Rebobinando #17

O fim dos anos 80 não foi um período bom pros mutantes. Pros fãs dos mutantes, por outro lado, foi uma época repleta de histórias maneiras. Nessa mesma época as atenções se voltavam para o apartheid na África do Sul, e claro que a Marvel não ia perder a chance de tratar do assunto em seu gibi que fala sobre preconceito.Assim surgiu uma das sagas que colocou os X-men de uma maneira jamais vista: completamente indefesos. Hoje a Rebobinando vai falar de Programa de Extermínio!

Apesar de ter sido publicada em 1990-91, ao longo de três edições de cada uma das revistas mutantes da linha, Uncanny X-men (#270-272), X-Factor (#60-62) e New Mutants (#95-97), as sementes para o programa de extermínio já vinham sendo plantadas desde 1988, com a apresentação de Genosha e seus soldados magistrados nas edições #235-238 de Uncanny. Aqui no Brasil, a saga foi publicada em 1994 entre as edições #68-70 de X-men, pela Abril Jovem. Em 2014 (uau, faz tempo) a Panini relançou tudo num encadernado bonitão, incluindo ainda as edições pré-programa, ajudando o leitor a entender um pouco melhor as coisas.

Wolverine ANIMAAAAAAAL!

O Impacto

Com doze anos, eu estava muito recente nessa vida de vícios que é ser um fã de histórias em quadrinhos. Estava colecionando Homem-Aranha e Teia do Aranha a pouco menos de um ano, e o desenho dos X-men estava bombando na TV Colosso. Saía correndo da escola pra chegar em casa em tempo de assistir o desenho enquanto almoçava. Além do impacto de descobrir que não era “xis-méin” e sim “équis-méin”, foi o desenho que me fez comprar um gibi dos mutantes pela primeira vez… e foi em julho de 1994 que eu encontrei X-men #69 (sem sujeira na mente, viu?) nas bancas.

Uma coisa que eu achei bacana e nem notei na época, mas que fez toda a diferença pra mim, foi aquele papo do Stan Lee de que “todo gibi pode ser o primeiro gibi de alguém”. Foi muito prático pra mim pegar aquelas histórias repletas de mutantes, e alguns super diferentes do que tinha no desenho, com as legendas com os nomes e às vezes os poderes listados.

Muito bem, todo mundo enfileirado pra chamada…!

Sem mencionar a arte, né? Jim Lee no auge da forma, cara. Algumas das poses mais memoráveis e das cenas mais maneiras que tenho em mente dos X-men foram pelas mãos desse coreano tampinha. Ok que tinha também o Rob Liefeld (*cospe, cospe*) e o Jon Bogdanove, que eu nem acho de verdade ruim, mas… enfim, não era o Jim Lee.

A História

Como eu mencionei antes, toda a história é uma alegoria sobre preconceito e o apartheid, temas constantes dos X-men. Genosha é uma ilha-nação localizada no sul da África, próxima à ilha de I like to move it move it Madagascar. Ou seja, a alegoria é tão na cara que até mesmo o lugar é perto da África do Sul.

Numa vibe que hoje a gente atribui a Handsmaid’s Tale, os mutantes em Genosha eram propriedade do Estado. E assim que o gene X se manifestasse em um pobre adolescente espinhento, o governo genoshano enviava uma equipe de magistrados atrás do pobre. Por obra do Genengenheiro, uma espécie de cientista-braço-direito da Primeira-Ministra do país, esses mutantes sofriam lavagem cerebral e eram virtualmente lobotomizados, transformados no que chamavam de “mutóides”. Esse mutóides eram meio que a base da economia do país, e funcionavam como uma mão-de-obra escravizada que servia para tudo, dependendo dos poderes.

Jim Lee, cara! JIM LEE! Como é que tanto talento cabe num cara tampinha desses?

Os caminhos do governo de Genosha e os X-men se cruzaram quando uma equipe de mutantes genoshanos voluntários foram atrás de refugiados. Os fugitivos acabaram sendo recapturados na Austrália e com eles, por acidente, Madelyne Pryor (ex-esposa do Ciclope) (longa história) (tipo, longa mesmo) (sério) (dá pra escrever umas quinze rebobinandos só com essa história). Os X-men da época, Wolverine, Vampira, Psylocke (de armadura), Colossus, Longshot, Cristal e Tempestade, foram atrás de sua amiga e o pau comeu.

Depois disso, os X-men entraram na lista negra do governo genoshano, que por fim, numa investida secreta à Mansão X, conseguiu capturar Tempestade e metade dos Novos Mutantes, como uma espécie de vingança. O resto dos X-men não ia deixar isso barato, claro, e organizaram uma missão de resgate. Novamente, isso não deu muito certo, porque os mutantes acabaram subestimando seus inimigos… Sem saber quem estava por trás dessa vendetta pessoal. Ninguém menos do que Cameron Hodge!

Se ele é imortal, pra quê tanto fio?

– *SUSTO* *SURPRESA* O QUÊÊÊÊÊÊÊ?

É isso mesmo, pequeno padawan! Um dos responsáveis pela Queda dos Mutantes, inimigo mortal do X-Factor, o fdp responsável indireto pela criação do Arcanjo, era o grande vilão da história!

– Mas péra! Até essa época o cara não tinha morrido DECAPITADO pelo Arcanjo?

Tinha! Mas se você lembra bem, nesse meio tempo a Saga Inferno causou caos nas revistas da Marvel, com consequências duradouras para vários personagens, o Duende Macabro que o diga! Hodge, como bom vilão que é, acabou realizando um pacto com um dos demônios responsáveis pela Saga, Nastirth, ganhando assim imortalidade! Sendo apenas uma cabeça falante que não pode morrer, ele desenvolveu (de alguma maneira) (oi, quadrinhos) um corpo robótico bizarro e começou a puxar as cordinhas nos bastidores. Hodge era um vilão nos melhores moldes da Marvel, aliás. Puro anos 90 com um corpo robótico meio escorpião, cheio de tubos e tentáculos, completamente insano e sádico, sedento por vingança. E olha que era só o começo da década…!

No fim, mesmo sem poderes e praticamente indefesos, os filhos do átomo conseguem se organizar e fazer uma investida final que derruba o governo da ilha e liberta os mutóides escravizados. Cameron Hodge é derrotado, mas como sempre nos quadrinhos, não por muito tempo. Ele logo voltaria em outra saga dos X-men… mas isso fica pra outra Rebobinando!

Tô LendoPontos Fortes
  • Como ponto de introdução ao Mundo Mutante da Marvel, foi excelente! Tinha uma história com cara de super-herói. Tinha várias equipes e vários heróis sendo apresentados. Tudo que um garoto de 12 anos podia querer numa banca de jornal.
  • A arte. Não consigo expressar o suficiente o meu amor pelos desenhos do Jim Lee. Foi um cara que serviu de referência pro meu desenho por muito tempo, enquanto eu ainda copiava as artes do gibi. Hoje em dia meu traço é completamente diferente (mas continua ruim) mas se eu comecei a desenhar com afinco, com certeza foi por causa dele.
  • Wolverine, Gambit e Psylocke em vias de se tornarem os mutantes mais memoráveis daquela década graças à paixão nada enrustida tanto do Jim Lee quanto do Chris Claremont.
  • É X-men, cara! No auge! Leitura obrigatória!
Tô LendoPontos Fracos
  • Rob Liefeld (*cospe, cospe*). Não consigo expressar o suficiente o meu desprezo pela arte desse cara. De alguma maneira ele ainda tem defensores, mas eu juro, eu juro que não entendo como ele ainda consegue trabalho até hoje!
  • É porta de entrada, sabe? Pro vício. Foi aí que eu entrei sem saber nessa vida de 1001 Noites de ficar esperando sempre o próximo mês por histórias que nunca terminam e deixam sempre mais coisas pro próximo mês.
  • As traduções da época. Jotapê Martins is my spirit animal, sabe? Reli e tenho o encadernado da Panini lançado em 2014, só que eu ainda tenho minhas três edições formatinho da Abril Jovem. Vou confessar que a nova tradução perdeu um pouco da localização e do charme. É uma coisa você ouvir o Wolverine dizendo que está “irado”… Mas é outra completamente diferente quando ele dizia que estava “cabreiro”.

Ainda tenho ótimas memórias desta fase. Inclusive porque logo depois disso, os X-men se reagruparam e formaram as equipes Azul e Dourada. O novo X-Factor, uma espécie de “x-men do governo” e a transformação dos Novos Mutantes em X-Force, a força-tarefa de adolescentes liderada por Cable. E também, depois dessa Jim Lee e Chris Claremont relançaram uma nova revista intitulada apenas “X-men”. Isso. AQUELA revista que vendeu mais que 1 milhão de cópias (há diversas controvérsias quanto a isso, mas ainda assim, é um feito que nenhum outro gibi atingiu até hoje).

De forma completamente imparcial (viu, Caruso?), Programa de Extermínio vale fácil, fácil, cinco rebobinadas! 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2018-01-22T15:32:23+00:00 22 de janeiro de 2018|23 Comentários
  • Puta saudosismo, chego a ficar arrepiado aqui vendo essas imagens dos quadrinhos da época. Ainda tenho formatinho de tudo, apesar que não ter muito apego a eles e querer trocar por um encadernado em formato americano.
    Hoje até me incomodo um pouco com o Liefeld, mas na época me amarrava muito!

    Obrigado pelas memórias Kadu

    • Jean Carlos

      Não desapega dos formatinhos Tibério, vai fazer falta eu ainda compro estou tentando completar a coleção do Hullk.

      • Tive um amigo da escola que ficou tão fanático em X-men que ele saiu catando em tudo o que era sebo na cidade e conseguiu montar uma coleção completa de X-men.

        Bom, pelo menos das edições da Abril Jovem. Num tempo antes da Internet, isso foi um puta feito!

        • Jean Carlos

          Puta feito mesmo, hoje tem pela internet mais tem que pechinchar porque tem lugar que cobram muito caro.

          • Mas ele correu foi sebo, viu? E geralmente, na época, inclusive, esses gibis antigos eram super baratinhos. (acho que em sebo ainda devem ser… só na internet mesmo que a galera mete a mão).

        • Bruno Messias

          Era um amigo muito Fanático, o nome dele era Cain Marko…
          Zoeira às parte, também tenho um amigo que tem a coleção completa! Li tudo na aba! Bons tempos… Agora fico gastando dinheiro com os encadernados.

    • Cara, eu já achava meio ruim na época. Hj em dia eu tenho pavor do Liefeld mesmo.

      Mas não se desfaz dos formatinhos, não Tiberio. As futuras gerações merecem saber que merda era a gente ler aqueles gibis com páginas cortadas, cores alteradas e erros de diagramação. 😂

    • groucho marx

      eu tinha essa mesma impressão do liefeld. na época achava massa o desenho dele, com aqueles cabelos esvoaçando. depois, à diferença do liefeld, a gente amadurece…

  • Jean Carlos

    Apesar de eu não ser colecionador de X-Men, tenho algumas coisas como X-Men Gigante – Atrações Fatais e outros, coleciono Wolverine tenho os formatinhos até hoje guardado a 7 chaves, confesso que me deu vontade de comprar um encadernado com essa história já vou aqui pechinchar pela internet.Obrigado pela dica Kadu!!!!

    • Hahaha. Pô, disponha. Recomendo bastante o encadernado, tá bem bonito.

      Ainda estou esperando a Panini relançar Atrações Fatais e Inferno, mas até agora nada…

  • CoruJão

    É uma bela merda e um desperdício de Floresta Amazônica. Quando a gente fala mal da Marvel nos anos 90 é disso que estamos falando.

  • Alex Souto

    Voltei a ler e desenhar quadrinhos de heróis com o Programa de Extermínio! Estava numa fase de Hq européia, mas o traço do Jim Lee era foda demais!

    • Num é? Me pegou ali na hora, cara. Assim que eu abri o gibi.

  • groucho marx

    tenho certo carinho por essa saga. acho ela uma massaveice bem contada. o pior mesmo, a meu ver, é o vilao merda do final. já achava dispensável na época, e eu era um moleque!
    mas fora esse vilão, a premissa até que é bem executada.
    e porra, gambit era mesmo um herói bacana, pena que ele ficou muito marcdo pela época em que surgiu, e pela superexposição a que foi submetido (mas eu não posso falar de gosto para heróis, eu curto o longshot!)

    • Pois é. Relendo os gibis dessa época, eu finalmente entendi pq o Gambit e a Psylocke ficaram tão famosos entre os fãs. Acho que o Jim Lee ou o Chris Claremont tinham alguma paixão por eles e absolutamente TODAS as partes maneiras das lutas ficavam pra eles! Eles nem tinham muita participação no roteiro, a não ser aparecer, fazer uma parada muito maneira e sumir. Eu curtia demais o Gambit.

      E pô, cara, Longshot é foda! Não tenha vergonha de admitir isso, não! hahah.

      • groucho marx

        o gambit reunia algumas coisas essenciais da década: usava um capote (quem não se recorda das jaquetas onipresentes?), tinha um uniforme mais espalhafatoso – com muito mais rosa – do que o que ficou estabelecido como visual clássico e usava uma máscara que não escondia a cara, mas era cheia de estilo, sem falar no surgimento como ‘figura misteriosa’ (alô wolverine entrando nos xmen)
        a despeito disso, e mais a despeito de tudo o que fizeram com ele depois, eu acho que o surgimento dele era promissor. o poder dele era útil e diversiificado, sem falar de ser estiloso. de início ele nem jogava cartas, costumava usar uns tipos de dardos (olha a escola longshot aí) e teve um poder que o claremont usou na primeira histórias e o próprio autor (além dos outros roteiristas na seuqencia) ignorou: um poder hipnótico de sugestão, em que ele podia falar e influenciar as pessoas (quase um ‘esses não são os dróides que voce está procurando’0. concordo que ecolocar esses 2 poderes era deixar o personagem overpower, mas cosiderando que ele era um ladrão e um jogador, esse sugestionamento vocal tinha tudo a ver com o personagem.
        a meu ver, um personagem bom que foi muito mal utilizado, daí a birra cm o cara. ele tinha potencial pra ser tão carismático quanto o noturno (sim, também sou fã dele). se ele fosse criado pós 200, creio que teria uma melhor releitura. mas, enfim, é a vida. a aparição do personagem naquele famigerado filme do wolverine também não ajudou.

        ejá que falamos de longshot, cabia um rebobinando dele né? (se tu já tiver feito um dele, me perdoa a ignorancia)
        pô, li o especial do longshot publicado pela abril nos primórdios da minha nerdice em quadrinhos de heróis. não pesquei nem aproveitei muita coisa daquela série confusa misturando viagem no tempo e interdimensional.
        mas veja bem, é uma série escrita pela ann nocenti e desenhada pelo arthur adams!!! isso valeria muito a pena como publicação, é superior a uns 80% do encadernado da Salvat.

        abraços e conrtinua com o bom trabalho

        • Ainda não fiz Rebobinando do Longshot, não. Mas tá anotado.

          Valeu pela força.

  • Mr_MiracleMan_Jr

    Bons tempos esses de comprar gibis nas bancas com o troco do lanche depois da aula! Como as crianças de hoje acompanham mensais que custam mais de 7 reais?

    Pena que quando saiu essa história já estava começando a cansar dos gibis de heróis e não aproveitei, só comprei o primeiro número e nem tive vontade de saber como terminava. E a sua matéria serviu para mostrar que esse material nunca foi feito para mim mesmo… hehe

    Não gostava do Liefeld, mas achava o Bogdanove ainda pior (pior desenhista do Super-Homem de todos os tempos). E o Jim Lee até curtia, mas me incomodava muito ele desenhar 99% dos homens musculosos e das mulheres gostosas (até o Professor X era bombado…).

    Sou de uma geração anterior aos juvenis da Image. Meus mestres do traço eram Romita, Buscema, Byrne e Perez.

    • Cara, na época eu curtia o Bogdanove, achava o traço dele exagerado mas maneiro. Hoje em dia que eu percebo pq tem gente que acha muito ruim, mas não me incomoda tanto.

      Só depois de velho eu fui apreciar os traços clássicos. Ainda peguei uma rebarba do Romita Pai em Teia do Aranha e curtia muito um cara chamado Alex Saviuk que “emulava” (cofcofcof) muito o traço dele.

      E espero sinceramente que vc esteja se referindo ao JOHN Buscema e não ao Sal, que não é muito bem visto por muitos aqui… Não repara. 😉

      • Mr_MiracleMan_Jr

        Também curtia muito o Alex Saviuk no Aranha, ainda mais porque foi a última fase boa que acompanhei do herói… Boa lembrança, hoje em dia ninguém fala dele.

        Citei o John Buscema sim. O Sal até era bacana, mas não era um gênio como o irmão mais velho. O pessoal cisma com ele por causa da época que as revistas do Aranha desenhadas por ele estavam bem esquisitas, meio rabiscadas, mas acho que isso era culpa do arte-finalista.

  • Pô, me convenceu, vou pegar. Deixei passar várias vezes, mas agora eu fui fisgado pelo vírus Lee, que é algo muito divertido de falar em voz alta. Víruslee víruslee víruslee

    E fico feliz de ver que você voltou a ser imparcial nas suas rebobinadas! Clap, clap.