Rebobinando #20

Todo carnaval tem seu fim, mas a Rebobinando vai e volta trazendo as novidades do passado (oi?) pra você que que ainda tem memória de coisas que ninguém mais lembra! E, aproveitando a estreia de Pantera Negra nos cinemas, esta semana vamos falar de uma minissérie que aparentemente passou batida por muita gente em 1990! Tô falando de, bom, Pantera Negra! Vem comigo!

Não se sussurra atrás de alguém com orelhas de gato, amigo!

Não, sério. O nome da minissérie em duas edições, lançada pela Editora Globo aqui no Brasil, é só “Pantera Negra” mesmo. Lembre-se que são revistas de uma época em que ninguém se preocupava em dar um nome épico pras sagas e minis que saíam por aqui. Quer dizer, se não fosse uma edição do Homem-aranha ou do Wolverine, pelo menos.

Por incrível que pareça, o Pantera Negra nunca teve um grande destaque em terras brasileiras. Considerado apenas como “aquele vingador reserva” por muito tempo, ele sempre ficou meio relegado a coadjuvante do Quarteto Fantástico, ou dos Vingadores mesmo. Mas isso pode ser só a minha percepção de garoto branco de classe média falando mais alto (o que é bem provável). Talvez por isso essa mini tenha passado batida por mim, na época. E também porque era de uma editora que não a Abril Jovem, em geral a grande monopolista das revistas de heróis durante boa parte dos anos 90. Uma pena, porque a história é bem maneira (e tem uma leve, ênfase no “leve”, influência em alguns plot points do filme do herói.


Então, se você ainda não teve tempo de ir ao cinema e não quer nenhum spoiler, por menor que seja (sério, é bem pequenininho), navegue com cuidado. Ou vai lá ver o filme que eu te espero. Sério. Vai lá. De boas. Eu não vou a lugar algum, fica tranquilo.


Opa, já voltou? Filmaço, né?

Lançada originalmente em 1988 e publicada aqui em Dezembro de 1990, Black Panther foi uma mini em quatro edições lançada pela Marvel pelas mãos do roteirista Peter B. Gyllis, que escreveu muita coisa antigona do Capitão América, e do desenhista-produtor-criador fodaçaralho Denys Cowan! O cara criou nada menos do que a Milestone Media em 1993 junto com outros colegas de profissão, e é o responsável por nada menos que o desenho do Super Choque, olha que maneiro! — sério, eu curtia bastante o desenho, em especial o crossover com a Liga da Justiça. O cara desenhou também histórias do Deathlok nos anos 90,além de Batman, Superman, Flash e outros grandes. E, na boa, mesmo em início de carreira, o traço dele nessa mini do Pantera Negra tá beeeeeem maneiro. Vale bem a pena.

– Ok, beleza, tio Kadu. Tem criador fodão na história, ninguém leu na época, mas porque eu deveria ler agora?

Oras, além de que é o assunto do momento? Se você, como eu, achava que T’Challa (que eu lia só como / tiala / e não / ti-tiala /, assim como eu lia / xis méin / e não / équis méin /, claro) era só um personagem secundário e conhecia pouca coisa dele mesmo depois de anos lendo gibi, essa mini é um ótimo lugar para aprofundar um pouco mais sobre a história do personagem. Claro, com o passar do tempo, várias outras histórias foram mudando ou adaptando tudo que o envolve, como o encadernado que o Tiberio falou anteriormente, Uma Nação Sob Nossos Pés.

A guerra não perdoa ninguém. Momentos chocantes retratados na minissérie.

A história.

Como quase tudo em 1988, a história gira em torno do apartheid. Mas não em Wakanda, calma! No início da história, vemos o Pantera Negra subjugando um rinoceronte perdido, para levá-lo de volta a sua reserva. Paralelamente, vemos um homem negro na nação vizinha, Azania, sendo torturado por militares. Eles querem que o homem entregue seus amigos de revolução, que lutam pelo fim do apartheid no país. À beira da morte, o cara, cheio de medo e fúria, faz uma oração ao deus pantera, que abandona T’Challa em meio ao ataque de duas panteras negras de verdade. Tipo, os bichos mesmo. O rei de Wakanda sente essa abrupta “quebra na Força”, mas consegue vencer os bichos ainda assim. Enquanto isso, o homem torturado se transforma num… Homem-pantera? Num Panterosomem? Enfim, ele se transforma, mata seus algozes e foge.

O Panterosomem ataca!

De volta à capital, todos do Conselho do país se perguntam o que houve para que o grandioso Pantera Negra tenha sido atacado pelos animais que são o totem da religião deles, e assim, a capacidade de T’Challa de ser o Protetor de Wakanda é posta em dúvida. Como em uma parte do filme, ele precisa se virar nos 30, sem poderes, para provar que é sim digno do trono e do manto de Pantera Negra. Só que essa “virada nos 30” não é só um desafiozinho pelo trono contra um cara grandão. Que dizer, ele também luta contra um cara grandão, mas antes disso ele precisa enfrentar uma série de gorilas brancos nas montanhas de Wakanda. Isso sem contar com os ataques da nação vizinha, claro.

Tudo porque o tal panterosomem continua deixando um rastro de sangue matando altos oficiais do governo Azaniano, e atiçando cada vez mais os revoltosos, que se voltam contra o general e seu exército que comandam o país. Furioso, o governo responde com força letal contra a maioria indefesa da população enquanto acredita que é T’Challa que está atacando secretamente o seu país. Tudo porque os poucos sobreviventes dos ataques do panterosomem só conseguem descrever que viram uma “figura negra, tipo homem, mas tipo um felino” antes de serem atacados.

Cenas de “Pantera Negra 2: Ninguém segura esse T’Challa!”

Com os nervos acirrados entre as duas nações, a Azania envia um supergrupo chamado “O Supremacistas” (afe) para Wakanda, para capturarem seu soberano. Mal sabem eles que T’Challa está impedido de governar porque não está mais conectado ao espírito do deus pantera e sem poderes. Mostrando que não é fraco, no entanto, ele consegue derrotar o supergrupo, mas não sem antes descobrir que o país vizinho planeja um ataque nuclear a Wakanda. Sozinho, o Pantera Negra precisa invadir a nação vizinha, enfrentar o governo e o exército e impedir que a bomba seja lançada.

Na edição final, e a parte que eu achei mais interessante, T’Challa confronta o próprio deus pantera enfurecido ainda incorporado no corpo do homem torturado no início da história. Fraco, quase derrotado, e à beira da morte, ele usa seu intelecto e sagacidade para convencer o espírito do deus pantera a se unir a ele de novo. O papo entre eles sobre a fúria de um povo oprimido e em como o Pantera Negra “nada faz” para ajudar seu próprio povo tem um eco muito similar ao dilema entre T’Challa e Erik Killmonger no filme também.

Tô LendoPontos Fortes
  • A história. Apesar de seguir quase todos os clichês de histórias da época (supergurpo que só aparece uma vez, ameaça nuclear, etc), ela tem alguns pontos bem bacanas, sobre como uma guerra dessas afeta de fato só o lado mais fraco. E toca em temas relevantes até hoje, como o racismo.
  • O desenho. Foi meio que surpresa pra mim, procurar pelo nome do desenhista e ver quem era e o que ele fez. Ativista do movimento negro nos quadrinhos, Denys Cowan produziu e criou diversos personagens negros pela Milestone Media, junto com Dwayne McDuffie. Sem falar que o traço dele é lindão. Mais ainda hoje em dia, claro, mas tem umas tomadas que ele faz do Pantera que são beeeem maneiras.
Tô LendoPontos Fracos
  • O Roteiro. Bom, só algumas questões, na verdade. Apesar a história ser boa em certos aspectos, alguns detalhes sobre Wakanda, por exemplo, deixam um pouco a desejar. O país ao invés de ser aquela maravilha tecnológica, é bem mais tribal e “no meio da selva”, sabe? A religião acaba sendo mostrada mais como um culto de superstição do que uma religião em si. E mesmo que a explicação do filme seja de que “uma planta mordida por vibranium radioativo” é o que dá os poderes do Pantera Negra, no gibi ela é muito mais sobrenatural, mas ainda assim é tratada de maneira supersticiosa.

Então, se você já viu o filme, já leu o suficiente de Pantera Negra e tem tempo de sobra pra garimpar os sebos ou o Mercado Livre, ou os mecanismos ilegais da internet (porque ninguém é de ferro), eu recomendo bastante colocar suas patinhas nessa história. Aprofunde-se na mitologia de Wakanda e num herói muito mais maneiro do que “aquele vingador reserva”.

A minissérie Pantera Negra (1988) vale com certeza quatro rebobinandos! 📼📼📼📼


Capas das edições brasileiras e americanas de “Pantera Negra”.

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2018-02-18T23:43:27+00:00 19 de fevereiro de 2018|14 Comentários
  • Putz, não conhecia a história e me interessei. Curti a arte também. Valeu Kadu!

    • Pois é. Eu fiquei super curioso quando descobri que essa história existia. E a arte tá muito bacana, foi uma surpresa maior, inclusive, descobrir quem era o desenhista dela.

  • Adriano de Oliveira Ferreira

    valeu Kadu Castro, da hora mesmo

  • Jean Carlos

    Esse eu não tenho em minha coleção, dei uma rápida garimpada e achei no Mercado Livre por 18 reais os dois volumes, acho difícil mais vou da uma garimpada no Sebo do Messias, muito boa a dica Kadu!!!

    • Opa, disponha! Depois avisa se você curtiu, pq agora eu tô nervoso… hahahahah

  • Eeeeeeeeita, Kadu! Não conhecia essa MESMO! Vou atrás! Muito maneiro descobrir coisas que já estavam descobertas porém escondidas num cantinho qualquer de um sebo! Agora eu sou um homem com uma missão! Excelente coluna!

    • Acho que fui o maior responsável pela saída dessas edições do mercado livre, depois desse artigo.

      Xiu, me deixa me sentir importante.

  • Roberto Hunger Junior

    Cara, vc tem uma triste noção da sua idade, quando sabe que tinha este gibi em sua coleção!

    • Hahahahaha. O tempo passa pra todos. Imagina a minha sensação tendo que escrever um artigo desses toda semana?

  • João Costa

    Ótima resenha! Esse aí ainda tenho guardado da época. A Editora Globo publicou muita coisa boa nessa fase. Hoje em dia nem é tão difícil achar e não está (por enquanto, eu acho) na alça de mira dos mercenários mercadejeiros.

    • Que bom, né? Pra achar as imagens das capas brasucas eu acabei esbarrando em algumas edições a venda no Mercado Livre e é verdade, não tava caro não.

      Mas agora depois do filme é bem capaz de ter dado uma inflacionada.

  • Andre Bufrem

    Rapaz. Conheci o Denys Cowan na CCXP, mas não tinha encontrado esse gibi pra levar para ele assinar. Fui encontrar só este mês (estava atrás do capitão América da Abril…). Reli e curti muito. Um pouco estranho a trama ser resolvida em 4 edições. Se fosse hoje seria uma saga com 12 edições, fora os spin offs, saudades dessa época. O desenho é foda mesmo, mas o legal é a sacada do Deus Pantera largar do Tchalla. Excelente dica e vale muito a pena correr atrás.

    • Putz, que pena cara! Imagina levar isso pro cara assinar? Até ele ia curtir de rever um trabalho tão antigo.

      E concordo. Hj em dia essa história seria prolongada o máximo possível em quantas muitas edições, hehe.