Rebobinando #23

O dia das mulheres já passou, mas como aqui é a Rebobinando ainda não! Nós voltamos até o último dia 8 de março para falar de um gibi que, ok, não é lááá dos anos 80 ou 90, mas de 2001. E se você parar para pensar, isso já faz uns bons DEZESSETE ANOS! 😱 Hoje vamos falar de ALIAS, a primeira incursão da amada detetive Jessica Jones nos quadrinhos.

Obrigado, Homem-Dicionário!

Antes de mais nada, vamos esclarecer uma coisa. O nome da série de quadrinhos não é  “aliás”, o advérbio. Mas sim / êi li ás / em inglês, que significa “alcunha, nome falso, pseudônimo”. O que faz um certo sentido quando você para pra pensar que a personagem principal largou a vida de super-herói e e deixou de lado seus codinomes para ser uma detetive particular.

– Obrigado, professor Pasquale!

Aliás (heh), favor também não fazer como eu na época e confundir o Alias da Marvel com o OUTRO Alias, o do seriado de televisão, esse do J.J. Abrams, com a Jennifer Garner no papel principal. Confesso que eu demorei um pouco pra engrenar com a Jessica Jones só porque eu acreditava que era a mesma coisa do seriado, que eu nem curtia tanto.

A diferença de estilo em letras diferentes, mas não se engane. O da esquerda NÃO É SADIA!

Mas então. Para falar propriamente sobre Jessica Jones, precisamos falar primeiro sobre o selo para maiores da Marvel. Já houve outras tentativas de criar um material mais adulto na Marvel Comics nos anos 80 e 90, mas ainda tudo sendo muito preso pelo famigerado Comics Code Authority. Em 2001, nos EUA, o selo Marvel MAX foi de fato a primeira tentativa da Casa das Ideias de lançar um conteúdo para maiores de 17 anos. Desta forma, ela conseguiu finalmente mandar um f*da-se para o Comics Code e lançou o seu próprio sistema de censura que acabou ficando mais ou menos assim a partir de 2005:

  • ALL AGES (apropriado para todas as idades)
  • A (apropriado para crianças acima de 9 anos)
  • T+ (indicado para adolescentes a partir dos 13 e idades acima)
  • PARENTAL ADVISORY (indicado para adolescentes a partir dos 15 e adultos)
  • MAX: EXPLICIT CONTENT (conteúdo explícito, somente para maiores de 18 anos)

Para lançar seu primeiro título sob o novo selo, a editora resolveu trabalhar com um escritor relativamente novo na casa, Brian Michael Bendis. O cara já havia escrito muita coisa pra Image, incluindo a premiada Powers, e desde 2000 já estava se estabelecendo com Ultimate Spider-Man e o Demolidor do selo Marvel Knights. Não era uma aposta, digamos assim, tão arriscada vá lá. O cara já havia mais do que provado que entendia do riscado. Apostando na vibe de histórias de crime, deram carta (quase) branca para ele brincar com o tal conteúdo explícito da Marvel MAX. Tanto é que a primeira palavra que abre a primeira história é:

E você beija sua mãe com essa boca, menina?

“Fuck!” Que também a quarta palavra. E a sexta. E é daí ladeira a baixo do linguajar chulo. Bendis provavelmente já largou essa F-bomb logo de cara pra mostrar a que veio. E não é que funciona? Lá pela terceira página a gente já está fisgado pela verborragia da Jessica narrando sua vida como se fosse um filme noir às avessas, com maridos traídos, policiais babacas, damas indefesas pedindo por ajuda, e conspirações. Muitas conspirações.

Em parceria como desenhista Michael Gaydos e o colorista Matt Hollingsworth, Bendis consegue criar um clima sombrio e dinâmico, mesmo sendo um gibi só com “cabeças falantes”. Com pouquíssima ação, muito texto e narração, às vezes fica a impressão de que a série de quadrinhos seria melhor transposta para tevê. (NÃO É NETFLIX?) E talvez com os mesmíssimos diálogos! Mas realmente, se não fosse a mão de Gaydos e Hollingsworth, Alias seria um troço maçante até não poder mais. Pensa em Chris Claremont escrevendo aquele tantão de texto com o Rob Liefeld desenhando. Argh.

Baita cena de interrogatório tensa do diabo!

Abrindo um rápido parêntese aqui, sempre tive essa impressão lendo qualquer coisa do Bendis. De que ele funcionaria melhor na televisão que no papel. Com diálogos que soam melhores lidos com as pausas certas e até os vícios de linguagem dos personagens. Lembro também como Ultimate Spider-Man levou até a edição SETE pra nos mostrar de fato o Aranha. E em como ele conseguiu criar uma empatia de nós, os leitores, com o tio Ben o suficiente para sentirmos a morte dele quando ela acontece. Em geral gibi é uma mídia de rápido consumo, mas o careca gosta de levar as coisas com calma e preparando bem o terreno pra deixar a história mais interessante, levando-a por várias edições. É uma arte que poucos conseguem. Fechando parêntese.

– Ok, tio Kadu. Você é fã do Bendis e você lê com respiração correta. Mas e aí? Eu devo dar meu rico dinheiro pra essa revista?

Olha, a Panini está relançando um encadernado capa dura com as edições de #1 a #10, se você tiver bala na agulha, pode comprar aqui, porque nossa, vale muito a pena! Ainda mais se você estiver interessado em saber mais sobre a personagem depois de ver a segunda temporada de Jessica Jones na Netflix.

A história.

Como a série teve 28 edições e depois a J.J. teve várias aparições em outras revistas e tem um novo título solo saindo desde 2016 (com a equipe criativa original), vou me ater às cinco primeiras edições aqui.

Depois de uma apresentação turbulenta da nossa querida personagem principal, ela é visitada por uma moça super bem vestida pedindo ajuda para encontrar sua irmã. O que ela não imagina, é que essa busca vai levá-la a descobrir a identidade de um dos maiores heróis do país: Captain Fucking America!

Ela acaba sendo interrogada por um crime que não cometeu, mas graças a Luke Cage e Matt Murdock ela sai de uma cena fantástica de interrogatório em busca de respostas e se mete numa conspiração do governo querendo derrubar o Presidente Bush, os Vingadores e o próprio Capitão América, num escândalo de identidades secretas. É bom lembrar que isso saiu pouco antes do 11/Setembro e pós Coiton, digo, pós Clinton, então que bom que não foi nenhum escândalo sexual ou algo do tipo, né? (TÔ OLHANDO PRA VOCÊ, MARK MILLAR)

As hitórias contam com as participações especiais de personagens aleatórios do universo Marvel fazendo coisas simples, ou só entrando para dar uma mãozinha aqui e sair de novo, o que ajuda a criar este ar de “universo coeso” que o Bendis curte tanto e que permeia a revista de ponta a ponta. Foram só cinco edições que eu reli para escrever esta coluna, mas me peguei curioso novamente para saber como terminava cada uma, mesmo já sabendo! Os ganchos no final de cada edição só te fazem querer ler a seguinte logo depois. É material de primeira pra fazer uma maratona de gibis!

Tô LendoPontos Fortes
  • A arte. A arte é do caralho! Michael Gaydos tem um traço meio esquisito que parece perfeito para ambientação do gibi. A colorização meio suja também ajuda a espantar criancinhas desavisadas que não esperariam ver uma cena de sexo anal retratada (quase) sutilmente num gibi.
  • O texto. Sei que muita gente reclama dos diálogos do Bendis. Mas como eu falei mais acima eu acho que é uma arte pra ser aproveitada aos poucos. Curto muito do que ele escreve, em especial os roteiros detetivescos e os diálogos com referências. Agora que ele vai para a DC, por exemplo, adoraria ler um gibi dele escrevendo Nightwing (ou Dick Grayson como Batman), ou A Questão.
Tô LendoPontos Fracos
  • As edições de Marvel MAX. Aqui no Brasil, a revista dividiu um mix na revista MAX. Tinha muita coisa boa, mas muita coisa ruim também. Imagino que agora seja meio complicado de achar as 81 edições da revista brasileira em sebos e sites de leilão.
  • Preço e disponibilidade. Agora em Janeiro a Panini lançou o encadernado, mas com o aumento de preços que gerou muitas reclamações, muita gente pode preferir comprar outras histórias mais atuais e tal. E ainda não encontrei nas comic shops aqui mais perto de casa, mas também não procurei com tanto afinco.

Lembrando que a história saiu lá em 2001, e aqui em 2003, muita coisa acaba soando meio datada, tipo todo o plot dessas primeiras edições gira em torno dela vazar uma fita de vídeo (sic) que revela a identidade secreta (sic) do Capitão América (sic). O que parece meio idiota de se ler depois de Civil War e do julgamento, morte, retorno e recente neo-nazismo do Capitão. Oras, mas todo mundo já não sabe que ele é Steve Rogers?

Fica um gostinho de velhice por conta de detalhes assim e pela tecnologia retratada na época. Mas de resto, os temas e as narrativas continuam super atuais. Vale, com gosto, cinco rebobinandos! 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2018-03-13T23:13:15+00:00 12 de março de 2018|6 Comentários
  • Ótimo artigo Kadu, mas sabe que a arte do Michael Gaydos não me enche os olhos não, aí fiz cara feia e só fui conhecer melhor a JJ no New Avengers. Aí sim, depois disso que fui procurar o material passado dela pra ler.

    Alias, tum dum tshhhhh, vale lembrar que, hoje, está com 35% de desconto na Amazon.com.br. 😉

    • Hahahaha. Eu entendo o lance da arte dele. Mas eu acho a quadrinização dele maneira e o traço “tosco” tem um ar de realismo sujo, sabe? Sei lá. Acho que combina com o ar da revista. Não consigo imaginar a mesma história pelas mãos do Bagley, por exemplo.

      • Bruno Messias

        Mark Bagley desenhou a Jessica Jones! Vestida como Safira, inclusive. Acho que foi numa cena de flashback, dela com o Homem-Púrpura. É estranho.

        Engraçado, eu tinha a impressão de que a Jessica era meio baranguinha, de que a atriz da série era bem mais bonita do que a personagem dos quadrinhos. Mas não sei de onde tirei isso. Quando fui reler, vi que a Jessica é até bem bonitinha. Acho que é a síndrome da super-heroína mainstream: todas são esculturais. Jessica é uma mais… gente. Aí ela entrou pro rol dos Vingadores, depois de casar com o Luke Cage, e agora só desenham ela no padrão heroína Marvel! Perdeu a identidade.

        • Pois é. Por isso queu acho a arte do Gaydos bacana. Cabe muito bem nessa ambientação “fora do padrão” Marvel que o Selo Max tinha.

          Eu lembro dessa história do Bagley. Mas é um flashback da época em que ela era heroína, aí eu acho que fez até sentido, hehe.

  • Bruno Messias

    Comprei o encadernado. Me deu tristeza por não ter mais minhas edições avulsas de Marvel Max… Se bem que não tinha todas, quando comecei a comprar (acho que foi na época do Esquadrão Supremo) a história da Jéssica já tava numa fase bem mais à frente do que a do encadernado.

    • Esquadrão Supremo que era uma das coisas boas do mix lançado aqui. 😉