Rebobinando #21

Antes de Wade Wilson, houve Peyton Westlake. Antes de “I will find you, and I will kill you”, houve “Take the fucking elephant”. E para Sam Raimi, antes de Homem-Aranha, houve Darkman – Vingança Sem Rosto! O filme “A” de super-herói com mais cara de filme “B” de todos os tempos! Um clássico da Tela Quente! Hoje na sua, na minha, na nossa Rebobinando! Vem comigo!

O ano era 1990, pós-Tim Burton reinventando o conceito de um filme de super-heróis de quadrinhos. Se você considerar que boa parte do público na época estava mais acostumado à ideia de um herói gordinho e piadista, o tom sério e sombrio de Batman praticamente ditou um estilo de filme pros anos 90. Entra Sam Raimi. Especialmente conhecido pelos dois primeiros filmes de Evil Dead, foi com Darkman que ele estreou em um grande estúdio! Que era, por incrível que pareça, com um filme completamente autoral! Algo que parece absurdo se pararmos para pensar em Hollywood nos dias de hoje.

Só o Sombra sabe o Darkman que se esconde no coração dos Bátimans.

Reza a lenda que Raimi, nerd confesso, tentou obter tanto os direitos de Batman e como os do Sombra para levá-los à tela grande, sem sucesso. Junto com seu irmão (e parceiro de sempre) Ivan Raimi e mais dois amigos ele escreveu o roteiro de Darkman. Porém, como eu disse antes, baseado numa ideia só dele, e por isso ele leva sozinho o crédito pela história. Sabendo desse histórico, ficam ainda mais notórias as referências do seu personagem. Segundo o próprio diretor, ele bebeu de diversas fontes: desde os heróis pulp detetivescos, passando pelos filmes de monstros clássicos da Universal Studios, até o fato dele gostar de anti-heróis monstruosos rejeitados pela sociedade.

Muito por conta desse background todo, Darkman acaba sendo maravilhoso de se assitir! Com uma pinta enoooorme de filme B, mas com um orçamento mais bacana (pra época, claro) que permitiu uma certa ostentação nos efeitos (de novo, pra época) ele caminha uma linha tênue entre um filme de ação médio e um acidente de trem que você não consegue parar de olhar. E com um elenco muito acima do que o filme sequer precisa!

O grande Leonílson… er… Liam Neeson vinha de uma série de papéis medianos e pontas em seriados de TV para um papel de destaque. E Frances McDormand (que viria a ganhar o Oscar sete anos depois com Fargono papel da mocinha indefesa. Ambos os atores acabam entregando atuações bem mais profundas do que um filme desse porte pedia, fazendo você se perguntar como raios eles foram parar ali?

Aparentemente eles tinham muitos boletos pra pagar na época.

Agora vocês me dão licença porque eu vou ser meio esnobe, mas eu acho muito curioso quando você se acostuma com uma “identidade visual” (eu avisei!) de um diretor em específico e começa a notar os padrões em cada filme. Steven Spielberg tem o “Spielberg Face”, Kubrick tem os planos longuíssimos, etc. E o Sam Raimi tem o GORE! O sangue! Os gritos! E efeitos práticos! Quantidades obscenas de efeitos práticos que, pra mim, fazem toda a diferença. Raimi vai à loucura com o uso de maquiagens e adereços, exagerando tudo até quase o limite fazendo do filme uma quase uma história em quadrinhos da época. Se você nunca viu algo antigo do diretor, pensa só em uma cena. Lembra quando o Doutor Octopus acorda no hospital, em Homem-Aranha 2? É tipo aquilo. O. FILME. INTEIRO. E não fica chato, vai por mim!

A História.

O filme começa com um grande barulho. Um encontro de gangues num armazém do porto, onde o vilão do filme dá as caras e mostra a que veio. Numa sequencia homérica de tiroteiro, com direito a uma perna-de-pau-metralhadora, somos apresentados ao bandidão Robert Durant. Um cara que tem como fetiche colecionar os dedos de suas vítimas, cortados com a ajuda de um cortador de charutos.

Hum. Polegares. Polegares? Onde estão? Ah, aqui estão!

Leonílson é Peyton Westlake, um cientista que estava quase conseguindo um grande avanço com o que ele chamava de “pele líquida”. Um tipo de pele artificial que nunca é muito elaborado pra que serve, mas que tem um papel crucial na história. Sua namorada, Julie Hastings (Frances MacDormand), é uma advogada que trabalha prum empreiteiro ricaço. Ela descobre um documento que incrimina o chefe em uma série de subornos para conseguir obter suas obras pela cidade. O cara assume que “fez sim, e daí” e ainda a avisa que o tal Robert Durant é um “competidor” que faria de tudo para pôr as mãos no tal documento, e que é para ela tomar cuidado.

Mais tarde, o laboratório de Westlake (que fica convenientemente dentro do seu apartamento) é atacado enquanto ele e seu assistente descobrem o motivo de sua pele líquida nunca durar mais do que 99 minutos sem se desfazer: a luz. Sem o contato com a luz, sua invenção dura indefinidamente. Durant e seus capangas invadem logo em seguida a essa descoberta e, enquanto torturam Peyton no melhor estilo RoboCop, encontram o tal documento e fogem, não sem antes explodirem completamente o local.

Haja Caladril pra tanta queimadura, viu?

Peyton é dado como morto, mas seu corpo é encontrado a metros dali no rio e ele é levado para o hospital como indigente. É aí que somos apresentados aos seus “super-poderes” de herói. Por ter 99% do corpo queimado, seus nervos que o conectavam à sensação de dor foram cortados. Desta forma, seu cérebro, sem os estímulos naturais do corpo, fica faminto por novos estímulos. Isso o deixa suas emoções desbalanceadas e mais propenso a surtos de raiva e adrenalina, que dão uma espécie de super-força momentânea. O que gera cenas maravilhosas como essa:

O resto é o resto. Darkman parte em busca de vingança e utiliza sua pele sintética para trocar de rosto e agir por apenas 99 minutos antes de precisar fugir com a cara borbulhando. Eu realmente não pretendo contar muito mais da história porque, bem, ela não exige muito do espectador. O filme é curtinho, com apenas uma hora e meia, e é ótimo para assistir com os amigos. Se possível com bastante cerveja a tiracolo.

Tô LendoPontos Fortes
  • Os dois atores principais. Fico com a séria impressão de que se fossem qualquer um nesses papéis, o filme não dava liga. É muito engraçado ver o Leonílson não se levar a sério, mas fazendo o papel a sério (é confuso, mas se você assistir, faz todo o sentido). As caras e bocas e os surtos de raiva dele são impagáveis.
  • Os efeitos práticos. Um charme esquecido nessa era de CGI, tela verde e Peter Jackson. Os efeitos práticos são o ponto alto do filme. Toda a maquiagem do Darkman e em como transformam o Leonílson num monstro desfigurado são de um horror e cuidado extremo. Bonecos, látex, próteses, aparentemente todo o orçamento do filme foi gasto nessas coisas e dá pra ver. Tudo muito bem feito.
Tô LendoPontos #FUÉN
  • Os outros atores. Nem todo mundo tem um destaque tão grande quanto o Durant e até ele é super canastrão, ou seja, no clima certo. Mas ainda assim… bom, digamos que nenhum outro ator deste filme sequer foi convidado pra uma cerimônia do Oscar.
  • A história. Meio padrão, sem muitas surpresas (a maior de todas você canta logo de cara), apesar de servir pra ambientar um herói completamente original. Pelo menos isso.
  • Os efeitos visuais. Diferente dos práticos, esses sim envolvem chroma-key e o escambau. O problema é que datou muito e fica meio feio mais pro final do filme, em especial na sequencia de perseguição aérea! Uma mistura dos dois efeitos, as partes com o dublê e os vôos reais de helicóptero pela cidade são bem maneiros, mas as partes feitas em estúdio são meio “meh”.

Lembro de ter assistido na tevê quando ainda era bem moleque, com uns 10 anos, talvez? E de ter ficado muito impressionado com o grau de grotesco do filme, do rosto do Darkman também. E do vilão, claro, porque eu achei muito irado e assustador um cara que cortava os dedos das pessoas pra colecionar. Ao assistir de novo agora, outros detalhes voltaram vívidos pra minha cabeça e foi um deleite.

Pra um filme de 28 anos, ele continua bem enxuto e vale fácil, fácil cinco rebobinandos! 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2018-02-26T09:37:29+00:00 26 de fevereiro de 2018|11 Comentários
  • Jean Carlos

    Muito bom Kadu, deu vontade de assistir novamente já vou procurar aqui pela net,o Bruce Campbell(Ash) esta no elenco também.

    • Ele, como sempre nos filmes do Raimi, faz uma ponta. Mas só no finalzinho.

      Reza a lenda de que ele era a primeira opção pro papel de Darkman, mas que por algum motivo não deu certo.

  • Não sei se veria de novo…

    Quem estou enganando, já vou colocar no video cassete quando chegar em casa. 😉

  • Bruno Messias

    Eu gosto demais desse filme – e do jogo de Nintendinho também! Chegou a jogar? Provavelmente hoje não deve prestar, mas na época era massa! Que nem o jogo de Rocketeer.

    • Cara, nem sabia do jogo. Fiquei curioso agora. Será que dá pra achar pra emulador?

    • Jean Carlos

      Eu lembro cara, era muito bom o jogo,agora deu vontade de jogar também.

  • Léquinho Maniezo

    Porra só daquela quebrada de dedo ali já deu vontade de ver.

    • Hahahahah! Pode ver que tem muito mais coisa além dela!