Então, imagine que você é fã de um jogo de RPG há muito tempo. Depois imagine que finalmente anunciam uma adaptação para o cinema com um orçamento milionário. Agora imagine que esse filme vai sair numa época em que os efeitos especiais ficaram incríveis! Imaginou? Rola os dados. Hum… Falha crítica? Só lamento. Hoje a Rebobinando vai relembrar o fiasco que foi Dungeons & Dragons, o filme.

Agora que o grupo está completo, vamos enfrentar nosso maior vilão: o conflito de horários!

Nunca fui um jogador de RPG. Digo, joguei algumas partidas curtas com um grupo de amigos ainda na época da faculdade, mas nada que fizesse de mim um extremo conhecedor das dinâmicas e regras. Além disso, a maioria dos meus amigos tinham suas preferências que geralmente iam muito além do estilo “capa-e-espada” com dragões e masmorras do D&D, como Vampiro: A Máscara ou algum outro jogo em estilo cyberpunk; e diferentes sistemas como GURPS, Shadowrun, etc. Mas eu só curtia montar minha folhinha de personagens mesmo e fazer os desenhos. 

Com o jogo voltando à moda muito por conta do “fator ressurreição de coisas velhas” promovido por Stranger Things, não é de se admirar que os fabricantes tenham resolvido investir novamente (e devidamente, vale a pena frisar) em um filme melhor, a ser lançado em 2023. Parece um alívio para os fãs, ainda mais se considerarmos que todo mundo (fãs e não-fãs) adorariam esquecer a fracassada tentativa de levar o espírito dos role playing games para a telona, ainda em 2000. Um ano depois de Matrix, bicho. Quatro anos depois de Coração de Dragão. SETE ANOS depois de Jurassic Park. Mas com efeitos especiais piores que Willow na Terra da Magia, Mestres do Universo e  Duna combinados.

Esse dragão e o Malebolgia do Spawn podem dar as mãos.

Claro, não vamos esquecer da adaptação mais perfeita do jogo, que foi lançada ainda nos anos 80 em forma de desenho animado. Nossa querida Caverna do Dragão, foi uma série que durou apenas três temporadas, com um total de 27 episódios (eu sei que parecem bem mais, mas isso é culpa das reprises), mas que fez um sucesso espalhado pelo mundo em 1983. Porém, graças a enxurrada de outros desenhos enlatados americanos lançados pela mesma época, acabou sendo meio que soterrada no gosto popular de todos os outros países que não o Brasil. Sério, aparentemente, somos os únicos que lembram com tanto carinho deste desenho animado.

E não é para menos! Ele tinha um elenco estelar de roteiristas que acabaram trabalhando depois em vários outros projetos de sucesso também. Michael Reaves e Paul Dini foram trabalhar no universo de animação dos heróis da DC Comics, além de outros escritores de quadrinhos como Steve Gerber, que criou Howard o Pato, e Mark Evanier, o criador de Groo o Andarilho. Mas enfim, como ninguém a não ser o povo brasileiro que agora já está na casa dos 40 lembra desse desenho, dificilmente a Wizards of the Coast, a empresa que é dona do jogo hoje em dia, irá adaptá-lo para o cinema. Uma pena.

As masmorras e dragões que prestam.

FALHA CRÍTICA

Como muitos projetos que passaram décadas no limbo da pré-produção, o filme de D&D já nascia meio que fadado ao fracasso. Sabe quando a gente é fã de algo e vê uma adaptação ruim no cinema, aí falamos “me dá que eu faço melhor”? Pois é. Esse filme nasceu dessa sensação (mas colocando a parte da “adaptação ruim” como resultado). Courtney Solomon, o diretor, não tinha a menor experiência na direção e produção de um filme, mas porque sua mãe era produtora de séries em Toronto, ele achou que estaria à altura do projeto e entrou em contato com a Tactical Studies Rules, Inc. a dona do jogo Dungeons & Dragons nos anos 1990.

Mas ele entrou em contato dizendo que era um aluno de faculdade, com um trabalho sobre economia e perguntando sobre valores e custos que teriam impedido a TSR de produzir um filme do seu produto. Com isso, ele descobriu que a empresa nunca tinha entrado nessa empreitada porque nenhum dos estúdios de cinema com os quais ela tinha conversado tinham capturado a essência do que era um jogo de RPG. Como fã da obra e jogador de D&D, Solomon entendeu que esse trabalho caberia a ele. Depois de longa negociações, ele conseguiu um “ok” da TSR depois de escrever uma sinopse de 30 páginas detalhando o filme inteiro. Daí, foi só correr o mundo atrás de investidores… o problema era o orçamento inicial, de nada menos que 100 MILHÕES DE DÓLARES! EM MEADOS DOS ANOS 90!

Vou repetir: CEM. MILHÕES. CEM!

Esse orçamentaço tinha como planejamento um filme recheado de efeitos digitais (coisa que estava evoluindo a passos largos em Hollywood, na época) e um nome de peso na direção. Entre eles, os já habituais que eram atrelados a qualquer coisa que pudesse fazer um mínimo de sucesso, como James Cameron (que também estava no páreo para Homem-Aranha), Francis Ford Coppola (hah, imagina só) e Stan Winston (o dono da Stan Winston Workshop, empresa responsável por alguns dos mais memoráveis monstros do cinema, além dos dinos de Jurassic Park). O porém era que nenhum estúdio queria bancar uma grana gigantesca dessa num filme de fantasia, que não rendia bons lucros, nem críticas, desde Krull (1983), Willow (1988) e Coração de Dragão (1996). 

A essa altura, já era 1997 e o projeto continuava parado. Quando finalmente o produtor Joel Silver entrou no barco e resolveu bancar parte do projeto. Silver foi o produtor de alguns dos maiores clássicos de ação dos anos 80, como Duro de Matar, Comando para Matar e Máquina Mortífera (quanta “morte” meodeos) e achou que o filme talvez funcionasse melhor como um seriado de TV. Vamos lembrar que o gênero de fantasia estava em alta na televisão nessa época, com Xena e Hércules fazendo sucesso com um programa de baixo orçamento. No entanto, a TSR vendeu os direitos do jogo para a Wizards of the Coast, que não estava nem um pouco interessada nisso.

Em vez disso, ela queria um filme que fosse lançado direto para vídeo e, com esses planos, o orçamento de 100 milhões ficou ainda mais arriscado. Então baixaram para 30 milhões. E mesmo depois disso, parece que o orçamento final ficou mesmo na casa dos 21 milhões de dólares e não se fala mais nisso! Com esse corte de grana, ficou evidente que algum ponto do filme não receberia a devida atenção. Além disso, vários atores tiveram algum corte no salario, o que só me faz indagar ainda mais como foi que o Jeremy Irons embarcou nessa furada!

Veja, Bocazul! É a minha carreira indo pro buraco! MUAHAHAHA!

DE D-20 A D-4

O filme também cortou muito do orçamento saindo dos EUA e indo gravar em Praga, na República Tcheca, onde havia um “cenário natural” repleto de castelos e cavernas que poderiam ser usados para as filmagens, em vez de fazer tudo em estúdio ou com fundo verde. Muitas cenas foram gravadas no interior de igrejas da cidade. O covil do vilão Profion, por exemplo, foi filmado no Ossuário de Sedlec, uma capela ornamentada com o esqueleto de cerca de 40 mil pessoas vitimadas pela peste negra durante meados do séc. XIV.

É meio creepy? É. É maneiro? É. Adiantou alguma coisa para o filme? Não.

MAS NADA DISSO salva o filme. Obviamente, o corte no orçamento avacalhou com a produção, mas mesmo assim, nem o roteiro, nem a direção ajudam, convenhamos. Alguns dos atores mais famosos assinaram o contrato com promessas de um filme grandioso e por conta disso temos não só Jeremy Irons, com sua melhor imitação de Scar em live action, mas também Thora Birch, recém-saída de Beleza Americana. Segundo a atriz, o filme era tão pesado, que ela achou que seria bom “desanuviar” de sua personagem fazendo uma imperatriz boazinha num filme de fantasia, coitada. Além disso, o papel principal ficou com Justin Whalin, cujo o papel mais notável havia sido o de segundo Jimmy Olsen em Lois & Clark: As Novas Aventuras do Superman. Ah, é. Ele era amigo do diretor e ganhou o papel principal basicamente por isso, mas em seu comprometimento ao filme, ele acabou recusando uma série de outros papéis e hoje em dia me pergunto o que ele deve achar disso.

Outros atores mais, er, famosos que participaram sabe-se lá porque foram Marlon Wayans como o melhor amigo do herói; o 4º Doctor Tom Baker no papel de um mago elfo; e Richard O’Brien, ninguém menos do que o autor de Rocky Horror Picture Show, como o líder da guilda dos ladrões!

Um elenco desses, bicho.

CARISMA 6, FORÇA 10

Já na primeira cena do filme, NA PRIMEIRA, você já sente que vai ser um passeio daqueles. Há de se esperar que um filme que tenha passado por esses problemas todos e com dificuldades inclusive na hora de bancar estúdios de efeitos digitais, fosse depender menos deles, ou usá-los em momentos específicos… Mas não. O filme ABRE com uma cena horrorosa de um ambiente digital, entrando por uma masmorra e encontrando o vilão Profion tentando comandar um dragão dourado com uma varinha especial.

E tudo na cena grita falso, desde o local, passando pelo dragão, até a atuação de Jeremy Irons. Quando mencionei que ele parecia uma versão em live action do Scar, o vilão de O Rei Leão, eu não tava brincando. O cara entrou num modo overacting com caras e bocas, como se tivesse decidido que já que era um filme baseado em jogo, ele tinha que bancar um vilão quase infantil e super caricato, com caras e bocas, e gestos exageradíssimos! O braço direito dele, o capitão da guarda Damodar parece o Joey de Friends, com um batom azul, uma armadura de borracha imitando metal e fazendo cara feia e voz rouca, quase que seguindo a deixa de Mr. Irons no estilo de atuação. É inacreditável que esse filme já comece tão ruim assim.

Separados por um ichiban!

A trama no entanto, se desenrola de uma maneira que uma aventura de D&D faria, a princípio. O reino de Izmir é governado pela Imperatriz Savina e um grupo de Magos. A sociedade é dividida de maneira que os magos são a elite e todo o resto é tratado como lixo, como escravos subservientes e sem direitos. A Imperatriz deseja comandar um reino onde todos sejam iguais e os magos, em especial o feiticeiro Profion, desejam que tudo fique como está. Para tanto, ele planeja um golpe de estado, mas fica impossibilitado de agir porque a Imperatriz possui uma varinha capaz de comandar um exército de dragões dourados.

Surgem Ridley Freeborn e Snails (Justin Whalin e Marlon Wayans), uma dupla de ladrões que decide roubar o palácio dos magos durante um evento em que todos eles ficariam ocupados. Porém, Profion tem a mesma ideia e decide atacar o velho conselheiro da Imperatriz atrás de um mapa que leva a uma varinha mágica capaz de controlar os perigosíssimos dragões vermelhos. O velho conselheiro morre, mas não sem antes entregar o mapa a sua aprendiz, a maga Marina Pretensa, que acaba encontrando a dupla de ladrões sem querer no meio do palácio e foge com eles.

The Mage & The Rogue dava um bom nome de série.

Envolvidos numa trama da qual não querem participar, mas que se sentem obrigados, já que o destino do reino está em suas mãos, Ridley e Snails partem numa missão ao lado de Marina em busca da varinha dos dragões vermelhos. Durante a trama eles vão esbarrando em outros personagens envolvidos nessa conspiração e encontram Elwood, um anão guerreiro e Norda, uma elfa arqueira à serviço da Imperatriz. 

E broder. Se você acha que os mamilos na roupa do Batman chamavam atenção demais, ESPERA SÓ PRA VER A “ARMADURA COM PEITOS” dessa elfa. Sérião. Quem permitiu uma coisa dessas, bicho?

Gargalhei alto nessa cena porque ela é toda dramática, com uma música singela e de repente PEITOS NO CENTRO DA TELA!

No fim, eles passam por labirintos, masmorras, guilda de ladrões, mais masmorras e mais dragões de cgi até a batalha final, um festival de gráficos sofríveis com DEZENAS DE DRAGÕES VOANDO SOBRE UMA CIDADE DIGITAL lutando uns com os outros. De novo, é impensável que um filme com esse corte de orçamento tentasse abraçar o mundo com as pernas de novo e fazer um final com vários dragões, em vez de um ou dois muito bem feitos. A coreografia de luta (se é que existe) parece uma apresentação de cosplay onde as pessoas não têm a menor aptidão física. Ok, o Justin Whalin até se esforçou um pouquinho e dá seus chutes, mas só isso não salva nenhuma cena. Até a morte do vilão parece uma cena requentada de Jurassic Park. Com gráficos piores.

No fim, parece que Joel Silver estava certo em querer que o filme fosse adaptado para uma série de baixo orçamento, porque é muito difícil assistir imaginando que ele saiu no cinema. Mas mesmo assim, ele ainda corria o risco de ser uma série de TV ruim e cancelada depois de cinco episódios.

CHEGOOOU! A HOOORA! DO OVERACTINGGGG!

Tô LendoPontos Fortes
  • Não tem em streaming. Não existem em lugar nenhum para assistir. Você tem que ter muita força de vontade para encontrar, na moral. Mas não faz isso, não.
Tô LendoPontos Meh
  • OH PUXA, POR ONDE EU COMEÇO?
  • Direção. Olha, eu até perdoo cgi mal-feito e roteiro capenga se o filme for uma diversão honesta. Taí a saga Velozes e Furiosos que não me deixa mentir. Mas tudo na direção desse filme é errado, desde o início, desde a tentativa de copiar o estilo de humor de A Múmia, as atuações exageradíssimas de todos os atores (sem exceção), até o final apoteótico que parece um jogo de videogame ruim de 1997. Não consigo sequer imaginar a reação dos envolvidos ao ver esse desastre de trem quando ele saiu.

De tantas referências aos livros e ao jogo, eles ainda resolvem copiar Indiana Jones.

Dada a época em que esse filme foi lançado, eu acho admirável que ele tenha saído tão ruim assim. Eu sei que a falta de grana e de investidores provavelmente já tinha dado a sentença de fracasso antes mesmo dele sair do papel, mas é absurdo que apenas UM ANO DEPOIS foi lançado uma das obras-primas do gênero de fantasia do cinema moderno: Senhor dos Anéis. Que é a prova de que nem sempre o “limbo de pré-produção” é uma coisa ruim. E assim, se você quer ver um filme ruim, mas IRADO e com dragões melhores, pode até escolher Reino de Fogo (2002) que saiu logo depois.

Ainda assim, Dungeons & Dragons teve outras duas sequências, dessa vez lançadas direto em DVD: DnD: The Wrath of the Dragon God (DnD: O Poder Maior) que saiu em 2005; e DnD: The Book of Vile Darkness (DnD: O Livro da Escuridão) que saiu em 2011. Tente assistir por sua própria conta risco.

Na boa, essa capa desse último filme parece muito paródia de filme pornô.

No fim, guardo esperanças de que o filme novo seja pelo menos divertido. E apesar de não acontecer nunca, jamais, ainda nutro uma certa esperança de que ALGUM DIA, ALGUÉM em Hollywood resolva adaptar Caverna do Dragão que, francamente, é o único D&D que interessa!


Dungeons & Dragons: O filme vale uma rebobinando. 📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.