Rebobinando #29

Chegou o dia! Nesta semana estreia nos cinemas o filme mais esperado pelo marvetes (e pelos DCnautas também, embora eles nunca admitam) desde aquela famigerada cena pós-créditos dos Vingadores em 2012. E apesar de Vingadores: Guerra Infinita levar o nome de OUTRA saga, a Rebobinando vai falar hoje sobre a qual o filme se baseia livremente (ênfase no “livremente”). Hoje é dia de Desafio Infinito! Vem comigo!

O ano é 1995. O gibi é formatinho. E na banca perto do trabalho do meu pai eu vejo uma capa com vários heróis estampados. Entre eles, claro, me chama a atenção a presença do Homem-Aranha, do Wolverine e de um cara loiro de pele laranja.

Adam WarTrump.

DEUS ME LIVRE, NÃO!

Eu tô falando daquele queu viria a conhecer como Adam Warlock. Como um bom garoto de 13 anos, fã de Homem-Aranha, eu não fazia ideia do que era aquele gibi chamado Desafio Infinito. Mas se tinha tantos heróis, com certeza deveria ser muito maneiro! Olhando em retrospecto, acho que deve ter sido um dos, senão “O”, meu primeiro crossover de verdade! Digo, “de verdade”. Mas me refiro a um que eu acompanhei na época mesmo, comprando os gibis mês a mês.

Por conta do Venom eu fui atrás de Guerras Secretas, que a esta altura do campeonato já havia sido republicada pela abril na Teia do Aranha em 1994. Nessa época, eu estava iniciando em X-men através de Programa de Extermínio e já tinha passado pelos tie-ins de Inferno, outra saga dos mutantes. Mas uma mega saga, MEGA SAGA mesmo? Desafio Infinito foi provavelmente a primeira.

Mal sabia eu que esses “summer events” estavam começando nos EUA com o lançamento desta história e que depois disso, juntar todos os heróis Marvel pra porrada ia virar lugar-comum.

Não há nada que Thanos faça sorrindo que o universo não sofra chorando.

Mas enfim, foi aí que eu fiquei conhecendo o Thanos e sabendo o quanto ele era um dos grandes vilões da editora. E graças também àquelas caixinhas com asteriscos, fiquei sabendo da existência de A Saga de Thanos, minissérie publicada em 1992, também pela Abril. Nela, somos apresentados à nova origem de Adam Warlock, a morte do Capitão Marvel e acompanhamos Thanos em sua busca por poder através do Cubo Cósmico. *ufa*

Originalmente publicada nos EUA de julho a dezembro de 1991, The Infinity Gauntlet (nome original) foi uma minissérie que quebrou barreiras. Trouxe de volta para a Casa das Ideias os talentos de George Pérez (mesmo que por pouco tempo) e do próprio Jim Starlin, afastado desde meados de 70. Lançou para o sucesso o talento de Ron Lim, o primo pobre do Jim Lee, que trabalhava com o próprio Starlin no gibi do Surfista Prateado, que serviu de “esquenta” pro grande evento que foi a minissérie.

Melhores Momentos: Surfista stalkeando a um ano-luz, só pra tentar pegar a manopla no susto!

Criado por Jim Starlin em 1973, Thanos é um personagem complexo. Ele funciona quase como o Horácio e o Mauricio de Sousa, é difícil ver outro escritor escrevendo o personagem melhor que o seu próprio criador. Em uma entrevista ele argumentou que teve a ideia para a criação do vilão em uma aula de psicologia. Fui catar onde possivelmente ele pode ter encontrado isso e achei na Wikipedia o seguinte:

De acordo com Sigmund Freud, os humanos possuem um insitito de vida – que ele apelidou de “Eros” – e um impulso para a morte, que é comumente chamado (apesar de não ser citado pelo próprio Freud) de “Thanatos”. … Tanatologia é o estudo científico e acadêmico da morte sobre os seres humanos.

Ou seja, o próprio nome do vilão é derivado da palavra “morte” em grego. Nada mais justo então que ele seja retratado como o niilista supremo, consorte da própria personificação da Morte no universo Marvel.

Cena Extra: Thanos tenta chamar Dona Morte prum encontro, mas ela continua desinteressada.

Claramente inspirado no trabalho de Deus… digo, Jack Kirby e os Novos Deuses da DC, Starlin esboçou sua primeira idéia de Thanos com uma aparência mais esguia. Segundo ele mesmo, o personagem parecia mais com Metron e sua cadeira. Foi o editor da Marvel na época, Roy Thomas, que o mandou tomar vergonha na cara e dar “uma encorpada” no personagem. Porque já que era pra copiar o trabalho do Kirby, que pelo menos ele copiasse o Darkseid, a única coisa boa dos Novos Deuses! Desde então, Thanos ganhou vida própria e se desenvolveu como um baita personagem. E o resto é história.

E por falar em história…?

Nas páginas de Surfista Prateado os leitores acompanharam a ressurreição de Thanos pela própria Morte para que ele agisse em seu nome em busca de um esperado equilíbrio cósmico no qual havia mais gente viva do que morta no universo. Esperto que só, o Titã convence a Dona Morte de que para tanto ele precisaria de ajuda para reunir as seis jóias do infinito, o que lhe daria um considerável poder e a habilidade de equilibrar a balança.

Cala a boca, Mephisto!

Desafio Infinito nunca foi concebida como uma história pequena. Ela já começa grande! As primeiras páginas já mostram o vilão com sua Manopla do Infinito completa e recebendo conselhos de ninguém menos do que Mephisto! E se o fato de que Senhor dos Infernos agindo como um lacaio lambe-botas não é motivo suficiente para você temer o que vem por aí…

É porque você provavelmente só lê DC e está errado.

Thanos, com sua recém-alcançada divindade, faz de tudo para chamar atenção daquela que ele ama, e durante as primeiras edições da minissérie parece que muita coisa não se desenvolve além dele demonstrar poder e ser rejeitado, demonstrar poder e ser rejeitado. Guardadas as devidas proporções ele acaba parecendo aquele amigo chato que é afim da garota bonita do grupo e faz de um tudo para chamar a atenção dela, sem sucesso.

TOOOOOOOOCOOO!

E todos sabemos como isso termina, né? A cada rejeição, Thanos vai aumentando o nível de merda cósmica que ele se propõe a fazer em nome do amor, até o último ato. O de sacrificar literalmente metade das vidas no universo. É nessa que os heróis da Marvel entram, graças a intervenção do Surfista Prateado e de Adam Warlock. Os dois surgem em momentos diferentes no Sanctum Sanctorum do Doutor Estranho e alertam todos os heróis restantes do perigo que é ter Thanos como Deus!

E é aí que mora toda a graça da saga!

MEUA MIGO! Se metade das coisas que acontecem nessa história acontecessem de fato no filme, ia era faltar Tarantino em Hollywood pra tanto massacre! Não que a história tenha litros de sangue, nem tem, mas as batalhas são épicas! No sentido real da palavra. Não nesse sentido que todos esse jovens-geração-y-topzêra usam hoje em dia. *cof cof cof* #velho

Só pra constar, os caquinhos de vidro entre Thanos e o cadáver do Aranha são o Thor. Os bloquinhos de lego ao lado da cabeça do Homem-de-Ferro são o Nova. O chamuscado fumegante é o Quasar.

A partir da edição #4 americana, que no Brasil foi o final da edição #2, a porradaria come solta e o Titã Louco inclusive dá um “power down” nos seus poderes de deus pra tornar a luta mais “justa” pros heróis e “impressionar” a moça Morte. Ainda assim, todo mundo toma um cacete universal e as baixas são muitas. Logo depois, como se não fosse o suficiente, todas as maiores entidades do universo se unem para derrotar Thanos!

Eternidade, o Vigia, Galactus, os Celestiais, o Tibunal Vivo, toda essa galera overpower chega na grosseria e são sumariamente derrotados. Tudo para, no final, Thanos ser derrotado por sua neta, Nebula, que era praticamente um cadáver vivo. Derrotado, o vilão agora precisa se unir aos poucos (mais ainda) heróis restantes para tentar desarmar a “nova deusa”.

Só gente GRAÚDA! Hein…? Hein?

Numa das melhores cenas de toda a história do vilão, com um bate-papo na cozinha da casa do Doutor Estranho, Adam Warlock o derrota de uma vez por todas, convencendo-o de que ele não vence porque não quer! Por três vezes Thanos teve o poder e o destino do universo nas mãos e por três vezes ele direta, ou indiretamente foi o causador da própria derrota. No fundo, ele sempre abdica de seu poder porque sabe que não é digno dele!

No fim, quem acaba por possuir a Manopla do Infinito é o próprio Adam Warlock que promete usar seu novo status de deus para agir com sabedoria. Thanos não aceita a derrota e usa um dispositivo term nuclear acoplado em seu cinto para suicidar-se. Com tudo terminado, o poder das jóias restaura todo o apocalipse causado pelo Titã apaixonado.

Thanos cuida da sua fazendinha, só esperando a próxima saga.

Acompanhado de Gamora e Pip, o Troll, Adam Warlock se desloca seis meses no futuro, em um planeta desconhecido para encontrar Thanos, o fazendeiro. Num outro bate-papo, Adam busca por conselhos sobre o quê que ele vai fazer com essa tal divindaaaade… (ler em ritmo de pagode por favor)

Tô LendoPontos Fortes
  • A História. Jim Starlin não é pouca merda, não. Se você tiver chance de correr atrás das outras coisas de Thanos que ele escreveu, recomendo fortemente. Pelo menos as coisas mais antigas. Das novas eu confesso que não li quase nada.
  • A arte. George Pérez também não é pouca merda! Detalhista dos infernos, cada splash page das primeiras edições da minissérie são um desbunde! Por conta de contratos e tempo e de um certa infelicidade do desenhista com o roteiro (reza a lenda que ele achava que o Jim Starlin podia contar toda a história em menos páginas), ele acabou tendo que sair antes de terminar a edição #4, onde foi substituído por Ron Lim. Que não é um desbunde, mas manda bem.
  • O massacre. Foi um choque para mim, ver tantos heróis serem derrotados das piores maneiras possíveis num estalar de dedos. Hoje em dia algumas mortes continuam chocantes, mas no geral a batalha é bem maneira.
Tô LendoPontos Meh.
  • O relacionamento. Eu comparei a paixão de Thanos pela Morte como uma paixão de adolescente mais acima e confesso que não me arrependo. Na época em que li, isso passou meio que batido pra mim, mas hoje em dia eu só queria pegar o Thanos pelo braço, falar pra ele “amigo, larga dela que ela não te quer, isso aí não é amor”, fazer um perfil no Tinder pra ele e sair pra beber. Se valoriza, Thanos. Tu é um Titã, cara! Quando você menos esperar você vai encontrar alguém que te ame pelo que você é, com queixo de uva passa e tudo!
  • As continuações. Nós não sabíamos, mas o status de deus de Adam Warlock se provou um problema quando descobrimos que ele precisou se livrar dos seus lados “ruim” e “bom”, que surgiram como vilões nas sagas seguintes: Guerra Infinita e Cruzada Infinita. Não lembro muito bem da última saga, mas lembro achar “Guerra” meio chatinha e confusa. Starlin tinha comentado que escreveu Desafio Infinito como “a última história do Thanos”, e ela acaba bem nesse clima. Como nos quadrinhos nada é pra sempre, óbvio que o trariam de volta de alguma maneira.

Pois bem, no fim, fica só a vontade de ver esta trama retratada nos cinemas. Como de praxe pro MCU, os filmes só carregam os nomes maneiros com histórias completamente diferentes dos gibis que lhes deram origem. Uma pena, porque eu adoraria ver esse lavada de chão que ele dá com os maiores heróis da Terra, e ter um vislumbre das entidades cósmicas mais foderosas do universo Marvel no cinema. Mas de verdade?

Desafio Infinito se sustenta bem. E com gosto. Vale muito a pena tirar aquele pó da estante, abrir aquele baú fechado desde 1999 e pegar os gibis pra reler como preparação pro filme.

Vale infinitas rebobinadas! 📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼 


Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2018-04-23T02:50:23+00:00 23 de abril de 2018|11 Comentários
  • Booooooua, Kadu!
    Eu me lembro que eu ME AMARRAVA no Ron Lim nessa época. Ainda hoje, se eu encontrar um encadernado da fase dele no Surfista, eu tenho pra mim que eu compro. Curita ele com o Drax e o Homem Impossível. Good Times.
    Por outro lado, minhas últimas lembranças do Jim Starlin não são boas: lembro de ter lido Crusada Infinita, Abismo Infinito ou qualquer outra coisa infinita que ele publicou, já pela Panini e foi chaaaaaaaaaato! Meu deus do céu, foi em 2003 mas a impressão que eu tenho é que eu estou lendo isso ATÉ HOJE! (Acho que daí que vem o “infinito” no título…)

    E, pra finalizar, o Tinder do Thanos, seria o THANDER. Onde ele procura as maiores gatas, que seriam conhecidas como THANDER CATS. #TrocadilhoInfinito

    • HAHAHAHAHAHA! No Thander a cada três encontro uma delas é uma gatinha.

      Mas ó, eu curtia muito o Ron Lim em X-men 2099, mas não lembro muito do que ele fez depois disso. Aliás, ainda desenha?

  • Jean Carlos

    Cara, estou querendo comprar a coleção completa mais devido o lançamento do filme os caras estão enfiando a faca no preço, mais estou louco pra ler.

    • Putz, eu vi. Como já não tenho mais as minhas edições antigas fui procurar e vi que a Panini vai lançar um encadernado capa dura caríssimo. Fui procurar pelas edições antigas nos mercados livres da Internet e cheguei a achar gente cobrando QUATROCENTAS PILAS por três gibis formatinho.

      Aí não dá, né?

      • Jean Carlos

        Mercenarios livres!!!!

        • groucho

          mano, o pessoal é sem noção de enfiar a faca nisso (ainda m ais agora com a reedição da panini saindo)
          e a panini me irrita com esse lance de capa dura a preço de livro de arte.

          sem falar que eu nem me interesso pela trilogia. só o desafio é que é legal mesmo. porradaria classica de herois contra um vilão overpower. e mesmo no desafio infinito já tem umas barrigas e uns trechos que cansam.

          no guerra infinita um lance que era legal era o das ‘cópias malvadas’ tinha algumas possibilidades de visuais fantásticos. mas isso rendeu mais uns tie-ins legais (a historia dos novos guerreiros, envolvendo sobretudo o speedball, era bacana) do que uma saga legal. foi mais ou menos o que a marvel fez com novo guerras secretas, a saga foi menos legal do que alguns dos mundos criados, embora poucas histórias tenham realmente se sobressaído

          de cruzada infinita eu nem falo, comprei na época pra completar a coleção, mas é tao esquecivel que acho que nem o starlin lembra o que escreveu,.

          ah, e ron lim fez um bom trabalho tendo que substituir o perez

  • Hugo Carlos

    Li ontem de novo esss saga no site da marvel unlimited, e confesso que gostei mais agora do que quando li o formatinho anos atrás. Thanos e maneiro, mas Warlock e sua turma, na época, eram pra mim só uns malas sem alça.
    Sinceramente achei que o filme não deixa a desejar e gosto que, comparando com os quadrinhos, o filme tenha uma trama mais enxuta.

    • Foi exatamente um dos motivos que levou o George Perez a sair no meio da Saga, aliás. Ele achava que o Starlin tava enrolado muito pra contar a história (e com razão).

      Tambem curti mais a história lendo agora do que na época, confesso.

      • Hugo Carlos

        O Thanos das hq tem um problema que também e comum em outros vilões massavéios como o dr. Destino, por exemplo. A proposta do personagem é tão desbalanceada com o resto de tudo que ocorre, que o fato deles perderem, não faz sentido, ai acaba rolando a enrolação ali no meio e tal. Mesmo assim essas histórias podem ser divertidas

  • Chegando agora por medo de spoilers… hahaha
    Curti as referências entre os quadrinhos e o filme. Bateu um saudosismo forte nessa história depois do cinema, mas confesso que é bem guilty pleasute. Hoje vejo umas coisas como bem bobas, mas na época eu fiquei chocado com o que estava vendo.

    Sabe que eu tenho a edição encadernada em formatinho nacional aqui? Colei uma na outra. Hahaha

    Valeu Kadu

    • Cara, eu nem considero Desafio Infinito tão guilty pleasure assim. Tem umas paradas meio bobas, mas eu acho verdadeiramente boa de ponta a ponta. As continuações, essas sim, acho bem FUÉNs. Apesar de umas coisas maneiras ali no meio, mas são bem esquecíveis.