Nesta edição, destrinchamos uma das maiores pragas do século XX! Uma praga engraçadíssima que fez muito adolescente rolar de rir com um humor chulo, de banheiro e politicamente incorreto e muitas vezes ruim mesmo. Mas a gente amava. Segura o saco de vômito que hoje vamos falar da Revista MAD!

Três eras da revista MAD em capas

A MAD foi uma revista praticamente onipresente em muitos pátios de escola no mundo inteiro, classificada como uma “revista de humor adulto” no início, era até engraçado ela ter uma aura TÃO adolescente merdeiro ao ponto de se achar “adulto” porque falava de cocô e atirava críticas ácidas contra tudo e todos! Ela era uma revista ruim, mas era um produto de sua época, já que nasceu numa época politicamente complicada nos EUA e veio ao Brasil numa outra época ainda mais politicamente complicada também! Com isso, ela batia no peito justamente por ser meio asquerosa mesmo (e olha que não sou eu que estou dizendo isso, já que a própria revista repetia que era uma merda diversas vezes em suas capas).

A revista nasceu nos EUA em 1952, no auge da paranóia anticomunista e da febre do sonho americano, pelas mãos de William Gaines e Harvey Kurtzman. O curioso é que ela nasceu em uma editora que inicialmente publicava histórias educativas e histórias bíblicas, a EC – Educational Comics! Porém, depois que Gaines passou a comandar a editora do pai, ele rapidamente trocou seu nome para Entertainment Comics e passou a publicar histórias em quadrinhos de ficção científica e terror, como a Contos da Cripta. Pouco tempo depois, ele se uniu a Kurtzman para lançar uma HQ de humor que usava o talento do cartunista para sacanear outras revistas e outras obras, surgia ali a Tales Calculated to Drive You Mad (algo como “histórias criadas para te levar à loucura” em português).

O popular “humor na veia”!

Mas como ela tinha surgido inicialmente como um gibi e como nos anos 1950 um certo Comics Code Authority começou a circular para garantir a sanidade e a moral das “crianças de bem” americanas, a MAD de nome comprido virou logo um alvo do órgão! Isso porque ela passou meio em branco desde que começou a ser publicada, mas chamou a atenção de todos com uma certa paródia. Na edição #4 da revista americana, foi publicada uma história chamada Superduperman (que no Brasil ficou como Superducahomem nos anos 70 e Superômi nos anos 80), que alavancou a revista ao estrelato! Então, mesmo com um começo capenga sem muitas vendas, no segundo ano da revista, ela deixou de ser comics para virar um magazine e, tecnicamente, mudou de público. Com um foco em “público adulto”, o Comics Code deixou de ser um problema e os cartunistas tiveram uma maior liberdade para serem o mais grosseiros, sujos e iconoclastas o possível! 

Pequeno parêntese: Comentei aqui na Rebobinando sobre Watchmen que essa paródia foi o piãozinho do inception que levou nosso querido mago barbudo Alan Moore a perceber que poderia virar os conceitos de super-heróis de cabeça para baixo, tanto para a comédia quanto para o drama, dando origem a maior obra-prima da história das histórias em quadrinhos! Quem poderia imaginar, né?

Quem vigia as paródias?

Durante muitos anos a MAD foi publicada nos EUA com maiores e menores graus de sucesso, sempre procurando manter a mesma aura de banheiro de escola, meio irresponsável, meio idiota, meio inteligente, meio sardônica, meio calabresa, meio marguerita…

WHAT, ME WORRY?

A história da criação do mascote Alfred E. Neuman inclusive parece bem digna da revista, ou pelo menos daquele documentário Everything is a Remix. Seguindo a linha daquela expressão clássica que diz que “na vida nada se cria, tudo se copia”, a cara de bonachão sem dente que ficou tão marcada como o espírito da revista surgiu de um anúncio de uma torta de ameixa e carne moída de 1895! Posteriormente, a imagem do garotinho ruivo e roliço com orelhas de abano foi adaptada para o cartaz de uma peça de comédia chamada The New Boy, que já trazia os traços mais semelhantes ao de Alfred.

Em 1965, a imagem do mascote da revista foi alvo de um processo de violação de direitos autorais, porém a revista conseguiu reunir uma tonelada de referências mostrando que as imagens do mesmo rosto bocó, sem dente e orelhudo foram replicadas desde a peça de teatro passando por propagandas de remédio de odontologia e até mesmo como uma referência ao clássico personagem de quadrinhos americanos The Yellow Kid. Com essa origem envolta em mistério, a única coisa que se sabe de fato foi que os editores queriam um rosto novo para ilustrar a primeira edição da revista como uma magazine. O artista Norman Mingo foi, meio a contragosto, o responsável por adaptar essa evolução de rostos em algo que hoje em dia reconhecemos instantaneamente!

ESTA NEM É SUA FORMA FINAL!!!!

O nome Alfred E. Neuman surgiu por causa dos leitores, no entanto. Kurtzman comentou numa entrevista uma vez que eles pegaram o nome de um programa de rádio que o utilizava para personagens genéricos. A ideia deles era basicamente a mesma coisa e usavam o nome Neuman para personagens esquecíveis em histórias idiotas. O exemplo mais próximo que eu consigo imaginar é o uso do nome Tabajara pelo Casseta & Planeta como sinônimo de empresa furreca. No fim, foram os leitores mesmo que passaram a usar o nome Alfred Neuman para designar o carinha do pôster “Quê? Eu, me preocupar?”

Lema de vida!

ESTE MAD ESTÁ UM COCÔ!

Em 1974, a MAD chegou ao Brasil. Nos EUA ela já estava no auge e contava com a colaboração de inúmeros artistas alcançando tiragens de até 2 milhões de exemplares, seguindo assim até meados de 1980. Alguns desses artistas consagrados foram o espanhol Sergio Aragonés, Don Martin, Al Jaffee, Antonio Prohías (criador de Spy vs Spy) e o espetacular Mort Drucker, o caricaturista e capista oficial da revista, responsável por inúmeras paródias! 

As edições brasileiras eram comandadas pelo cartunista Otacílio Costa d’Assunção Barros, o nosso querido Ota. Além dos mesmos artistas internacionais, a MAD em português, lançada pela Editora Vecchi, trazia artistas brasileiros na produção, que adaptavam as piadas para o nosso idioma e cultura, ou simplesmente faziam paródias novas ligadas à política, televisão e cinema nacionais. Ninguém era perdoado. De políticos como Lula e José Sarney, indo até Maurício de Sousa e a Turma da Mônica, passando por filmes como Dona Flor e Seus Dois Maridos e até mesmo Tropa de Elite. A revista também foi palco para alguns grandes nomes dos quadrinhos brasileiros seja em tirinhas, cartum, caricaturas ou paródias. A lista é imensa, mas podemos citar aqui colaboradores como Vilmar Rodrigues, Ziraldo, Laerte, Carlos Chagas, Carlos Eduardo Novaes (o escritor cujo nome foi inspiração para minha mãe me batizar), Allan Sieber, Pablo Carranza, Benett, Chiquinha, Fabiano Denardin, Carlos Latuff, Daniel Lafayette, Orlandelli, Raphael Salimena, Pryscila Vieira e… Kadu Castro!

Hein?

Calma! Tá escrito ali no meio “… e mostramos as vantagens de ter pais GAYS”.

Pois é. Durante um breve período da minha vida eu fui um estagiário em um dos muitos apagar das luzes da MAD, nos idos de 2006. A revista foi publicada pela Editora Vecchi de 1974 até meados dos anos 1980, quando entrou em falência. A empresa foi comprada pelo Grupo Record e alguns meses depois, em 1984, a revista foi relançada como MAD in Brazil e seguiu assim até o ano 2000, quando foi cancelada novamente por causa de baixas vendas. No entanto, a Editora Mythos tomou para si a publicação e relançou a Nova MAD logo depois. Durante todas essas iterações, o Ota era o editor-chefe da revista responsável praticamente por todas as etapas de produção! 

Foi nesse período em que entrei como estagiário, ficando por apenas 3 meses e sofrendo uma “leve pressão” para publicar uma tirinha do meu personagem de quadrinhos, o Ornitorrinco (no fim, eu acabei escrevendo qualquer coisa e essa é a história de como minha única contribuição na revista Mad foi uma tirinha meio merda). A revista foi cancelada pouco depois do meu período de experiência e eu acabei no olho da rua. #FÓN Contudo, ela ainda teria uma sobrevida pelas mãos da Editora Panini em 2007, com o cartunista Raphel Fernandes dividindo o papel de editor com Ota nas primeiras edições. Pelo menos até 2017, quando ela foi cancelada de vez.

Don Martin era um dos clássicos da revista!

Tô LendoPontos Fortes
  • Humor escroto. De tempos em tempos parece que o mundo sente essa necessidade de ser o mais contracultura o possível. De afrontar o maior número de pessoas, de ser anti-sistema, de rir do establishment. Pode parecer esquisito isso que eu estou dizendo aqui, porque soa muito parecido com uma galera que curte reclamar do politicamente correto de hoje em dia e que na verdade, ser afrontoso é fazer piada machista, racista, sexista. Mas a MAD nasceu para tirar sarro de quem estava no topo, de quem achava que era o bastião da moral e da ordem e, aqui no Brasil mais especificamente, ela surgiu com uma veia política bem forte, mesmo que tivesse umas ofensas gratuitas aqui e ali. E além disso, ela adorava tirar sarro dela própria também. 
  • Paródias. Mesmo que muitas delas fossem parecidas em matéria de história (as paródias de filme em geral falavam mal do próprio roteiro, das atuações de seus próprios atores, etc.), era bem divertido ver os filmes mais badalados do momento serem tratados como um filmeco qualquer de uma quarta-feira à noite do SBT, sabe? E a arte do Mort Drucker era impecável! Aqui no Brasil tivemos vários outros artistas fazendo esse trabalho, mas nunca soube o nome de nenhum deles, só do Vilmar Rodrigues e Carlos Chagas.
  • Dobradinha. Clássicos do Al Jaffee e um puta exercício de tradução, adaptação e diagramação de quem quer que fosse o responsável pela página! Tudo tinha que casar bem direitinho, em especial as letras!
Tô LendoPontos Meh
  • A Própria Revista. Afinal de contas, era a MAD, né gente? Um cocô de revista!

Mort Drucker também era um monstro das caricaturas!

Enfim, a Revista MAD fez história. Com um estilo de humor que nem sempre agradou a todos, mas que ficou na memória de muita gente. Seja com uma piada em específico, ou com uma paródia engraçada, ou ainda com as dobradinhas (minha esposa veio agora há pouco por cima do meu ombro comentar sobre como ela amava as dobradinhas da MAD). Cada leitor tem uma coisa da revista bem guardada na cabeça e eu acho curioso como só isso já é um grande exemplo do alcance que ela teve nesses 45 anos de publicação.

O recente falecimento do Ota foi um choque para o mundo dos quadrinhos BR, em especial para os fãs da revista. Com ele se vão inúmeras histórias de bastidores do mercado, de encontros entre autores e outras lendas das HQs. Mas também é uma mostra de como esse mesmo mercado pode ser cruel não só com artistas iniciantes, como também com figuras conhecidas que aos poucos vão desaparecendo da cena editorial. Talvez a MAD estivesse mesmo com os dias contados, o tipo de humor que ela trazia talvez fosse muito necessário em 1950 ou 1970. Talvez até mesmo o tipo de humor que a gente precise agora seja outro, algo que afronte o afrontamento do passado. Talvez.

Spy vs Spy era um dos meus favoritos!

A MAD foi o retrato de uma época. E vamos sempre lembrar com carinho dos cocôs, dos vômitos e das piadas de latrina. E como bem disse a Laerte:

E você? Curtia a MAD? Lembra de alguma paródia, de alguma piada que te fez gargalhar alto? Conta aí nos comentários!


A Revista MAD vale com certeza infinitos cocôs! 💩💩💩💩💩💩💩💩💩💩💩💩💩…

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.