Rebobinando de volta! Trazendo a resposta definitiva para a maior das perguntas que todos os fãs de quadrinhos adoram fazer. “Quem é o super-herói mais forte?” E, de acordo com essa história, sem sombra de dúvida é ninguém menos do que o Justiceiro. Vem comigo rebobinar Justiceiro Massacra a Marvel!

Antes de mais nada, queria deixar bem claro aqui uma opinião do nosso saudoso Stan Lee sobre esse papo de “quem vence uma luta entre o herói X e o herói Y?”

E ele não está errado, não é? Eu sei que a gente adora esmiuçar os mínimos detalhes de uma luta entre super-heróis para decidir quem é capaz de sair vencedor, mas no fim das contas, quem ganha é quem o roteirista precisa que ganhe para dar seguimento à história. Eu já vi o Doutor Octopus dar uns sopapos no Hulk, sabe? Já vi o Hulk devolver os sopapos no Octopus. Já vi o Aranha botar o Magneto pra correr, assim como já vi a Garota-esquilo vencer o Doutor Destino… então enfim, numa luta entre heróis, o que vale é a criatividade. E numa luta entre heróis em uma realidade alternativa o que vale mesmo é ver as maneiras mais criativas com as quais eles matam uns aos outros!!! 

(Esta coluna pode ou não pode ter sido inspirada por um CERTO MASSACRE de personagens em um CERTO FILME AÍ  de um CERTO MAGO SUPREMO, mas quero evitar maiores spoilers)

ABRE O OLHO, CICLOPE!

DESCULPAS NÃO ADIANTAM

Talvez inspirado por algumas das melhores O Que Aconteceria Se…?, a história de Justiceiro Massacra o Universo Marvel acontece em uma realidade paralela onde todos os super-heróis e vilões da editora são tratados como meras buchas de canhão para o dedo rápido no gatilho de Frank Castle. E todos sabemos que heróis de realidades paralelas foram feitos justamente para serem tratados como buchas de canhão, né? 

Lançada originalmente no longínquo ano de 1995, Punisher Kills the Marvel Universe saiu sem o menor alarde não fez quase nenhum sucesso entre os fãs, ganhando um certo status de cult com o passar do tempo. Vamos lembrar que nessa época, os gibis mais “sérios” ainda estavam alcançando um público seleto e que os powerhouses da editora eram os X-men e o Homem-Aranha que estavam passando por sagas enormes. Nem mesmo os nomes de Garth Ennis (Preacher, Hitman) e Doug Braithwaite (Juiz Dredd, Arqueiro Verde, The Flash) foram o suficiente para alavancar as vendas do gibi.

A capa original de 1995, a do relançamento de 2001 por Steve Dillon e a da edição brazuca, também de 2001.

Inclusive, esse foi o primeiro trabalho de Garth Ennis na Casa das Ideias. E também foi o único por muito tempo, já que ele saiu logo em seguida à publicação da revista, alegando que a editora tinha mexido no texto da história sem consultá-lo. Porém, em 2001, após o término de sua estadia na Distinta Concorrência e da conclusão de Hitman, o autor recebeu um novo convite para escrever o Justiceiro sob o selo Marvel Knights em parceria com o artista Steve Dillon. Com isso, e aproveitando sua nova fama depois de escrever o aclamadíssimo Preacher, a Marvel resolveu aproveitar e relançar Justiceiro Massacra a Marvel com uma nova capa (também pelas mãos de Steve Dillon), nos agraciando com esse belíssimo retorno.

Nos anos seguintes, Garth Ennis faria a fama do personagem escrevendo talvez a sua fase mais memorável desde o fim dos anos 1980, trazendo Frank Castle para o “mundo real”, com histórias mais pesadas, mais sérias e deixando um pouco de lado aquele lance de “violência cômica” que o deixou tão famoso. Bom, pelo menos por um tempo, até o lançamento de talvez sua segunda obra mais famosa (ou seria terceira?): The Boys. Mas isso é papo para outra Rebobinando.

Seria o Justiceiro o primeiro “The Boy” de Garth Ennis?

NÓS TEMOS TODO O TEMPO DO MUNDO!

Lançada por aqui também em 2001 pela Pandora Books, e também sem muito alarde, Justiceiro Massacra o Universo Marvel conta uma história de origem diferente de Frank Castle. Talvez ela seja ainda um dos primórdios das ideias de “super-heróis no mundo real” que Ennis aproveitaria para escrever os seus Boys anos depois… Tipo o piãozinho de Inception. Tudo porque a trama se inicia quase da mesma forma, mostrando o Justiceiro como um cara comum que se depara com os super-impactos de uma super-batalha em sua vida.

Bom, na verdade, a trama tem início anos antes, onde vemos um Frank Castle pré-adolescente salvando um ainda mais jovem Matt Murdock de um grupo de valentões. Matt lhe pergunta porque ele o ajudou e Frank responde que “odeia valentões, e que uma hora na vida, todo mundo precisa aprender a se defender sozinho”. Depois desse momento que define basicamente o personagem, o vemos já adulto como policial de Nova Iorque, correndo desesperadamente para o Central Park, onde está ocorrendo uma batalha épica entre os Vingadores e os X-men para impedir uma invasão alienígena dos Skrulls e da Ninhada!

Diferentemente de sua origem, er, original, a família de Frank não é pega no fogo cruzado de bandidos, mas sim nesse super-hiper-épico-fogo-cruzado, o que já muda o foco do Justiceiro por si só! Ao perceber que sua família está morta, Frank fica enfurecido ao ouvir os pedidos de desculpas dos heróis envolvidos e saca sua arma, atirando na cabeça de vários deles, como o próprio Ciclope, o Gavião Arqueiro e a Jubileu. Com isso, ele vai a julgamento e seu antigo amigo Matt Murdock entra como advogado de defesa e garante a ele uma prisão perpétua em vez da cadeira elétrica!

Contudo, após determinarem sua prisão, Frank é libertado secretamente por um grupo de milionários. Todos eles eram pessoas de bastante influência, mas que tiveram suas vidas afetadas pelas incursões de super-seres de todo tipo: um ficou soterrado por um prédio derrubado pelo Hulk, outro estava num carro atingido pelo Tocha Humana e pelo Doutor Destino, outro foi atropelado pelo Motoqueiro Fantasma, etc. Esse grupo de pessoas ainda tinha boa parte dos seus recursos, mas a maioria estava deformada ou inválida ou perderam entes queridos por causa dessas situações e queriam justiça. Com isso, propuseram a Frank todo o financiamento possível para que ele desse cabo de todo e qualquer super-herói e super-vilão na face da Terra como o Justiceiro!

Sempre tem um grupo de velhos milionários descontentes…!

O restante da edição é um apanhado geral muito brilhante de como eliminar cada um dos personagens da Marvel. Há um momento impactante logo na primeira morte, claro, do Homem-Aranha, que pergunta combalido: “Justiça? Mas pelo quê? Por que eu?” ao que o Justiceiro responde apenas: “Porque alguém tinha que ser o primeiro!” Depois disso, vemos o anti-herói eliminar figuras importantes como o Rei do Crime e o Doutor Destino (com uma das mortes mais hilárias), além de todos os mutantes, armando uma cilada para os X-men e seus inimigos que foram explodidos com uma bomba atômica em uma base na lua! Vemos Frank eliminar o Hulk com facilidade, além do Wolverine e do próprio Capitão América. Também há menções a outras mortes, como por exemplo os Vingadores que morreram num “acidente” de teletransporte ou até mesmo o Sr. Fantástico que foi encontrado morto numa lixeira, enfim… é um massacre, como o próprio título diz.

Um fã mais chato poderia até dizer “ain, mas isso jamais aconteceria porque o herói X tem tal e tal poder, o herói Y pode fazer não sei o que, não sei o que lá” e para isso eu só tenho a repetir as palavras do sábio Stanley Lieber.

‘Nuff Said é basicamente um “Num f*de”.

O fim da história tem um tom mais dramático, mas como ela corre bem rápido porque não são muitas páginas, acaba parecendo um fim meio abrupto. Ainda assim, ele meio que combina com o tema central. Frank consegue eliminar todos os personagens da Marvel, deixando apenas um para o final: o Demolidor. Antes do encontro com o herói da Cozinha do Inferno, no entanto, ele tem um tete-a-tete com o líder dos milionários secretos, um velho com metade do rosto deformado, chamado Kesselring. Castle avisa que depois do Demolidor, ele vai parar com tudo e que todos os outros deveriam seguir a própria vida depois disso também. Kesselring manda um “ah, mas não vai parar coisa nenhuma”, porque segundo ele, todo dia aparece um super-herói diferente e que por isso o Justiceiro ainda é necessário, para agir como a “máquina de matar pessoal” deles.

Cai o rei de espadas, cai o rei de ouros…

E o Justiceiro sendo quem ele é, não perde tempo e mete uma bala na cabeça do velho! Depois ele grita para o grupo de milionários que se vir qualquer uma das pessoas ali ir atrás dele, vai voltar para matar todo mundo sem dó. Com isso, resta apenas o Demônio da Cozinha do Inferno.

Os dois se encontram e a luta acaba sendo até rápida, porque Matt Murdock se importa com o amigo e não quer matá-lo, mas esse acaba sendo o seu erro. Frank Castle acaba metendo uma facada no peito do herói que, ao cair no chão, retira sua máscara e revela sua identidade secreta. O Justiceiro fica chocado ao ver que matou a única pessoa que considerou como amigo e as últimas palavras de Matt ecoam em sua mente: “Sempre há alguém por trás da máscara, Frank. Mas você matou a todos nós…”

Em seu último ato contra todo o universo de personagens da Marvel, o Justiceiro coloca sua arma contra o próprio queixo e responde: “Não, Matt… ainda falta um!”

Bom, tá na capa né? Que ele iria matar TODO o universo Marvel…

Tô LendoPontos Fortes
  • Roteiro. É uma aventura bem divertida. Tem uns pontos mais sérios, mas no geral ela é bem engraçada, mesmo com tanta violência gratuita (ou talvez justamente por causa da violência gratuita). Eu não tinha reparado antes, mas ao relê-la hoje em dia, dá para perceber nitidamente as raízes de The Boys aí. É menos cínica do que sua obra autoral, talvez até por conta da rédea curta da Marvel, mas tem a mesma vibe.
  • Desenhos. A arte de Doug Braithwaite é incrível. Acho que talvez esse tenha sido o meu primeiro contato com ele nas HQs, mas não tenho certeza. Tenho uma vaga memória dele em uma história do Wolverine, mas vi aqui na internet que ele trabalhou junto com Alex Ross na minissérie Justiça e também que trabalhou em diversas edições do Arqueiro Verde, do Thor do Flash e em XO Manowar.
Tô LendoPontos Meh
  • Disponibilidade. Zero disponibilidade. Bem difícil de encontrar e a história jamais foi republicada por nenhuma editora, em nenhuma coletânea. O que é um absurdo, para dizer a verdade! Acho incrível que ninguém tenha lançado nenhum encadernado do Justiceiro de Garth Ennis com essa história no meio. Então fica aí a dica para as editoras: REPUBLIQUEM ESTA HISTÓRIA!
  • Spin-Offs. Nos anos seguintes, surgiram várias outras histórias de cunho similar a essa, como duas edições de Deadpool Massacra o Universo Marvel, lançadas em 2018 e 2020 no Brasil, e também Universo Marvel vs Justiceiro e Universo Marvel vs Wolverine, que saíram aqui em em 2012 nas páginas de Grandes Heróis Marvel #15-18. São histórias ok, mas sem o mesmo impacto dessa do Ennis.

“Você matou todo mundo, Frank. Desde o golias imortal até o fantasma com cabeça de fogo que já tinha morrido… Você é incrível!”

No fim, a história virou um clássico cult que poucas pessoas conhecem, mas que é sempre recomendada. Acho curioso descobrir que justamente ela foi a primeira história do Ennis para a Marvel e chega até a ser engraçado que ele já tenha entrado arregaçando com todos os personagens da editora, hahaha. Se você é fã do cara, eu recomendo demais, até pelos paralelos com as obras posteriores dele, em especial The Boys, como eu já mencionei. Seu desgosto por esse tipo de mercado é bem notório, mas diferente do Alan Moore, por exemplo, ele não se isola e para de escrever. Em vez disso, ele carrega na paródia e no cinismo e sai escrevendo!

E você? Se pudesse massacrar um universo de quadrinhos, qual seria? E quem você poria para perpetrar o massacre? Só não vale usar o Super-homem, porque Injustice também já copiou essa premissa, né? *blam, blam* Shots fired!


Justiceiro Massacra o Universo Marvel vale cinco rebobinandos! 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.