levava especialmente a sério e era um programa repleto de tons de cinza. Algo que eu acho super válido para crianças assistirem. Coisa que muitos desenhos atuais fazem, mas que antigamente deixavam muito a desejar, a cultura japonesa desde sempre não trata o público infantil como idiota e isso é muito bacana.
  • O plot se sustenta. Sem brincadeira. Ok que alguns dos episódios são bem bobocas mesmo, tipo aquele em que o Ozora é péssimo no karaokê pq ele é desafinadíssimo e derrota o monstro cantando, porquê claro que o monstro não suporta o som da voz dele. Ou então que o monstro era um galo rockeiro mulherengo (???) mas que quando os óculos escuros dele se quebram as mulheres deixam de ficar hipnotizadas porque ele é muito feio (???). Mas o plot geral da batalha contra o Império Gozma é bem tenso e os episódios finais são eletrizantes, cheios de reviravoltas.
  • Coreografia de Luta. Muito antes da chegada dos filmes chineses por aqui (pelo menos da nova onda), muito antes de Matrix, de Kill Bill e afins as coreografias de luta impressionaram a molecada. O suficiente para reconhecer referências estilísticas nos filmes citados anos depois.
  • A música. Sério, vai lá e escuta o mestre Kageyama Hironobu de novo! Te desafio a não curtir a guitarrinha sinistra arrebentando na introdução!
Tô LendoPontos Meh
  • Super datado. Apesar do plot ainda ser maneiro, claro, o programa está super datado. Moda, estilo, efeitos especiais, etc. Então muito cuidado ao mostrar pros pequenos pós-século XXI pode ser que eles não curtam só pela “cara de velho”.
  • Episódios Filler. Tem muita encheção de linguiça, na boa. Tipo os episódios bobocas que eu mencionei antes, sabe? Mas ainda assim acho tudo muito divertido.
  • Estilo diferente. O jeito japonês de contar histórias é beeem diferente do jeito americano. O fato de eu consumir essa cultura através de animes, tokusatsus e mangás me deixou mais “amaciado” para curtir sem maiores problemas. Minha esposa, por exemplo, até hoje tem uma certa birra até com os filmes do Estúdio Ghibli por não gostar do estilo. Então se você é desses, pode ser um ponto fraco curtir um tokusatsu raiz desses. Me dói, mas pode ser melhor curtir um tokusatsu nutella tipo Power Rangers e tal.

O maneiro é que, mesmo sendo histórias independentes, podemos interpretar cada super sentai existente como uma “nova temporada” da mesma série com personagens diferentes, sabe? Se for assim, essa é uma das séries de maior duração da história (só perdendo pra Doctor Who, talvez?). Em 2011, o 35º super sentai foi ao ar, Gokaiger e esse foi o responsável por reunir todos os outros super sentais numa mega batalha para derrotar as forças do mal. Dá pra achar a luta no youtube e eu vou confessar que escorreu uma lagriminha.

Gokaiger e a super reunião de 35 super sentais!

O fato é que deixou saudades e eu sei que com certeza esse seriado tem um lugarzinho especial no seu coração. Changeman vale cinco rebobinadas!

Oh, yes! Colorir é lutar até cair!

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2018-12-06T01:42:46+00:00 6 de agosto de 2018|7 Comentários
  • Greicy Duarte

    Esse seriado tem um lugarzinho no meu coração sim, Kadu! Changeman foi e sempre será o meu tokusatsu preferido e para mim vale mais que 5 rebobinadas.

    • Eu também me amarrava. Mais do que Jaspion, até. Acho que o único páreo duro, pra mim, é Flashman.

  • Adriano de Oliveira Ferreira

    Porra Caruso, descobri hoje, de onde vem a musicas dos COMENTÁRIO E RECADINHOS / ESTÁTICAS do podcast MELHORES DO MUNDO.

    • Hahahaha. Que bom! Se vc não conhecia de onde era música, sugiro ver o seriado tb. São 55 episódios do melhor da TV japonesa.

  • Jean Carlos

    Cara eu lembro que eu chegava correndo da escola pra assistir, apesar de Jaspion ser o meu favorito eu curtia muito Changeman,vale sim 5 rebobinadas Kadu!!!!

    • Era muito bom, né? Pena que não teve muito brinquedo na época, eu teria adorado.

  • Changeman foi o primeiro que curti. Apesar de ver Jaspion na mesma época, a coisa do grupo, de cada um controlar um robô diferente, me conquistou mais que Lion Man e outros que lutavam sozinho. Mas puta nostalgia essas coisas.

    Já deixo aqui a dica do episódio dos Podcrastinadores sobre o tema com o Eduardo Miranda que fizemos há dois anos: http://podcrastinadores.com.br/podcrastinadores-s04e06-tokusatsu-no-brasil/