Rebobinando #37

Tem coisas que a gente viu e que parece que só a gente lembra. Tem outras que a gente acha que lembra, mas na verdade nem lembra tão bem assim. E tem aquelas outras que todo mundo lembra, um pedaço aqui, outro acolá. E é nesse clima que a Rebobinando traz hoje um dos clássicos modernos, o filme que alavancou o CGI ao patamar que conhecemos hoje. Pelas mãos do mestre Steven Spielberg, a coluna de hoje é sobre Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros!

Minha lembrança mais remota desse filme é de aproximadamente um ano antes do filme em questão sair. Uma nota na extinta revista Set falava algo sobre Steven Spielberg ressuscitar os dinossauros no ano seguinte e a promessa de um sucesso de bilheteria! Não tenho a menor vergonha de dizer que meu eu de 10 anos ficou louco com a notícia e contando os meses para a estreia do filme! Minha relação com Jurassic Park foi provavelmente a mesma de muita gente nesta época, e eu acabei trocando as Tartarugas Ninja pelos dinossauros, assim como havia trocado anteriormente He-Man & os Mestres do Universo pelos quelônios mutantes do ninjutsu.

Meu amor pelo filme me levou a implorar para os meus pais comprarem o livro no qual ele havia se baseado. Sendo a criança mimada queu era, eles me deram algumas semanas depois e eu cheguei até a levar advertência da professora por estar lendo o livro embaixo da carteira ao invés de prestar atenção na aula de ciências. Uma reação completamente normal de uma criança nerd, claro. Para provar que não fui só eu, ainda podemos falar sobre a onda de dinossauros que varreu o planeta nessa época, culminando em coisas espetaculares como o seriado da Família Dinossauro (sério, era maravilhoso, vocês deveriam rever) e outras espetacularmente banais como o álbum do chocolate Surpresa (que eu completei, amém).

Clássicos da infância. A capa do livro que eu tinha. A capa de uma edição da Set sobre JP. E o famoso álbum do chocolate Surpresa.

O Making Of.

– Pô, Kadu. Parque dos Dinossauros? Sério? Todo mundo lembra desse filme! Pra quê falar dele?!

Pois então. Como professor de inglês eu dei aula para muitos grupos de crianças e adolescentes. E se você parar para pensar, quem nasceu em 2000 está chegando à maioridade somente este ano, 2018. Sendo assim, muitos deles não chegaram a ver as pérolas de nossa época. Lembro em específico de uma aluna que tinha curtido e muito Jurassic World e comentou comigo que não havia visto os primeiros filmes porque eles eram “meio velhos” e ela tinha medo de não serem muito bons! Recomendando que ela esquecesse o terceiro (como todos nós escolhemos fazer), disse que o primeiro era de fato o melhor de todos e que ela poderia ver sem medo nenhum, porque ele se segura! E muito bem, por sinal!

Jurassic Park foi um dos primeiros filmes que eu vi o making of. Isso porque ele foi tão inovador que foi preciso um documentário para registrar o passo-a-passo desse avanço tecnológico. Lembro de tê-lo assistido primeiro alugando a fita de vídeo na locadora (#atestadodevelho) e depois de novo quando o filme estreou no canal Telecine (#segundaviadoatestadodevelho).  Este aqui que eu encontrei no Youtube não parece ser o mesmo que eu vi, mas é bem parecido e bem completo. Esse doc é o grande responsável por eu ser uma enciclopédia do filme recitando cada curiosidade para quem quer que o assista ao meu lado (desculpa, querida esposa!)

E o mais impressionante é que as surpresas não param! Graças ao making of ficamos sabendo que o plano original do Spielberg era chamar uma das lendas do stop-motion e fazer os dinossauros com “bonecos” animados: Phil Tippett. E muito embora tenham decidido utilizar os dinossauros em CGI (computer-generated imagery, imagens geradas por computador), os talentos de Phil e sua equipe não foram completamente desperdiçados, já que eles foram os responsáveis por gerar os movimentos dos bichos, que foram capturados pelo computador. E ele ainda ganhou o crédito de “Supervisor de Dinossauros”, olha só que bacana. 

Anos depois.

O Parque dos Dinossauros é um dos filmes que eu acabo sempre assistindo pelo menos uma vez todo ano, geralmente lá pro fim do ano junto com Duro de Matar. É quase uma tradição minha. E eu sempre me espantava com o fato de que em muitas das partes do filme os gráficos de computador dos bichos parecesse melhor do que o que eu lembrava, em especial o dos raptores. Claro que a essa altura eu já sabia que haviam construído um tiranossauro rex animatrônico, juntamente com outros animais tais quais o tricerátops e o braquiossauro.

Imagina a minha surpresa ao ver recentemente (de uns seis anos pra cá, talvez?) que não apenas esses outros animais eram animatrônicos, como também em boa parte das cenas os velociraptores eram pessoas vestindo uma roupa!!! Isso é tão louco que eu não consigo nem conceber! Quer dizer, não preciso. O estúdio que criou os animatrônicos para esse e todos os outros filmes da franquia colocou no youtube os vídeos mostrando a criação não só das raptor suits como do t-rex animatrônico também.

Filme x Livro

Tendo lido o livro algumas muitas vezes desde 1993 para cá, me vejo obrigado a dizer que cada vez que eu leio, acabo descobrindo uma coisa diferente. Por exemplo, o livro até reconhece que os animais do parque não são o que se pode admitir como “dinossauros reais” e tem até uma discussão bem bacana entre o criador do parque, John Hammond, e o cientista-chefe responsável pelos bichos. É levantada a questão de que os dinos possuíam “versões” (tipo 1.0, 2.1, etc.) tal qual um programa de computador e que não necessariamente refletiam a “vida real”. Que é a desculpa perfeita praquele seu amigo metido a paleontólogo que teima em querer que o t-rex tenha penas no filme!

Mas olha, eu não vou entrar naquele papo de “o livro é sempre melhor”. Até porque são coisas diferentes. Um é mais completo, mas o outro te mostra tudo aquilo que você gostaria de ver, sabe? Uma das diferenças mais básicas é que, obviamente, o parque no livro é muito, mas muuuuito maior. Com mais dinossauros, com mais personagens e, enquanto é uma pena alguns deles não fazerem parte do filme, ou serem reduzidos a partes pequenas porém importantes (oi, Muldoon, oi Henry Wu), acho a adaptação muito honesta.

Robert Muldoon e Henry Wu. Dois personagens ótimos no livro, mas super reduzidos no filme.

Há uma diferença na trama também, já que os personagens descobrem que os dinossauros estão conseguindo fugir do parque de alguma forma. No início do livro, antes da tempestade, eles vêem um jovem filhote de raptor escapando em um dos barcos que fazem serviços na Isla Nublar e as coisas giram em torno de chegarem em algum ponto do parque com telefone funcionando e avisar o barco para retornar. Em meio a isso, toda a trama de sobrevivência e sabotagem, claro. Com muitas mortes e muitos dinossauros de pança cheia.

Há também aquelas cenas e prólogos que não aparecem no filme original, mas nas sequências. Como a garotinha atacada por procompsognatos em JP2 e a cena do aviário e os pteranodontes em JP3. Mas até hoje, a cena que me deu mais pesadelos foi a morte de Dennys Nedry, meosenhorjesuis.

Ah, e a minha aluna? Amou o filme! Muito mais do que Jurassic World. 😉

Tô LendoPontos Fortes
  • Steven Spielberg. Cara, se isso não significa nada pra você, SAI DAQUI. Esse cara é o meu ídolo, amo ele de paixão, assisti a quase toda sua filmografia e ninguém consegue criar tanta tensão com dinossauros numa cozinha como esse cara! Desde o seu período mais boboca, até o mais sério, esse cara é um dos melhores contadores de história que eu já vi, obrigado.
  • John Williams. Pam pam pam pam pam. Pam pam pam param pam paaaaam. Clássico.
  • Dinossauros. Foi, sei lá, a primeira vez que eu vi dinossauros sendo tratados como animais, sabe? E não monstros. Tá, tudo bem, eu nunca vi um dinossauro for real até hoje, dã. Mas se não levarmos em consideração que provavelmente a maioria deles teria penas pelo corpo todo (oi, amigo chato), acho que esse filme foi o mais próximo que pudemos chegar de trazê-los de volta a vida.
  • Ação, aventura, diversão pra toda a família! Sério. Estoura umas pipocas, abre um guaraná, cata o filme no Netflix (ou naquele dvd velho que você ainda tem guardado, queu sei) e chama a galera pra curtir esse filme hoje a noite que vai ser um programão.
Tô LendoPontos Meh
  • Nenhum. Cara, nenhum. Esse filme só tem vantagens.
  • Mentira. Opa, tem sim.
  • CGI porn. Não é pornô, pornô em si. Calma. Mas já que Jurassic Park foi uma quebra de paradigma na produção cinematográfica com a criação dos dinos em computador, isso levou a uma nova era de efeitos visuais. O que no fim das contas gerou coisas boas e ruins. As cenas de ação de muitos filmes ficaram mais incrementadas, ok. Mas em muitos outros filmes nas mãos de diretores menos competentes (ou mesmo num dia ruim, né Peter Jackson), acabam dependendo demais dos efeitos e esquecem da história. Nem sou de apontar dedos, mas tô falando basicamente de Transformers. Eu odeio qualquer filme dos Transformers.
  • Steven Spielberg. Sim, eu sei que Steven Spielberg também é produtor de Transformers. Nem tudo é perfeito. Chuif.
  • As continuações. Olha, eu até acho O Mundo Perdido – JP2 um filme ok. Mas JP3 é horroroso. E JW é até passável se você só vê uma vez e esquece o plot um pouco. Ainda não cheguei a ver Jurassic World – Reino Ameaçado, mas não nutro muitas esperanças, não. Inclusive, o próprio livro-sequência O Mundo Perdido só foi escrito depois que Spielberg demosntrou interesse em fazer uma continuação do primeiro filme. O livro acaba desfazendo uma pá de coisas que eram super interessantes na história original, então também não é lá essas coisas…

Então, já ouviram aquela velha piada do dinossauro?

Veredicto.

Veja o filme de novo. Leia o livro. Se apaixone. Plante uma árvore. Tenha um filho. E veja o filme de novo. Porque Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros vale 65 milhões de rebobinadas preservadas em âmbar. 🦕🦕🦕🦕🦕🦕🦕🦕🦕🦕🦕🦕🦕 (…) 🦕

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2018-06-15T23:53:49+00:00 18 de junho de 2018|5 Comentários
  • Ricardo Varotto

    Claramente, um divisor de águas.

  • Nayguel Andrys

    Que texto da hora! Me deu vontade de rever tudo nesse exato momeno!

    Todos os filmes são sensacionais! Só acho meio vergonhoso aquela cena no JP2 da menina derrubando o raptor com suas habilidades de ginasta! Mas fora isso, ta de boa!

    • Haha. Essa parte foi mesmo duro de engolir. Mas o terceiro tem os raptores conversando e um deles falando inglês, até. Ok que era num sonho do Grant, mas ainda assim…

  • Jean Carlos

    Meus filhos adoram e eles curtiram mais os antigos, sempre to assistindo com eles, esse vale varias rebobinadas.

    • Vale muitas Rebobinadas mesmo. Eu adoro esse filme, como deu pra perceber, hehehe.