Rebobinando #42 | She-Ra

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Hoje em dia vivemos uma verdadeira era dos reboots. Não passa uma semana sem que algum desenho dos anos 80 ou 90 seja rebootado por algum canal americano ou um serviço de streaming. E é quase certo que se você não se sente indignado com um reboot em particular, provavelmente você não curtia tanto o desenho assim. Porque mais dia menos dia, vão achar o desenho que você realmente gosta e vão rebootá-lo e você VAI SE INDIGNAR! Essa semana não foi diferente, então pega sua espada do poder, sua indignação e sua infância imaculada e vamos rebobinar She-Ra, a Princesa do Poder!

Vamos lá. Ouve isso aqui e se acalma enquanto lê. 😉

Vamos lá. Tirando o elefante branco da sala, não achei a ideia do reboot de She-Ra pela Netflix ruim. Curti o novo character design e acho que é um sinal dos tempos mesmo. Antigamente quase todos os desenhos tinham a mesma cara e se você acha que hoje em dia todo mundo parece o Steven Universo, só lamento. Sempre foi assim. ¯\_(ツ)_/¯

Ventania e She-Ra

Mas voltando ao desenho original, sempre gostei muito dele. Não era exatamente fã, mas eu tinha uma irmã mais velha que o curtia muito mais que eu, claro. A gente brincava muito juntos e num natal eu ganhei o Castelo de Grayskull de brinquedo e ela o Castelo de Cristal. Ela tinha alguns bonequinhos da She-Ra (a própria heroína, o Arqueiro, a Cintilante e o Corujito) e eu tinha um bocado de bonecos do He-Man e às vezes brincávamos juntos. Ou eu pegava os brinquedos dela pra fazer o meu próprio especial de natal, ou ela pegava o He-Man e o Adam pra tomar chá com as Barbies.

Então, os personagens sempre fizeram parte da nossa infância. E a gente tentava assistir aos episódios no Xou da Xuxa sempre que possível, já que estudávamos de manhã. Em geral assistíamos quase as mesmas coisas porque tinha só uma TV na casa mesmo e era pra dividir. E se fosse para puxar pela memória, o desenho era IRADO!

PELA HONRA DE GRAYSKULL!

Infelizmente, os óculos cor-de-rosa da nostalgia sempre faz a gente achar que “no nosso tempo era melhor”. Assim como quando eu reassisti He-Man recentemente e fiquei decepcionado com a qualidade da animação e dos roteiros, She-Ra não fica muito atrás não. Para tirar a prova dos nove, você pode até correr pra Netflix agora e assistir os 61 episódios disponíveis da primeira temporada e voltar aqui pra comentar.

– Ah, tio Kadu. Mas você não pode comparar um desenho de trinta anos atrás com um desenho de hoje em dia. Assim tudo vai parecer meio ruim mesmo, afinal era coisa de criança!

Sim, meu querido, minha querida. Mas não é só porque é coisa de criança que tem que ser ruim. Na mesma época, havia vários outros desenhos de qualidade melhor, seja em animação, seja em roteiro. Transformers e Galaxy Rangers, por exemplo. E sendo de uma empresa de animação do porte da Filmation, eles poderiam investir mais do que um “dá pro gasto”, sabe? Eu sei que os planos do desenho animado eram pra ser apenas uma “propaganda de 20 minutos” para as linhas de brinquedo, mas pôxa, mesmo que ambas as séries tenham durado apenas duas temporadas, He-Man teve 130 episódios e She-Ra 91. Podia rolar um desenvolvimento melhor ali além de “histórias fechadas que podem ser reprisadas ad infinitum fora de ordem sem problemas”.

Vassourito, Madame Riso, Rainha Mágica, Arqueiro, She-Ra, Cintilante, Gélida, Rainha Angela e Spritina.

A personagem

She-Ra surgiu como um contraponto ao He-Man. Assim como diversas heroínas ao longo da história (Batgirl, Supergirl, Mulher-Aranha, Miss Marvel, etc.), a origem dela está diretamente ligada ao herói masculino. Um documentário bacana também disponível na Netflix (ba-booong), é o Brinquedos que Marcaram Época. Nele, um dos episódios sobre Os Mestres do Universo, alguns dos criadores da linha de brinquedos especulam o que causou a queda de lucros na venda dos brinquedos lá por volta de 1987, e um deles diz que foi por culpa da She-Ra.

Acontece que em 1985, a Mattel resolveu fazer um spin-off dos Mestres do Universo. Como o desenho era voltado para o público masculino, eles pensaram que poderiam fazer o mesmo com o público feminino. E assim, numa colaboração com a empresa de animação Filmation, criaram o desenho para então lançar uma nova linha de bonecos voltado para as meninas. O que acontece é que, os caras que eram responsáveis pela linha de brinquedos dos meninos tinham uma teoria de que a criação de She-Ra permitiu que “as irmãzinhas” dos meninos que curtiam brincar de He-Man também pudessem clamar que “tinham a força”! E que isso “emasculava” o herói e de repente nada daquilo era mais “cool”.

Por Grayskull She-Ra! Me apresenta pro He-Man?

O desenho

Nada poderia estar mais longe da verdade, aliás. O maneiro do desenho da She-Ra era que, como contraponto direto do desenho do He-Man, havia muitas personagens mulheres! E todo mundo que gosta de um desenho para “garotos” sente essa falta de representatividade mesmo. Star Wars durante muito tempo só teve a Leia. Os Comandos em Ação tinham duas ou três personagens femininas em meio a um exército de rapazes. E He-Man tinha a Feiticeira, Tee-La e Maligna contra toda uma infinidade de bonecos masculinos. Em She-Ra, havia um único personagem masculino recorrente, o Arqueiro e alguns outros secundários e vilões. Proporcionalmente ainda havia mais homens, claro, mas já era um avanço!

Assim sendo, She-Ra foi praticamente um desenho precursor do empoderamento feminino que vivemos no século XXI! Quase que literalmente já que agora as “irmãzinhas” também podiam clamar “I HAVE THE POWER”!

Os vilões Hordak e a Mão Invisível do Mercado… ops, quero dizer, a Mão Gigante do Senhor da Horda!

He-Man & os Mestres do Universo foi um conceito criado diretamente pela Mattel como uma linha de brinquedos e, numa jogada de sorte, eles conseguiram posteriormente que a Filmation produzisse o desenho para servir de “propaganda”. Já com She-Ra, a Mattel jogou a bola no colo da produtora de animação. Eles praticamente disseram “queremos um He-Man mulher, dá teu jeito”! Ou seja, como plot e desenvolvimento de personagens, o spin-off é bem melhor que o original. O conceito básico da série e os personagens principais foram criados por ninguém menos que J. Michael Straczynski e Larry DiTillio. E se você não conhece o primeiro nome, deveria. Ele é responsável por uma das fases mais maneiras do Aranha pré-One More Day, além de séries renomadas como Babylon 5 e dos desenhos clássicos The Real Ghostbusters e Jayce and the Wheeled Warriors.

A música também não fica atrás. Como você pôde conferir no início da coluna, ela é mais animada e mais pop que as do desenho-irmão, com sintetizadores e uma bateria maneira. E foi criada pelos dois caras responsáveis pela invasão dos tokusatsus japoneses nos EUA nos anos 90: Haim Saban e Shuky Levy. MIND. BLOWN.

Tô LendoPontos Fortes
  • Empoderamento Feminino. Numa época em que a gente nem sabia disso. Ok, os uniformes pareciam sexies, as personagens sempre ficavam paradas numa pose de modelo, mas ainda assim todas elas tinham agência. Mesmo as vilãs comandadas por Hordak. Cada uma tinha uma personalidade diferente e todas eram líderes de alguma forma em seus reinos e na rebelião.
  • Vilões melhores. Hordak era um vilão bem mais eficiente do que o Esqueleto, dentro do universo de “vilão sempre perde” do desenho. Enquanto o vilão de He-Man era mais bobão em certos aspectos, Hordak era mais esperto e mais ameaçador. Ainda assim ele era só um “gerente” perante o Senhor da Horda.
  • Plot. Pelo menos o conceito inicial, que deu origem ao filme “O Segredo da Espada” é bem bacana. A princesa Adora é irmã gêmea de Adam e foi raptada quando bebê pelo vilão Hordak e criada como Capitã da Horda em um outro planeta. Anos depois, a Feiticeira descobre onde ela está e manda o irmão He-Man em busca dela. Tem drama o suficiente aí para criar inúmeras histórias e isso é bem bacana.
  • Geninho. Falem o que quiser. Eu adorava procurar o Geninho nos episódios. Se vocês não o encontravam o problema é seu.
Tô LendoPontos Meh
  • A animação. Mesmo pra época, a animação da Filmation é super parada. Não chega a ser tipo os desenhos da Marvel dos anos 70, mas é bem fraca. Considerando a competição que veio depois com Thundercats e afins, a animação está bem datada.
  • Roteiro. Então, os roteiros dos episódios são bem fraquinhos mesmo. É aquela coisa, não podia mostrar “violência”, mas tinha que mostrar uma luta do bem contra o mal. E ainda tinha uma lição de moral no fim de cada episódio. Só que às vezes, a lição de moral não tinha nada a ver com o episódio em si e ainda falavam de umas situações meio tensas, como abuso infantil (o que é necessário, convenhamos, mas ainda assim foi super abrupto).

Então, o desenho não era de todo ruim, vamos concordar. Mas também não era uma super obra prima da animação ocidental. Tinha lá seus tropeços e suas resoluções meio mal ajambradas, mas divertia. O que era sua função (depois de vender brinquedos, claro). E é isso que devemos ter em mente quando pensamos em reboots e reinterpretações novas de desenhos antigos. Se ele for divertido, qual o problema?

Meu desenho de coração sempre foi as Tartarugas Ninja e elas já sofreram inúmeros reboots ao longo dos anos. Alguns muito ruins, como o filme produzido por Michael Bay; e outros muito bons, como o desenho de 2003 (que eu não acompanhei, mas me disseram que era bem legal). E tudo bem, ok você não curtir uma adaptação de algo que foi importante pra você na sua infância, mas vamos parar pra pensar que esse novo desenho pode ser importante pra sua filha, pro seu filho, seus sobrinhos, primos pequenos, etc.

Olá, amiguinhos! Conseguiram me encontrar no post de hoje? Não usem drogas, tcha-au!

O foco é a garotada que vai acompanhar. E comprar os brinquedos, claro. Vamos deixar a molecada curtir, sem agredir os criadores no twitter!

Eu revi alguns episódios do desenho durante o fim de semana e cheguei a conclusão de que She-Ra, a Princesa do Poder merece três rebobinadas! 📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2018-12-06T01:43:21+00:00 23 de julho de 2018|21 Comentários
  • Eu vi o crossover entre Sheha e Heman no cinema. Foi tipo Infinity War pra mim. 😆

    • O crossover mais audacioso da história do cinema.

      • Bruno Messias

        Eu não consegui assistir na época. Só fui ver depois de adulto, quando consegui alugar o DVD na locadora (muito constrangido, confesso).

        • Vou dizer que não lembro de ter ido no cinema ver. Mas lembrava vagamente de algum de ter visto na TV em algum momento (mas pode ser só a confusão por ter visto o especial de Natal).

          Mas cheguei a ver de novo agora, pra coluna, meio que fazendo outras coisas e tirando uma ou outra parte do plot, era bem tosquinho mesmo…

    • Ricardo Varotto

      O desafio do dia é você assistir isso novamente e sair com a mesma opinião.

      • Hahaha Eu não. Falta tempo e falta vontade de me decepcionar, prefiro ficar com a lembrança

        • Ricardo Varotto

          Boa resposta. Passou no teste.

  • Adriano de Oliveira Ferreira

    acho da hora esse esquema de texto com video.

    • Opa. Você diz os vídeos queu coloquei no post como “trilha sonora”? Valeu! Fiz isso em algumas das outras colunas da Rebobinando (em geral sobre os desenhos animados). Dá uma olhada depois e me diz se curtiu também! Abraços! 😉

  • Greicy Duarte

    She-Ra era um dos meus desenhos preferidos, espero não me decepcionar com essa novidade da Netflix.

    • Olha, se for minimamente bom como o reboot de Voltron (que, como a nova She-Ra, também é uma parceria da Netflix e da DreamWorks), garanto que você não vai se decepcionar. 😉

      Vamos dar um voto de confiança.

      • Greicy Duarte

        Vou dar um voto de confiança então. Obrigada, Kadu!

  • Mais uma excelente coluna, Kadu! Não sou a She-Ra, mas sou uma das pessoas que ADORA ler você? Ha ha entendeu? ADORA.
    Ai, ai. Sabe o que é doido? Ver hoje em dia essa imagem do desenho com um elencão, um pézinho na representatividade – e, ainda assim, nenhum personagem negro! Bem doido isso, né? Acho bom achar essa imagem estranha hoje em dia, sinal de que os tempos finalmente estão mudando! Imagina como não devia ser para uma criança naquela época não se sentir representada em NENHUM personagem?? Abs

    • Putz, é verdade! Eu acho que lá pra segunda temporada teve uma personagem negra, a Netossa, mas ela nem era tão recorrente também. Pelo menos novo desenho já podemos ver que o Arqueiro é negro. https://uploads.disquscdn.com/images/7f059190164d8044151570be0db456d3b890112bde7892b375de3b0b3f60564a.jpg

      • Bruno Messias

        O arqueiro, na minha memória, era malandrão, um cara meio cafajeste… Mas olhando de novo o visual original, acho que eu estava enganado.
        Era maneiro o lance da Horda já ter dominado o planeta. Era bem Star Wars nesse aspecto, até os soldados lembravam stormtroopers.
        Tinha uma vilã que virava uma pantera, não tinha? Eu achava ela bem gata… (Com perdão do trocadilho).

        • Hahaha. O Arqueiro era bem certinho, mas além de ser bom em arco e flecha ele era bom com truqes de mágica também. Acho que você pode dizer que ele era meio “malandro” sim, mas no sentido de fazer truques com os outros (sempre pro bem, claro).

  • CARACA, ACHEI O GENINHO! ELE REALMENTE ESTAVA ESCONDIDO NO POST DE HOJE!!!!
    Que genial!!!

    • HAHAHAHAHA. Eu achei que estava super óbvio!

  • Ricardo Varotto

    Cara, ninguém mais do que eu defende que cada um pode gostar do que quiser e ninguém tem nada a ver com isso. Mas essa fúria fanboy (e fangirl, para ficar no clima da postagem), na minha visão, costuma ir vai muito além do limite do razoável (onde quer que esteja isso). Recentemente, por conta da grita com a nova versão dos Thundercats, escutei gente falar que eles estavam fazendo com a gataiada o mesmo que fizeram com os Jovens Titãs, com Teen Titans Go! no Cartoon. Na boa, uma pessoa que acha que essa novidade do Cartoon estragou os Titãs deve viver em algum tipo de realidade alternativa. Cara, são coisas completamente diferentes, para públicos completamente diferentes e, ainda assim, é OK gostar das duas coisas. Eu acho o Teen Titans Go! divertidíssimo e vejo sempre que posso. Achar que a existência de um abala a do outro é como sair protestando que Spaceballs, do Mel Brooks, estragou a franquia Star Wars. Sei lá, pode parecer uma ideia maluca, mas acho que as pessoas podiam passar mais tempo se divertindo com o que gostam do que espalhando rancor.

    P.S.: e isso porque nem resolvi entrar na questão dos, como você disse muito acertadamente, óculos cor-de-rosa da nostalgia, que fazem as pessoas defenderem avidamente algo com argumentos supostamente técnicos ou frios, em vez de assumirem abertamente que só acham aquilo tão maravilhoso por conta de argumentos sentimentais. O que é completamente válido, mas é muito mais legal quando as pessoas admitem isso para si próprias.

    • Pois é. Não posso negar que eu já fui que nem essa galera no passado, como eu comentei no texto, minha maior birra sempre foi com as Tartarugas Ninja.

      Mas o meu “wake up call” foi mesmo com o One More Day do Homem-Aranha. Um amigo me mostrou que não valia a pena se estressar com isso pq o público muda e as histórias mudam e a gente deve mudar tb. Achei válido e carrego essa “filosofia” comigo desde então.

      • Ricardo Varotto

        Infelizmente, não tenho visto muita gente com essa mentalidade mais evoluída por aí. Parabéns.