“No meu sonho eu já vivi um lindo conto infantil…” Existem temas musicais que ficam entranhados em nossa mente e com certeza esse é um deles. Pode perguntar a qualquer um com mais de 30 anos se conhece a letra de Cavalo de Fogo e muito provavelmente ouvirá um sonoro “sim”. Então vem comigo rebobinar esse clássico do SBT.

Não que a música seja maravilhosa, né? Mas é bastante nostálgica que muita gente nem liga. Dá o play aí e pode se esgoelar na parte do “que um dia raiiiiiinha eu seriiiiiiaaaaa…”

Cavalo de Fogo é um daqueles desenhos dos anos 80 que nos tapeou por muito tempo. Tudo porque o SBT repetia os episódios à exaustão diariamente e nós, crianças otárias, dificilmente percebíamos que eram os mesmos 13 episódios um após o outro, por anos a fio. Diferente de He-man ou She-ra, por exemplo, que tiveram longas temporadas totalizando centenas de episódios, Cavalo de Fogo foi cancelado logo após a primeira, seguindo quase a mesma linha de Caverna do Dragão (mas sem o mesmo impacto cultural, no entanto).

O fato é que o desenho surgiu nos EUA em meados dos anos 1980 (em 1986 para ser mais exato), uma época em que a maioria dos estúdios de animação que produziam os populares “desenhos de sábado de manhã” estavam jogando todas as suas ideias na parede para ver o que colava. O sucesso estelar de He-man & os Mestres do Universo, que funcionava basicamente como uma propaganda de brinquedos de meia hora, havia deixado os executivos com vontade de criar a mais nova febre entre as crianças e faturar milhões em merchandising.

Quem não queria um bonequinho do Cavalo de Fogo?

Por volta de 1986, muitos desenhos estavam indo ao ar tentando capitalizar em cima de franquias conhecidas ou linhas de brinquedos. Um ano antes a Disney havia lançado o ótimo Ursinhos Gummi, e em conjunto com Cavalo de Fogo, os sábados americanos também ficaram conhecendo Os Ursinhos Carinhosos, Meu Pequeno Pônei e Os Cãezinhos do Canil, assim como os desenhos Os Verdadeiros Caça-Fantasmas, O Garoto do Futuro e Os Flintstones nos Anos Dourados. Portanto, a turma de Sara e seu cavalo flamejante tinham um público muito específico em mente: meninas a partir dos 10 anos de idade que amam cavalos (ou seja, quase todas)!

Não há muitas informações sobre os motivos que levaram ao cancelamento do desenho, mas para escrever a coluna, eu sentei aqui para assistir pelo menos um episódio para lembrar um pouco melhor dele e… Não é de se espantar que tenha durado tão pouco tempo mesmo. Claro, eu sempre levo em consideração o público-alvo e o fator nostalgia quando revejo qualquer obra mais antiga, mas neste caso em específico, eu lembro bem de achar Cavalo de Fogo meio… chato. Mas minha irmã, por exemplo, adorava! Minha esposa também! Então alguma coisa certa ele deve ter feito, né?

É esse olhar mágico que encantava as meninas…

Ainda assim, o roteiro era bobinho demais e imagino que em meio a enxurrada de desenhos novos que foram lançados naquela época, deve ter sido mesmo difícil de competir com outras coisas voltadas para o público mais feminino como os próprios Ursinhos Carinhosos, Meu Pequeno Pônei, ou até mesmo She-Ra a Princesa do Poder, que se tornaram franquias avassaladoras, vendendo muitos brinquedos. 

Deixando de lado os motivos do cancelamento, Cavalo de Fogo fez um relativo sucesso aqui no Brasil… e às vezes eu acho que foi só por aqui mesmo, apesar do desenho ter sido exibido em vários outros países do mundo. Ele não chegou a gerar uma linha de brinquedos (eu, pelo menos, não lembro de ter visto nenhum) o que deixou muita gente frustrada. Entendo bem a sensação, pois eu adorava vários desenhos naquela época que quase não tinham brinquedos por aqui, ou que então era muito difícil de encontrar (TÔ OLHANDO PARA VOCÊS, GALAXY RANGERS!).

Como não houve uma linha de brinquedos, muitos fãs do desenho na internet criaram os seus!

UM LINDO CONTO INFANTIL

Algo interessante nos desenhos animados da década de 1980 aqui no Brasil consistia na diferença de exibição dos dois maiores canais que disputavam audiência na época. A Globo geralmente cortava todas as aberturas das produções importadas, criando apenas pequenas vinhetas que eram exibidas pouco antes dos desenhos ou das séries na Sessão Aventura. Já o SBT costumava enrolar a programação exibindo o desenho por completo, desde a abertura até os créditos quase completos (porque mostrá-los todos já seria um exagero). Dessa forma, por muitos anos não ficamos sabendo quais eram as aberturas reais de clássicos como Thundercats, mas a música dos Silverhawks está tão entranhada em nossa mente como a abertura de Cavalo de Fogo.

O desenho contava a história da pequena Princesa Sara (dublada no Brasil pela icônica Miriam Ficher). Ela é a princesa por direito do reino de Dar-Shan, mas teve que ser levada para o nosso mundo quando ainda era um bebê, depois que sua mãe morreu sob circunstâncias misteriosas. Ela foi deixada em Montana, nos EUA, na porta do rancho de um fazendeiro chamado John Cavanaugh que acaba adotando-a. Sara cresce nos EUA como uma menina normal, mas acompanhada do Cavalo de Fogo do título, que a visita regularmente. Isso de acordo com o primeiro episódio que, como foi feito para ser exibido em eternas reprises, não perde tempo com apresentações além da que já é feita pela própria abertura.

Fiquei pensando se ele fosse um desenho japonês, esse drama duraria 367 episódios.

Enquanto ainda não pode ser rainha de Dar-Shan (sabe-se lá o porquê), Sara passa a visitar o reino com certa frequência para ajudar o povo a se defender das maldades da bruxa Lady Diabolyn. Como meia-irmã da falecida rainha, ela acredita que o trono de Dar-Shan é seu por direito e busca a ajuda de um grupo de espectros do mal que concedem a ela poderes mágicos malignos para executar seus planos. O curioso dessa personagem é que ela tem uma vibe (praticamente uma cópia mesmo) da Malévola da Disney. Tanto que no primeiro episódio ela se transforma em um dragão deveras parecido com o dragão-malévola do filme A Bela Adormecida (1959). A seu lado, a vilã tem um grupo de lacaios chamado de “Diabinhos”. Eles eram guardas que a serviam no passado, mas que foram transformados em uma espécie de “demônios fofinhos” após abrirem uma caixa mágica. Como de praxe em vilões de desenhos, esses ajudantes mais atrapalham do que ajudam e até certo ponto, a própria Diabolyn não é tão ameaçadora assim. 

Sara também tem uma série de amigos que mais atrapalham do que ajudam em suas aventuras no reino de Dar-Shan: O feiticeiro que não faz mágica Alvinar, o potrinho meio covarde ironicamente chamado Brutus e seu companheiro, um menino corajoso, mas meio tapado chamado Dorin. Aparentemente, o único personagem verdadeiramente capaz ali naquele meio é o Cavalo de Fogo que, aparentemente, pode ser considerado quase o Batman daquele mundo!

Até o nome, né? “Diabolyn”, “Malévola”… praticamente separadas no nascimento.

É engraçado porque, tirando o poder mágico do cavalo que é ligado ao Talismã Mágico de Sara, e que lhe permite saltar entre os mundos, o Cavalo de Fogo é um cavalo absolutamente normal. Em nenhum episódio ele indica qualquer tipo de habilidade especial como, sei lá, FAZER JUS AO NOME E SOLTAR FOGO, sabe? Assim, ele parece ser forte e rápido, mas nada muito além das habilidades normais de um equino comum. No entanto, ele parece ser um animal esperto e, junto com a heroína, consegue resolver a maioria dos problemas causados pelos vilões da história. 

Como o desenho não seguiu adiante, algumas tramas ficaram largadas no meio do caminho e ninguém, nem mesmo os produtores antigos resolveram concluir (e bom, não tem ninguém pedindo, né? Como foi com Caverna do Dragão). Mas em um dos episódios é revelado que o pai adotivo de Sara, o fazendeiro John Cavanaugh, é na verdade seu pai biológico, o Príncipe Cavan! Sacou? “Cavan”? “Cavanaugh”? Enfim. Para protegê-lo de um perigo desconhecido, ele teve sua memória apagada e foi colocado na Terra. No entanto, depois que a heroína foi raptada pelos espectros malignos de Diabolyn, o próprio Cavalo de Fogo foi buscar a ajuda dele e recuperou sua memória momentaneamente.

Superforça dele deve ter pra saltar a essa altura, né?

Tô LendoPontos Fortes
  • Disponibilidade. Não existem DVDs da série, mas sempre pode-se contar com o youtube e alguma alma boa que disponibilizou todos os 13 episódios em um vídeo só. Dublado e com aquela qualidade horrorosa de VHS que só os mais velhos sabem apreciar.
  • Dublagem. Dublagem clássica, né? Vozes super conhecidas como a já mencionada Miriam Ficher. Além dela, também temos Luiz Feier Mota, o dublador oficial do Stallone, como o titular Cavalo de Fogo.
Tô LendoPontos Meh
  • Roteiro. Super fraquinho. Não é de se admirar que o desenho não tenha sido sindicalizado e, por conta disso, abandonado depois de 13 episódios. Tanto que provavelmente veio num pacote de desenhos requentados para passar no Brasil, junto com outros clássicos menores. Mas pela nostalgia, se você era fã, vale a pena rever alguns episódios.
  • Animação. Era ok, para a época. Nada brilhante, mas em sendo um desenho da Hanna Barbera, conhecida por cortar todos os custos possíveis na hora de animar, acho até bom.

Ele nem pega fogo de verdade, cara! Como pode ser o rei dos cavalos?

É difícil encontrar muitas informações sobre Cavalo de Fogo na internet. Típico da maioria dos desenhos que fizeram muito sucesso no Brasil e em quase nenhum outro lugar do mundo. Acho curioso que muitos desses desenhos costumavam ser exibidos pelo SBT, já que a Globo tentava catar as melhores produções para exibir no Xou da Xuxa ou na TV Colosso. Ainda assim, a gente lembra com muito carinho de coisas como Os Centuriões, Punky A Levada da Breca (o desenho e a série), Muppet Babies, Nossa Turma, Inspetor Bugiganga, Pole Position, etc.

Uma curiosidade, no entanto, é que na versão original do desenho a vilã Diabolyn foi dublada por ninguém menos que a atriz Jessica Walter, conhecida por seu trabalho na série  Arrested Development (e também por fazer a voz original de Fran da Silva Sauro em Família Dinossauros).

Cavalo de Fogo, Família Dinossauros, Archer, Arrested Developmente… O que essa mulher não fazia, né?

Mas e você? Era fã de Cavalo de Fogo? Sabia que ele tinha só 13 episódios, ou era um completo pateta como eu? Tem algum outro desenho dessa época que só você lembra? Conta aí nos comentários!


Cavalo de Fogo vale apenas duas rebobinandos. 📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.