Rebobinando #32

Era uma vez um grupo de mutantes adolescentes treinados por um cara careca que se chamavam X-men. Um dia veio um outro grupo de adolescentes e um cara de mais de 100 anos e pegaram esse nome pra eles. Aí eles viraram o X-Factor e foram ser juízes de um concurso de música. Depois veio ainda outro grupo de adolescentes, mas eles inventaram o próprio nome, os Novos Mutantes (sem Caetano, Gil e Rita Lee). Aí o cara careca sumiu, e o arqui-inimigo do primeiro grupo começou a treiná-los. Aí esse cara sumiu. Aí o filho de um dos caras do primeiro grupo veio do futuro para impedir outro arqui-inimigo do primeiro e segundo grupos e passou a treinar o terceiro grupo. Mas o pior de tudo mesmo foi que eles saíram das mãos de gente como Chris Claremont, Louise Simonson e Bret Blevins e foram pras mãos de Rob Liefeld e… bem… Rob Liefeld. Pois é. Hoje a Rebobinando fala de X-Force!

Quadrinhos, né? Essa confusão toda aí em cima foi só pra explicar mais ou menos o caminho de um dos gibis mais deixados de lado pelos leitores no fim dos anos 80 para o estrelato do início dos anos 90! A edição #1 de X-Force é até hoje o segundo gibi mais vendido nos EUA, com 5 milhões de cópias. Ela fica atrás apenas da famosa edição de X-men pelas mãos de Jim Lee, que vendeu 8 milhões. Tudo graças, por incrível que pareça, ao enorme talento de Rob Liefeld!

Tipo, por incrível que pareça mesmo! Porque eu até hoje não entendo como esse cara ainda tem trabalho.

Até hoje não entendo como o Cable passa pelas portas…

Juro. Não entendo. Podem até mandar comentários raivosos aqui pra mim, mas eu detesto esse cara e praticamente tudo que ele produziu até hoje. De verdade. Foi um martírio reler as edições de X-Force para escrever essa coluna de hoje para vocês.

Pra vocês verem como eu gosto de vocês.

Não sei nem por onde começar pra falar do Shatterstar. Arrr.

Enfim.

Gostando ou não, Liefeld foi uma revolução na indústria durante o início dos anos 90, junto com aquela boa turma que a gente bem sabe quem é: Todd McFarlane, Jim Lee, Erik Larsen e cia. E bem ou mal, essa quebra de padrão que era o “Marvel Way” de desenhar foi o responsável pelo aumento absurdo de vendas de todos os gibis em que esse povo todo estava envolvido. Já as histórias, como já comprovamos com o Aranha do tio Todd, não eram lá grandes coisas. Tanto que na Image, os personagens de maior sucesso como Spawn, Youngblood e Wild C.A.T.s, só ganharam profundidade mesmo na mão de escritores mais competentes.

E olha, dá pra sentir bem, ao reler essa fase dos Novos Mutantes/X-Force. Quando Liefeld entrou na equipe criativa do gibi, ele ainda era escrito por Lousie Simonson. O crossover da época era o maneiríssimo Atos de Vingança, onde os grandes vilões da editora resolveram fazer um “troca-troca” de heróis e pegá-los desprevenidos. Nessa época também estava ocorrendo uma saga do X-Factor chamada Dias do Futuro Presente, que além de reunir os Novos Mutantes, reuniu também o Quarteto Fantástico numa aventura pelo tempo! As histórias tinham um começo, meio e fim, e os diálogos faziam sentido e avançavam a história, mas já dava pra ver a influência de Rob com a apresentação do “Soldado Desconhecido”, Cable.

Os dois melhores poderes mutantes: Trabuco e Braço Biônico!

E aí que a coisa desanda. Rob Liefeld introduz uma nova equipe de vilões de uniformes horríveis, chamada Frente de Liberação Mutante. Uma organização terrorista liderada pelo vilão Conflyto! Cable surge como uma espécie de “lenda” para todos aqueles que possuem um mínimo de background militar nas histórias, mas ainda assim age como um soldado desgarrado que segue as próprias regras. Com um braço biônico, que ele dá a entender que construiu por conta própria, dá para notar desde o princípio que tudo aquilo que hoje nós já conhecemos sobre o Cable não era nada do que o criador tinha originalmente em mente.

Lembro até de rolar até uma piada na época em que muitos leitores diziam que ter um braço biônico não configura um poder mutante, então o Rob Liefeld meteu um pacote básico de telecinese no herói algumas edições depois.

A X-Force.

Na reta final de Novos Mutantes, Liefeld assumiu as rédeas do enredo e desenhos, com Fabian Nicieza escrevendo os diálogos e a parceria seguiu até a concepção da nova equipe. Por conta disso, ambos assinam a criação de personagens que permanecem até hoje no universo mutante da Marvel, entre eles Deadpool e Dominó.

Aqui no Brasil, a estréia da equipe se deu em X-men #78, publicada em 1995. Os personagens centrais da trama já tinham sido apresentados em edições anteriores, mas eu lembro de sempre estar meio perdido quando eu lia essas histórias. No mix que vinha na revista, obviamente, as histórias do Jim Lee chamavam mais a minha atenção. Lembro que na época eu tinha uma vaga memória de quem eram esses Novos Mutantes e Cable por conta de Programa de Extermínio, mas eu achava os desenhos tão, mas tão ruins, que confesso que normalmente eu pulava essas histórias.

Claro que naquele tempo eu já sacava que eram artistas diferentes desenhando, mas eu não conseguia entender como é que todo mundo desenhado pelo Liefeld conseguia enxergar com aqueles olhinhos fechados e apertados! Ou porque ele desenhava umas sombras escrotas na cara dos personagens mesmo que estivesse o maior sol.

Não sei se é sol forte, ou se todo mundo fecha o olhinho pra parecer “mais malvado”…

Relendo (e pulando) algumas partes das histórias dessa época, eu fico feliz que não perdi muito do meu tempo lendo essas histórias. Porque todas são uma chuva de clichês ambulantes! Cable é retratado como um veterano de guerra à la Arnold Schwarzenegger, conhecido por qualquer um que tenha uma patente, mas misterioso. Dominó também é uma soldado misteriosa (lembro de nunca saber qual o poder dela, até alguém me dizer que era basicamente o mesmo do Longshot). Deadpool surge como uma espécie de cruza entre Homem-Aranha e Exterminador. E não havia apenas um “vilão misterioso”, mas dois! Mr. Tolliver e Conflyto. E muitos, mas muuuuitos personagens com círculos ovais nos olhos!

Inclusive, esse lance dos círculos ovais é uma das histórias de bastidores mais maneiras que eu já vi nesse mundo de quadrinhos. Reza a lenda que na criação do Deadpool, além de chupar muito feio a idéia do Exterminador, vilão dos Jovens Titãs, Rob também resolveu uma espécie de “rinha” com seu amigo queridão Todd McFarlane. De acordo com essa história (link), tio Todd brincou que enquanto ele “só precisava desenhar um círculo com duas bolas no lugar dos olhos”, Rob precisava “desenhar páginas inteiras com sete adolescentes com o rosto aparecendo, sem máscaras”. Tanto que assim que Deadpool surgiu nas páginas do gibi, Rob se vingou dizendo que pelo menos “o meu homem-aranha tem pistolas e katanas!”

Bolinhas nos olhos! Tudo culpa do tio Todd!

Como dizem que tudo que é bom dura pouco, neste caso, bom… não foi o caso. Rob acabou largando os desenhos da X-Force por volta da edição #9, que aqui no Brasil saiu em X-men #85. E saiu de vez dos roteiros (e da Marvel) na edição #12 americana, e X-men #88 no Brasil em 1996. Logo após essas edições brasileiras, a Abril lançou aqui X-men Gigante #1, e logo em seguida  X-Force Especial, reunindo várias edições da equipe pelas mãos bem mais competentes do Fabian Nicieza, que continuou, e do maravilhoso Greg Capullo!

X-men Gigante #1 reuniu o arco de histórias A Canção do Carrasco, que explicava parte do passado de Cable e sua ligação com Ciclope, Jean e o vilão Apocalipse. Mas isso fica pra outra Rebobinando!

Tô LendoPontos Fortes
  • Evolução. Prum gibi que se gaba de tratar da evolução das espécies, era meio chato deixar seus heróis eternamente no mesmo status quo. A última mudança significativa nos Mutantes tinha rolado em meados dos anos 80, com a Queda dos Mutantes. O Programa de Extermínio e a completa reformulação das Equipes X no início dos anos 90 deu um revamp mais do que necessário aos mutantes.
  • Personagens Carismáticos. Não dá pra argumentar contra a criação de Cable e Deadpool. Muita gente pode achar que eles são clichês ambulantes com bolsos ambulantes, mas é inegável que hoje em dia eles mais do que garantiram seus lugares no rol de heróis da Marvel. E graças a outros roteiristas, muito mais personalidade do que só um cara de trabuco e um assassino piadista.
Tô LendoPontos Meh
  • Rob Liefeld. Eu não vou pegar mais no pé do cara, só vou deixar aqui um link com os 40 piores desenhos do cara, analisados um a um por alguém com muito mais tempo do que eu. Infelizmente, é só pra quem lê em inglês.
  • Uniformes. Cara. É cada uniforme feio que eu vou te contar, viu?
  • Plot vazio. É um tal de “invadir instalação” pra cá, “invadir instalação” pra lá. Que eu não sei de onde saem tantas instalações assim?! Em algum momento essas instalações devem ter acabado e eles foram invadir um museu, sei lá?! Também é um tal de “quebrar mandíbula” que em praticamente toda edição tinha alguém tomando um chute na cara e depois dizendo “ain cara, cê quebrou minha mandíbula, durr durr”.
  • Rob Liefeld. Desculpa gente, mas aqui tá outro link pra MAIS 40 dos piores desenhos desse cara. Divirtam-se.
  • Shatterstar. Que porra de personagem era o Shatterstar, cara? Filho do Longshot? A vá pa pu#$&%*@&#$¨%$. O poder mutante dele era SOLTAR RAIO DA ESPADA, CARA! E se ele estivesse sem espada? Afff…!

A X-Force por Greg Capullo, só pra dar um refresco pros seus olhos…

Enfim, não acho que seja incrivelmente difícil achar os gibis dessa época num sebo, se você estiver muuuuito afim. Também não recomendo, nem acho que valha a pena. Tem uns encadernados americanos que você pode achar na Amazon, mas se você só estiver afim de saber mais sobre o Deadpool, sugiro buscar os vários encadernados da Panini com os arcos de histórias do próprio Nicieza que são bem mais legais.

Nem peço pra Panini relançar essa fase da X-Force porque esse tipo de praga não se joga nas pessoas! X-Force clássica vale só uma rebobinando. 📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2018-05-14T00:31:30+00:00 14 de maio de 2018|9 Comentários
  • Putz, sabe que quando era mais novo eu curti o trabalho do Liefeld, não sei se era pelo que ele desenhava e menos por como ele desenhava, mas isso ai me marcou bem. Era como se fosse o jeito dele, não que fosse ruim… não sei explicar.

    A coluna de hoje não podia ser em melhor momento do que na semana da chegada de Deadpool 2 aos cinemas. Show!

    • Confesso que na época eu achava “estranho”, mas não conseguia apontar exatamente qual o meu incômodo com a arte do cara. Mas foi como eu disse no twitter esses dias… Ele parece um cara que sabe desenhar, mas que enche os desenhos de tanto detalhe que ele cansa no meio e termina de qualquer jeito.

      Relendo algumas edições eu pude notar que a cada gibi tinha umas duas splash pages do caralho e o resto era tudo meio lixo. Se ele só se deciasse às capas e ao enredo, talvez essa fase tivesse sido mais interessante.

  • Jean Carlos

    Opa formatinho e comigo mesmo Kadu, esse eu to atras pelos sebos, de X-Force eu tenho Grandes Herois Marvel nº 54.Mandou bem mais uma vez na Rebobinada.

    • Cara, uma dica pra você achar melhor o que você estiver procurando, acho que vc já deve conhecer, é o site Guia dos Quadrinhos. Ele me ajuda muito aqui na Rebobinando pra encontrar as capas e os números das edições antigas queu falo aqui. http://www.guiadosquadrinhos.com/

      • Jean Carlos

        Obrigado Kadu, eu já tenho um cadastro lá e realmente me ajuda muito pra encontrar as edições mais antigas.

  • Carlos Tenorio

    Quando li essas histórias em 95 eu achava legal. Até os desenhos do Rob eu gostava. Era “bom”. Ele só não evoluiu desde então. Era diferente do que tinha na época. E sobre a X-Force acho que vc fez parecer pior do que era. Foi legal acompanhar a mudança da equipe de Novos mutantes para X-force. Missil, mancha solar, Dinamite… Talvez seja memórias afetivas… Kkk.. mas eu achava bom pra caralho!

    • Cara, eu não curtia muito os Novos Mutantes, confesso. Então pra mim a X-Force era meio qualquer coisa. Eu não lembrava muito bem, então fui reler algumas edições pra escrever a coluna e, pô achei bem ruim. Mas aí é o olhar que eu tenho hoje em dia.

      Por exemplo, Programa de Extermínio, se você olhar atentamente tb não é láááá essas coisas, mas eu curto bem mais.

      Memória afetiva prega essas peças na gente, haha.

  • Léquinho Maniezo

    Os personagens do Liefeld não tem uma puta cara de que aplicaram botox? É sempre um nariz fininho, a cara toda repuxada… puta me da um ódio essa merda. Isso sem contar a anatomia SENSACIONAL que ele fazia. Que vontade de morrer cara… porra Kadu… que vontade de morrer que ce me deu agora.

    • É que ele desenha o mesmo tipo de boca torta em todo mundo cara. Isso quando ele desenha o rosto e não põe umas sombras escrotas que não fazem sentido, pra se poupar de desenhar a sério.

      Eu tb tive uma vontade de morrer ao reler os gibis antigos. Que bom que eu não fui o único, hahahaha.