Eram os deuses astronautas? “Os teóricos de alienígenas do passado sugerem que sim!” E não só eles, como o pai dos quadrinhos modernos, Jack Kirby, também acreditava nisso. Tanto que essa é a premissa dos seus Eternos. Mas hoje vamos rebobinar a minissérie de 2006 escrita pelo nosso querido Neil Gaiman.

Não estou dizendo que foram os Eternos. Mas foram os Eternos.

Sim, a piada é um golpe baixo, mas se pararmos para pensar, os Eternos são basicamente um episódio de Alienígenas do Passado em forma de quadrinhos. Com certeza o Giorgio Tsoukalos (o tiozinho de cabelo arrepiado aí do meme acima) foi uma criança que cresceu lendo os gibis de Jack Kirby e que levou a sério demais a ideia de que seres cósmicos vindos do espaço profundo são os verdadeiros responsáveis pela criação da vida humana e o desenvolvimento de civilizações na Terra.

Criados em 1976, os Eternos tem um histórico de publicação no mínimo complicado. Jack Kirby tinha ido para a DC Comics em 1970, e lá ele criou os Novos Deuses, que tinham uma premissa bem parecida. Porém, a série acabou sendo cancelada antes do tempo e o escritor voltou para a Casa das Ideias logo em seguida, onde reaproveitou essas mesmas histórias para criar os alienígenas imortais. Bom, “alienígenas” não é exatamente o termo, né? Originalmente, os personagens são uma espécie de “ramo evolutivo” da raça humana, desenvolvidos pelas mãos de seres cósmicos imemoriais, chamados Celestiais. Tal qual Jim Starlin faria alguns anos depois com sua saga esotérica/existencialista que levou à criação de Thanos, Adam Warlock e outros seres cósmicos da Marvel, Kirby elevou o nível das histórias de super-heróis de meros vigilantes impedindo assaltos à banco, para guardiões e guias da humanidade pela eternidade.

Separados pelo nascimento

No entanto, assim como os Novos Deuses da Distinta Concorrência, os Eternos tiveram uma, er, vida curta. A revista durou de 1976 a 1978, e depois disso só voltaram em uma minissérie de 1985 pelas mãos de Peter B. Gillis, Walt Simonson e Sal Buscema. Demorou até o ano 2000 para que eles retornassem mais uma vez em um crossover com os X-men com roteiro de Chuck Austen e arte de Kev Walker, contra o x-vilão Apocalipse. Mas durante esse período todo, os personagens ficavam meio perdidos sem muita função no universo Marvel, já que eram poderosos demais para lidar com os problemas habituais da editora. Por fim, foram precisos os talentos do expert em deuses, Neil Gaiman, para ressuscitar os seres semi-divinos imortais e guardiões da Terra. Junto com ele, a arte do nosso queridíssimo Romitinha!

Os Eternos através dos anos…

“E O HOMEM, EM SEU ORGULHO, CRIOU DEUS À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA!”

O filósofo Friedrich Nietzsche argumentou que Deus é uma criação humana como maneira de dar sentido aos mistérios da vida. Joseph Campbell, o maior teórico sobre mitologia e religiões do mundo, também relatou o mesmo processo em seus estudos. É seguindo essa linha de pensamento que Neil Gaiman escreveu uma de suas maiores obras, Deuses Americanos, levando a uma história quase literal sobre a criação dos deuses através dos humanos. Então, na hora de reinventar os Eternos em 2006 (no meio da Guerra Civil da Marvel), ele reaproveitou esse conceito para lançar a minissérie.

É muito curioso acompanhar o nascimento dos Eternos enquanto como personagens porque com a história do Gaiman, esse processo se fecha num ciclo de realimentação de referências. Tudo porque, tecnicamente, os humanos criaram as divindades da antiguidade para entender melhor o mundo em que viviam. Com o tempo, essas divindades e heróis viraram mitos, que serviram de inspiração para a criação dos nossos queridos super-heróis. Kirby vem e revira esse conceito de ponta-cabeça, dizendo que na verdade, os mitos e deuses foram super-heróis de verdade que inspiraram a raça humana a criá-los. Dessa forma, temos o mito de Ícaro, que surgiu por causa do eterno Ikkaris; ou Thena que deu origem à Deusa Athena; ou ainda o próprio Gilgamesh (considerado por muitos o primeiro “super-herói”) que deu origem ao, bom, Gilgamesh. Ao pôr as mãos nos personagens, Gaiman revira o conceito mais uma vez e os transforma em humanos, sem a menor lembrança de quem eram no passado, vivendo vidas mundanas. Algo que eles nunca conheceram desde sua criação a milhões de anos atrás…

“Deeeesde os tempos mais primórdios / Os Eternos tão aí! Aí! Aí!”

O bacana da minissérie é justamente esse “redescobrir de origens” pelo qual vários personagens passam, em especial os protagonistas: Makkari e Sersi. Inicialmente planejada para durar seis edições, a mini precisou de uma sétima edição final só para amarrar as pontas soltas. Como Neil Gaiman gosta muito de escrever, a trama geral da história passa por vários personagens, tem bastante balões e tramas paralelas, até culminar num final grandioso que provocou uma mudança semi-permanente na editora (pelo menos por alguns anos, até ser resolvida).

O maior poder da Sersi deve ser manter esse cabelo na altura do calcanhar.

“DEUS NÃO JOGA DADOS” – Albert Einstein

A história começa com um aluno de medicina, Mark Curry, sendo visitado por um maluco chamado Ike Harris que lhe disse que ambos eram seres imemoriais dotados de superpoderes. Sem querer lhe dar muita trela, Mark volta ao trabalho e o maluco vai embora. Ao mesmo tempo, acompanhamos a ex-vingadora Sersi tendo problemas financeiros e pedindo dinheiro emprestado para uma amiga para abrir uma empresa organizadora de festas. Tudo porque ela recebeu uma proposta de uma embaixada de um país do leste europeu e de seu embaixador, um cara super mal encarado chamado Druig. Ele queria reunir várias pessoas importantes num lugar só, incluindo vários cientistas, entre eles Thena Elliot, uma das funcionárias de Tony Stark. Tudo isso entremeado com cenas de um programa de televisão que aparece no fundo dos quadros, com um personagem infantil chamado Duende (Sprite, no original). 

Vou dar alguns spoilers sobre a trama. Mas acredito que se você chegou a assistir o filme dos Eternos que saiu a pouco tempo no Disney Plus, não deve ser algo problemático. Ainda mais com essa minissérie servindo de inspiração para o longa-metragem. Mas caso você prefira ler a mini primeiro, pode ir lá. Eu te espero.

Mas mesmo com spoilers, vou fazer um resumão. Como eu disse antes, Gaiman adora escrever e, mesmo com uma edição dupla para abrir e encerrar a minissérie, ainda foi preciso uma edição extra no fim para fechar tudo direitinho. Então já é de se esperar que as tramas paralelas ocupem um bom pedaço do roteiro em si. Mas basicamente temos três linhas:

  • Ikkaris tentando despertar Makkari;
  • Sersi encarando um passado de Vingadora do qual não se lembra;
  • E o Duende fazendo revelações misteriosas.

Assim como no filme, os Eternos estão todos separados, mas vão se encontrando aos poucos. Mas diferente dele, alguns personagens tiveram seus gêneros e storylines trocadas. Foi Thena quem se casou com um humano e teve um filho, Makkari e Duende são homens e não mulheres. O caso de amor de Sersi foi com Makkari e não Ikkaris. Druig é mais vilãozão e menos nobre. Iinclusive, há várias indicações durante a história de que ele pode ter sido uma figura de destaque na segunda guerra mundial, sabe? Uma figura de destaque mesmo, do lado dos nazistas, com o poder de influenciar as massas com o poder da mente e tals… 

De deuses a humanos

As tramas diferentes todas se encontram nas edições finais, quando tentam despertar um Celestial adormecido sob a cidade de São Francisco. E FINALMENTE O GIGANTE ACORDOU! Mentira, hehe. O lance é que a milhões de anos, os Celestiais aprisionaram um dos seus na Terra por ter se voltado contra eles. No entanto, os Deviantes adoram este Celestial como um deus e queriam despertá-lo a muito tempo, mas não sabiam onde ele se encontrava, até que o plano do Duende deu a eles uma dica do local. 

A reviravolta fica justamente por conta do eterno-mirim que, cansado por ser tratado como criança por conta de sua aparência, mesmo tendo milhões de anos como seus irmãos imortais, bolou um plano onde utilizou o poder cósmico do Celestial adormecido para reescrever a realidade! Com isso, ele deu novas identidades a todos os outros eternos, se tornou humano e, de quebra, ainda virou celebridade da TV. 

Imagina se ele aperta o botão de soneca? Lá se vai um continente!

No final, o grande herói da história acaba sendo o próprio Makkari, que se une em mente com o Celestial aprisionado e vira uma espécie de messias! Tanto para os Eternos quanto para os Deviantes, estabelecendo uma espécie de trégua entre as duas espécies. Gaiman deixa a série em aberto, estabelecendo um recomeço para o grupo de “novos deuses” que poderia culminar em uma nova revista que foi lançada em 2008. Esta, porém, durou apenas nove edições até ser cancelada também. Os personagens retornaram mais uma vez 2017 num arco dos Vingadores de Jason Aaron, envolvendo a chegada de Celestiais Sombrios. Todos os Eternos morreram no final dessa saga, mas agora em 2021 eles estão de volta mais uma vez, graças ao novo filme.

O GIGANTE ACORDOU!

Tô LendoPontos Fortes
  • Arte. Eu adoro a arte do John Romita Jr. E nessa história em particular eu acho que combina muito, porque o traço quadradão dele tem uma certa pinta de Jack Kirby e combina demais com a escala absurda de tamanho dos Celestiais. Ele tem umas splash pages maravilhosas nessa mini.
  • Disponibilidade. A minissérie é fácil de encontrar, tem as edições antigas de 2007 que foram lançadas no Brasil pela Panini. E também a Coleção de Graphic Novels da Salvat #54, lançada em 2014.
  • Personagens. Gaiman usa uns personagens interessantes dos Eternos, o que é meio difícil, já que eu acho o original meio… chatinho, na verdade. Gosto da reviravolta do vilão ser o pequeno Duende, apesar de não gostar da motivação em si. Mas enfim…
Tô LendoPontos Meh
  • Neil Gaiman. Veja bem, eu AMO o Gaiman. É de verdade um dos meus escritores preferidos! Mas aqui eu fiquei com a sensação da trama ser meio genérica, ainda mais depois de ler várias histórias dele. Deuses Americanos, Filhos de Anansi, Stardust, etc… todos têm tramas meio parecidas, com protagonistas semelhantes e aqui não é diferente. Ainda mais com a conexão de “deuses se tornando humanos sem saber”.
  • Final. São muitos personagens e muitas histórias para serem amarradas. A princípio parecia um plano da Marvel de revitalizar os Eternos para um gibi novo, então parece que ela “termina no meio”, sabe? Tem coisas legais, mas muitas outras ficam em aberto.

Vacilo dos Celestiais de pousar num zoológico, né?

O filme de 2021 claramente teve inspiração direta nessa minissérie, mesmo com certas liberdades criativas diferentes. Mas ainda assim, beberam bastante na fonte original das histórias, obviamente, criando uma espécie de origem única para o famigerado MCU. Eu gostei particularmente da adaptação do Celestial adormecido, porque foi algo que eu já havia curtido demais no material original.

Ainda não cheguei a ler nada da série nova lançada em 2021, por Kieron Gillen e Esad Ribic. Mas parece que ainda não foi cancelada, então vamos ver se eles vão continuar “eternos” de verdade…

A coisa mais divertida da época da Guerra Civil é ver o Homem-de-Ferro tomando fora dos outros…

E você? Curte os Eternos? Tem alguma história ou fase favorita com os personagens? Conta aí nos comentários!


Eternos (2006) vale três rebobinandos! 📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.