Rebobinando #35

Todo herói que se preza tem que passar por algum tipo de crise. Nos anos 90, isso foi quase uma regra para qualquer um que usasse colante e capa. O Super-homem morreu. Quebraram a coluna do Batman. O Aranha foi clonado. O Ayrton Senna bateu na Tamburello… enfim. Todos os nossos heróis não morreram de overdose mas comeram o pão que o diabo amassou nesta fatídica década. Em especial o Lanterna Verde que sofreu duras consequências por bem mais tempo do que muita gente esperava. Segura o anel que hoje a Rebobinando é sobre uma das sagas mais polêmicas do herói: Crepúsculo Esmeralda!

MUÓ-RREU!

Prólogo: A Morte do Super-Homem.

Comecemos pelo princípio. No início dos anos 90, o Super-homem amargava baixas vendas frente aos sucessos estrondosos da nova onda da Marvel e sua subsequente “xerox” a Image Comics. Os talentos de Todd McFarlane, Jim Lee e cia foram os precursores da Década de Cromo nos quadrinhos, onde tudo era muito músculo, muita capa cromada e variante, e pouquíssimo conteúdo. Havia exceções, claro. Mas não vem ao caso agora.

Diante de uma tenebrosa visão onde a DC Comics nem configurava mais nas listas de top 10 de cada mês, os editores tomaram uma decisão radical. Num evento em várias partes eles tiveram a pachorra de matar o seu maior herói. Quem estava vivo naquela época lembra bem que o assunto foi comentado em todos os lugares pré-internet. O que só mostra o grande alcance da história, claro. Já que ninguém esperava ver o Jornal Nacional comentando a morte de um super-herói dos quadrinhos.

Super Ciborgue e Erradicador se enfrentam enquanto mais de 7 milhões de pessoas explodem junto com Coast City!

Enfim. O azulão morreu e voltou, mas nesse meio tempo houve mais uma história que movimentou bastante o universo DC. O Retorno do Super-Homem contava com quatro personagens que clamavam ser o herói, salvando vidas no vácuo deixado por ele. Um deles, o Superciborge, era um vilão que estava mancomunado com um outro vilão conhecidíssimo da editora, Mongul, o líder do Mundo Bélico. Na tentativa de criar esta supernave-arma na Terra, Mongul planejava obliterar quatro cidades transformando-as em gigantescas fortalezas-motor. A primeira (e única, no final das contas) foi Coast City. Lar de Hal Jordan.

O Crepúsculo Esmeralda.

Num ataque de ódio, Hal oblitera Mongul enquanto um Super-Homem ressuscitado, com a ajuda do Superboy e Aço, derrotam o Superciborgue. Tudo parecia muito bem e o Lanterna Verde até aparentou estar vingado por derrotar o vilão, ajudando a galera a resolver as pontas soltas do fim da história.

Hal dá um jeito na coluna enquanto marreta o cabeção do Mongul!

PORÉM…

Duas edições depois da batalha contra Mongul, Hal Jordan aparece abatido em meio aos escombros de Coast City. Escrita pelo veteraníssimo Ron Marz (Capitão Améria, Surfista Prateado), a história havia sido desenvolvida inicialmente por Gerard Jones (Guy Gardner Renasce, Amanhecer Esmeralda) e envolvia Hal Jordan tendo que decidir entre duas forças extraterrenas que se intitulavam os Guardiões. Mais ou menos tipo aquela série de filmes de mesmo nome, menos a parte do “esmeralda”. Os editores não curtiram muito e bolaram o argumento da nova saga, entregando a Marz a tarefa de escrevê-la e o título do gibi, com o intuito de renová-lo.

O mais terrível “Crapúsculo Esmeralda”.

A trama em si durou três edições e foi publicada nos EUA em 1994 entre as edições #48-50 de Green Lantern. Aqui no Brasil ela saiu inicialmente em Novembro de 1995, publicada pela Abril Jovem. A edição continha uma história de Superman #83 (EUA) que contava o que aconteceu com a fortaleza-motor instalada em Coast City. Hal convoca todos os heróis disponíveis para se livrar da terrível máquina e o Super acaba transformando-a em um monumento aos inocentes mortos. O restante são as edições de Green Lantern mesmo.

A Panini republicou o mesmo arco, juntamente com o primeiro arco de histórias do então novo Lanterna, Kyle Rayner em 2009. E a coleção de graphic novels da Eaglemoss também publicou os mesmos arcos, mais a primeira aparição de Mongul em 2016. Essas duas últimas devem ser bem mais fáceis de achar em sebos e comic shops do que a da Abril Jovem. Mas só pela história de abertura, eu creio que valha mais a pena procurar por ela.

Hal Jordan reúne a galera pra dar um jeito na fortaleza-motor de Mongul.

A história.

Finalmente! Bom. Hal ainda continua super deprimido com a destruição de sua cidade natal. Todos seus amigos, família e conhecidos moravam ali e ele falhou miseravelmente em salvá-los. Andando pelos escombros da cidade, ele tenta recriá-la em sua totalidade utilizando o poder do anel dos Lanternas. Tudo fica com aquela corzinha meio verde meleca e eu me pergunto se ele realmente acha que isso era uma boa ideia.

Meio doido ele entra em discussões com o seus falecidos pais e sua primeira namorada. Até que em um determinado momento, que seria incrivelmente tocante se não fosse o fato de que ele está controlando tudo com o seu anel, a bateria se esvai e ele fica ainda mais desolado. Um dos Guardiões do Universo se apresenta através de uma projeção de energia e avisa que Hal está sendo intimado a comparecer em Oa, o planeta-QG dos Lanternas, para uma “audiência extraordinária”. Aparentemente, ao recriar Coast City ele quebrou a primeira regra da Tropa dos Lanternas Verdes que é “não usar o poder do anel para uso pessoal”.

Vocênão vai querer me ver… DE.

Indignado, ele parte em direção a Oa, sim. Mas para esfregar na cara dos Guardiões o quanto eles são uns patifes! A edição seguinte é uma sucessão de porradaria das mais imensas onde o maior Lanterna Verde da atualidade esmaga e destrói Lanternas amigos e desconhecidos. Boodikka, Tomar-Tu, Kreon, e nem mesmo o favorito dos fãs, Killowog são páreos para a fúria desenfreada de Hal Jordan! Conforme passa, ele vai tomando os anéis dos Lanternas caídos dando origem à imagem mais maneira da saga, que é também a capa da edição #49. A de Hal com um sorriso louco e os dedos cobertos de anéis.

Chegando em Oa, os Guardiões não vêem outra alternativa senão libertar o único outro ex-Lanterna que seria capaz de derrotar Hal Jordan: Sinestro! Aprisionado dentro da Bateria Principal há muito tempo, ele sai no encalço de seu mais odiado inimigo com sangue nos zóio e um sorriso no rosto! A batalha, no entanto, é feia. Cheia deles medindo o comprimento de suas varas, cantando vantagem, dedo no olho e uns desenhos meio porcos. No fim, Hal vence e entra na bateria principal E ARREBENTA NUM CARNAVAL FORA DE ÉPOCA QUE…

A capa clássica do Hal metendo o dedo nos anéis dos outros!

Desculpa. Ele absorve todo a força da bateria principal e ressurge com um poder jamais imaginado! Como Parallax, ele decide reescrever o tempo e o espaço salvando Coast City e se tornando o vilão principal da saga que viria a seguir: Zero Hora – Crise no Tempo, que nós falamos lá na Rebobinando #09! Os Guardiões, num último esforço, utilizam todo o poder que tinham para concentrá-lo em apenas um deles, Ganthet, que tem como objetivo dar seguimento à Tropa dos Lanternas Verdes, escolhendo um soldado valoroso com uma enorme força de vontade.

Tô LendoPontos Fortes
  • Mudança. Como eu nunca fui muito fã do Lanterna Verde, eu tenho pra mim que esse arco é do caraleo! Toda a queda de um herói frente a uma derrota inescapável, pra mim, faz todo sentido em termos de história. É material para alguns dos grandes vilões que conhecemos, no cinema, nos quadrinhos, na literatura. E a gente estava vendo isso acontecer na hora, ali nas margens do campo mesmo. Quantos de nós pode dizer que viu o nascimento de alguns dos maiores vilões dos gibis? A transformação de Hal Jordan num vilão deveria ter sido um caminho sem volta.
  • Mudança (2). A introdução de um novo Lanterna. Nada contra o renascimento da Tropa, isso seria até óbvio dado que nada nos quadrinhos é permanente mesmo. Mas eu acompanhei por algum tempo as histórias do Kyle Rayner e ele era um Lanterna maneiro.
Tô LendoPontos Meh
  • A arte. Cada história é desenhada por um cara diferente e, juro por deus, é um pior que o outro. Tirando uma ou outra splash page em que parece que tiveram um pouco mais de trabalho, tudo é meio horrível, com uma quadrinização meio porca. Me bateu super mal enquanto eu relia a história.
  • Geoff Johns. Alguns acham que ele salvou a DC. Eu acho que ele não soube aproveitar o passado e o legado da editora e resolveu trazer tudo de volta. Por meio dele, toda a construção de personagem trabalhada no Hal Jordan foi por água abaixo. E ele ainda deu uma “fênixzada” na história fazendo com que Parallax fosse só uma força cósmica imemorial que “possui” o herói levando ele a cometer atos horríveis. Alguns fãs curtiram. Eu achei baboseira.
  • Killowog. CARA, COMO ASSIM MATARAM O KILLOWOG?! Sério, nem eu que não era fã do Lanterna sabia quem era e curtia o personagem. Fiquei muito chocado na época. Claro que trouxeram ele de volta. Claro.

No fim, após Zero hora, Hal se sacrificou para reacender o Sol durante a saga Noite Final. Depois ele voltou como o Espectro. Depois o Espectro ajudou Jordan a se libertar de Parallax e voltar para o seu corpo, preservado pelos Guardiões. E aí, junto com os outros Lanternas, John Stewart, Kyle Rayner e Guy Gardner, ele foi capaz de aprisionar Parallax de volta na Bateria Principal em Oa. Nisso já era pra lá de 2005 e como sempre…

Tudo muda, mas tudo continua igual nos quadrinhos.

Gripe? Tome um Parallax pela manhã e um pela noite! A gripe some tão rápido que é como voltar no tempo!

Veredicto

Ainda assim, acho que é uma história maneira. Se tivesse uns desenhos melhores, talvez eu desse a Rebobinada Máxima. Do jeito que está, Crepúsculo Esmeralda vale três rebobinandos! 📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2018-06-04T01:40:59+00:00 4 de junho de 2018|5 Comentários
  • Taí, eu também li essa saga “ao vivo” e gostava bem dela. Duas coisas que eu não engoli, mesmo na época:
    – Roupa de vilão. Eu compro tudo que o Hall Jordan fez e a enlouquecida junto. Mas fazer pra si uma roupa de vilão, com ombreiras metálicas e uma capa, me parecia sem sentido e arbitrário.
    – O monstrinho parallax da reformulação do Geoff Johns, que era responsável até pelos cabelos grisalhos do Hall Jordan! O pior de tudo é que esse era o EXATO MESMO SUBTERFÚGIO usado na “brilhante” saga de origem do Massacre, com um “monstrinho” que passa de um lado pro outro, criando um mega vilão dentro da mente de heróis poderosos…

    Excelente coluna, Kadu! Ler suas lembranças dos gibis antigos é bem melhor do que ler os gibis antigos!

    • Hahahah. Tinha esse lance do cabelo grisalho mesmo! Putz que coisa tosca! E eu tenho que concordar que a roupa de vilão dele é péssima mesmo, ainda mais se vc considerar o design “clean” do uniforme dele de Lanterna.

  • Jean Carlos

    Eu confesso que da DC eu gosto mais do Batman, mais só pela coluna deu vontade de comprar esse arco.

    • O arco é bem legal. Acho que vale super a pena. É uma fase do Hal Jordan que a DC meio que finge que não aconteceu, ainda mais depois de Novos 52 e Rebirth, mas pra mim é uma história essencial do Lanterna Verde.

  • Roberto Hunger Junior

    Esta série na época foi realmente muito boa, até por que não se tinha na época a nossa cultura de spoliers, então quando aconteceu, foi muito impressionante … Mas, eu era jovem e não sabia a verdade sobre os quadrinhos ainda, rss. Quando o Hal voltou eu curti…Principalmente a cena do hal dando uma porrada no batman…