Continuando a surfar na onda do Cavaleiro da Lua, a Rebobinando remexeu no fundo do baú para encontrar alguma história com a participação dele e deu de cara com uma bem bacaninha que saiu em Superalmanaque Marvel #11!

Pena que essa capa saiu com uma lombada quadrada que matou o meio do desenho…

Como comentei na última Rebobinando, o histórico do Cavaleiro da Lua foi no mínimo confuso aqui no Brasil. A origem do herói nas páginas de Werewolf by Night nunca saiu por aqui (pelo menos não até recentemente, graças aos encadernados da Panini), e o primeiro volume do gibi lançado em 1980 foi publicado aos trancos e barrancos pela editora RGE nas páginas de Almanaque Premiere Marvel. Depois que a Casa das Ideias passou para as mãos da Abril Jovem, o personagem passou para as revistas do Capitão América e do Hulk, até mais ou menos 1989… depois disso ele sumiu por anos das publicações brasileiras, até surgir novamente em 1991 em Marvel Force #4, da Editora Globo.

A Marvel Force até tinha um mix interessante, mas era zoneada demais para durar…

A essa altura, a revista americana Moon Knight (1980) já tinha sido cancelada ali por volta de 1985 e foi substituída pelo título Marc Spector: Moon Knight, que começou a sair em 1990. Por aqui em terras brazucas, a Marvel Force da Globo já tinha mudado de nome também, para Gibi: Marvel Force (o que eu tô tentando entender até agora), e passou a publicar algumas poucas histórias dessa nova fase do Cavaleiro, mas a partir da edição #23 americana!!! Confuso, né? Mas essa era a vida do fã de quadrinhos brasileiro raiz! Sofrendo com publicações capengas e edições aleatórias dentro de mixes desconexos.

O maior problema desse gap de publicações do Cavaleiro da Lua foi a perda de uma trama essencial para o entendimento da história em seis partes que saiu em Superalmanaque Marvel #11, de 1994. Chamada carinhosamente de Vingança à Meia-Noite! Publicada originalmente em The Amazing Spider-man #353-358 em 1991, a história apresentava o retorno de Meia-Noite, o supostamente falecido sidekick do Cavaleiro da Lua!!!

Essa história gerou várias capas aleatórias para revista mensal do Aranha aqui.

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE QUE VOAM LONGE!

“A história jamais publicada” do Cavaleiro da Lua que envolve o seu sidekick tem um “quê” de Soldado Invernal + Os Incríveis, para ser bem sincero. E se pararmos para pensar que ela começou a ser pensada ainda lá em 1990, uns bons quatorze anos antes do lançamento dessas duas obras, fica a sensação de que o roteirista Chuck Dixon deveria estar, sei lá, trabalhando pros Simpsons! 

Tudo começa em Marc Spector: Moon Knight #4. A vida do herói parecia relativamente tranquila até que o retorno de um de seus arqui-inimigos ameaça atrapalhar tudo, o ladrão gatuno chamado Meia-Noite (Midnight Man, no original). As empresas de Marc Spector estavam sendo roubadas durante a noite, e os relógios dos locais estavam sempre quebrados com o horário marcando meia-noite (ou meio-dia, né? Nunca se sabe). Marc tinha certeza absoluta de que era o mesmo ladrão do seu passado, muito embora todo mundo acreditasse que ele estava morto. 

“Cai fora, bochecha. Eu trabalho sozinho!”

Com a ajuda da Gata Negra, o herói consegue derrotar o ladrão e desmascará-lo. Mas ao fazer isso percebe que não tinha como ser a mesma pessoa, pois o seu inimigo já era um homem adulto e o Meia-Noite atual era apenas um garoto de 18 anos, que admite ser filho do ladrão original. Ele diz que se chama Jeff Wylde e que nunca teve uma relação boa com o pai, por isso, decidiu invadir as empresas de Spector para chamar sua atenção e tentar convencê-lo a aceitá-lo como parceiro! No melhor estilo “Sr. Incrível” (e ao mesmo tempo dando uma alfinetada no Batman), Spector perde a cabeça e diz que trabalha sozinho, porque, ahem, “só um idiota combateria o crime com um moleque a tiracolo”

Tudo permanece como está até mais ou menos a edição #19 da mesma revista, quando o bem intencionado, mas ingênuo Jeff Wylde reaparece e rouba um dos uniformes do Cavaleiro da Lua e sai pelas ruas, ainda com o plano de se provar digno para trabalhar a seu lado. O problema é que nessa mesma época, o herói estava às voltas com uma organização criminosa chamada Império Secreto, umas das muitas células dissidentes da Hydra na Marvel Comics. O grupo era liderado por uma espécie de “diretoria” formada por dez caras mascarados que atendiam apenas pelos seus números: um, dois, três, etc. Sendo o Número Um obviamente o líder máximo da organização. 

“Só O MAIS COMPLETO IDIOTA teria um garoto como parceiro!”

No decorrer da história, vemos que Frank Castle, o Justiceiro, também está investigando o tal Império Secreto e acaba esbarrando com o Cavaleiro da Lua verdadeiro no caminho. Enquanto isso, Jeff tenta invadir uma das bases do grupo, mas é seguido pelo Homem-Aranha que, sem saber que não era o Cavaleiro da Lua real, se aproxima para ajudar. Os caminhos dos quatro heróis se cruzam e no meio da batalha Jeff compra briga com o líder da organização e acaba sendo mortalmente ferido e capturado. Deixados para trás, o Aranha, o Justiceiro e o próprio Cavaleiro da Lua se unem para uma missão de resgate. 

Os três acabam causando um grande atraso nos planos dessa organização criminosa e, no fim da história, Castle tortura e mata um dos líderes da diretoria (acho que era o “Número Três”) e eles ficam sabendo que Jeff Wylde, o pretenso ajudante do Cavaleiro da Lua, tinha morrido de verdade. Cada um toma o seu rumo e nós vemos que bem no interior da base secreta, Jeff aparece hospitalizado, com o corpo deformado e enfaixado, sendo atendido por uma enfermeira… Ela pergunta se ele é o Cavaleiro da Lua e seu olhar enche de ódio e ele diz: “Ele quase me matou! Me deixou para morrer! E eu vou me vingar!”

“Anteriormente em ‘Cavaleiro da Lua’…”

FLY ME TO THE MOON!

A história de Superalmanaque Marvel #11 envolve ainda mais heróis do que a do Cavaleiro da Lua. Tecnicamente, ela se passa um ano depois de sua publicação original, o que provavelmente deu um certo tempinho para os leitores americanos esquecerem o personagem. Nessa época,  The Amazing Spider-Man contava com roteiros de Al Milgrom e desenhos do sempre competente Mark Bagley. Sei que muita gente não gosta do traço dele (porque ele desenha todo mundo meio cabeçudo), mas nos anos 1990 seus desenhos estavam no auge! Eu achava que ele era um sucessor à altura de Todd McFarlane e Erik Larsen e tinha um traço limpo, coeso, com uma quadrinização bacana e uma produção consistente! Dificilmente a gente ficava sabendo de atrasos na entrega dos gibis em que ele trabalhava. Acredito que a qualidade tenha caído um pouco nos anos 2000 porque ele estava desenhando, sei lá, 32 revistas ao mesmo tempo. Aí fica difícil.

Enfim, além dos heróis envolvidos na trama inicial contra o Império Secreto: Aranha, Justiceiro e Cavaleiro da Lua; o roteirista Al Milgrom ainda trouxe para jogo o herói novato Falcão de Aço (Darkhawk, no original) e dois membros dos Novos Guerreiros: o vigilante Radical e o herói cósmico Nova! PURO SUCO DOS ANOS 90!!!

Sei lá, só faltava o Spawn e o Wolverine nesse grupo aí.

O agora vilão Meia-Noite foi transformado em um ciborgue superpoderoso pelo Império Secreto e era dominado por um dos membros da diretoria através de um “interruptor de dor”, um botãozinho que acionava um mecanismo em seu cérebro que causava, bom, uma dor intensa nele. Tudo para manter sua lealdade à organização. Eles tinham um plano super confuso envolvendo um foguete e uma arma de alta tecnologia, mas precisavam de várias outras coisas que a fizessem funcionar corretamente. Para tanto, colocaram seu mais novo capanga em uma missão de busca, quase uma gincana.

Entre outras coisas, eles precisavam do gênio criminoso Maça, membro da Gangue da Demolição, inimigos do Thor. Seu cérebro de cientista poderia colocar a máquina “macguffin” para funcionar e ainda fazer uns upgrades no corpo cibernético de Meia-Noite. Além disso, eles precisavam de uma fonte de energia muito poderosa, que só poderia ser encontrada na figura do próprio Nova. Então raptaram o herói e praticamente plugaram ele numa tomada para fazer tudo rodar perfeitamente.

Eles literalmente ligaram o Nova numa tomada.

Contudo, mesmo com tantos heróis diferentes envolvidos, a trama não deixa nenhum leitor completamente alienado com relação ao contexto de cada um. Ao reler, me lembrei daquela máxima do Stan Lee de que “qualquer edição de um gibi pode ser a primeira edição daquele gibi para alguém” e percebi que ele é repleto de flashbacks da história de cada um! Talvez esse tenha sido o motivo de eu não ter sofrido muito para entender o contexto geral, mesmo nunca tendo ouvido falar do tal sidekick do Cavaleiro da Lua.

Tem flashback da motivação do Aranha. Da história de Jeff Wylde. Da origem do Falcão de Aço. Da origem do Justiceiro. Etc. etc. Pode até ser um pouquinho de redundância na história, deixando ela um pouquinho mais lenta do que o necessário (afinal de contas são seis edições), mas são momentos necessários para novos leitores, como eu mesmo era na época (bom, mais ou menos) e deixam tudo mais completo.

Mais uma vez, para quem não entendeu…!

No fim das contas, a trama acaba girando em torno dos planos do Império Secreto e da revelação de que a enfermeira que cuidava de Jeff Wylde, o Meia-Noite, era também uma ciborgue criada secretamente pelo líder Número Um, como uma espécie de “salvaguarda” de sua posição. Lynn, a tal enfermeira-ciborgue-maligna dá um golpe na liderança da organização e coloca o próprio Meia-Noite para eliminar toda a diretoria! Mas aparentemente ela era “fria demais” para o gosto do ex-ajudante e ele decide derrubar a base secreta inteira em cima de todo mundo, heróis e vilões, porque cansou de ser enganado e usado pelos outros como uma mera ferramenta: primeiro pelo Cavaleiro da Lua, depois pelo Império Secreto e por último por sua própria enfermeira.

Os dois acabam lutando um contra o outro enquanto tudo desmorona e todos os heróis conseguem fugir. No fim, todos se encontram e se perguntam o que houve com quem ficou para trás, quando o vilão Maça ressurge dos escombros dizendo que só conseguiu sair porque usou os braços entrelaçados dos ciborgues como ferramenta para abrir caminho.

O título de toda edição final deveria ser “E agora o pau come!”

Tô LendoPontos Fortes
  • Entretenimento. É uma história simples, com início, meio e fim. Tem suas origens em outros gibis, mas nada que um “anteriormente em…” não resolva, na verdade. Mas entrega o que se propõe sem muita lenga-lenga.
  • Participações Especiais. Eu gostava muito dessas histórias do Aranha que envolviam uma porrada de outros heróis, como Carnificina Total, ou ainda o Retorno do Sexteto Sinistro. E aqui é uma trama simples, com os heróis de rua da editora de maior destaque na década de 1990.
  • Arte. De novo, Mark Bagley é um dos meus artistas preferidos do Aranha. Sei que não é todo mundo que gosta, mas eu acho o estilo dele bem limpo e eficiente. Gosto muito do estilo de quadrinização e de como ele desenha o Aranha: atlético, elástico e ágil.
Tô LendoPontos Meh
  • Contexto. Sei que elogiei o jeito como a história contextualiza todos os personagens para não deixar os leitores perdidos, mas ainda assim, como um fã de quadrinhos, queria muito que a história original tivesse sido publicada em algum lugar antes. Até porque, o gibi Marc Spector: Moon Knight tinha umas histórias bem bacanas do Chuck Dixon e uma arte I-N-C-R-Í-V-E-L de um cara chamado Sal Velutto, que eu nunca tinha visto antes!
  • Disponibilidade. Essa história só saiu nessa revista e em mais nenhum outro lugar. E foi, inclusive, a última edição de Superalmanaque Marvel! Mas fica aqui a dica para Panini reunir as edições #4-5 e #19-21 de Marc Spector: Moon Knight e essas seis edições de Amazing Spider-Man e fazer um encadernadinho bacana do Cavaleiro da Lua. Vai que rola?

Seria esse o final de Meia-Noite e da enfermeira-ciborgue-do-mal?

Essa não foi a última vez em que os leitores viram o Meia-Noite. Anos depois, em 2006, ele reapareceria no arco “Fundo do Poço” do Cavaleiro da Lua, por Charlie Huston e David Finch, bem no finzinho da edição #6. O arco seguinte da revista, apropriadamente intitulado “Sol da Meia-Noite” resgata o ex-sidekick-que-virou-ciborgue-do-mal da geladeira da editora e o coloca como um assassino em série que tenta mais uma vez chamar a atenção do Cavaleiro da Lua, matando e desmembrando suas vítimas para usar seus braços como os ponteiros de um relógio desenhado com sangue no chão das cenas do crime. Credo. Enquanto isso, o herói ainda tem que lidar com a Guerra Civil da Marvel, que tava comendo solta na época. Até o momento, ele está morto, mas como estamos falando de quadrinhos, nunca se sabe, né? Enfim, essas histórias saíram por aqui nas páginas de Marvel Action lá por volta de 2007.

Ou seria esse o final de Meia-Noite…? Quem sabe?

E você? Lembra dessa Superalmanaque Marvel? Tem alguma outra preferida? Conta aí nos comentários!


Superalmanaque Marvel #11 vale tres rebobinandos! 📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.