Ele é maior, mais forte. Voa. Tem espinhos na cabeça e chifrinhos nas mãos. E ele é rosa! Claro que estamos falando do Knuckles, o ex-adversário que virou amigo do Sonic nos dois jogos de 1994 que são, juntos, uma sequência só de Sonic The Hedgehog 2! Então vem comigo rebobinar Sonic 3 e Sonic & Knuckles!

(pode clicar aí em cima e ir escutando uma das faixas do jogo, só para animar)

Fui um grande fã dos jogos do Sonic no início dos anos 1990. Sonic 1 foi um dos primeiros jogos que joguei no meu saudoso Mega Drive (que tinha impressionantes DEZESSEIS MILHÕES DE CORES) e Sonic 2 praticamente fez um furo no meu console do tanto de horas que passei com ele ligado em frente à TV! Comprei muitas Ação Games, Game Power e entre outras revistas de videogames para debulhar cada detalhe, descobrir cada macetezinho, cada cheat code para aproveitar ainda mais cada um desses jogos. Desnecessário dizer que em 1994, quando Sonic The Hedgehog 3 e pouco depois Sonic & Knuckles chegaram às lojas, eu pirei.

Além de ser um jogo novo do ouriço azul mais querido dos games, o que por si só já era uma garantia de horas de diversão, ele ainda trazia um personagem novo, com cara de mau e uma pinta maneiríssima: Knuckles, o equidna. Seguindo a linha de personagens esquisitos que podiam virar bolinha e atacar com um pulo só, a Sega resolveu investir num bicho australiano que ninguém nunca tinha ouvido falar antes para criar o mais novo adversário do Sonic. E não, os equidnas não voam e não são cor-de-rosa. Na verdade, eles são monotremados, quase primos do ornitorrinco, e os dois configuram as únicas espécies de mamíferos que põe ovos! Seu nome inclusive “knuckles” significa “nós dos dedos”, aqueles ossinhos protuberantes que ficam na parte de cima da mão e, em geral, também podem significar “soco” ou “porrada”. Então, como toda a vibe do personagem é ser maior, mais forte e mais porradeiro, é um nome que faz todo o sentido.

Sônico, Caudas e Soquinho… Quase um grupo de pagode.

SOCO, CORRIDA E BOMBA!

A produção de Sonic 3 foi um tanto quanto complicada. Tudo porque a ideia inicial era aproveitar o numeral “3” no nome e lançar um jogo com gráficos isométricos em três dimensões, porém, devido à falta de tempo, esses planos foram deixados para trás e ele voltou a ser projetado como um jogo de plataforma 2D. Além disso, essa mesma falta de tempo fez a equipe dividi-lo em dois jogos diferentes, lançando assim Sonic The Hedgehog 3 em fevereiro de 1994; e Sonic & Knuckles em outubro do mesmo ano. O projeto 3D só foi finalizado em 1996 e lançado como Sonic 3D Blast para o Mega Drive e o Sega Saturn.

O gameplay não muda drasticamente para os outros dois jogos anteriores e ainda funciona como um plataforma 2D clássico, com o jogador 1 controlando o Sonic e a possibilidade de um jogador 2 controlar o Tails. Porém, dessa vez a raposinha de duas caudas também pode ser escolhida como jogador 1, além de ganhar a habilidade de voar por um curto período de tempo. O Knuckles, no entanto, não está disponível como personagem jogável em Sonic 3, ele é apenas um adversário a serviço do temível Dr. Robotnik.

Ele até seria fofinho se não fosse um maníaco homicida.

Porém, em Sonic & Knuckles, é possível usar o equidna marombado como jogador 1 e utilizar todas as suas novas e empolgantes habilidades: Como o Tails, ele também podia voar por um curto período de tempo (na verdade, estava mais para “planar” do que voar mesmo), além de poder abrir passagens e arrebentar paredes no soco! O que era um certo avanço, já que com o Sonic a gente precisava pegar distância, ou então usar o Dash Attack para fazer o mesmo. Uma outra novidade dele também era a possibilidade de escalar paredes graças aos “chifrinhos nas mãos”. O Knuckles era um pouquinho mais lento que o Sonic, mas na média do jogo isso era quase imperceptível.

As fases eram enoooormes, muito maiores do que antes. Ainda assim, havia apenas seis fases divididas em dois atos cada uma para Sonic 3: Angel Island Zone; Hydrocity Zone; Marble Garden Zone; Carnival Night Zone; Ice Cap Zone; e Launch Base Zone (respectivamente, os nomes das zonas são: Ilha dos Anjos, Cidade Hídrica, Jardim de Mármore, Noite do Carnaval, Calota de Gelo e Base de Lançamento). Todas as fases têm contrapartes parecidas em Sonic 1 e 2, talvez com exceção apenas da zona de gelo, que começava de um jeito muito interessante: com o Sonic descendo de snowboard pela lateral de uma montanha nevada!

Sonic sempre fazendo coisas radicais, parece até cena de filme, né? Hein? HEIN?

Já Sonic & Knuckles possuía mais oito zonas: Mushroom HillFlying Battery, Sandopolis, Lava ReefHidden PalaceSky SanctuaryDeath EggDoomsday Zone (vamos de novo: Colina Cogumelo, Bateria Aérea, Cidade da Areia, Recife de Lava, Palácio Oculto, Santuário Celeste, Ovo da Morte e Zona do Fim do Mundo). Os dois jogos juntos formavam um épico de CATORZE FASES que levavam cerca de duas horas para serem concluídas. Portanto, foi uma ótima ideia dos desenvolvedores introduzirem o sistema de salvamento no jogo, né? Muito embora isso tenha gerado alguns problemas, como veremos mais para a frente. Aliás, não é sensacional que o Sonic tenha sua própria fase de cogumelos, hein? Hein? Por causa do Mario e… ah, deixapralá.

Outra mudança interessante foi em alguns dos itens do jogo. A maioria deles ainda eram os mesmos, claro, invencibilidade, sapatos sônicos, vida extra, etc. Porém os escudos ganharam um upgrade bem bacana: o escudo flamejante, deixava o jogador imune ao fogo e rajadas de energia; o escudo de água, permitia respirar embaixo d’água (FINALMENTE!); e o escudo elétrico, protegia de ataques elétricos e também atraía os anéis mais próximos. Havia ainda um escudo instantâneo, que funcionava como uma espécie de pulo duplo capaz de proteger o jogador de ataques em pleno ar.

Sonic precisa ser o mestre dos elementos: fogo, água, imã, anel, sapato e… não, pera.

SONIC, MENTIRAS & VIDEOGAME

Sonic & Knuckles saiu poucos meses depois de Sonic 3 e, na verdade, era um jogo ainda muito parecido. Como comentei antes, era óbvio que eles seriam o mesmo jogo, mas devido a problemas na produção tiveram que ser lançados em momentos separados. Esse problema, na verdade, também foram “dois-problemas-em-um”, curiosamente.

O escopo do projeto era enorme, quando a produção teve início em janeiro de 1993. As fases novas tinham o triplo do tamanho das fases de Sonic 2 e com os planos de fazer um jogo em 3D, a Sega precisaria desenvolver um novo cartucho de 36 megabits com um chip de memória NVRAM (capaz de salvar um jogo, ou uma fase, por exemplo). Além disso, havia um acordo promocional com o McDonald’s para o lançamento conjunto do jogo e de um McLanche Feliz temático em fevereiro de 1994. Quando ficou óbvio que não dava para terminar tudo a tempo, os desenvolvedores dividiram o projeto em dois e deixaram Sonic & Knuckles para depois. Ainda assim, podemos perceber alguns elementos do jogo original em 3D nos cartuchos, como a tela de abertura ou ainda as fases de bônus, onde o jogador precisaria encontrar as Esmeraldas do Caos.

A capa de Sonic & Knuckles, e os brinquedinhos do McLanche.

A parte inovadora, no fim das contas, foi que o cartucho de Sonic & Knuckles tinha uma tecnologia “lock-on” em que era possível você acoplar Sonic 3 no jogo novo e jogar tudo da maneira inicialmente concebida! A tela de abertura ganhava o novo nome de Sonic 3 & Knuckles e dessa vez, finalmente, era possível jogar com o próprio Knuckles. 

Mas não é só isso!

A tecnologia lock-on se estendia até Sonic 2 e permitia que você também jogasse o jogo antigo com o equidna rosinha de mão gigante.

E pensar que hoje em dia os jogos de PS4 nem sequer rodam no PS5…

QUEM É O REI DO POP, BIATCH?

A minha maior surpresa durante a pesquisa para a coluna dessa semana foi descobrir o provável envolvimento do rei do pop, Michael Jackson, na trilha sonora de Sonic 3. Há uma série interminável de vídeos de fãs no melhor estilo “teoria da conspiração” analisando todas as pistas deixadas pelos envolvidos na produção das músicas. O canal The D-Pad tem o vídeo mais completo e explicadinho sobre a treta inteira, mas está só em inglês, infelizmente.

Mas o tio Kadu não vai deixar você na mão! Confere meu resumo do resumo: basicamente, durante a tour de Dangerous de 1993 (em que o cantor passou até pelo Brasil), Michael Jackson, ao passar pelo Japão, visitou a sede da Sega para dizer o quanto adorava a franquia do Sonic. Que fofinho. Ele e a gigante dos jogos já haviam trabalhado juntos alguns anos antes para lançar o jogo Moonwalker (1990) e, papo vai, papo vem, surgiu uma proposta para participar da criação da trilha do próximo jogo do ouriço. Como ele era super fã, claro que não negou.

Não sei por que… acho essa foto fofinha e surreal ao mesmo tempo.

MJ trouxe boa parte da sua equipe para trabalhar com ele: o tecladista Brad Buxer, o engenheiro de áudio Bobby Brooks, o designer de som Darryl Ross, o orquestrador Geoff Grace, o baixista Doug Grisby III e por último, o produtor musical Scirocco Jones. Todos eles, com exceção do último, iriam trabalhar com Michael na produção do álbum HIStory: Present, Past & Future de 1995.

O porém é que o rei do pop começou empolgado, mas logo em seguida desanimou porque não gostou do jeito que suas composições estavam soando em MIDI no chip novo da Sega. Aos poucos ele decidiu se afastar do projeto, ao mesmo tempo em que as acusações de abuso contra ele surgiram na mídia americana. Os responsáveis da Sega acharam melhor ele se afastar mesmo, para não ligar o nome do jogo, nem a participação do McDonald’s aos problemas do cantor. Foi só unir o útil ao desagradável, infelizmente.

Tem problemas que nem o Super Sonic dá jeito…

Com isso, ele não foi creditado pelas músicas e sua participação foi ignorada por anos. Até uma entrevista relativamente recente (de 2009, da revista eletrônica especializada em games Kotaku) em que o músico Brad Buxer comentou abertamente sobre a participação de Michael na trilha sonora e isso reacendeu as comunidades de fãs na época que foram atrás de destrinchar os elementos das músicas de Sonic 3 em busca da assinatura do cantor. Se você procurar no Google, dá para encontrar acordes de músicas como Blood on the Dancefloor, Jam, In The Closet, Who is It e Smooth Criminal em diversas faixas de Sonic 3. Mas talvez a mais notória seja a música de encerramento que é muito parecida com Stranger in Moscow que só seria lançada em 2005. 

Tô LendoPontos Fortes
  • Jogabilidade. Foram muitas inovações que trouxeram um novo ar à franquia, ainda mais depois do lançamento do péssimo Sonic Spinball. Os novos itens facilitaram a vida dos jogadores ainda mais com fases longuíssimas e a introdução do sistema de voo tanto do Tails quanto do Knuckles também foram legais.
  • 3 jogos em 1. O sistema lock-on foi uma coisa boba que me encheu os olhos na época. Sabe quando dizem que uma tecnologia muito avançada é indistinguível de magia para os leigos? Era bem isso. Parecia mágica poder jogar com um personagem novo em um jogo antigo.
  • Música. Antes mesmo de saber que o Michael Jackson estava envolvido na trilha, eu já a adorava. Juro. Sempre gostei muito das músicas do Sonic, mas em Sonic 3 elas estavam particularmente melhores… Só hoje fui entender o motivo.
Tô LendoPontos Meh
  • Franquia. É difícil manter uma franquia. Nessa época, eu já estava quase com 14 anos e apesar de ainda curtir videogames, minha empolgação tinha diminuído um pouquinho, sabe? As fases mais longas me desanimaram um pouco e eu demorei até pegar o jeito do jogo novo. Se não me engano, o jogo que achei mais incrível depois desse período foi Sonic Adventure 2 de 2001 para o Dreamcast.
  • Mini Chefes. Uma inovação desnecessária. Todas as fases têm dois atos, como no jogo anterior, mas dessa vez o primeiro ato tem um mini chefe que precisa ser derrotado com seis porradas. Ao final do segundo ato, você enfrenta o Robotnik e o derrota como de praxe, com oito porradas.

O jogo em 3D só veio depois, mas ainda tinham algumas coisinhas em Sonic 3 & Knuckles.

Vi recentemente o segundo filme do Sonic nos cinemas e achei super empolgante (tirando uma partezinha ali no meio que serviu para levar meu filho ao banheiro). Foi muito divertido relembrar dos momentos dos jogos durante a semana e acabar reconhecendo essas partes na telona… Me senti uma criança de novo (ou um pré-adolescente, talvez?). Sonic 3 não foi particularmente um dos mais memoráveis para mim, mas ainda assim foi bem divertido jogá-lo.

Hoje em dia, com emuladores e mega packs nas lojinhas online dos consoles mais modernos, parece muito mais fácil ter acesso a esses jogos da nossa infância. Se você tiver como, recomendo tirar a poeira do seu joystick e aproveitá-los novamente. Se tiver um pequeno, ou pequena padawan ao lado, melhor ainda.

E você achando que o Sonic Supersayajin era a única aquisição hostil de outras franquias…

E você? Chegou a jogar algum desses jogos? Ou até mesmo os dois juntos? Qual o seu Sonic preferido? Ou você mais da turma do encanador bigodudo? Diz aí nos comentários.


Sonic 3 & Knuckles vale quatro rebobinandos. 📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.