Rebobinando #19

1994 foi um ano deveras esquisito. Morreu o Cruzeiro Real e entrou em cena o Real como moeda do país. Morria Ayrton Senna, o ex da Xuxa (oi?). Morria também o Mussum e com ele os Trapalhões, pq né? Morria também a seleção brasileira na Cop… não péra! O Brasil venceu sua quarta copa do mundo em 94, o que dá considerar esquisito se você lembrar que o Dunga era o capitão! Foi nesse ano também que a garotada enlouqueceu nas bancas de jornal brasileiras colecionando os Trading Cards da Marvel!

Se vem nos pacotinhos, é figurinha!

– Trading Cards? O que é isso, tio Kadu?!

É um nome chique pra “figurinhas”. Daquelas que não são autocolantes pra colar num álbum. São do tipo que você precisa comprar um fichário mais caro e umas páginas de sleeves pra você colocar. Mas só de um lado, porque atrás dos cards vinham umas informações extras pra você ler e praticar o seu inglês! Supimpa!

Mas sério. Foi uma loucura (pelo menos no meu colégio, acho?)! Cards são uma sensação no mercado americano, mas bem tipo figurinha mesmo. São umas figuras baratas e colecionáveis que a garotada curte, e às vezes alguns marmanjos também. Uma diferença básica daqui, no entanto, é que algumas coleções de cards são propositadamente impressas como “raridade”, ou seja, em poucas unidades. Algo que, dependendo do card, ou da coleção, em alguns anos pode valer alguns milhares de dinheiros. No caso das coleções Marvel Fleer Ultra 1995, tanto do Homem-aranha, quanto dos X-men, não creio que tenha chegado a esse ponto, mas… cara, foi bem bacana tentar completar.

Arte de Ray Lago no primeiro card, e dos irmãos Hidelbrandt no segundo. O terceiro é o card cromado transparente sinistrão que eu nunca achei, chuif.

Parando pra pensar agora, imagino que tenha sido mesmo a tal estabilização da moeda brasileira, que na época estava a mágicos 1 real x 1 dólar, que possibilitou a chegada desses trading cards aqui no país. Até porque eu os encontrava, literalmente, na banca da esquina! Nem precisava ir a uma Comic Shop que 1) não existiam ainda; e 2) se existia eu não conhecia. O cards vinham em enxurrada e não custavam caro, o que facilitava a coleção. E pra quem cresceu lendo tudo traduzido e localizado pelo Jotapê Martins (te amo, cara, só você colocava o Aranha mandando os bandidos pro “Carandiru”), era maravilhoso ver aqueles nomes em inglês e tentar reconhecer vilões que só viriam a aparecer nos gibis uns dois anos depois.

– Mas Kadu, ali em cima você disse que era Marvel Sbrubbles Náiti Fáive! Ou seja, 95! Como você comprou em 94?

Bom…

Olha, fui pesquisar. Isso aparentemente foi coisa da Marvel mesmo. Na época, os trading cards estavam crescendo nos EUA e, particularmente, essas duas coleções (Aranha e Mutantes) eram consideradas gigantes pros padrões deles, com uma base de 150 cards, sem contar as coleções extra especiais. Então, como as montadoras lançam um carro modelo 2018 ainda em 2017, a Marvel foi lá e lançou suas mega coleções de 95 em 94. Foi só pra criar hype mesmo.

A arte.

Meodeosdocéo! Os desenhos são um negócio à parte! Com desenhistas renomados no ramo da fantasia e da ilustração, como Luis Royo, Boris Vallejo, Ray Lago e Julie Bell (se você já jogou Magic, deve reconhecer todos eles), cada card é uma obra-prima! Há ainda diversos outros nomes que eu posso mencionar aqui, mas aí vai ser só uma lista de artistas incríveis e você não vai ler mais nada.

Vampira popozuda por Julie Bell. O card de acetato da Jubileu. E Venom versão cromada por Dimitri Patelis.

Os Cards e a Coleção.

Como eu mencionei antes, são 150 cards de base em cada coleção. Neles, é mais uma lista de “quem é quem” no universo Marvel na época. Então alguns vilões que eram importantes nos seus respectivos universos de heróis, hoje em dia podem ser um grande “quem é esse cara mesmo?” Tipo um cara chamado “O Resposta”, um vilão bundíssimo do Homem-aranha (sério, ele é mais bunda que “O Roda”) que tá lá na coleção. Ou o Rosa, ou o Cardíaco. Enfim… nos X-men você também encontra essa fila de “quems?” espalhados pelos cards.

Mas aí a gente chega na parte maneira! Na conhecida “Era de Cromo” dos anos 90, é claro que não poderiam faltar os cards cheios de breguete (“breguete” é um negócio cheio de “nove-hora”, como dizia o meu pai)! Então ALÉM dos 150 cards que você achava nos pacotes, e era até super fácil de fechar a coleção só com eles, existiam mais umas três ou quatro mini coleções. Em geral cada uma era composta de pelo menos uns 9 cards que ficavam bonitinhos numa página só, enfeitando seu fichário jogando brilho nos olhos dos seus coleguinhas invejosos que não conseguiam completar. Não à toa, essas coleções são apelidadas de “Chase Cards”, ou “cards para caça”, porque só os “completistas” iriam atrás de todos eles, tipo troféu do Charada, sabe?

Malditos troféus do Charada!

Ciclope de olho no popozão da Cristal enquanto o X-treme se treme de raiva porque ninguém lembra dele!

Na coleção do Aranha, haviam quatro (!!!) Chase Sets. A Golden Web que eram 9 cards com um acabamento de cromo, claro. A coleção Masterpieces, que era basicamente igual a anterior, mas eram 9 cards sendo três do Aranha, três do Venom e três do Carnificina (que estava super em alta na época), cada um por um artista diferente! A ClearChrome que era um set de 10 cards com acabamento em cromo, mas transparentes (nunca achei um desses, que pena, só descobri que existiam agora pesquisando sobre eles e desculpa eu tô chorando péra). E por último, o set de Holoblasts, 6 cards mostrando o Aranha lutando contra algum inimigo clássico, com acabamento holográfico! Aliás, a coleção toda do Aranha tinha MAIS UM breguete pra estimular a compra desenfreada. Se você quisesse, ou fosse trilhardário sei lá, dava para tentar achar TODOS os 150 cards da coleção com um acabamento dourado de autógrafo do artista responsável. Aquilo era uma máquina de sugar dinheiro, na boa!

Na coleção dos X-men haviam apenas (hah!) três Chase Sets, no entanto. A Sinster Observations, 10 cards com acabamento de cromo e uma “observação sinistra” do Sr. Sinistro na parte de trás de cada um. Hunters & Stalkers, com 9 cards cromados e uma observação, bem, não tão sinistra de cada personagem. Esse era um set bacana, com os personagens mercenários e sanguinários da franquia X, tipo Deadpool, Dentes-de-Sabre, Cable, essa galera. E por último mesmo, e talvez o chase set mais maneiro de todos (que eu sabia que existia, mas também nunca achei um) era a Suspended Animation. Um set de 10 cards com o “acetato” dos X-men do desenho animado. Na época, era a sensação achar um desses. Acho que segurei em mãos um da Jubileu, que um amigo sortudo encontrou, mas não lembro de ter visto qualquer outro. Era difícil mesmo!

Tô Lendovantagens
Tô Lendodesvantagens
  • Os tais chase sets, até certo ponto. Ok, se você é colecionador e tals, mas chega uma hora que chega, né?
  • Raridades. Como toda figurinha, rola uma troca, mas dependendo da raridade do card, algumas trocas podiam ser menos vantajosas pra alguém. Não que eu tenha me dado mal com isso. Nãããão. Nunca, iimagina!

Bishop pega um bronze enquanto Tempestade faz a diva da abertura do Fantástico na água. Wolverine faz um churrasco que só ele pode comer. Eca.

Fui atrás da minha coleção guardada no fichário no fundo do armário e tô aqui quase enlouquecendo com a qualidade dos desenhos. Na época eu achava uns muito piores do que outros, mas olhando de novo, uau! É realmente um mais incrível que outro. Taí uma coleção que minha que envelheceu muito melhor do que eu esperava, tipo o meu álbum de dinossauros do chocolate Surpresa.

Eu diria que os card colecionáveis dessa época valem, na boa, cinco rebobinandos com acabamento de cromo holográfico!  📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2018-02-05T15:23:21+00:00 5 de fevereiro de 2018|9 Comentários
  • Putz cara, 94 fui para Orlando depois da Copa do Mundo e voltei com muito card…. M-U-I-T-O card!!
    Boa lembrança. Vou chegar em casa e desenterrar eles só pra ver de novo.

    • Hahaha. Que inveja, cara. Eu fui pra Disney uns anos antes, então nem sabia que isso existia.

      • Mas quando eu comprei também não conhecia isso aqui no Brasil. A única coisa que tinha de card na época era do campeonato italiano… 92 se não me engano.

        • Eu acabei colecionando na época tambem uns cards da Copa do Mundo. Mas esses eu perdi. Lembro de não ter o fichário bonitão pra guardar, então eu pegava caixas de fita k7 velhas, arrancava aquelas pontinhas que entravam na fita e guardava uns bolinhos com três ou quatro seleções em cada um.

          Nossa, como eu tô velho.

  • Jean Carlos

    Eu lembro que eu jogava bafo com figurinhas do Pateta nas Olimpiadas se nao me engano era da Coca cola,me arrependo nao ter guardado essas figurinhas e tambem outros brinquedos da epoca.

    • Cara, dessas coisas assim eu só tenho arrependimento de não ter guardado meus Playmobils. Minha mãe, todo ano por volta do Natal, fazia a gente juntar nossos brinquedos que não usávamos tanto pra doar para algum orfanato.

      Era por um motivo nobre, pelo menos. 😉

  • Jean Carlos

    Eu lembro que eu tinha uma colecao da Marvel Gulliver era minha favorita. https://uploads.disquscdn.com/images/d9c24c2bbf03caa695c56f8a8ce9e7d027838cad31e69292b6729215917973f7.jpg

    • NOOOOOOSSA! Eu tb tive um desses! Hahahahah! (eu achava muito irado o capitão américa efazia ele bater com o escudo em todo mundo!)

  • Iolando Valente

    Bons tempos.Realmente,dava pra encontrar cards até em minha cidade(Duque de Caxias,rj).Ainda tenho alguns.