Rebobinando #34

“Esta cidade já foi um lugar feliz e pacífico… Até que um dia uma poderosa organização criminosa se estabeleceu. Não demorou muito para este sindicato maligno tomar conta do governo e até mesmo da polícia. A cidade se tornou um antro de crimes e violência onde ninguém estava a salvo”. – Não, não estamos falando do Rio de Janeiro e do PMDB! Mas sim de um dos jogos dos anos 90 que marcou uma geração que jogava Mega Drive, eu entre eles! Aperta o “A” e chama o carro da polícia que a Rebobinando hoje fala de Streets of Rage!

“Em meio a este turbilhão, um grupo de jovens policiais jurou limpar a cidade. Entre eles estão Adam Hunter, Axel Stone e Blaze Fielding. Eles estão dispostos a sacrificar tudo, inclusive suas vidas nas… RUAS DA FÚRIA!” – Era assim, com esse texto e essa música maravilhosa queo jogo abria. Apresentando o contexto de porquê diabos a gente saía pelas ruas dando porrada em quem aparecesse e quebrando o patrimônio público para comer uns franguinhos escondidos atrás das latas de lixo.

Lançado em 1991 nos EUA e Japão (sob o nome de Bare Knuckle, algo como “Mãos Nuas”, uma alusão ao nível grosseiro de porrada do jogo) Streets of Rage bebeu da mesma fonte de muitos outros jogos da época, como Double Dragon (1987), Golden Axe (1989), River City Ransom (1989) e Final Fight (1989). Numa primeira jogada, ele não parecia particularmente revolucionário pois seguia uma fórmula velha de guerra de sidescroll beat’em up com milhares de inimigos surgindo ao mesmo tempo e chefões particularmente difíceis.

Porém, num olhar mais atento, o jogo já tinha uma vantagem para 50% do público. Como a trama não girava em torno da velha trope da namorada raptada, o jogo ainda se dava ao trabalho de colocar uma personagem feminina para escolher. Isso foi uma das coisas que me chamaram a atenção na época porque como em casa só havia um videogame, muitas vezes eu chamava a minha irmã para jogar comigo. E ela, é claro, sempre escolhia a Blaze. E sim, muito embora Golden Axe também tinha a amazona como opção de jogo, a trama tinha uma princesa e seu pai raptados. Então damos uns 75% de crédito pro jogo, vai?

Ruas sujas e vidas no chão!

A história.

Então, era basicamente tudo o que você vê no texto de abertura mesmo. O objetivo, portanto, não era salvar alguém, mas sim salvar a cidade! O bacana é que pouco antes do jogo, os heróis se demitiram da força policial corrupta para se tornarem vigilantes. Muito embora eles ainda tinham uma ajuda de amigos que continuavam “dentro da lei”. Cada um deles tinha qualidades diferentes dentro do jogo que davam a eles uma certa vantagem em alguns pontos.

Outro aspecto interessante é a parte do final. Havia uma opção de um dos jogadores mudar de lado quando chegassem ao chefão final, o Mr. X. Ele perguntava se um deles gostaria de se juntar à organização e se apenas um jogador escolhesse mudar de lado, os dois tinham que lutar um contra o outro. Caso o jogador mau ganhasse, o Mr. X perguntava novamente se você gostaria de ser o braço direito dele e aí bastava responder “não” e derrotar o chefão sozinho que aparecia o “bad ending” do jogo. Com você sentado na poltrona do chefe do sindicato do crime. Era bem maneiro e eu não lembro de nenhum outro jogo da época que me desse tantas opções assim.

O momento da escolha e o “bad ending” do jogo.

O jogo.

O gameplay era bem simples. Pulo, soco e especial. O maneiro era a diferença entre os personagens que se fazia sentir durante o jogo mesmo. Blaze era a mais rápida, enquanto Adam era o mais forte. Axel era o mais bem-balanceado, o que fazia dele a escolha mais comum. Mas só o fato do jogo ser inclusivo o suficiente, já era bacana pra muita gente.

Além disso, também havia uns movimentos extras, como agarrar os adversários e jogá-los longe, ou pular por cima deles dando um ataque aéreo. Se você emendasse três ataques diretos, eles entravam numa sequência que batia cada vez mais forte. Sem contar as armas largadas pelo chão da cidade, como facas, canos de PVC e bastões de baseball. Era realmente uma cidade violenta.

Era oito fases, ou “Rounds” como eram chamados. Cada uma delas era uma parte da cidade e cada um tinha um Boss consideravelmente maior e mais difícil. No segundo jogo da série, todos os vilões ganharam nomes, incluindo os capangas. Porém no primeiro ficam só as características que cada um:

Round 1 – O maluco do bumerangue.

Round 2 – O Freddy Krueger das garrinhas.

Round 3 – O Conan da corridinha + socão.

Round 4 – O gordinho cospe-fogo.

Round 5 – As Blazes gêmeas.

Round 6 – Dois Freddies Krueger das garrinhas.

Round 7 – Sem chefão, mas é a fase do elevador (uhu!)

Round 8 – Mr. X, o chefão da metralhadora!

Nem toda a polícia era corrupta, alguns deles vinham te ajudar COM UMA BAZUCA!

A música!

Ah, a música! A grande responsável pela minha “fase de música eletrônica” na adolescência! Para muitas pessoas, a trilha sonora dessa trilogia de jogos foi uma das melhores de todos os tempos! Há quem defenda as trilhas de Final Fantasy e tal, mas eu me vejo obrigado a concordar que a trilha de Streets of Rage era um negócio à frente de seu tempo, na boa, vai?

Yuzo Koshiro, o compositor da trilha dos jogos, também trabalhou nas trilhas de The Revenge of Shinobi, Dragon Slayer e Misty Blue. Em Streets of Rage ele usou de influências de dance music, house e eletro para compor as músicas. Seu trabalho foi tão bem recebido que até hoje o cara é uma referência em chiptune (música em 8-bit, típica de videogame), influenciando artistas de eletrônica, electro-funk e dubstep. Pesquisando sobre o cara descobri que até o próprio Childish Gambino também já sampleou Streets of Rage em uma de suas músicas (link).

Acho que a Capcom vai querer ter uma conversa com quem fez essas capas aí, hein?

Os quadrinhos!

– O QUÊ? Teve gibi do Streets of Rage? ONDE?

Calma, calma. Não chegou a sair aqui e eu nem fiquei sabendo. Isso aqui é só um adendo mesmo, porque enquanto eu pesquisava sobre o jogo acabei descobrindo que lá nos EUA na revista Sonic The Comic saiu uma pequena série de três histórias do jogo. Todas aconteciam entre o 1 e o 2, com os personagens do 2 mesmo. O que as tornaram digna desta nota foi o fato de terem sido escritas por ninguém menos que Mark Millar! Acho muito curioso descobrir esse tipo de “primeiros trabalhos” de alguém super famoso hoje em dia. Pelo pouco que achei na internet, não eram histórias maravilhosas, não.

Tô LendoPontos Fortes
  • Gráficos. São bem maneiros e se sustentam bem, levando em consideração a época em que foram feitos. Passamos por uma onda de jogos com um design meio retrô recentemente e acho que até o Streets 1 dava pro gasto.
  • Desafiador na medida certa. Claro que como todos os jogos, ele tinha os níveis easy, normal e hard. E quando você escolhia o “easy” o final do jogo não aparecia, obrigando você a jogar pelo menos um nível acima. Praticamente um motivacional!
  • 2 Players. Era incrivelmente divertido de se jogar com duas pessoas. Não lembro se era nesse ou em alguma das outras duas sequências, mas altas reclamações surgiam quando rolava “fogo-amigo” (de você acertar acidentalmente o seu parceiro e tirar um pouco de vida), ou quando alguém comia o franguinho ou a maçã, mesmo com a barra de vida cheia! Era um jogo que ensinava a cooperação mesmo!
  • Música. Eu sei queu já falei, mas a música era muito foda! Muitas dessas músicas poderiam ser tocadas numa boate (festa? Casa noturna? Rave? Náite?) e garanto que muita gente não ia notar a diferença!
Tô LendoPontos FUÉN
  • Razoavelmente rápido. Pra quem é dessa época e meio viciado, esse jogo passa rapidinho. O Streets of Rage 2 nem tanto, e o 3 É DIFÍCIL PACARALEO! Mas ei, é diversão garantida! Oooou…
  • Pode ser frustrante. Pra quem tá acostumado com os jogos de hoje com continues infinitos, ou pra alguém que, como eu, perdeu um pouco a prática, ele pode irritar um… eeerrr… pouquinho.
  • 1 Player. Acho super chato de jogar com uma pessoa só. Chama um amigo, uma amiga, e vai ser feliz!

Cara, o hobby da Blaze é LAMBADA! Ah, os anos 90!

Então é isso. O clássico dos clássicos! Recentemente eu descobri que o jogo está disponível para download na Loja da Google Play (link) e na App Store (link). O ruim é que eu achei um porre jogar na telinha do celular. Pra quem curte e entende de emuladores é uma ótima pedida pra jogar de novo. E pra quem é de Playstation (e afins) ou Steam, os jogos estão disponíveis em suas respectivas lojas. Corre lá que geralmente custa bem barato.

Cara, me bateu uma baita saudade do meu Mega Drive agora, sabia? Nostalgia pura. Acho que Streets of Rage vale umas cinco coxas de peru achadas atrás da cabine telefônica! 🍗🍗🍗🍗🍗

É vida que não acaba mais!

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2018-05-28T00:22:40+00:00 28 de maio de 2018|8 Comentários
  • Puta nostalgia cara, Streets of Rage foi uma das franquias que mais passei horas jogando na frente do mega drive (teve mais que 3?). Do 1 ao 3 joguei horas, sendo que tinha o 1, mas o 2 e 3 alugava todo fim de semana pra jogar com meus primos.
    Valeu Kadu

    • Descobri que a Sega ia fazer um quarto jogo pro Saturn com a mesma empresa que fez Lara Croft, a Eidos. Mas deu pra trás e os caras lançaram o jogo com outro nome. Nunca tinha ouvido falar até agora, então acho que não foi muito bom e a Sega fez se safou de uma.

  • Jean Carlos

    Cara, esse ai eu joguei muito nas maquinas aqui do bairro, era muito bom juntar a galera e ir pro fliperama que pena hoje não ter mais isso,eu estava até pensando em comprar um Fliperama Portatil daqueles que vem com 1.000 jogos.Abraço Kadu!!!

    • Eu fiquei com muita vontade de comprar o relançamento do Mega Drive, mas achei Mega Car (heh) e muitos amigos me disseram pra comprar um emulador que dá pra ligar direto na TV e baixar 2 milhões de jogos.

      Mas ainda assim… =D

  • Bruno Messias

    Excelente matéria! Muito completa!!!

    • Opa, demorou! Matérias completas você só encontra aqui na Rebobinando! (mentira, encontra em outros lugares também, mas eu tenho que vender o meu peixe, né?)

  • Jo Magalhães

    Queria só deixar um CHUPA, FINAL FIGHT, aqui…MAS PERAÍ! Teve Streets of Rage 3?

    • Opa, Ô se teve! Mas ERA DIFÍCIL PRA BURRO! Tipo, eu!