Rebobinando #25

Essa saiu literalmente do fundo do baú, com cheirinho de mofo e capa amarelada! Foi o primeiro gibi de “capa dura” que eu comprei, ou o que quer que fosse aquilo que usaram na época! Capa em papel canson, talvez? Mas custava só Cr$ 4.200,00! E eram 130 PÁGINAS INÉDITAS! COM ARTE DE TODD McFARLANE! E O RAPTO DE MARY JANE! É claro que a Rebobinando de hoje é sobre Homem-Aranha Anual #1! Sobe no turbotrenó e vem comigo!

Há muito tempo atrás, um garoto de apenas nove anos tinha comprado seu primeiro gibi de super-heróis na banca em frente ao trabalho do pai. Era uma Teia do Aranha na qual Gwen Stacy estava de volta e mal sabíamos nós na zona que aquilo iria se tornar. Durante quase um ano, todo mês eu ia religiosamente na banca comprar A Teia do Aranha. Achava que se eu acompanhasse as histórias antigas, eu poderia depois acompanhar as histórias mais recentes.

Ledo engano. Ninguém jamais vai conseguir acompanhar todas as histórias. Ao entender isso, me resignei e comecei a comprar também as edições mensais de O Homem-Aranha, loguíssimo após a edição #100, na qual ele casou com Mary Jane (te odeio Quesada). Estava acompanhando aos poucos a mudança na vida de Peter Parker, casado com uma supermodelo (te odeio muito, muito, Quesada), morando num bairro chique de Nova Iorque (antigamente eles escreviam assim, juro) e razoavelmente de bem com a vida. Até a chegada de uma edição ANUAL do gibi em maio de 1992!

A magia do Tio Todd!

Que louco isso? Lembro de alguns amigos intrigados no colégio: “como assim, essa revista só vai sair de novo ano que vem?” (era eu) A gente vivia na base do mês-a-mês, que era meio absurdo um gibi só sair de ano em ano. “Ah, é super normal lá nos Estados Unidos!”, disse um. “O Todd McFarlane nem desenha mais o Homem-Aranha lá, ele desenha um personagem mais maneiro, um cara que veio do inferno, deformado, de capa e correntes e tal”. Fiquei abobalhado com o conhecimento desse meu amigo e pensei “uau, não posso perder então a edição do ano que vem! Nem esse demônio deformado, aí!”

Aos dez anos, eu não sabia porra nenhuma de mix de gibi e que não havia nada de muito especial numa edição anual.

A dura verdade!

Alguém tinha apontado pra mim que na lateral dos gibis brasileiros sempre tinha a numeração das respectivas edições americanas. Homem-Aranha Anual #1 nada mais era do que um conjunto das edições #304-309 de Amazing Spider-Man, publicadas uns quatro anos antes! E você aí reclamando que a Panini leva um ano e pouco pra lançar os gibis aqui no Brasil, hein?

Marvel Editora (???) / Amazing Spider-Man 304/305 (1988) – Homem-Aranha Anual 1/1

Olhando de novo hoje em dia, as histórias eram arcos fechados em duas edições, que não tinham muita relação entre si. Exceto pela trama recorrente que começa apenas como um plano de fundo, mas que culminaria no titular rapto da capa.

A História.

Começa com a mudança do casal Parker para o luxuoso prédio Bedford Towers que tem como dono (síndico?) o milionário Jonathan Caesar. O cara é um grudento de marca maior e fica sempre dando em cima da Mary Jane, mesmo quando Peter está no mesmo recinto. Enquanto isso, Peter está às voltas com o lançamento de um livro de fotos do Aranha, bancado pelo Clarim Diário e pela fome de lucro de J.J. Jameson. Viajando pelos Estados Unidos para promover o seu trabalho e assinar autógrafos, ele acaba se deparando com alguns dos seus vilões de segundo escalão como o Gatuno, o Raposa, o Zumbido, o Treinador e o perigoso Camaleão.

Karma, karma, karma, Chameleon / You come and go / You come and gooo 🎵🎵

Nada muito digno de nota aqui nessas histórias, a não ser algumas boas piadas e o clássico humor do personagem do qual eu confessadamente sinto um pouco de falta ao ler as histórias mais atuais. Pode ser meu lado velho gritando “no meu tempo é que era bom”! Mas cara… eu realmente sinto falta de algumas histórias simples com início, meio e fim, em não mais do que duas ou três edições. NEM TUDO PRECISA SER UMA MEGA SAGA, MARVEL! Ressalto aqui o belíssimo trabalho de tradução e localização do Estúdio Art & Comics (eu sempre acho que as traduções dessa época são do Jotapê Martins, que eu acho sensacionais, mas o crédito na terceira capa não consta o nome dele).

Nada como uma boa referência em um bom português!

No fim, a história sobre o rapto de Mary Jane se resolve muito rápido. É um rapto rápido? Um rápido rapto? Um…  sequestro relâmpago? – Desculpa! – enquanto Peter está sozinho em uma viagem para Detroit, Mary Jane volta de um dia estafante posando para fotos e se depara com o seu apartamento invadido por dois brutamontes e o seu personal stalker, Jonathan Caesar.

O cara, que diga-se de passagem, tem a maior pinta de Hans Gruber, finalmente revela suas funestas intenções e a carrega para uma espécie de quarto do pânico / calabouço pessoal em seu próprio apartamento. Um quarto bem decorado, com uma espécie de “santuário” dedicado à supermodelo, mas à prova de som e com uma minúscula janela à prova de balas. Assustador, né? Ainda mais com essa cara de Hans Gruber, não sei como ninguém reparou que o cara não era flor que se cheire.

Taí um vilão “duro de matar”… hein? Hein?

Mas nada de culpar a vítima aqui. Relendo a história eu fico me imaginando como é que a Mary Jane não desenvolveu um certo pavor ou fobia social depois de ter que lidar não só com os perigos que seu marido enfrentava diariamente, como lidar com esses stalkers que adoravam raptá-la a despeito dela ser a “esposa do Homem-Aranha”. Sério, Caesar foi o primeiro, queu me lembre, mas algum tempo depois ele foi morto por outro stalker dela, na época em que o Erik Larsen desenhava. Isso sem contar no outro que a abduziu por mais de um ano fazendo todos pensarem que ela tinha morrido num acidente aéreo (também te odeio por isso, Byrne).

No fim, temos a apresentação de uma dupla de vilões que tinha até um potencial para serem “vilões de galeria”, mas nunca mais os vi serem bem aproveitados. Styx e Stone! Além do trocadilho de “paus e pedras”, o primeiro tem um trocadilho extra, pois seu nome se refere ao rio que leva as almas para o Hades, na mitologia grega.

Por pura coincidência, o Aranha é avistado perto do Bedford Towers. Claro que sabemos que ele mora ali, mas o vilão, assustado, acha que de alguma forma descobriram que Mary Jane estava presa no andar debaixo de onde morava. É hora dos capangas recém contratados irem atrás do teioso. Sempre astuta, Mary Jane aproveita a distração e consegue escapar. Como ela sabe que Styx tem “o toque da morte”, ela pega uma das armas dos seguranças de Caesar e consegue salvar seu amado da maneira mais tosca! Atirando a esmo!

Sério. O diálogo entre os dois vilões, fugindo, é:

– Ela não está acertando em nada.

– Sim, mas porque dar tempo para que pratique?

– Tem razão, vou pegar o turbotrenó!

Pensando melhor, eles são uns vilões meio bunda mesmo. Melhor que tenham ficado pra lá!

Eu com certeza veria um “Duro de Matar” com essa mulher no papel principal! Em tempo: Te odeio, Quesada!

Tô LendoPontos Fortes
  • A arte. Puro McFarlane, cara. No decorrer das edições dá até pra ver a evolução do traço dele. Sempre digo que as primeiras edições do Aranha dele na Marvel tem uma pinta meio tosquinha, mas é inegável a habilidade dele em criar cenas de ação, mesmo nas situações mais banais. Tio Todd é um gênio! Mesmo desenhando velhinhos halterofilistas de 65 anos.
  • A história. Pelas mãos do incansável David Michelinie. Li muita coisa que esse cara escreveu  pro Aranha na época e acho que, mesmo sendo histórias mais bobinhas, elas eram muito divertidas. E no fim do dia… é isso o que eu quero.
Tô LendoPontos Fuén
  • Formatinho era um troço cagado, né? Não sei se era só a qualidade do papel, da tinta, ou da editora na época, mas comparando a edição nas minhas mãos com a digital que eu encontrei por aí, é de se admirar que a gente pudesse sequer compreender o que estava acontecendo em cada página.
  • Não saiu aqui no Brasil de novo. Com tantos relançamentos de tantas editoras com tantas edições desenhadas pelo Todd McFarlane, não acredito que ninguém tenha se dado ao trabalho de compilar as edições que compunham essa anual num encadernado e colocado pra vender.
  • Amarelada. Não sei se foi só a minha edição e eu tenho plena consciência que ela tem mais de 25 anos, mas ela tá muito amarelada, cara! Tipo, demais! Formatinho era realmente um troço cagado, né?

Olha, deu o maior trabalho tirar essa edição de uma das caixas no meu armário, mas foi bom. Porque essa busca me deu mais algumas ideias de Rebobinando mais pra frente. Como outras edições anuais de outros heróis, ou uma edições perdidas de Grandes Heróis Marvel, etc. etc. E ainda vou confessar que li tomando um Toddynho e comendo um Passatempo. Mais retorno à infância impossível!

Vale cinco rebobinandos! 📼📼📼📼📼


Galeria com a capa de Marvel Age #90, que serviu de modelo para a edição anual brasileira, e algumas capas das edições americanas de Amazing Spider-Man.

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2018-03-26T09:58:30+00:00 26 de março de 2018|9 Comentários
  • Muito maneiro Kadu, ri pacas com essa rebobinada lá para 1990 e qualquer coisa. Show!

    • Hahaha, valeu! Vou tentar postar mais coisas dessa época, dá mais papo aqui nos comentários.

  • Jean Carlos

    Cara, acho que foi umas das melhores fases do Aranha, Todd McFarlane reinventou o Homem Aranha, esse ta na minha coleção no plastico.

    • Com certeza. A teia espaguete, as poses elásticas, os olhos gigantes, tão tudo na conta dele.

  • Léquinho Maniezo

    Bicho, eu odeio o McFarlane, tanto no pessoal quanto no profissional, mas caralho como deve ter sido divertido ler isso na época. Eu lembro que a primeira revista do Aranha que eu li era uma no Homem Aranha Extra e assim, nada de mais e já me deixava empolgadasso, essas ai do McFarlane então?! Porra, o cara merece méritos. Então, pra resumir, eu gostaria de não ser um chato do caralho e me divertir com as histórias dele também. Parabens pelo texto, muito show!

    • Haha, poxa. Obrigado.

      Não nutro esse ódio todo pelo McFarlane, não, mas confesso que tenho ALTAS ressalvas quando ele se mete a escrever. As primeiras edições de Spawn são intragáveis.

      Mas gosto da arte hoje em dia por pura nostalgia mesmo. Numa época em que todo mundo desenhava no Marvel Way, esse cara e o Jim Lee foram a vanguarda dos estilos próprios nos gibis americanos.

  • dlm1982

    Eu lembro dela e provavelmente eu era um dos amigos que ficou abismado com o ANUAL.

    • Hahaha. Você era um deles COM CERTEZA! Lembro tb quando alguém (o Daniel Lopes, acho) veio com um gibi com a primeira aparição do Venom e todo mundo chocado com o “Homem-Aranha de boca”.

  • Conheci recentemente o cara que traduziu TODAS essas revistas! Vou passar o link pra ele pra ver se ele dá um alô por aqui!