Mais um ano começa e mesmo em meio ao otimismo das festas de fim de ano muita gente permanece cética. Afinal de contas, 2022 não chegou pra brincar e já temos inúmeras variantes de covid por aí que não me deixam mentir. Mas e quando 2022 ainda era o futuro? Bom, não era menos otimista… vem conferir comigo Soylent Green!

“UM FILME QUE INTRIGA, ESTARRECE!”

Com o título genérico de No Mundo de 2020, Soylent Green estreou no Brasil sem grande alarde no mesmo ano de seu lançamento nos EUA, em 1973. Tanto que eu nunca tinha ouvido falar dele até poucos anos atrás, quando uma amiga comentou certas inspirações desse filme no clássico cult recente Snowpiercer (2013). Não que eu seja um exímio conhecedor de filmes, ou que o fato de eu não conhecer um filme seja sinônimo de fracasso (talvez apenas o meu). Mas lembro de ficar espantado com o conhecimento geral de cultura pop de muitas pessoas na internet (e fora do Brasil), que comentavam sobre o grande plot twist dessa história através de piadas, referências e citações. Saber da existência de Soylent Green no Brasil me passava uma vibe meio daquelas pessoas que conheciam e citavam Doctor Who antes mesmo da retomada da série em 2005.

Era uma trama apocalíptica típica dos anos 1970, daquelas que tinha medo de um colapso ecológico e econômico da sociedade advindo da superpopulação. É até curioso ver como as pessoas esperavam que a gente tivesse acabado quase que completamente com o mundo dentro de um espaço de 50 anos. Não que estejamos muito melhores hoje em dia, né? Só que em vez de muita gente vivendo num espaço só com escassez de recursos, temos muita gente, escassez de recursos, fake news, fascimo, negacionismo científico, pandemia, variantes e… Err… bom, é melhor eu não continuar.

MAKE ROOM! MAKE ROOM!

O filme é baseado no livro “Make Room! Make Room!” de 1966, do autor de ficção científica Harry Harrison (parece até nome de vilão do Homem-Aranha). A história se passa no distante mundo de 1999 (heh), onde o mundo enfrenta uma superpopulação de 7 bilhões de pessoas (hehe) e pobreza generalizada por causa da má distribuição e do acúmulo de recursos por uma minoria abastada (hehehe). Aparentemente falta muito pouco para termos soylent green em nossas prateleiras de mercado…

O nome “Make Room! Make Room!”, pode ser traduzido como “Abram Espaço! Abram Espaço!” em referência ao crescimento populacional desordenado que causava tanta preocupação ao autor. Tanto era que o grande plot twist não chegava nem a ser um twist, sendo meramente um resultado terrível da superpopulação mundial. A trama acompanhava diferentes personagens além do protagonista, o policial Andy Rusch, e tinha um final bem mais deprimente com os personagens decepcionados que o ano 2000 não trouxe o fim do mundo. Ao mesmo tempo em que um painel no Times Square anuncia que o censo norte-americano indica uma população de 344 milhões de pessoas.

A crédito de informação, atualmente, de acordo com o censo de 2020, os EUA tem uma população de cerca 330 milhões de pessoas (fonte: google).

A primeira capa do livro com um caixão em lata de sardinha parece muito aquelas charges de internet com “mundo hoje x mundo antes”.

Segundo o próprio autor, a ideia surgiu depois de uma conversa que ele teve com um indiano, após a guerra, em 1946:

Ele me contou que a superpopulação é o maior problema do mundo no futuro. E ninguém sequer falava disso naquela época. Ele disse ‘quer ganhar muito dinheiro, Harry? É só importar um monte de preservativos para a Índia’. Eu até queria ganhar dinheiro, mas não queria ser conhecido como o Rei da Camisinha na Índia! No entanto, comecei a ler um pouco sobre superpopulação e acabei tendo a ideia para o livro (…) que levou cerca de oito anos para ficar pronto, porque eu tive que pesquisar muito. Mas valeu a pena”.

Até onde pude ver, o livro nunca chegou a ser publicado no Brasil. Mas há uma edição portuguesa chamada “À Beira do Fim”, que também é o mesmo nome do filme em Portugal. 

“O ANO É 2022! NÃO 2020! NÃO 2020!”

SOYLENT GREEN IS…

Já o filme de 1973 teve muitas diferenças. Como o autor não teve muito direito de apitar na adaptação de sua obra, o foco ficou menos no aumento populacional e se esvaiu para outros detalhes menos importantes para a trama, mas ainda assim incrivelmente perturbadores. O protagonista também mudou, apesar de continuar sendo um policial. Charlton Heston, que já havia feito fama com outra obra excelente de ficção científica, O Planeta dos Macacos, interpreta aqui o detetive Frank Thorn, que precisa investigar o assassinato de um dos membros da diretoria da Soylent Corporation

E caso você, assim como eu, não tinha conhecimento deste filme até pouco tempo atrás (ou até hoje) e quer manter uma certa surpresa ao assistí-lo, aqui vai o meu ALERTA DE SPOILER! Porque não importa se um filme já tem mais de cinquenta anos, o spoiler é uma coisa real. 

Tudo porque é bem complicado falar dele sem mencionar o grande segredo da trama. O curioso é que no livro não é algo que seja tratado como uma revelação chocante, apesar de estar lá, de certa forma: Soylent Green is people. Enquanto o autor trata o problema como canibalismo puro e simples, com os “bifes soylent” sendo vendidos nos mercados a preços abusivos para a população mais pobre, o filme ameniza esse aspecto transformando as refeições da Soylent Co. em uma espécie de biscoitos wafer altamente nutritivos. O detetive Thorn, ao investigar o assassinato do figurão da empresa, acaba topando com uma grande conspiração que o leva a investigar a própria empresa em si, levando-o a perturbadora revelação de que o mais novo alimento no mercado tem pessoas mortas como matéria-prima.

Mas enfim, o filme acaba tendo uma carga muito grande de anticapitalismo, o que me espantou, na verdade. Ainda mais por ver alguém como Charlton Heston, um grande defensor do “modo de vida americano” e da NRA, fazendo mais um filme contando como grandes empresas e governos acabaram com o mundo conhecido. Mesmo assistindo sabendo do final, algumas cenas podem parecer chocantes por conta de reflexos atuais na nossa sociedade (mesmo que levemente exagerados). Como por exemplo, as revoltas quase diárias quando a distribuição do soylent green é interrompida, deixando milhares de pessoas na fila sem comer. Ou quando a polícia vem controlar esses mesmos protestos com escavadeiras gigantes que literalmente carregam as pessoas em caçambas como lixo. Ou até mesmo a inflação que impede o acesso da maioria da população a alimentos básicos, enquanto os ricos podem consumir potes de geléia de morango a 150 dólares (algo que hoje em dia, seria mais ou menos 930 dólares, ajustando a inflação da época).

Os prédios estão tão lotados que as pessoas moram nos carros no meio da rua, já que ninguém tem dinheiro para gasolina.

Além disso tudo, o filme ainda arranja um pequeno espaço, nem que seja no comecinho, para mencionar o colapso ecológico mencionando aquecimento global, poluição desenfreada e morte dos oceanos como resultado do aumento populacional. Vou dizer que, ao assisti-lo agora em 2022, deu um sério gatilho ver as pessoas de máscara na rua…

Diante de tantos problemas, a trama detetivesca que amarra os pontos do filme chega até mesmo a soar secundária. Eu, pelo menos, fiquei muito mais interessado em acompanhar as previsões cataclísmicas do autor do que saber quem matou o ricaço e o porquê (até porque eu já sabia do final). É interessante lembrar também que é um filme de 1973, então rola uns cortes de custos em cenas de ação, deixando algumas delas até risíveis para nossas sensibilidades não tão sensíveis de hoje em dia. Em alguns pontos, o Charlton Heston correndo e lutando me lembrou um pouco o Didi Mocó nos áureos tempos dos Trapalhões… Mas até aí pode ser só impressão minha mesmo.

“Ô, psit! Ô, da poltrona! Soylent Green é OS PIRATA!”

Tô LendoPontos Fortes
  • Previsões. Com previsões assustadoramente certeiras, Soylent Green parece até um conto de cautela para humanidade diante do avanço cada vez mais predatório do capitalismo que age como se houvesse recursos infinitos em nosso planeta finito. É um filme decididamente pessimista diante do futuro, onde todas as pessoas são horríveis, desde o protagonista até os vilões corporativos.
  • Clássico. Se você é daqueles que curte um clássico cult, esse filme é um prato cheio. Ainda mais agora, que estamos vivendo o exato ano da trama, as referências a ele devem pulular a rodo pela internet afora.
Tô LendoPontos Meh
  • Disponibilidade. Meio difícil de achar. Tem para alugar no Prime Video, mas você também pode encontrar em outros lugares por aí… *pisca, pisca*
  • Antigo. É daqueles filmes bem antigos cuja linguagem pode incomodar uma galera mais nova, eu não acho um problema em particular, mas ele é meio lento para chegar em algumas conclusões. Contudo, é um filme curto, de 1h30min.
  • Ação. É meio risível. Mas nada que incomode muito.

“Carma, psit! É CAFLITO!”

Levei muito tempo para assistir Soylent Green, mas fico feliz de finalmente ter visto este filme. É curioso notar como ele serviu de referência para diversas outras obras, tanto direta quanto indiretamente. Até pode ser que seja suposição minha, mas encontrei nele temas que foram discutidos em obras super recentes como The Handmaid’s Tale (as mulheres tratadas como “mobílias” do apartamento), Round 6 (no tratamento das pessoas pobres como lixo ou meros objetos a serem descartados pelos ricos), O Expresso do Amanhã (no alimento dado aos pobres como barras de proteína feitas com ingredientes no mínimo… indigestos), e o vencedor do oscar, Parasita (com a clara diferença entre ricos e pobres, e o casual roubo de objetos para sobreviver). 

Até mesmo o clássico videoclipe de Another Brick in the Wall do Pink Floyd parece ter se inspirado em Soylent Green (se foi, eu não sei, mas fiquei perturbado igual).

🎵🎵 We don’t need no Charlton Heston / We don’t need no Soylent Green 🎵🎵

Enfim, é interessante ver esse filme hoje em dia. Ainda mais com suas previsões catastróficas e o nosso momento atual. Mas o fim do mundo parece que está sempre aí, virando a esquina né? E por enquanto, sobrevivemos a todos eles… Só resta saber se não iremos nos devorar uns aos outros no futuro.

E você? Tem algum outro filme-catástrofe preferido? Já viu Soylent Green? Conta aí nos comentários.


Soylent Green: No Mundo de 2020, vale quatro rebobinandos. 📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.