Rebobinando #30

Jack Flack sempre escapa! Era com esse bordão que o pequenino menino do E.T. terminava suas aventuras num dos filmes de sessão da tarde mais tensos que já existiu! Nesse filme que pouquíssima gente lembra (tal qual Curto Circuito na Rebobinando #2), Elliot… quer dizer, Henry Thomas…, err, Davey enfrentava espiões sinistros e conspirações da Guerra Fria. Hoje a Rebobinando fala de Os Heróis Não Tem Idade!

A sessão da tarde é uma daquelas pérolas da tevê brasileira que acompanha define gerações e gerações através de seus filmes repetidos à exaustão, sabe? Enquanto hoje em dia as pessoas se deleitam com as reprises de As Branquelas ou De Repente 30, os anos 80 eram repletos de “kid flicks”. Que nada mais são do que aqueles filmes de aventuras em que crianças são as protagonistas inesperadas de uma trama de aventuras e perigos, muitas vezes beirando a morte na mão de criminosos ou monstros horríveis. Você sabe. Você lembra. Todo mundo aqui já deve ter visto Goonies, A Hora do Espanto, Deu a Louca nos Monstros (argh que nome horrível), Garotos Perdidos

E se você não viu, veste o manto da suspensão de descrença e pede pros seus pais para colocarem AGORA na tevê!

Walkie Talkies eram “A” grande solução pra época pré-smartphones. Você sabe. Você já viu Stranger Things!

E é aquele negócio, né? A gente morre de medo de reassistir os clássicos da infância e tirando um Indiana Jones aqui, um E.T. ali, em geral essa experiência nunca é muito boa, sabe? E Os Heróis não tem Idade quase cai nessa categoria. Quase. Tudo porque é um filme antigo e ele acaba não sendo muito primoroso em questão de ritmo, ou cenas de ação. É tudo meio estático, com uns diálogos meio padrão, e um roteiro rápido. Também pudera, ele é de uma era em que dava pra se contar tudo em 1h40m de filme, super curto pros padrões atuais. Mas apesar de ser meio lá meio cá em termos de ritmo, o filme tem um lado super tenso. Muito mais até do que os que eu mencionei mais acima! Porque mesmo enfrentando vampiros, ou bandidos atrapalhados, o perigo fica menos “real” do que o enfrentado pelo protagonista aqui.

Inclusive, o tema do filme acaba girando em torno das “diversões violentas” que encantam muitos garotos enquanto jovens e em como essa violência, quando chega na vida real, é algo apavorante. O protagonista tem que agir como um verdadeiro espião, porque se ele não se safar ele morre. De verdade. Claro que a suspensão de descrença rola alta aqui porque não é possível que espiões altamente treinados errem tantos tiros assim, mas ei? Se eles erram o James Bond, porque não o menininho do E.T.?

ATIREM ENTRE AS BARRAS, GENTE! PELAMORDEDEOS!

A história.

Antes de mais nada, só um adendo. O nome do filme no original, em inglês, é Cloak and Dagger. Em português o termo se traduz literalmente como “capa e adaga” (ou “manto e adaga”, pros marvetes espalhado por aí), mas se refere aos livros com tramas de espiões, por conta de disfarces e segredos, já que a “capa” oculta a pessoa e a “adaga” é uma arma fácil de esconder… enfim. Aqui no Brasil o termo mais aproximado seria o “Capa e Espada”, mas ele se refere apenas à histórias de cavaleiros medievais, ou piratas e outros elementos de fantasia.

Se os planos secretos não aparecerem, é só assoprar que funciona!

Sabendo disso, e lembrando que o filme é de 1984, acaba que não é nenhuma surpresa saber que ele usa o finzinho da Guerra Fria como pano de fundo. Davey (interpretado por Henry Thomas) é o típico garoto nerd, fã de videogames e RPG com bonequinhos. Ele é super amigo de sua vizinha, Kim e do nerdão dono da loja de videogame Morris. Davey é super imaginativo e possui uma espécie de “personal herói”, seu amigo imaginário, o espião Jack Flack.

A trama começa por um mero acaso. Como na época não havia internet, Morris pede a Davey e Kim para irem até a empresa de jogos mais próxima para pegar o catálogo de jogos do mês (uau). Chegando no prédio, ainda brincando de espião, o menino acaba testemunhando um assassinato no mesmo andar da empresa de jogos. Um dos engenheiros, quase morto, encontra Davey e pede que ele guarde uma fita de videogame do jogo “Cloak & Dagger” (rola os créditos) e comunique ao FBI.

Será que dá pra baixar na Steam? Com pacotinho vintage?

Assustado, ele foge logo depois que os espiões o veem descendo pelas escadas de incêndio. Ele tenta avisar à polícia, mas como os caras limparam seus rastros, fica parecendo que foi só uma “brincadeira de criança”. Já em casa, encontramos o pai de Davey, o sr. Hal Osborne. A brincadeira cinematográfica aqui é que, além dele ser capitão da aeronáutica, o personagem é interpretado pelo ator Dabney Coleman, que também faz o amigo imaginário Jack Flack. Ou seja, é um prato feito para todas as análises psicológicas de relações de paternidade idealizada pelas crianças.

O lance é que a tal fita de videogame (de Atari, pra você ver) contém planos secretos de um avião stealth da Força Aérea americana. Se você alcançar uma determinada pontuação no jogo, um chip extra no cartucho libera o acesso aos planos. Morris, o amigo nerdão acaba descobrindo isso sem querer e paga com a própria vida. Enquanto isso, Davey tem que lidar sozinho com o sequestro de sua vizinha e com o fato de ter caras armados literalmente atirando nele no meio da rua. Não consigo imaginar esse filme acontecendo hoje em dia nesse “Estado de Observação Constante” que vivemos.

Os planos secretos em 1984 parecem com o protetor de tela domeu PC em 1996.

O filme acaba ficando mais sério nessa temática de “crescer e deixar pra trás as brincadeiras de infância” do meio pro final do filme. Fugindo de dois espiões pelo meio do parque da cidade, Davey faz com que um deles mate o outro por acidente. Ele acaba acuado pelo espião que sobrou e, num determinado momento, saca uma arma de verdade (roubada do cara que acabou de morrer). O bandido acredita que é uma pistola de tinta e não leva o garoto a sério, algo que se prova fatal quando Davey puxa o gatilho para “proteger” a vida de seu amigo imaginário.

Sim, é isso mesmo. Esse é um filme onde a criança protagonista MATA uma pessoa. Tudo bem que era legítima defesa e o cara estava prometendo torturar um garoto de doze anos com requintes de crueldade, mas ainda assim…

Impressionante como o garoto mata um bandido e nada acontece feijoada.

Depois de um plot twist até bacana, Davey consegue impedir os espiões de fugir com o jogo e ainda é salvo pelo próprio pai, que descobre que o garoto estava contando a verdade desde o início. Os quinze minutos finais acabam sendo meio corridos, mas se levar em consideração que o filme inteiro é bastante lento, parece que compensa. Sem contar o uso mais arrastado do plot da bomba-relógio queu já vi na vida.

Tô LendoPontos Fortes
  • A trama é bem bacana, e como o próprio nome original sugere, é bem “espionesca” mesmo. Com troca de reféns, fugas inteligentes e plot twists bem sacados.
  • O ator-mirim. Não consigo deixar de imaginar que o Henry Thomas era um ator muito melhor do que o filme exigia. Nas cenas finais o garoto canaliza sua melhor cara de choro em E.T. e parece um desbunde frente a quase todos os outros atores do filme. Não consigo entender como ele não seguiu em frente com a carreira.
  • Coming of Age. É a típica trama de crescimento pessoal também. Spielberg faria algo mais literal em Hook. Quero Ser Grande também trabalhou isso de um jeito mais comédia, enfim, não é nada novo. Mas eu acho maneiro o filme se levar tão a sério porque vende melhor a idéia de que ele passou por uma situação tão perigosa.
  • É filme de pai. Mesmo antes d’eu me tornar pai, eu já tinha um fraco por filmes assim. São meio bregas, mas eu adoro.
Tô LendoPontos Fuén
  • Efeitos especiais. É aquele negócio: meados dos anos 80, filme de criança e baixo orçamento. Não tem como ser um troço genial nos efeitos, infelizmente.
  • Parte técnica. Como eu disse antes, ele acaba não sendo muito primoroso nas cenas de ação, ou na edição, apesar de algumas boas idéias utilizadas aqui e ali. O filme é meio lento e tudo parece ser meio de baixo orçamento, o que pode comprometer para algumas pessoas.
  • Idade. Muito embora os heróis não tenham idade, esse filme tem. E muita. Só isso deve ajudar a espantar parte de uma galerinha mais afeita ao frenesi dos filmes de hoje em dia. Apesar de ser bem curto, as coisas levam tempo para acontecer, o que pode entediar alguns pequenos (e adultos também, porque não?).

Me diz se esse garoto não era melhor que o elenco inteiro do filme (em especial da garotinha que faz a vizinha)?

A Rebobinando trabalha na nostalgia e eu tô sempre levando esse fator em consideração. Tanto que raramente eu tenho alguma coisa aqui que valha menos do que três pontos na Escala Rebobinando de Nostalgias Nostálgicas. Esse era um filme que eu curtia muito quando pequeno e bateu uma sensaçãozinha boa ao revê-lo pra escrever aqui, mas eu não consigo deixar de lado a sensação de que muitos de vocês provavelmente vão achá-lo meio chato.

Vou ficar no meio do caminho e classificar com três rebobinandos 📼📼📼 (apesar de que, pessoalmente, eu daria uns quatro e meio mesmo)!

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2018-04-30T12:53:10+00:00 30 de abril de 2018|9 Comentários
  • Kadu está revirando aquele sótão cheio de poeira que não sei nem lavando. Foda!
    Tenho medo de rever esse filme, vou deixar na lembrança mesmo e ficar com as 4 rebobinadas.
    Valeu Kadu

    • Hahaha. Na dúvida é bom deixar na memória mesmo. Eu ainda curto, mesmo notando todos os problemas.

  • José Leonardo

    Eu dublei esse filme quando era criança… Fiz o Eliot… Digo, o garotinho do filme, que antes tinha feito o Eliot

    • Bruno Messias

      Que maneiro!!!

    • Caraca, Zeleo Você FEZ PARTE DA MINHA INFÂNCIA! Hahahah

  • Bruno Messias

    Eu adorava esse filme! Entrei pra valer na onda, lembro que criei até um alfabeto cifrado que usava nas minhas brincadeiras de espião. Aí achei o DVD nas Lojas Americanas e comprei amarradão pra ver com meu filho! Putz, que decepção, ele não aguentou
    assistir até o final…

    O filme é lento mesmo. Mas as implicações psicológicas do garoto com pai ausente realmente ainda estão todas lá. Excelente rebobinada!

    PS.: a cena da explosão, no fim do filme, é do mesmo nível técnico dos “aerolitos” do Chapolim.

    • Hehe. Cara, eu acabei de ter um filho e estou montando uma lista mental do que é queu posso mostrar pra ele em qual idade pra ver se ele curte.

      Mas esse aí, infelizmente, eu acho que não vinga mesmo não.

      Apesar disso, vou confessar que estou mega feliz em saber que tem mais gente por aí que ainda curte esse filme! No Twitter eu tive TRÊS respostas positivas!

      (é que pouca gente me segue, então três é um número alto)

  • Jean Carlos

    Boa rebobinada Kadu, eu já tinha até esquecido desse filme, é bom relembrar.

    • Ainda curto muito. Mas se vc estiver na dúvida é melhor fazer que nem o Tibério e deixar na memória mesmo. 😉