Rebobinando #26

Prepare-se para ter o rosto derretido! O coração arrancado! A cabeça explodida! Ou simplesmente só morrer de saudades de uma época em que os filmes do Spielberg só eram referências às coisas que ele via e curtia quando era criança, e não referências às próprias referências referenciadas pelas crianças que assistiram seus filmes e ficaram adultas escrevendo uma lista de referências que se passa por livro. Pega o seu chapéu fedora e vem comigo! A Rebobinando de hoje vai falar de Indiana Jones e o Templo da Perdição!

Vai demorar um pouco pra eu dar high-five pra todos, peraí.

Se você é um pequeno ou pequena nerd, acostumado com a facilidade e a quantidade de produtos culturais à sua disposição hoje em dia, fique sabendo que na época dos seus pais (ou tios, ou avós… pode ser da época dos seus avós também) a gente tinha que se agarrar na grade de exibição das TVs abertas. ou então nas locadoras de filmes e, se você fosse bem rico, podia até usar dois videocassetes para gravar seus filmes favoritos. Ou simplesmente copiá-los na exibição da TV, com plim-plim e tudo, junto com aquele comercial da Mesbla, ou da Arapuã.

E os filmes não eram também essa pornografia de referências que vemos atualmente (sim eu estou olhando pra você Ready Player One), e no máximo, dava pra você sacar a referência do próprio histórico do filme, SE você tivesse assistido o outro antes. O que não foi bem o caso aqui.

Digo tudo isso porquê 1) O Templo da Perdição foi o primeiro filme de Indiana Jones que eu assisti; e 2) Assisti na Tela Quente (que, em retrospecto, parece nome de programação adulta do Multishow) numa segunda-feira à noite, só para comentar na escola no dia seguinte. E CARA! Todo mundo assistiu. Foi tipo o equivalente à estreia de Guerra Infinita, sabe?

Tudo isso porque um aluno sortudo da minha turma tinha assistido ao filme antes, na locadora, no cinema, não sei. Só sei que era verdade porque um dia ele chegou no colégio comentando de um filme irado que ele tinha visto, e que a cena mais maneira era a de um cara arrancando o coração de outro e jogando o maluco num poço de lava. Ou seja, não tinha como ser ele ter inventado isso! Então, pouco depois, quando anunciaram que o filme ia passar na TV, ele avisou a todos que era aquele filme irado que ele tinha assistido!

Óbvio que durante algum tempo ele foi a pessoa mais legal da escola, mas eu não lembro mais quem ele era. Ou seja, a fama dura pouco crianças. O que vale são as referências que você carrega no coração!

Ao contrário do que imaginam, o templo da perdição não tem bebida liberada e strippers contorcionistas.

A História.

Pois bem, acredito que você não precise exatamente de um resumão, porque o Templo da Perdição é um daqueles clássicos que todo mundo assiste de novo volta e meia. Ele foi considerado por muitos (e durante muito tempo) o pior dos filmes de Indiana Jones, pelo menos até a chegada de O Reino da Caveira de Cristal. Mas confesso que nunca entendi o porquê. Tudo bem que ele não trata de temas bíblicos, e que é exageradíssimo nas coisas nojentas, mas cara! A cena do banquete e a da sala de espinhos + insetos ficaram marcadas na minha memória infantil por mais tempo que eu gosto de admitir.

Ainda assim, ele é considerado um dos filmes mais dark da franquia, por causa da quantidade de violência gráfica e da atmosfera geral. Afinal de contas, numa mina repleta de trabalho escravo infantil, um culto maligno pratica sacrifícios humanos arrancando os corações de suas vítimas e as queimando vivas. Reza a lenda que ele ficou assim porque tanto Spielberg quanto Lucas estavam passando por divórcios na época e estavam numa bad vibe. Bora pruma terapia, gente? Tio George depois se desculpou dizendo que “como Império Contra-Ataca era um segundo capítulo mais sombrio na trilogia de Star Wars, ele queria que O Templo da Morte fosse parecido”. E sim. O filme originalmente se chamava “o templo da morte”. Vixe!

OLHA. O. CHAMEGO. DESSES DOIS. Eu aumeinto, mas não inveinto!

O curioso é que Kate Capshaw, que interpreta a cantora-fútil-donzela-em-perigo da vez Willie Scott, conheceu e acabou se casando com Steven Spielberg alguns anos depois. Awwww 💕. Além disso, uma das atrizes que fez teste para o papel, mas acabou não conseguindo foi Sharon Stone! Que depois fez o que eu só posso considerar uma paródia de Indiana Jones, sabe? Ela fez aqueles dois filmes do Allan Quartermain: As Minas do Rei Salomão e A Cidade do Ouro Perdido. Sabe porquê eu as considero paródias? Porque foram direto pra Sessão da Tarde, sem passar pela Tela Quente.

O roteiro passou por diversas alterações porque inicialmente, George Lucas queria fazer um filme que se passasse na China. O governo chinês não curtiu muito a ideia de colocar Harrison Ford numa perseguição de motos na muralha da China e vetou. MAS A LARA CROFT, TOMB RAIDER PODE, NÉ? Afe, China. Que falta fazia uns efeitos especiais melhores naquela época.

No fim, a dupla de roteiristas Willard Huyck e Gloria Katz conseguiu agradar a gregos e troianos (respectivamente, Steven Spielberg e George Lucas) e adaptou o enredo de Lucas para o que agora se chamava O Templo da Perdição. Os dois conheciam muito a cultura indiana, mas ainda assim ao entregar o roteiro ficaram com medo, pois achavam que a Índia não ia curtir muito o desenrolar da história. Vendo em retrospecto, dá pra entender bem o porquê.

Obviamente, o governo indiano vetou a filmagem no país. Mas eram os anos 80 e todo mundo (especificamente o George Lucas) estavam cagando e andando pro que a Índia pensava e eles deram um jeito de filmar tudo do jeitinho mais ofensivo que eles queriam. Repleto de estereótipos e juízo de valor sobre divindades indianas. Pelo menos os vilões, o culto de Tugues, tinha base num culto real de bandidos da Índia que datam desde 1300-e-muito.

Curiosidade: É daí que surgiu o termo “thug” que muita gente usa hoje nos EUA se referindo a capangas, criminosos e etc.

O Thug Life original! O que vem depois deles é tudo hipster modinha!

Por um acaso, neste domingo de páscoa um dos canais da TV a cabo estava fazendo uma maratona dos filmes e eu peguei o finalzinho deste. Justamente na maravilhosa cena da ponte suspensa que durante muito tempo foi referência para filmes de aventura. Indiana Jones em si já é uma referência muito mais clássica para muita gente, vamos combinar. Mais até do que os próprios filmes de aventura da década de 30.

Charlton Heston já era Indiana antes de Indiana ser “cool”.

Tô LendoPontos Fortes
  • É divertido. Tem quase duas horas e passa rápido. Ótimo para ver com as crianças.
  • A violência. Calma! Na verdade, na época, o filme foi um dos responsáveis pela criação do famigerado PG-13, a tal classificação indicativa de que crianças abaixo de treze anos devem ir acompanhadas dos pais. Hoje em dia é tudo muito risível, muito embora eu recomende que você assista com as crianças, pq é muito divertido.
  • Tem a cena do carrinho da mina! Outra cena que foi copiada e parodiada ad exaustaum no mundo da cultura pop e uma das que muita gente até hoje associa com o personagem.
  • Mythbusters. Adam e Jamie já testaram se dá pra se salvar de um avião em queda pulando dele num bote salva-vidas. E é até possível! Mas eu não tentaria isso em casa.
Tô LendoPontos FUÉN
  • Os estereótipos. Bom, não dá pra analisar e problematizar tudo o que vemos atualmente, ou não vamos ver nada. Mas eu aprendi que é ok curtir coisas problemáticas contanto que você saiba que elas são problemáticas. Não pra gente, talvez. Mas se você conhecer algum indiano que diga “nossa, acho esse filme horrível”, só aceita. Não tenta convencer o cara do contrário. 😉
  • Efeitos Especiais. Eu particularmente curto ainda mais os efeitos especiais daquela época, porque acho que dá uma datada legal no filme e, sei lá, vejo com carinho certas tosquices de chroma-key. Mas pode ser que você não curta! Eu não acho que isso deveria te impedir de curtir um filme super top como esse jovem nerd™, mas a escolha é sua.
  • A dublagem nova. Isso é pura pequenice minha, mas agora só dá pra achar a versão do filme com a dublagem nova. Nada contra, tem gente que curte, mas eu cresci acostumado com a voz do Júlio Cezar Barreiros, que morreu em 2014. Pra mim é a eterna voz em português do personagem!

Enfim, filmaço. Tá na netflix, então você pode juntar os sobrinhos, sobrinhas, filhos, todo mundo pra fazer um cinemão na sala no final de semana que vem. Churrasco com coração também tá valendo!

Templo da Perdição vale quatro rebobinadas! 📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2018-04-02T20:58:45+00:00 2 de abril de 2018|5 Comentários
  • Jean Carlos

    Agora deu vontade de assistir novamente rsrsrsrs, esse é o efeito que o Rebobinando causa, muito bom Kadu.

    • Opa! Então eu tô fazendo o meu trabalho direito! Hahaha.

  • Bruno Messias

    Quatro rebobinadas, só? Tá, ok, se for pra comparar com a Arca Perdida, pode ser…
    Tempos atrás eu tava pensando: a mocinha desse filme é toda fresca, porque não quer comer a comida nojenta dos caras, nem enfiar a mão num buraco cheio de insetos, certo? Hahaha, que medrosa! Mas… peraí… eu também não faria essas coisas, não. 🙁

    • Hahahahahah. Honestidade é a melhor política! Eu também não. Se dependesse de mim, Indy teria morrido ali mesmo. Mas pô, quatro rebobinadas de cinco ainda é uma boa nota. Eu gosto muito de Templo, tenho todo um carinho especial por ser o primeiro filme do Indiana Jones queu vi. Mas o meu favorito mesmo é A Última Cruzada.

      • Bruno Messias

        Também prefiro a Última Cruzada. Foi o único que vi no cinema (já que não existe um quarto filme…).