Rebobinando #18

Opa, antes de começar a coluna desta semana eu queria colocar aqui uma coisa.

▲▲▼▼◄►◄► B A

Pronto. Com o cheat code inserido, eu já posso falar desse gibi aqui na Rebobinando! “Cheat code?”, você me pergunta, ó, incrédulo leitor. E eu respondo “sim”, porque hoje eu venho aqui para falar pra vocês de um gibi que eu não li nos anos 80, ou 90. Vim aqui falar de Patrulha do Destino e mascar chicletes! E o meu chiclete acabou! *BOOOM*

A velha Patrulha e a “nova” Patrulha!

A Patrulha do Destino foi uma equipe criada lá em 1963. Era um bando de pessoas com poderes esquisitos que eram rechaçadas pela sociedade, e lideradas por um cara muito inteligente que andava de cadeira de rodas.

– Péra…

Que foi?

– Mas isso é…!

Aham! Pois é, é verdade que a equipe tem lá suas semelhanças com uma OUTRA equipe de pessoas discriminadas e lideradas por um cara em cadeira de rodas, mas meio que acaba por aí. Formada inicialmente pelo Dr. Niles Caulder, Elasti-Girl, Homem-Robô, Homem-Negativo, Mento e Mutano, as histórias fugiam um pouco do comum das histórias de super-herói da época. Pena que não durou muito e acabou sendo cancelada por volta de 1968 nos EUA. Muito tempo depois, a revista passou por uma reformulação e foi relançada em 1977, só pra ser cancelada de novo logo depois.

Com um histórico desses, você se pergunta agora por que raios eu vou falar sobre esses caras? Bem, por que entre o finzinho de 2015 e o início de 2917 a Panini relançou em seis encadernados a terceira tentativa de reformulação da equipe, publicada originalmente nos EUA em 1987. Aqui no Brasil, a primeira parte dessas histórias saiu pela Metal Pesado em 1997 e 1999, também numa série de encadernados publicados sob o selo Vertigo. (E só por essas datas de publicação eu encontrei a brecha legal queu precisava pra falar deles aqui). O que chama a atenção pra esses encadernados é ninguém menos que Grant Morrison!

Uma das RARÍSSIMAS fotos de Grant Morrison antes de perder o cabelo e ficar totalmente careca!

Há quem ame o cara, há quem o odeie. E eu acho que o valor dele depende muito dos heróis que ele escreve. Patrulha do Destino é um desses que vale muito a pena. Grant Morrison é um escritor habituado a trabalhar na área do “esquisito”, com uma puxada pro lado mais dark. Curiosamente, ele apresentou umas idéias bem loucas e revolucionárias no run dele em X-men. (sdds eternas do  Xorn-que-era-só-o-Xorn-e-não-o-irmão-gêmeo-maluco-disfarçado-de-Magneto-disfarçado-de-Xorn). Mas é aqui na Patrulha que ele teve algumas das idéias mais loucas que eu já vi nas histórias em quadrinhos! E olha que eu sou fã do Warren Ellis e coisas como Authority e Planetary, mas UÔU! Nunca li tanta coisa fora da caixinha como aqui.

Se você não é muito conhecido da equipe, a não ser por aqueles dois episódios da série dos Jovens Titãs no Cartoon Network, não tem problema. A edição #1 do encadernado abre com duas introduções ao time: Uma pelo editor Tom Peyer e outra pelo próprio Grant. Todo o clima dark, estranho, tá bem explicado ali e é só uma provinha do que você vai enfrentar. E já vou avisando, é bom ir de cabeça beeeem aberta, porque não é pra qualquer um. As histórias vão desde alienígenas de outros planos de existência, até quadros que engolem cidades e ruas vivas que mudam de lugar quando querem.

Só pra você ter uma idéia do nivel de loucura. Aqui temos os vilões “Homem-animal-vegetal-mineral”, o “Caçador de Barbas” e o “Sr. Ninguém”.

Há quem diga que os trabalhos do Morrison nesta fase foram uma prévia do que ele viria a fazer com “Os Invisíveis” e com o seu conceito de “magia do caos”. Isso mesmo. Magia do Caos. Grant Morrison se considera um Mago assim como o “Escritor Original” e, bom, não é segredo para ninguém que os dois tem um longuíssimo embate através dos anos envolvendo magia, plágios e cópias, e alguns dos melhores burns no mundo dos quadrinhos. Mas isso é assunto para as revistas de fofoca!

Tô LendoPontos Fortes
  • Se você é fã do Morrison, é um prato cheio. Algumas das melhores idéias do cara são colocadas no papel e, olha, é mucho loco. Ainda assim, é muito maneiro fugir um pouco do status quo das revistas mais tradicionais. Em “A Pintura que Devorou Paris”, por exemplo, a Liga é chamada pra resolver o caso e ficam todos com cara de panaca enquanto a Patrulha salva o dia.
  • Dilemas pessoais. Alguns dos problemas gerados pelos superpoderes dos personagens são uma pegada muito boa em cima do gênero. Logo no início os dilemas do Homem-Robô, que é só um cérebro num corpo metálico são de dar pena. A nova situação do Homem-Negativo que é uma junção de três pessoas numa só é praticamente a primeira aparição de uma personagem sem gênero definido nos quadrinhos.
  • Alguns dos vilões mais mirabolantes e conceituais dos quadrinhos. O Sr. Ninguém, Rubro Jack, a cidade de Orqwith, ou até mesmo uma vilã que tem qualquer poder que você não puder imaginar. A cada página os vilões são uma surpresa.
Tô LendoPontos Fracos
  • A arte do Richard Case não é lá das grandes, mas não compromete. Ele consegue passar bem os absurdos das histórias. Mas quando alguém como Kelley Jones surge lá pro encadernado #3, fica aquele gostinho de “puxa, se fosse esse cara desde o início, ia ser bem melhor”. Algumas das capas desenhadas por Simon Bisley também não mudam muito essa sensação.
  • Sensação de Perdido. Ou você vai muito de cabeça aberta ou você faz como eu e finge que entende tudo o que acontece nas páginas da revista. O bom disso é que você lê e relê e entende coisas diferentes a cada leitura. Tipo um gibi dos X-men no fim dos anos 90.

Pra você que curte uns gibis esquisitos, pra você que se amarrava nas histórias malucas da saudosa Metal Pesado, ou mesmo você que quer pagar de inteligentão na frente dos coleguinhas, essa série da Patrulha do Destino é o seu dever de casa.

São edições tão bacanas que valem uma rebobinando, duas cervejas, uma lua nova, três termostatos e uma dona jogando pólo aquático! 📼🍺🍺🌑🎛️🎛️🎛️🤽‍♀️

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2018-01-29T13:37:18+00:00 29 de janeiro de 2018|20 Comentários
  • Não podia concordar mais com a nota, perfeito!

    • Totalmente imparcial essa nota.

      • Ah, quando for falar de algo que teve sangue, tem que usar o A, B, A, C, A, B, B.

  • Jean Carlos

    So pelo fato de ser Grant Morrison vale muito a pena, mais toma cuidado com o caçador de barbas Kadu kkkk!

  • Damião Ferreira da Cruz

    Também deixei passar na época que foi lançada aqui (eu fugia de qualquer publicação das editoras de fundo de quintal, que começavam uma série e abortavam no meio!)… e lendo agora, depois de já estar familiarizado com o estilo Morrisonesco, eu achei um quadrinho bem acima da média, com conceitos muito bem elaborados! Vale a pena ler sem parar!

    • Com certeza. Tive até uma surpresa escrevendo a coluna dessa semana… Deixei passar o último encadernado. Vou ter que catar em alguma banca de jornal perdida por aqui.

  • Acho que já li tudo da Patrulha do Destino (exceto pela fase em que viraram uma equipe de heróis “de verdade” roteirizada pelo John Byrne, e uma tentativa de fazê-la ao modo engraçadalho de Keith Giffen). Até a fase da Rachel Pollack é melhor que essas duas entre os parênteses.

    Mas as primeiras fases do Bruno Premiani são fantásticas, e Morrison levou isso ao extremo com seu run (o qual, junto dos primeiros, é meu favorito). Hoje em dia a Patrulha é escrita pelo Gerard Wray e está bem legal também.

    Ótima matéria, só achei venenosa (mais) uma piadalha sobre o Morrison ser um Moore careca. Sempre vi distinções enormes entre o trabalho de ambos, e ainda que houvesse algum tipo de competição entre os dois, cada um se destacou mais em alguns trabalhos, menos em outros (o Moore mesmo, acho que “caducou” muito em algumas obras recentes, e em algumas do Morrison ele parece claramente cansado).

    P.s.: A série de tevê idealizada pelo Morrison (Happy!) está fantasticamente perversa e, se ainda não assistiu, merecia uma resenha aqui. 8)

    • Hahahah. Eu tb não acho que o Morrison seja uma cópia do Moore, não. Mas acho engraçado esse embate entre os dois e entre o pelotão de fãs de cada um! Eu só jogo lenha na fogueira e vejo o circo pegar fogo.

      Queria ler a fase nova da Patrulha, mas confesso que fiquei com receio dado os reboots recentes da DC (muito embora, muita gente tenha elogiado coisas distintas em cada reboot). Vou procurar em algum lugar essas fases que você mencionou, do Bruno Premiani e do Gerard Way. E a série também! Só não vai dar pra falar aqui porque é super recente… mas eu posso jogar a bola pro Caruso ou pro Ulisses! Valeu pela dica!

      • Opa! Aproveitando a deixa, eu fiz uma resenha sobre Happy em uma Caverna do Caruso recente! Se tiver essa paciência, dá um pulo lá!

    • Aliás, tem um link perdido ali na coluna falando sobre a briga dos dois por causa de interpretações de magia que eu acho sensacional, não sei se você já leu, mas vale dar uma olhada. http://www.break.com/article/alan-moore-and-grant-morrison-occult-war-for-25-years-3080666

      • Estou lendo o link agora. Pelo que soube até hoje, Moore é magista mais do lado conservador do caos, ele adora um deus serpente ou coisa assim; Morrison é mais liberal nesse sentido, ele mesmo cunhou o tempo “Pop Magic”. Brigadão pelo link.

  • Bruno Messias

    Eu me amarrei nessa série de encadernados. “Irmandade do Dadá” é o melhor nome de grupo de vilões já criado!
    Eu gosto de muita coisa do Morrison (meu preferido é o Homem Animal), mas ele parece sempre querer mostrar que nós leitores não somos tão cultos ou inteligentes quanto ele (eu não sou mesmo… Mas não precisa jogar na cara).

    • Às vezes ele é só um cara muito a frente de seu tempo, vai saber, né?

  • groucho marx

    Confesso q tanto patrulha do destino quanto os invisíveis tiveram o mesmo destino (trocadilho Não intencional) comigo.
    Comecei empolgado e fui me desmotivando a tal ponto que desencanei de ler o fim (tá lá na minha pilha).
    O morrison cria uns personagens interessantes, mas a trama vai ficando tão prolixa que vai ficando impossível acompanhar e perdendo a graça.
    Srm falar que todos os vilões, TODOS falam do mesmo jeito dadaísta e poético. Uma hora isso cansa.
    Pra mim essa coleção serviu pra desmistificar o aprendiz de mago.
    Morrison acerta em várias sagas (homem animal, sete soldados da Vitória, boa parte do Batman inc)
    Mas erra a mão em igual proporção

    • Capitão CoruJão

      Final de 7 Soldados e Crise Final a partir da metade. em particular os dois últimos números, são ininteligíveis.

      • groucho marx

        Tai, olha que estranho. Eu consigo entender melhor tanto 7 soldados quanto crise final do que invisíveis e patrulha. Talvez porque naqueles eu consiga evidenciar melhor a brincadeira com s metalinguagem, outro tema recorrente do Morrison. Talvez porque, por ser mais heroico, acabe soando menos prepotente.
        Patrulha tem bons momentos, até bons arcos. Mas em geral fica numa ensebação repetitiva. Se tivesse durado menos edições seria melhor, a meu ver.
        Mesmo problema dos invisíveis, começa muito bem, uma verdadeira porrada. Depois se perde se auto reverenciando e misturando viagem no tempo e teorias mágicas com muita auto referência de uma prolixidade desnecessária (nesse quesito eu acho o Warren ellis muito superior, consegue misturar temas científicos e esotéricos de forma muito mais concisa sem perder a profundidade e multiplicidade de camadas). Em suma, Morrison é bom, mas as vezes se perde em sua própria verborragia

    • Cara, vou te dizer que eu curti muito essa coleção da Patrulha. Não cheguei a ler os Invisíveis ainda, mas um amigo meu me implora há tempos pra ler, pq ele quer discutir com alguém e não tem ninguém que tenha entendido aquilo! O que não quer dizer que eu vá entender, mas sei lá… Mas concordo que ele tem erros e acertos em igual proporção.

  • Eita! Sempre quis ler, mas sempre tive dúvidas. Aí eu li a sua coluna e falei VOU LER. Aí eu li os comentários e TIVE DÚVIDAS.

    Mas a nota foi excelente!