Rebobinando #39

Quando você para pra pensar no que consiste o famoso “jeitinho brasileiro”, ele é mais uma propensão à gambiarra do que “só” um jeito de “furar fila” como muitos gostam de dizer por aí. Como no Brasil a gente sofria (ou sofre) de uma extrema falta de recursos, claro que um herói com o super poder da gambiarra faria muito sucesso por aqui. Por essas e outras muita gente lembra com um certo carinho de MacGyver e sua Profissão: Perigo até hoje! Pega o seu canivete suíço, seu rolo de silver tape e vem com a Rebobinando pra lembrar desse clássico da Sessão da Tarde!

Antes de mais nada, como é de praxe, vou deixar isso aqui e você pode escutar enquanto lê. De nada.

“Tom Sawyer” da banda Rush, era conhecida por muitos como o “tema de abertura do Magáiver”. O que na verdade era só um “magaiverismo” da própria Rede Globo que cortava todas as aberturas (que em geral duravam quase dois minutos) para caber na grade de programação. Daí passavam só uns 10 segundos da abertura original com o riff de alguma música de uma banda famosa (tipo, o TADAM TADAAAM do Rush) pra chamar a atenção de quem estava em outro cômodo da casa. Durante décadas essa música, para mim, ficou associada ao personagem. Lembro que eu só fui saber qual era a abertura original da série anos depois quando ela passou no Universal Channel.

Assim, longe de mim dizer que a música da série é melhor que a música do Rush, mas é que eu acho que ela tem mais a ver com a série mesmo, sabe? E pô, ela tem uma pinta de “tema de abertura” inegável. Algo que se perdeu imensamente com o novo tema de abertura do reboot de 2016.

NO MEU TEMPO ATÉ AS NUVENS ERAM MELHORES!

E é até bom eu entrar nisso aqui logo, já que vão me chamar de velho, e que eu digo nenhum reboot presta, e que eu também só digo que “bom mesmo é na minha época”, e tecnicamente vocês estão certos.

Hah. Brincadeira.

Em geral curto reboots e até acho que uma modernizada em histórias antigas não fazem mal a ninguém. Claro que a gente atualmente passa por uma época quase que obscenamente abusiva em reboots, e sempre vai ter um ou outro que não presta mesmo (*cof cof cof* Transformers *cof cof cof*), mas eu já admito que não gostei do novo MacGyver mesmo.

*ufa* Que bom que eu tirei isso do peito!

Os Anos 80

Profissão: Perigo era uma daquelas séries popularmente conhecida como os “enlatados americanos” que em geral a Globo transmitia em sua programação antes de ser esse powerhouse de séries próprias. Com o advento da tv a cabo e da internet, hoje em dia eu nem acho ruim esse investimento em cultura própria que a emissora tem. Acho que podemos produzir coisas bem legais para nós mesmos assistirmos e, bom, as outras coisas a gente ainda pode curtir em outros canais.

Como boa criança de apartamento que sou, eu acompanhava um bocado desses enlatados no domingo de manhã. Juntamente com séries como Dama de Ouro, Na Mira do Tira, Disneylândia (que era uma faixa bem cedinho só com desenhos da Disney), Anjos da Lei e, porque não, Barrados no Baile, MacGyver fazia o meu horário de antes do almoço. Aparentemente a série estreou às segundas, às 21:30 em janeiro de 1986 (valeu wikipedia), mas como eu tinha uns quatro anos, obviamente eu perdi isso tudo. Só lá pra 1988-89 que eu fui realmente prestar a devida atenção nela e aí já estava pra lá da quarta ou quinta temporada.

A “linha MacGyver” consistia em estampar a cara do personagem em qualquer carrinho de plástico vagabundo.

E nisso o seriado já era um baita sucesso! Tinha brinquedo, bonequinho articulado e essas coisas fazendo referência ao personagem. Junto com os brinquedos do Esquadrão Classe A, Trovão Azul e Supermáquina eu fui uma criança muito feliz nessa época. Até porque a Glasslite fez o favor de manter a escala dos bonecos e eles tinha todos o mesmo tamanho dos Comandos em Ação, então como um bom nerd que achava ruim brincar com bonecos de tamanhos diferentes, eu curti bastante mesmo!

A série.

Lançada em setembro 1985, MacGyver foi um grande sucesso não só aqui, como no mundo todo. Ela chegou a durar 7 temporadas, sendo encerrada em 1991, com uma “meia temporada” de 13 episódios. Aparentemente todos estavam já meio cansados da série e queriam tomar novos rumos. O único outro rumo que o Richard Dean Anderson tomou, pelo que eu me lembro foi em Stargate, que também angariou muitos fãs, mas essa série eu não vi mesmo. A série ainda gerou outros dois filmes para a TV em 1994 que também saíram no Brasil em algum momento.

O interessante da série, como todo mundo se lembra, era a capacidade inventiva do personagem principal de resolver problemas utilizando itens básicos que ele encontrava na hora. Popularmente apelidado de “fazer uma bomba com chiclete e clipe de papel”. Ele chega até a fazer uma brincadeira com isso no episódio-piloto, onde uma moça pergunta se ele é capaz de fazer uma bomba com um pedaço de chiclete e ele pergunta: “Porquê? Você tem um?”.

Reza a lenda que para as primeiras temporadas da série, haviam consultores científicos que ajudariam a justificar de alguma forma as escapadas e as gambiarras de MacGyver. Afinal de contas, com o background do personagem de ser um cientista formado em física e química (embora nunca exatamente especificado quais tipos) e antigo escoteiro e antigo desarmador de bombas na guerra do Vietnã e poliglota, entre vários outros atributos, provavelmente era preciso um time de especialistas para dar um MacGyver só. Mas fala sério, né? É por isso que a gente assiste séries, oras! Se for pra ver um herói fazendo uma gambiarra e morrendo eu vou ver o filme do MacGruber!

Tsc. Vamos ver? Será que eu posso transformar esse avião caído num chiclete e cair fora daqui?

Durante o restante das sete temporadas parece que o uso dos tais especialistas foi ficando cada vez mais esporádico, ou até mesmo deixado de lado já que as gambiarras foram ficando cada vez mais absurdas. Muito embora ele tenha usado barras de chocolate para conter um vazamento de ácido sulfúrico logo no episódio-piloto. A produção inclusive chegou a oferecer prêmios em dinheiro para fãs que enviassem boas idéias que pudessem ser usadas no programa. Uma delas foi utilizada em um episódio em que o MacGyver remendava o radiador de um carro quebrando um ovo dentro dele. Haha.

O personagem inclusive ainda tinha um certo quê de pacifista-humanista. Muito embora ele soubesse usar armas, ele em geral se recusava a usá-las por conta de um trauma de infância. E durante a série aos poucos fomos apresentados à como ele foi se moldando no homem que era então. Encontrando antigos amigos e professores/mentores que o ajudaram a ter a mente aguçada e essa capacidade incrível de resolução de problemas. Muitos diriam que o MacGyver original era um SJW, e com certeza isso seria verdade. Inclusive, para ganhar o papel, Richard Dean Anderson foi o único ator que não trouxe uma “macheza” típica dos anos 80 para o teste de elenco. O resto é história.

Haja gambiarra!

Tô LendoPontos Fortes
  • O próprio MacGyver. Ele era um personagem fora da curva na época. Com os brucutus dos anos 80 já permeando a década, Angus MacGyver era sensivel, esperto, ruim de luta, mas muito astuto. E se recusava a usar armas quando possível. Era quase um Doctor Who.
  • Longevidade e disponibilidade. A série durou bastante tempo e fez sucesso o suficiente para ter boxes de DVD a rodo por aí. Então se você quiser reviver o seriado em toda a sua glória, tá fácil.
  • Dublagem. O grande Garcia Júnior, dublador do He-Man e Arnold Schwarznegger, emprestava a sua voz ao herói-título da série. E ficou tão marcado pra mim que eu não consigo visualizar outra voz no mesmo ator.
  • As gambiarras. Por mais impossíveis que fossem, elas eram a maior atração do programa mesmo. Na sério original eles sempre davam um jeito do herói não estar desacompanhado para que ele pudesse explicar o que estivesse fazendo passo-a-passo. Dizem que mesmo quando ele bolava algo que era perigoso demais para as pessoas quererem copiar na vida real, como uma bomba, a produção deixava a explicação mais vaga ou esqueciam um ingrediente vital propositalmente.
Tô LendoPontos Meh
  • É um produto de época. Não cheguei a assistir a série inteira de novo, mais por medo de ser pior do que eu lembrava do que por qualquer outro motivo. Recentemente revi o episódio-piloto e até achei que se sustenta bem. Só que pesquisando para a Rebobinando pude perceber que há um consenso dela ficar cada vez mais absurda com o passar do tempo. Alguém mais novo pode acabar preferindo o reboot mesmo, então vão com calma ao mostrar para as crianças e tal.
  • O reboot. Esse é o meu momento “velho grita com nuvem” de novo, mas eu achei esse reboot meio piegas. Primeiro por conta da música-tema, segundo porque não rolou uma adaptação, de verdade. Parece que só tiraram o setting dos anos 80 e jogaram uma super-hacker no meio e pronto. Sem contar as gambiarras com legendas à la “Sherlock da BBC”. Afe.

Um último ponto é uma curiosidade sobre o termo “MacGyverism” que virou um termo em inglês que significa justamente isso que você está pensando: ser capaz de fazer gambiarras. Mas o mais legal é que o termo foi cunhado pela própria série lá pela segunda temporada quando uma personagem se refere ao que o Macgyver faz como “magáiverismo”, dando a entender que ele estava ficando famoso pelas gambiarras dele! Aliás o termo acabou sendo adicionado ao dicionário Oxford em 2015, dado o uso dele até hoje por causa do programa!

Eu gostava bastante da série, muito embora minhas lembranças infantis sejam mais sobre o personagem do que pelas histórias mesmo. Recentemente participei de um episódio dos Podcrastinadores sobre Sessão Aventura, junto com o Caruso e o Tibério e, entre outras séries, falamos bastante sobre MacGyver. Se ainda não ouviu, clica aqui e ouve lá.

Veredicto

Pelo iniciozinho, acho que a série se sustenta razoavelmente bem. E o personagem-título está em nossos corações até hoje então mesmo que fique um pouco pior até o final, acho que Profissão: Perigo vale pelo menos três rebobinadas. 📼📼📼

Mas se rolar um magaiverismo, podemos jogar para quatro rebobinadas! 📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2018-07-02T07:46:42+00:00 2 de julho de 2018|16 Comentários
  • Ricardo Varotto
  • Ricardo Varotto

    E o melhor brinquedo do MacGyver mesmo é esse aqui: 😀

  • Ricardo Varotto
    • HAHAHAHA. Tinha que vir com um aviso “chiclete não incluído”.

      • Ricardo Varotto

        Mas aí também… a criança tem de fazer algum esforço.

  • Bruno Messias

    Eu assistia direto com meu pai – que é o maior gambiarreiro que eu conheço! Não tinha um fio lá em casa que não fosse remendado com fita isolante.

    Eu lembrei de uma coisa aqui… O nosso herói Angus MacGyver tinha um arqui-inimigo! O nome dele eu tive que pesquisar, que a memória não é assim tão boa: era o Murdoc! Ele aparecia de vez em quando, e capturava o MacGyver em alguma armadilha maluca – da qual ele sempre se livrava, claro.

    • Cara tinha umas situações meio ACME nessas escapadas, né não? Lembro de uma que ele tava amarrado com uma bomba de dinamite e um relógio contando e ele consegue jogar um frasco de ácido pra cima e o troço cai bem nas cordas que estavam prendendo as mãos dele… Quase um desenho animado, hahah.

      • Bruno Messias

        Dava pra fazer um crossover maneiro com o seriado do Batman.

  • Strider_Tag

    Curiosidade : o “Murdoc”, inimigo recorrente do MacGyver, era interpretado pelo Michael Des Barres, que era o vocalista da banda “The Power Station”. Ele inclusive faz uma ponta com a banda num episodio de “Miami Vice”.

    OFF TOPIC : A banda “The Power Station” contava, de inicio com Robert Palmer (vocal), Tony Thompson (bateria) — e ex-integrante do Chic –, John Taylor (baixo) e Andy Taylor (guitarra) — ambos ex-integrantes do Duran Duran … sendo que depois o John voltou ao DD.
    O Robert Palmer “largou” a banda quando começou uma carreira solo e o Michael Des Barres assumiu o vocal.

    • Ricardo Varotto

      Na verdade, Robert Palmer já tinha uma carreira solo bem consolidada antes. O lance da Power Station era exatamente ser um “super grupo” com Robert Palmer e integrantes do Duran Duran e Chic.