Complicado e perfeitinho, taí um herói fora do comum. Se você não conhece o punho esquerdo de Konshu, o deus egípcio da lua, essa Rebobinando é para você. Vem comigo conhecer o Cavaleiro da Lua, um herói de fases.

Mercenário, taxista e milionário? Já sei em quem o Cavaleiro da Lua votou em 2018.

Nunca fui muito fã do Cavaleiro da Lua. Na época de moleque, ele era mais um coadjuvante que de vez em quando surgia nas histórias do Aranha ou do Demolidor, mas era sempre tido como um dos vigilantes mais invocados e com pinta de poucos amigos. Junto dele, ficavam na mesma categoria uma galera tipo Manto & Adaga, Justiceiro, Deathlock, etc. Às vezes, no meio do mix de algumas revistas aparecia alguma história solo dele e, no máximo, a participação curta dele em Vingadores da Costa Oeste fizeram dele uma figura um pouco mais memorável que a média dos heróis da Lista C da editora Marvel.

No entanto, por volta da virada do século, ali pelos anos 2000 houve um novo interesse pelo personagem e ele passou por algumas reformulações. No entanto, dada a origem meio “esquizofrênica” do Cavaleiro da Lua, todos esses reboots tinham espaço para coexistirem ao mesmo tempo e, além disso, ainda acrescentaram um pouco mais ao lore do herói, fazendo dele um pouco mais do que ser apenas “a versão do Batman da Marvel”.

Bicho, Edna Moda ia ter uma SÍNCOPE com esse cara. OLHA SÓ o tamanho dessa capa!

Mas até mesmo em sua primeira aparição, o personagem está mais para o “Xaveco da Marvel” do que o “Batman da Marvel”, hehe. Tudo porque ele surgiu exatamente como um coadjuvante, na edição #32-33 de Werewolf By Night (1975), um dos títulos de terror/aventura da Casa das Ideias da década de 1970. O título do lobisomem tinha uma vibe muito parecida com o seriado do Hulk da mesma época, em que o personagem-título sofria por ser um monstro em segredo vagando pelos Estados Unidos e sendo perseguido por um grupo de homens poderosos e engravatados. Esse grupo de velhos ricaços contratam um mercenário que permanece sempre nas sombras, sem mostrar o rosto, para caçar e trazer o lobisomem para eles. Porém, todo o uniforme branco, as armas e o título de “cavaleiro da lua” são entregues a ele por esses caras! 

O curioso é que o próprio herói é super cético e faz piada quando recebe a roupa e as armas, perguntando se “precisa se vestir como um palhaço” para caçar uma “coisa que não existe”. O uniforme é todo equipado com partes de prata para enfrentar o lobisomem, mas na história em duas partes, ele acaba descobrindo que o herói do gibi na verdade é apenas um monstro incompreendido e se une a ele no fim, contra os velhotes poderosos. 

Por que alguém iria vestido de lua pra enfrentar um lobisomem? Não deveria ser ao contrário?

Aqui no Brasil essa história não foi publicada originalmente na mesma época de publicação, mas saiu em duas coletâneas do Cavaleiro da Lua:

  • Coleção Histórica: Paladinos Marvel #3 (Panini, 2017);
  • Cavaleiro da Lua: Os Heróis Mais Poderosos da Marvel #100 (Salvat, 2019)

A estreia do Cavaleiro nos EUA e as capas das coletâneas BR de histórias do personagem.

TUDO PODE SER, SE QUISER SERÁ…

Depois disso, o mercenário Mark Spector continuou como coadjuvante em histórias do Aranha, do Hulk e até mesmo dos Defensores, tudo porque os editores Marv Wolfman e Len Wein gostaram muito do personagem. A pinta de maluco, a grosseria e o uniforme branco acabaram ganhando o coração de alguns fãs e não demorou muito até que resolvessem dar a ele o seu próprio gibi. Moon Knight alcançou um relativo sucesso e durou trinta e oito edições, fazendo a fama de seus criadores, o roteirista Doug Moench e o desenhista Don Perlin. A equipe criativa da HQ, no entanto, foi formada pelo próprio roteirista, mas com os traços do nosso querido Bill Sienkiewicz. Foi essa fase que ajudou a cimentar na cabeça dos leitores a ideia de que ele era um análogo do Homem-Morcego na Casa das Ideias, porque o desenhista se inspirou um pouco do estilo de Neal Adams, um dos maiores desenhistas do Batman, para recriar o visual do Cavaleiro da Lua em suas páginas. E se você enxergar as imagens abaixo, vai ver que não é brincadeira… Mas lá pela metade do run, o Cinco-e-Vinte dá uma remexida no estilo e fica naquele traço maravilhoso que a gente ama.

Estilos bem parecidos… Hum…

Esse run dos anos 1980 foi o que definiu vários pontos da origem do personagem: Mark Spector era um soldado que havia saído do exército dos EUA e se aliado a um grupo de mercenários que estavam realizando trabalhos no Sudão. O chefe do grupo, um cara chamado Bushman, era especialmente violento ao massacrar o povo local em favor de algum grupo mais forte e tanto Mark quanto seu amigo, um piloto de helicóptero chamado de Francês, resolvem virar a casaca e salvar os inocentes de uma vila.

Em meio a esses inocentes, havia um egiptologista e sua filha. Ambos tinham descoberto uma tumba de um faraó na região e estavam tentando protegê-la de ser saqueada, Spector consegue salvar a moça, mas o pai dela acaba sendo morto por Bushman. O herói também acaba sendo mortalmente ferido, mas consegue escapar, se escondendo na tumba secreta, onde há uma estátua dedicada ao deus egípcio da lua, Konshu. Mark acaba morrendo, mas é ressuscitado de uma maneira misteriosa, dizendo que se encontrou com o homem representado na estátua e que ele o agraciou com uma segunda chance, desde que agisse como um protetor de inocentes em nosso mundo.

Khonshu é pra Jacu!

Ao voltar para os EUA, Mark Spector assume a alcunha do vigilante Cavaleiro da Lua e, para se proteger e poder navegar entre os diferentes ambiente sociais, ele usa o dinheiro que conseguiu como mercenário para criar dois “disfarces”: o milionário Steven Grant e o taxista Jake Lockley. Até aqui, essas “personas” não são ainda tratadas como “múltiplas personalidades”, mas sim apenas disfarces, assim como Clark Kent ou Bruce Wayne. Algo que a Marvel procurava diferenciar em seus heróis, especialmente nessa época, era bem o aspecto humano e, na tentativa de não deixar que ele fosse “só” um ricaço como Tony Stark, ou um pobretão tipo Peter Parker, ele acabou sendo um pouco dos dois. Steven Grant navegava pela alta sociedade, descobrindo os podres dos ricos e bandidos de alta classe. E Jake era o taxista em contato com o povão, de olho nas ruas e nas pessoas que realmente precisam de sua ajuda.

Essa fase foi publicada originalmente por aqui ainda em 1982, pela extinta Editora RGE, na revista Almanaque Premiere Marvel #3. Nessa época, ele teve o nome traduzido como Lunar, o Cavaleiro de Prata, mas assim que a Abril Jovem adquiriu os direitos das histórias da Marvel, ele foi mudado para o Cavaleiro da Lua que nós conhecemos. Mas para quem não tem pique para correr em sebo atrás dela, a Coleção Histórica: Paladinos Marvel #3 (Panini, 2017) é uma opção mais tranquila, já que contém alguns desses gibis republicados.

Como seu amigo francês diria, Mark: “No deserto é bonsoir!”

LUA VAI, ILUMINAR OS PENSAMENTOS DELA…

Depois dessa fase dos anos 1980 e o cancelamento de sua revista, o personagem voltou ao seu status de coadjuvante de luxo em vários outros gibis, além de ganhar algumas minisséries no mesmo período também. Como sabemos que os anos 1990 não foram fáceis para a Marvel, não é de se espantar que ele não tenha ganhado nada mais encorpado para estrelar. Isso só veio a ocorrer em 2000, nas páginas da revista Marvel Knights

Os Paladinos da Marvel foi um grupo formado pelos principais “heróis de rua” da editora (e quando eu digo heróis de rua, não é um bando de mendigo de capa, tá?): Demolidor, Justiceiro, Viúva Negra, Manto & Adaga, etc. Essa galerinha aí. Com roteiros de Chuck Dixon, a revista contou com a presença do Cavaleiro da Lua especialmente como “financiador” da equipe. Como era um povo que não costuma trabalhar bem em grupo, era óbvio que a revista não ia durar muito tempo… E não durou. Com apenas quinze edições americanas, a Marvel Knights brasileira que saiu em 2002 durou seis. Mas não teve nenhuma reedição, infelizmente.

O Demolidor é muito chato, bicho. O cara tá OFERECENDO DINHEIRO e ele todo “ai, num sei, a gente nem tem nome ainda”…

Mas bem logo depois disso, o personagem passou por uma grande reformulação! Talvez a maior delas até o momento. Pelas mãos de Charlie Huston (roteiros) e de Dave Finch (desenhos), em 2006 o Cavaleiro da Lua teve talvez o seu melhor momento “Cavaleiro das Trevas”. As seis primeiras edições, com o arco “Fundo do Poço” contam o que aconteceu com o herói depois de sua última aparição em Marvel Knights: Ele havia sido manipulado por um grupo de ricaços (em sua maioria, os filhos dos velhos ricos que contrataram Mark lá nos anos 1970 em Werewolf by Night) para chegar ao proverbial fundo do poço mesmo. Em uma luta contra seu maior nêmesis, o violento Bushman, o herói tem suas pernas fraturadas e acaba se aposentando da vida de vigilante. Ele se afasta de seus amigos, perde o seu dinheiro, fica viciado em remédios e começa a ter alucinações.

É nesta fase que os problemas mentais do personagem começam a fazer mais parte de quem ele é. Enfim, no run original já havia uma certa dúvida quanto ao fato dele ter sido mesmo “ressuscitado” por uma entidade egípcia da antiguidade, mas isso nunca foi muito levado a fundo. Pelo menos não como aqui. Pelo vício em remédios, a sanidade de Mark Spector começa a ser colocada em questão pelos próprios leitores, já que ele começa a ter diversos sonhos esquisitos e repetitivos, além de começar a bater papo com o próprio deus da lua, Konshu. Inclusive, o deus egípcio age com ele de forma quase possessiva e abusiva, sendo talvez o seu primeiro vislumbre de uma dupla personalidade.

Dave Finch finchando.

Eu costumo não gostar muito da arte do Dave Finch, mas putz. Aqui ela tá cem por cento! Redondinha, com cenas de ação maneiríssimas e que, combinadas com a narração estilo Frank Miller do autor, ficam ainda mais perfeitas. Nos EUA, o gibi durou trinta edições, indo até mais ou menos 2009. Aqui no Brasil, Moon Knight (2006) saiu só na revista Marvel Action de 2007, da Panini.

As diferentes fases do Cavaleiro da Lua… Hein? Hein? Sacou?

TOMO UM BANHO DE LU-A!

Com o fim da revista anterior, o Cavaleiro da Lua teve mais dois relançamentos curtos que buscavam explorar essa faceta mais problemática dele. Um run especialmente comentado (para o bem ou para o mal) é o de Brian Michael Bendis e Alex Maleev em 2011, em que inexplicavelmente o autor resolveu substituir as “personalidades alternativas” de Mark Spector por uma espécie de alucinação esquizofrênica em que ele visualizava e conversava com o Homem-Aranha, Capitão América e Wolverine, mas só em sua cabeça. 

Mas talvez a segunda reformulação mais revolucionária dele tenha surgido nas páginas de Secret Avengers (2010), pelas mãos de ninguém menos que um dos nossos malucos de plantão preferidos: Warren Ellis. Na edição #19 da revista americana, o autor estabeleceu uma nova forma do Cavaleiro da Lua, que vestia apenas um terno branco e uma máscara branca com um símbolo de lua crescente na testa. Apelidado depois de “Mr. Knight”, essa nova persona também não era exatamente uma “nova personalidade”, mas só um novo jeito de enfrentar o crime com mais estilo. Aqui no Brasil, a história saiu em Capitão América & Os Vingadores Secretos #18 (2012) e Os Heróis Mais Poderosos da Marvel #96 (Salvat, 2019).

O nome é Knight, baby. Mister Knight.

Essa nova apresentação do personagem foi uma mudança muito bem vinda em um histórico já super complicado, mas tudo bem, cabia perfeitamente com o personagem. Não demorou muito também para que Warren Ellis comandasse mais um run do personagem (ou pelo menos parte dele) e estabelecesse um novo lore, expandindo ainda mais essa questão dos problemas mentais e do transtorno de múltiplas personalidades.

Agora, de acordo com uma psicóloga, Mark Spector não tinha como sofrer de múltiplas personalidades, só porque ele “fingiu” ser três pessoas diferentes por muito tempo. Não é assim que este tipo de transtorno funciona. A suspeita fica de que ele sofra realmente de um dano cerebral causado por Konshu, o deus egípcio. A médica postula que acredita que ele tenha sido realmente ressuscitado por uma entidade sobrenatural que se conectou a ele, seja ela um deus, ou uma uma consciência anciã que existe além das fronteiras do espaço-tempo! Por isso, ele não é realmente doido de verdade, é só que todas as identidades e problemas de dissociação que o seu cérebro criou foram uma forma dele se adaptar à presença de Konshu em sua mente. Vai discutir com a doutora? Ou com o Warren Ellis? Vá em frente e boa sorte! 

Warren Ellis dando uma de Grant Morrison, mas quem liga, né?

Essa fase saiu aqui na revista Cavaleiro da Lua (2015), da Panini e também na já mencionada Os Heróis Mais Poderosos da Marvel #100 (2019), da Salvat.

Tô LendoPontos Fortes
  • Personagem. Gosto do personagem, apesar de nunca ter acompanhado muita coisa, para ser honesto. Esse status de coadjuvante de luxo combina bem, mas as tramas mais recentes parece que deram um pouco mais de “carne” para ele, para além de uma cópia do Batman vestido de branco.
  • Disponibilidade. Apesar da fase de Marvel Knights e de 2006 não terem sido republicadas ainda (olha a oportunidade aí, Panini), todo o resto essencial do personagem saiu por aqui. Os mais antigos estão em coleções encadernadas fáceis de achar e, bom, as fases mais recentes podem ser facilmente encontradas nas comic shops do Brasil.
Tô LendoPontos Meh
  • Cronologia Quase Opressiva. Anos e anos de cronologia e retcons que podem confundir todo mundo. Com quase cinquenta anos de idade, pode ser um pouco assustador tentar ler de tudo antes de começar a acompanhar a série nova do personagem que está para sair. Pode até valer a pena fazer o caminho inverso e ver o seriado antes.

Acho que UM CERTO FILME DE UM CERTO MORCEGO AÍ andou tomando “liberdades” com umas histórias do Cavaleiro da Lua, hein?

Se você não conhece muito do Cavaleiro da Lua, tentei montar essa Rebobinando como uma espécie de guia com algumas das histórias mais interessantes dele. A maioria dessas fases são bem acessíveis e valem super a pena se você quiser saber mais do personagem. O seriado parece que vai adaptar muito das coisas mais recentes, mas o cerne original do Mark Spector está todo ali, talvez com um climinha sobrenatural ainda maior que o dos quadrinhos.

Só pra constar, nos anos 1980, Neal Adams e Cinco-e-Vinte levaram tudo muito na esportiva.

Diz aí? Como tá a ansiedade para a série? Lembra de alguma história com o Cavaleiro da Lua que você curtiu mais? Diz aí nos comentários.


Cavaleiro da Lua e suas várias histórias valem quatro luazinhas. 🌙🌙🌙🌙

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.