Rebobinando #40

Semana passada o mundo dos quadrinhos ficou em polvorosa com o casamento de um certo morcego e uma certa gata. Sem mencionar o casamento de uma dupla de mutantes muito conhecida e shippada por muitos marvetes desde tempos imemoriais… Mas convenhamos, nenhum deles chega aos pés do casamento que importa! Pois esses dois estão juntos para sempre (no meu coração)! Seja na alegria ou na tristeza. No rapto ou no simbionte. Nos clones ou no pacto com o demo. Hoje a Rebobinando fala de Homem-Aranha #100 com o Casamento do Homem-Aranha!

Já contei essa história aqui. Eu comecei a ler os gibis do Aranha através de A Teia do Aranha. E durante algum tempo foi o único gibi que eu comprava mês a mês porque eu achava que por ser conter “republicações de histórias antigas do herói”, isso me impediria de compreender as histórias mais recentes publicadas em O Homem-Aranha. Coisas de um moleque de 10 anos. A minha primeira edição do Aranha de fato acabou sendo a edição #109. Portanto, para todos os efeitos eu meio que já o conheci casado.

Verme Mental e Sal Buscema. Sério, o Aranha tem OS PIORES vilões.

Ao contrário do que as equipes de marketing de todas as mídias que envolvem o herói (desenhos, brinquedos, filmes e, bom, HQs) o fato dele ser casado não interferiu naquela identificação mágica que todo fã do Aranha tem. Se isso, o casamento trouxe um objetivo a almejar para um pobre nerdinho como eu, ainda sem namorada naquela época: encontrar alguém tão legal para mim como o Peter encontrou a MJ. E durante anos foi assim, os dois tinham uma relação bacana, apesar da vida dele como Aranha. E eu achava interessante esse ponto da vida dele, onde existia alguém “normal” com quem ele pudesse dividir o segredo de sua vida dupla, ao contrário daquela ladainha de sempre do Super-homem e Lois Lane, Batman e quem quer que fosse sua namorada na época. Eu mal entendia de roteiro e histórias, mas já curtia o “avanço” nas histórias que o casamento trouxe.

Mais ou menos na mesma época rolava, em A Teia do Aranha, a primeira saga do clone. Então pude comparar o tipo de relacionamento que o Peter tinha com Gwen e MJ. Lembro bem do que determinou que Peter soubesse que ele não era um clone, ao final da história, foi que ele tinha os sentimentos divididos entre Gwen e MJ, além de todos seus outros amigos. Como o clone foi feito a partir de uma amostra anterior ao seu namoro com Mary Jane, se ele fosse realmente o clone, ele somente se preocuparia com Gwen.

Lembro que isso fez super sentido na época, tá? Me deixa.

Eu adorava essas piadas entre os dois… *chuif*

O gibi

Deixando a falta de entendimento de genética dos roteiristas de lado, voltemos à edição. Lançada nos EUA em 1987, The Amazing Spider-man Annual #21 trazia apenas a história “giant size” do casamento. Por aqui saiu em O Homem-Aranha #100, pela editora Abril Jovem em 1991. A edição brasileira contava ainda com mais uma história publicada, intitulada “Lua-de-Mel” que, bom, mostrava a lua-de-mel dos pombinhos na riviera francesa e mostrava um dos vilões clássicos do Aranha, o Puma, fazendo uma espécie de “entrevista de emprego” com o herói.

Caraca, o Puma. O que será que aconteceu com ele?

A capa da edição americana de Spectacular Spider-Man Annual #7 com a história da Lua-de-Mel. E Peter dizendo umas verdades para o Puma.

A história

A história nem conta com muita ação, não. Tirando o início que mostra Peter enfrentando Electro e seus comparsas num roubo a uma joalheria, o resto da edição toda mostra ele e MJ tendo muitas dúvidas com relação ao casamento. Tipo, muitas dúvidas mesmo! Parece até que os roteiristas estavam querendo fazer um plot twist onde os dois não se casavam no final, mas ainda bem que essa ideia estúpida e barata não foi pra frente.

Enquanto Peter tinha dúvidas sobre casar-se obviamente por conta de sua vida como Homem-Aranha e os perigos que enfrentava, MJ temia um pouco pela “vida de festas” que ela estava acostumada a levar. Tirando o fato de que ela era uma supermodelo em ascensão e ele um zé-ninguém, não havia um amigo sequer de MJ que apoiasse a ideia do casamento! Uau! Que belos amigos, hein MJ?

Isso sem contar em algo que pra mim sempre soou como uma piada de editoras. Durante a edição inteira, Mary Jane é assediada por um “amigo milionário” que ela conheceu em Los Angeles, chamado Bruce. Pois o cara tenta dissuadí-la várias vezes de casar-se, dando presentes como uma Ferrari, mandando telegramas, ou propondo que eles fugissem para a riviera francesa juntos. Pois o tal Bruce aparece apenas uma vez, dirigindo uma Ferrari e encostando em frente ao seu apartamento pouco antes da cerimônia e podemos apenas ver de relance o seu rosto, escondido em meio às sombras do carro. Com certeza esse Bruce mora em uma cidade cujo nome começa com “G” e termina com “otham”. Mas ela está decidida e obriga o milionário à leva-la até a porta da igreja.

Peter, por sua vez, fica com ciúmes porque vê o tal Bruce chegando em sua noiva algumas vezes. E também porque ele sente que vai obrigar MJ a viver “na miséria” com ele porque ele não tem condições de manter o estilo de vida ao que ela está acostumada. Dá vontade de chegar pra ele em certo ponto e mandar um “Cara, é quase século XXI, ela pode trabalhar e ser rica e você pode fazer o que quiser da vida, mesmo sendo o Homem-Aranha, se liga”! Em meio a isso tudo ele tem pesadelos com os vilões que fazem parte de sua vida e teme pela segurança da MJ e por seu futuro juntos. Só através de um discurso de Flash Thompson e Harry Osborn durante uma pobre despedida de solteiro que Peter toma uma decisão.

O “misterioso” Bruce.

No fim é engraçado pois os dois chegam juntos, porém atrasados, para o próprio casamento. Os próprios convidados estavam achando super estranho e duvidando que um ou o outro viesse casar de fato!

Na segunda história, Thomas Fireheart, o Puma, aparece durante a lua-de-mel de Peter e MJ em busca de quitar sua dívida de honra com o Homem-Aranha. Ele propõe um emprego de “operativo especial” ao herói e dá a ele uma missão de recuperar um “ovo fabergé” que havia sido roubado de um “amigo”. Peter aceita o trabalho e vai como Homem-Aranha buscar o objeto, encontrando ninjas, espiões e um robô no caminho. Pego de surpresa, ele acaba estragando o objeto sem querer e descobrindo que era apenas um teste. Furioso por ter sido enganado, ele vai ao encontro de Fireheart num restaurante e manda ele tomar lá naquele lugar onde não bate sol, arrancando suspiros de sua recém-esposa e de suas amigas supermodelos.

Peter tem pesadelos, mas ele nem imagina que o pior pesadelo de todos é ser escrito pelo Joe Quesada.

Tô LendoPontos Fortes
  • A quebra de status quo. Isso foi uma das mudanças mais longas na vida do personagem. Tirando o casamento de Sue Storm e Reed Richards, não me recordo de nenhum outro casamento que tenha durado tanto tempo assim e se mantido tão interessante nos quadrinhos. A vida do Homem-Aranha ganhou toda uma dinâmica diferente que funcionou muito bem durante anos. Mary Jane além de confidente e psicóloga, era uma ótima sidekick e partia pra porrada quando necessário, sem precisar ser uma dama indefesa para sempre.
  • A história. Apesar das eternas dúvidas, a história flui bem rápido. Ainda mais se você é fã do herói. Tem umas piadas maneiras aqui e ali, e dão um jeito de todos os coadjuvantes de destaque da época aparecerem e darem seus “dois centavos” no casamento.
Tô LendoPontos Meh
  • Por incrível que pareça, a arte! Desenhada por Paul Ryan a edição é meio qualquer coisa. O cara é um baita desenhista, segundo uma rápida pesquisa no Google. Sério, procura pela arte do cara que é muito boa mesmo! Mas enfim, a arte não é ruim, sabe? Mas dado os artistas disponíveis na época, é de se perguntar porque não foi pras mãos de um John Romita Pai, por exemplo. Ainda mais que a edição é de 87 e ele começou carreira na Marvel em 85! Não dá pra entender porque deram uma história tão importante para alguém tão novo na editora.
  • Joe Quesada. É, amigo. Pacto com o demo e One More Day. Taí um plot twist no casamento que eu não engulo até hoje.

Por fim, é uma história bacana. Teve suas repercussões na época e durou tempo o suficiente para sua falta ser sentida até hoje, pouco mais de dez anos depois. Não é um tema novo, claro, mas depois dela vários heróis já se casaram em edições especiais e depois de vários reboots e guerras secretas, eu nunca sei o que está valendo mesmo ou não. Porém Clark e Lois ainda estão aí. Scott e Jean foram, voltaram e foram de novo. Ollie e Dinah não sei em que pé estão. Estrela Polar também não sei… enfim. O ponto é que heróis casam e descasam na mesma proporção que estrelas de Hollywood.

Veredicto

O Casamento do Homem-Aranha como história vale três rebobinadas. 📼📼📼

Mas no meu coração de fã é cinco rebobinadas! 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2018-07-09T15:19:45+00:00 9 de julho de 2018|16 Comentários
  • Caramba, não lembrava dessa história de Bruce morcegando a MJ! Foi um belo casamento. Como dizem, o que Deus uniu não separe o Homem, apenas Mefisto.

    • Hahaha. Eu sempre achei que fosse uma piada de editores mesmo. Seria mais na cara se ao invés da Ferrari vermelha ele dirigisse, sei lá, um Lamborghini preto ou algo assim.

  • Jean Carlos

    Esse vale varias rebobinadas eu tenho ele na coleçao da Teia do Aranha ele foi publicado nela tambem, muito bom Kadu.

    • Ah, sim. É verdade. Eu acabei esquecendo de mencionar. Se não me engano também foi na edição 100 de A Teia do Aranha que a história foi republicada. Depois dela a Abril parou de republicar histórias antigas e passou a publicar as coisas mais recentes do Aranha.

      • Jean Carlos

        Foi no numero 74 Kadu.

  • Jean Carlos
    • Hahah, vc começou beeeem antes de mim! Infelizmente, tirando algumas edições soltas, minha coleção do Aranha já se foi há bastante tempo. *chuif*

      • Jean Carlos

        Eu só tenho a Teia mais pretendo um dia compra a coleção do Homem Aranha.

  • Nayguel Andrys

    Eu tenho um carinho muito grande por essa história! Inclusive, igual a você, quando li, fiquei também esperando encontrar alguém tão legal quanto a Mary Jane! E acho legal como a história faz a gente viajar no que poderia acontecer com a nossa vida! Valeu por relembrar essa história sensacional! Já vou tirar aqui do meu armário e reler tudo de novo!

    • Também fiquei esperando encontrar alguém tão ruiva quando a MJ. hehehe

      • Hahahahaha. Não precisava necessariamente ser ruiva. 😂

  • TRÊS REBOB….??? AH BOM, CINCO

  • Ricardo Varotto

    Essa foi mais uma história publicada depois que eu já tinha meio que me aposentado dos quadrinhos. Mas me lembro do movimento.

    P.S.: “Teve suas repercussões na época e durou tempo o suficiente para sua falta ser sentida até hoje, pouco mais de dez anos depois”. Não teria sido quase trinta anos depois, já que é de 1991?