Os Gatos do Trovão estão de volta! Recentemente, essa pérola dos anos 1980 entrou no catálogo da HBO Max e por conta disso, a Rebobinando resolveu rebobinar esta coluna de 2018, de uma época em que o maior problema da comunidade nerd era ver o Lion com cara de Steven Universo! Então pega sua espada justiceira e vem comigo rebobinar Thundercats!

Coluna publicada originalmente em 21 de maio de 2018.


Esta semana o mundo nerd entrou em polvorosa com o anúncio de que o Cartoon Network vai lançar uma nova série dos ThunderCats, meio que, muito aparentemente, acredito eu que seja, nos moldes de uma de suas séries animadas de maior sucesso atualmente, Os Jovens Titãs em Ação! E como aqui na Rebobinando o assunto é sempre “memória afetiva” e “no meu tempo era melhor”, tomei como questão de honra responder a essa pergunta: era mesmo?

Antes de começarmos, dá o play aqui!

Ahhhh, que saudade! Lembro de curtir muito as manhãs na televisão (ou pelo menos a parte das manhãs que eu conseguia pegar) e pirava nesse desenho. Ele foi primordial na minha vida durante os anos de 1986 e 1990, em que eu tinha de 4 a 8 anos. Inclusive, uma festa de aniversário minha foi de Thundercats, nessa época. Infelizmente, lá pros idos de 1990 eles foram sumariamente substituídos pelas Tartarugas Ninja, mas isso fica pra outra Rebobinando.

Quem nunca teve aquela festa de sete anos com bolo embalado, e o seu pai tinha que segurar o isqueiro pra você soprar na falta de vela?

THUNDERCATS ARE ON THE MOVE!

Para quem não conhece muito bem, Thundercats puxava influências de outro desenho de grande sucesso da mesma época, He-Man. Como comentei na Rebobinando #15, o esquema de Mestres do Universo era mais ou menos um “vai que cola?”. Não, não o programa do Multishow, deosmedibre, mas é que o desenho atirava pra todos os lados na hora de inventar histórias e vender bonecos. Por conta disso, elementos de fantasia medieval se juntavam a elementos sci-fi, que se juntavam a elementos de magia, que se juntavam à pia da cozinha, etc. etc.

Thundercats não queria ficar para trás no quesito merchandising e também veio com tudo. Era uma mistura de sci-fi fantástico com mundo pós-apocalíptico sobrenatural com robôs e mutantes e múmias e etc. Isso permitia uma gama enorme de personagens que poderiam funcionar ou não, mas que com certeza não seriam desperdiçados se virassem brinquedos. Lembro que eu tinha uma mini Toca dos Gatos e uma mini Cripta do Mumm-Ra. Esses tinham sido feitos para uma coleção de miniaturas dos personagens e eu achava bem legal. A Toca tinha no peitoral um símbolo dos Thundercats que dava pra projetar na parede com uma lanterna, e a cripta tinha um botãozinho que você girava pra “transformar” o Mumm-Ra mirradinho no Mumm-Ra Saindo Monstro da Jaula™.

Eu já tinha o Castelo de Greyskull, então não consegui convencer meus pais a me darem a Toca dos Gatos grandona!

O desenho sofria do mesmo mal da maioria das outras produções da época. Produzidos em sua grande parte no Japão, ele tinha uma abertura animal que nem de perto se comparava aos episódios. O que era meio frustrante, uma vez que você visse a abertura completa. Lembro que quando passava no Xou da Xuxa, a Globo sempre cortava as aberturas, mas nos anúncios a animação fodona sempre estava lá pra nos encher os olhos. Acho que só quando ele foi parar no SBT lá pelos idos de 2001 (ou talvez no extinto Warner Channel, não lembro bem) que fui notar o quanto a abertura era maravilhosa! O SBT, no entanto, já havia exibido a “série-irmã” dos gatos do trovão, os policiais do espaço Silverhawks também nos anos 1980, mas sempre com a abertura completa, com música-tema e tudo. Outra série que eu comentei na Rebobinando, Galaxy Rangers, também tinha uma abertura muito melhor, mas pelo menos o estúdio responsável guardava uma graninha prumas cenas de ação mais bacanudas nos episódios.

Seguindo uma ordem de exibição de episódios basicamente nula, diz a wikipédia que durante os quatro anos em que a série foi exibida inicialmente, a Globo passou 100 dos 130 episódios  existentes (o que dá até mais ou menos a metade da terceira temporada). Mas eu vou ser honesto aqui e dizer que eu juro que não lembro! A série, como tantas outras do seu período, era criada com o objetivo de entrar no sistema americando de Syndication em que ela pode ser vendida para outras emissoras no restante do país ou do mundo. Para tanto, ela precisava atingir um número específico de episódios (mais de 100, com certeza) e justamente por isso, as temporadas têm uma quantidade meio sem noção de episódios. A primeira, exibida de 1985 a 1986, conta com 65 episódios. Já a segunda possui apenas 25, e a terceira e a quarta contam com 20 episódios cada uma. O desenho seria encerrado em 1988, contabilizando os já mencionados 130 episódios fechados (pelo menos em sua maioria) que poderiam ser exibidos em constantes reprises foram de ordem sem problema algum.

A minha memória para a maioria dos epiódios é meio nebulosa, mas assim, eu ainda me lembro de alguns episódios soltos… lembro vagamente da chegada dos novos ThunderCats (que foi ali por volta da segunda temporada) e só. Mas enfim, era uma época mais fácil, né? Eu tinha menos de 8 anos e não acompanhava “plots” ou tramas. Tipo, eu também acreditava, assim como muita gente, que Cavalo de Fogo tinha uns trezentos episódios, ao invés de treze! Então não sou parâmetro pra nada, vai?

Nem sei porque você tá lendo isso aqui.

Não, péra. Voltaqui!

Thundercats are NUS! ( ͡° ͜ʖ ͡°)

THUNDERCATS ARE LOOSE!

A história gira em torno de uma raça de humanos-gatos (não que eles fossem especialmente mais bonitos que os outros, era só a condição da raça deles mesmo) chamados, bom, Thundercats! Numa dessas viradas do destino que só acontecem em Krypton, o planeta deles, Thundera, explodiu. Como os únicos sobreviventes da raça Lion, Cheetara, Panthro, Tygra, Wilikit, Wilikat, Snarf e Jaga seguem em sua nave para um destino específico. Porém, eles são perseguidos pelos seus inimigos mortais, os Mutantes de Plun-Darr, que exterminam o restante da frota e danificam seriamente a nave de fuga dos Gatos Trovão.

Sem possibilidade de chegar aonde queriam, os heróis se vêem forçados a pousar em um planeta que fica no caminho, o qual chamam de Terceiro Mundo. Os mutantes vêm no seu encalço em busca da Espada Justiceira, que contém o Olho de Thundera, a fonte de poder dos Thundercats. Para que eles querem o Olho de Thundera? Ninguém sabe. Eles conseguiriam usar o Olho de Thundera se o capturassem? De acordo com muitas situações do desenho, provavelmente não. Mas aí não haveria história, não é? 

O Olho do McGuffin que tudo faz e tudo resolve!

Um parêntese aqui: quando eu descobri que o nome original da espada era “Sword of Omens”, traduzido livremente como “Espada dos Presságios”, achei um nome bem mais maneiro. Mas convenhamos que soa mega esquisito em português. Não acho que “justiceira” traduza bem o nome da espada, mas pelo menos soava mais legal. Uma curiosidade da dublagem brasileira do primeiro episódio é que, aparentemente, o tradutor não sabia que “omen” era “presságio” e traduziu o texto como “A ESPADA JUSTICEIRA DE OMÉNS”. Assim mesmo, com acento e tudo, como se “Oméns” fosse uma pessoa, sei lá. É uma gafe de tradução do nível do “retorno DE jedi”, heheheh!

Enfim, no terceiro mundo, Mutantes e Thundercats chamam a atenção de uma força maléfica que domina o planeta na figura do tenebroso Mumm-Ra. O cara era uma espécie de feiticeiro-múmia de milhares de anos com uma ligação sinistra com “antigos espíritos do mal”. E na boa? Tudo isso soa maneiraço, vai?!

No entanto, algo curioso que eu sempre me perguntei quando via o desenho era: “onde fica esse terceiro mundo”? E fiquei imaginando que talvez fosse a Terra, afinal nós moramos no terceiro “mundo” a partir do nosso sol. Só que não deveria ser algo no passado porque, bom, não temos nenhum registro histórico de seres metade humanos, metade gatos em nosso planeta… O próprio desenho não é exatamente claro com relação a isso. Então, após anos encafifado com isso, cheguei a brilhante conclusão de que o desenho na verdade deve se passar num futuro muito, muito distante, depois do fim da humanidade que, ou morreu ou foi embora colonizar as estrelas. Só isso justificaria uma múmia mágica maligna morando numa pirâmide, ao mesmo tempo em que há uma tribo de robôs fofinhos com cara de ursinhos vivendo em outra parte do planeta. 

Sem mencionar outros detalhes que agora eu não lembro de cabeça. O que você acha?

Ele já era bem medonho, e a dublagem brasileira do Silvio Navas era tipo a cerejinha do bolo da “sinistragem” do personagem!

– Mas e aí, tio Kadu? O desenho era bom, ou não era?

Olha, eu tenho que dar o braço a torcer e dizer que: mais ou menos. Como eu disse no início da coluna, a gente aqui brinca na memória afetiva e com os óculos cor-de-rosa da nostalgia. Nós associamos o desenho a uma parte da nossa vida que era imensamente mais simples: sem boletos, sem chefe pau-no-cu, sem engarrafamento. E sob esse aspecto, até mesmo as lições de moral cagarregras no fim de cada episódio parecem muito bacanas. Acontece que nos desenhos de hoje em dia, muitas dessas lições de moral ficam diluídas no meio da narrativa e a gente (ou a criançada atual) tem que se dar ao trabalho de pensar sobre o assunto! Olha que labuta?! Mas sabe, na nossa época, a gente tinha que ver um episódio inteiro do Tygra fazendo merda, traindo os Thundercats e basicamente jogando sua vida fora por causa de uma fruta, como no episódio do Jardim das Delícias. Repara bem, o cara tava que nem cracudo na mão do Mumm-Ra só para no final ele vir dar um aviso sobre drogas, sabe? Muito tatibitate.

Além disso, as próprias lições mudam de tempos em tempos e além de ter que raciocinar em cima dos ensinanentos de um episódio, ainda temos que aturar um bando de marmanjos reclamando que tem, sei lá, “minoria demais” num desenho, ou que “agora todo mundo tem a mesma cara de Steven Universo”, etc. etc. Claro, ainda temos que enfrentar problemas relacionados ao abuso de drogas ou a camada de ozônio, mas ao mesmo tempo, também temos outras lutas ou avisos importantes que não prestávamos atenção 30 anos atrás. O mundo muda, e as lições de moral também.

Winners don’t do drugs, kids! Hahahahahaha! *FIM*

Pode ser até que a trama de alguns episódios fossem bem amarradas e, pelo que me consta, a primeira temporada era bem coesa. Mas garanto que se a gente sentar pra ver todos os episódios um a um, vai rolar uma decepção. Confesso que ainda não me atrevi a rever os de Thundercats justamente porque fiz isso com He-Man e preferiria não ter feito.

Mas olha aí a oportunidade de ouro! O Thundercats original entrou no catálogo da HBO Max recentemente (em junho de 2022) e você finalmente tem a chance de rever essa maravilha com a dublagem original da Herbert Richers!!! Depois de rever o primeiro episódio, achei que algumas partes do desenho ainda se sustentam bem, mesmo depois de 36 anos de sua primeira exibição. Ainda é estranho ver um desenho levar cerca de meia hora para contar uma história (hoje em dia a maioria fica ali na casa dos 11-18 minutos), e também em formato quadrado e não widescreen, mas é uma boa nostalgia. Meu filho de 5 anos assistiu comigo e ficou intrigado, então há boas chances de continuarmos assistindo juntos.

Tô LendoPontos Fortes
  • A trama. Parece que estou deliberadamente fazendo pouco do desenho, mas nem é. Eu acho que ele tem muito mais pontos fortes do que ruins. Um dele é a trama. O bem vs o mal num planeta isolado, um vilão assustador, a extinção de uma raça, as forças místicas do além-vida (como o Jaga…).
  • A música. Catando alguns episódios soltos pelo Youtube, a memória musical da série veio a toda! As músicas incidentais de ação, de momentos calmos eram bem maneiras.
  • A Animação. Pelo menos nos primeiros episódios e em algumas cenas de ação espaçadas. A impressão que eu tenho é que a qualidade caiu um bocado da primeira já pra segunda temporada.
  • Os personagens. Mesmo com aquela impressão de terem sido criados no susto, eles são construídos em arquétipos bem conhecidos. Fazendo deles personagens clássicos logo a primeira vista! Como em muitos outros desenhos até hoje, temos bem estabelecidos quem é o líder, o certinho, o inventor, a corajosa, os arteiros, o covarde e o sábio. Isso facilitava até as brincadeiras porque mesmo que muitos quisessem ser o Lion, sempre tinha aquele que curtia mais ser o Tygra ou o Panthro (eu!).
Tô LendoPontos Fuén
  • O final. Fui ler sobre o final da série, que eu nunca vi. E ela termina com um maldito final aberto! A falta de comprometimento da falta de comprometimento! Um abuso essa série durar tanto tempo pra acabar sem final. E a gente ainda reclama de Caverna do Dragão!
  • A qualidade da animação. O desenho passou por vários estúdios desde a sua concepção. Terminou nas mãos da Warner Brothers que desde então vem tentando emplacar algo com a série. Como a primeira temporada teve 65 episódios, todas as outras ficaram na casa dos 20-e-poucos e eu imagino que eles devem ter economizado um bocado. Lembro em específico do desenho ter ficado bem pior na época dos Lunatacs. E por falar nisso…
  • Os Lunatacs. Eu odiava os Lunatacs. Depois do Mumm-Ra não tinha como ter um vilão mais fodão, né?

Em 2011, o próprio Cartoon Network tentou um reboot que começou meio morno, mas que eu achava que tinha tudo pra dar certo. Ele tinha um traço meio Avatar – A Lenda de Aang, deram uma repaginada na história dos personagens, mas infelizmente não vendeu brinquedo o suficiente e foi pro saco! Lembro também de algumas edições de quadrinhos foram lançadas em 2002 pela Wildstorm/DC Comics, com desenhos de Ed Benes e Ed McGuinnes.

Não sei… eu tô me sentindo meio… sujo… de colocar isso aqui.

Sabe do que mais? Eu acho que apesar das liçõezinhas de moral e do conflito sem “escalas de cinza” o desenho até sustenta bem! Como eu mencionei, a primeira temporada é enorme e bem coesa e se você quiser curtir de novo, foi relançado várias vezes em DVD lá fora. Por aqui mesmo, pra matar a saudade com as vozes do Newton da Matta, Silvio Navas e do Francisco Barbosa (ele mesmo, o locutor de rádio que minha mãe ouvia de tarde na Rádio Globo AM) você pode ir no Youtube com vídeos de qualidade duvidosa, ou na HBO Max (quem me dera isso aqui ser publi).

Ainda assim, não me vejo surpreendido pelo tal novo desenho do Cartoon Network. Acho que a gente pode curtir as coisas da nossa época, mas não dá pra exigir que a molecada curta as mesmas coisas. Até porque, eles vão ter inspirações diferentes, referências diferentes, para que eles mesmo, no futuro, possam criar suas próprias versões das coisas que assistem hoje. Conheço vários pais que curtem ver Jovens Titãs em Ação junto com seus pequenos. Eu curto ver Transformers: Robots in Disguise com o meu sobrinho. Eu morro um pouco por dentro sempre que vejo o Bumblebee como um Camaro e não um Fusquinha? Morro. Mas quer saber? Ele curte. E eu curto curtir o desenho com ele.

HOOOOOOOOOOOOOOOOO!

Inclusive, quando meu sobrinho tinha 5 anos, veio me perguntar uma vez: “Tio Kadu, você conhece os Thundercats?” Cara, meu olho brilhou e eu respondi: “Guri, tu não faz ideia!” E fomos pro Youtube! Ele se amarrou! *chuif*

Então, deixa o desenho novo pra lá. Você tem todo o direito de não curtir (ou até de curtir, quem sabe?). Mas fica a lembrança de que sua infância não está sendo destruída ou apagada! O desenho antigo ainda tá lá, os reboots, os gibis e se bobear os seus bonecos também! Não tem nada mal em curtir de novo, então vamos deixar os desenhos novos pra nova geração, não é mesmo? Mas vou deixar a melhor colocação sobre essa questão, que passou em um outro desenho super injustiçado também: o encontro entre os Jovens Titãs em Ação e os Thundercats Roar!


Em homenagem a falta de comprometimento do desenho, vou deixar essa Rebobinada em aberto! Quantas Rebobinadas você acha que Thundercats merece? De verdade?

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.