A gente adora pensar em como a vida seria diferente se tivéssemos agido de outra forma no passado. A Marvel também sempre adorou fazer isso, ainda mais com os clássicos de What If…?. Vamos relembrar O que aconteceria se o Capitão América tivesse criado os Vingadores?!

Vocês também não acham que o Vigia tinha que ter uns olhões, e não um cabeção?

Na minha última coluna sobre um dos What Ifs da Marvel Comics, eu falei bastante sobre as origens da revista e fiz um apanhado geral de ideias antes do que aconteceria se o Capitão América fosse descongelado nos anos 80. Mas caso você ainda não tenha lido, aqui vai um resumão. A série em quadrinhos foi criada em 1977 e tinha como inspiração (in)direta programas como Além da Imaginação (The Twilight Zone) e A Quinta Dimensão (Outer Limits), fazendo a famigerada pergunta “o que aconteceria se” e propondo uma história alternativa, em outro universo, explorando possibilidades infinitas com os personagens da editora. Livres das amarras das cronologias oficiais, grandes autores passaram pela revista com histórias loucas e de vez em quando algumas brincadeiras davam origem a histórias que viriam a ser oficiais no futuro (vamos ver duas delas hoje, aliás). A revista teve várias reformulações ao longo de quase quarenta anos de publicações, mas as histórias mais memoráveis surgiram ali pelos anos 70, 80 e iniciozinho dos 90.

Aqui no Brasil, as histórias não tinham uma revista própria como nos EUA, então elas saiam de vez em quando no mix de algumas das revistas de linha da Abril (e posteriormente da Panini). Algumas eram incríveis e tinham desdobramentos inesperados, mas outras eram meio #FUÉN, com uns desenhistas meia-boca e um roteiro corrido. Infelizmente, a edição da qual eu vou falar hoje é uma dessas. E vocês vão até me perguntar “pô, tio Kadu, porque você não fala da história da capa? Wolverine vs Conan deve ser bem mais irado!” e pois é, eu até pretendo falar dela num futuro próximo. Mas você pode culpar a Disney por causa disso, porque eu quero fazer um apanhado de acordo com as histórias do seriado do DisneyPlus. Ou pelo menos a coisa mais parecida com o que a gente leu no passado.

Prometo que ainda vou falar dessa do Wolvie, juro!

CAPITÃO AMÉRICA PRESIDENTE

Essa é uma típica história que tem um grande potencial, mas porque acontece tanta coisa nela, fica um pouco corrida e isso prejudica o resultado final. Nos EUA, ela saiu no volume 2 de What If..?, nas edições #28 e #29, em 1991. Aqui no Brasil, as duas edições saíram em Grandes Heróis Marvel #39, em 1993. Ambas as histórias ponderavam sobre as repercussões da segunda guerra envolvendo o Capitão América. 

A primeira história, trazia a questão: o que aconteceria se Steve Rogers não fosse o único super soldado a lutar na Segunda Guerra Mundial? E convenhamos, tem bastante coisa legal ali no meio. Tudo começa, é claro, com a “não-morte” do cientista Abraham Erskine, o criador do soro do super soldado e em como Steve Rogers se destaca como um herói de guerra. Num determinado ponto, o Capitão América é convocado a abandonar seu posto no front e voltar aos EUA para uma missão secreta: Treinar os outros super soldados criados pelo Dr. Erskine. Steve se espanta com a quantidade de homens suados e musculosos sem camisa numa sala só e vai conhecendo figurinhas clássicas da editora, como Dum Dum Dugan e Nick Fury. Nessa realidade, esse pelotão de super soldados é apelidado de Invasores e eles, sozinhos, encerram a guerra com uma invasão à fortaleza de Hitler, na Alemanha. No processo, o Caveira Vermelha é assassinado por Fury e o Fürher é preso e condenado no tribunal de Haia. Como a guerra teve um final diferente, não houve a necessidade de lançarem as bombas atômicas (bom, nunca houve essa necessidade, né? Vamos combinar!) e, com isso, também não houve a corrida atômica, nem a guerra fria. Vitoriosos, Steve e seu pelotão voltam aos EUA de navio, porém essa embarcação é atacada por uma frota nazista que ainda havia restado e o único sobrevivente é o Capitão América! Hum. Será mesmo?

Com tanto homem pesado, né? Claro que o navio ia afundar.

Já nos EUA, Steve é celebrado como herói de guerra e o principal responsável pelo fim da segunda grande guerra. O presidente dos EUA dá a ele o comando de uma nova força militar do país, a S.H.I.E.L.D., que passa a ser formada unicamente por super soldados criados por Erskine. Ele ainda é o único que sabe a fórmula e, por conta disso, acaba sendo levado para um local secreto e continua trabalhando para o governo. Steve então lidera uma invasão a São Petersburgo e acaba com o regime comunista de Stalin, para a felicidade de todo mundo (ou pelo menos dos EUA todo)! Depois disso, vem uma “Era de Paz Americana”, trazida ao mundo pelos músculos de super soldados americanos… E é nessa parte da história que a gente começa a estranhar tudo. Até porque, se conhecemos bem as histórias alternativas da Marvel, tem alguma tragédia vindo por aí.

Steve Rogers se elege presidente em 1958, prometendo à população que todos receberiam o super soro, mas durante anos essa foi uma promessa vazia. Em reuniões na Casa Branca, com seus secretários, Rogers fazia planos para continuar usando o soro para fortalecer seus soldados da SHIELD e seu exército particular, enquanto mentia para o povo dizendo que “havia um problema no soro” e que a quantidade ainda era pequena para usar na população inteira, mas que era só questão de tempo. Aos poucos, esse soro se tornou uma espécie de vacina, que deveria ser aplicada todo ano e, com mais promessas e com uma popularidade que não caia nunca, ele foi se reelegendo, reelegendo e reelegendo, por mais ou menos uns 30 anos (de acordo com a história).

No universo Marvel não existe mais comunismo, igual na vida real.

Com o tempo, de fato o soro do super soldado passou a ser aplicado na população, mas o Capitão América veio a público declarar que “só funcionava mesmo em pessoas arianas, como ele” e que por conta de um “problema genético” das pessoas negras, não era possível aplicá-lo em todos, com riscos fatais. Com isso, a população negra foi mais uma vez sendo reprimida e segregada com força. Campos de concentração foram criados e qualquer tipo de super seres eram eliminados por um esquadrão de caça liderado por ninguém menos do que Frank Castle. O Justiceiro sempre fazia o seu trabalho, mas não sentia nenhum prazer em matar inocentes, como os outros integrantes do esquadrão. Em segredo, ele duvidava (de leve) dos ideais do presidente.

E como assim? De repente, do nada, o sentinela da liberdade, o Capitão América, o cara que lutou pela liberdade de todos para acabar com um regime fascista, vira um ditador fascista que aprisiona pessoas por causa da cor da pele ou elimina de uma vez qualquer portador do gene-x? Havia algo de errado que só descobriríamos quando o esquadrão de Castle atacasse um mendigo barbudo muito bem conhecido da Marvel. Ao enfrentarem o Príncipe Namor e o despertarem acidentalmente de sua amnésia, o esquadrão parte em busca do herói para eliminá-lo, até que todos dão de cara com uma figura aprisionada no gelo, com o mesmo uniforme do Capitão América…

É O NAMOOOOR! QUE ACHA O STEVE ROGERS E DESCONGELA NO FIIIIIIM!

HAIL, HYDRA!

Na edição seguinte (e para nós, a história seguinte), Frank Castle toma um pau federal e se vê forçado a usar a maior arma do esquadrão. Uma armadura com tecnologia de ponta, repleta de armas, criada pelo bilionário Tony Stark! Nessa realidade, Castle é o Homem-de-Ferro e usa uma armadura de cor cinza, com uma caveira no peito! Eles acabam aprisionando Namor e, na volta para casa, resolvem trazer consigo o corpo congelado que encontraram, para tirar todas as dúvidas. O cara acorda e ficamos sabendo que, óbvio, ele é o verdadeiro Steve Rogers que havia sido congelado durante o naufrágio do navio no fim da segunda guerra!

Namor conta a ele tudo o que aconteceu enquanto esteve congelado e ele se revolta com todas as atrocidades feitas em seu nome! Castle se compadece e, como já tinha dúvidas quanto à própria lealdade, elimina o próprio esquadrão e se junta a Steve na busca de novos heróis que possam ajudá-los a depor o falso presidente, seja lá quem for! Com acesso aos arquivos da SHIELD eles partem em busca desses indivíduos notáveis e aos poucos vão formando o grupo de Vingadores mais, er, diverso desde aquela formação do Quarteto Fantástico com o Aranha, o Hulk, o Wolverine e o Motoqueiro Fantasma!

Não acredito que perderam a chance de chamarem ele de WOLVERENDIGO!

Eles encontram primeiro um baixinho canadense chamado Logan, que nessa realidade não teve seus ossos cobertos por adamantium, mas em vez disso, foi amaldiçoado com os poderes do Wendigo, mas apelidado de Hulk pelos soldados que tentaram eliminá-lo! Eles tentam recrutar Hank Pym, mas chegam atrasados e encontram o cientista morto. Porém, na mesma hora a casa de Pym é invadida por um ladrão, um tal de Sam Wilson que acaba sendo recrutado por Steve ali mesmo, que dá para ele o uniforme do Gigante e algumas pílulas de partículas pym. ¯\_(ツ)_/¯ E por último, eles recrutam o líder de um grupo de mutantes numa escola em Westchester… um tal de Magnus! Steve reconhece o garoto que ele salvou anos atrás do campo de concentração de Auschwitz e consegue convencer o mestre do magnetismo a entrar para o seu grupo de Vingadores!

Em uma batalha meio #FUÉN e corrida também, eles descobrem que o falso Steve Rogers é ninguém menos do que o próprio Caveira Vermelha! Ele revela que à beira da morte, o cientista Arnim Zola transplantou sua mente para o corpo clonado do Capitão e que, depois do naufrágio do navio que carregava o pelotão de super soldados, ele foi jogado ao mar para ser encontrado e assim, ocupar o lugar de Steve como o herói da segunda guerra! Com isso ele passou anos colocando seus planos nazistas em prática, reprimindo parte da própria população enquanto favorecia apenas o que ele considerava como a “raça pura”.

Nossa caveira jamais será vermelha! Não, péra!

Numa batalha final que não é mostrada todos os Vingadores faleceram, até mesmo Namor e o Thor (ah, é! Eles encontraram o Thor no meio do aeroportaviões sendo torturado para soltar o Mjolnir e ele se juntou ao grupo também). E o último quadro é uma estátua no Central Park com o grupo numa pose heróica e uma narração em off do Vigia dizendo que sem o Caveira Vermelha no poder, os EUA finalmente viraram a terra da liberdade onde todas as pessoas, independente da cor da pele, da religião, etc. se amam e andam abraçadas com cachorrinhos e fim!

O que no final das contas é a parte mais irreal dessa o que aconteceria se…?

Essa é REAL a última página da revista!

Tô LendoPontos Fortes
  • Ideias. As duas histórias tem ideias muito boas. Seria lindo se elas tivessem sido mais bem executadas ou exploradas, junto com todas suas repercussões. É bem interessante ver como o Caveira Vermelha impediu o surgimento de heróis eliminando o Quarteto, o Hulk e o Aranha antes mesmo de surgirem. E vários pontos da história tem ecos em storylines que a Marvel Comics usaria recentemente, até mesmo o MCU! 
  • Heróis. A equipe não é exatamente diversa, né? Porque tem só o Sam Wilson de cota e nenhuma mulher. Mas tirando essa parte óbvia da falta de representatividade, foi um lineup que eu achei no mínimo curioso, colocando Magneto, Namor, Justiceiro-de-Ferro, Wolverendigo, Falcão Gigante, Thor e Capitão América para trabalharem juntos.
Tô LendoPontos FUÉN
  • História. É tudo muito apressado. E ideias que pareciam ótimas acabam se perdendo de maneira idiota. Parece que como não levam muito a revista a sério, ninguém se preocupou em fazer um roteiro mais conciso, o que é uma pena. Lembrei aqui de como o Caruso sempre diz que eu deixo a história melhor no meu resumo e essa aqui é um caso clássico disso. Pode ler e comparar.
  • Desenhos. A arte ficou a cargo de um desenhista que eu não conheço, chamado Ron Wilson e, na boa? É bem ruinzinha. A quadrinização é confusa, todo mundo tem a mesma cara, falta continuidade, enfim, uma zona! Pensei até que o cara estava em início de carreira no lançamento dessa história em 1991, mas aparentemente ele já trabalhava no mercado desde meados dos anos 80. Tem umas artes ótimas dele no Google, mas essas daqui? Sofríveis, infelizmente.

Não é uma What If se o Aranha não morrer, né?

Quando eu digo que às vezes tem coisas nas What Ifs que acabam chegando no universo tradicional da Marvel, essas duas histórias tem dois exemplos. Um é bem óbvio que é o lance do Capitão América virar um presidente nazista a serviço da Hydra, um conceito que foi utilizado mais recentemente no evento Império Secreto de 2017. Nela, o Capitão não era um clone com a mente do Caveira Vermelha, mas uma versão do próprio herói alterada pelo cubo cósmico que foi revelado ser uma agente duplo desde antes da segunda guerra e… o que você está olhando? Esse foi um evento REAL da Marvel no universo 616. Juro. Não foi um sonho, nem imaginação, nem What If. Bom, ecos dessa história de 1991 também podem ser ligados ao filme Capitão América: Soldado Invernal de 2014, com a revelação de que a Hydra estava infiltrada na SHIELD e que tinha o plano de eliminar super-heróis antes mesmo de existirem, usando um programa capaz de prever possibilidades no futuro, criado por ninguém menos do que a mente de Arnim Zola, que foi transferida para um super computador dos nos 40 num bunker do projeto renascimento e… ok, ok, eu já entendi.

Por útimo, também em 2017, Frank Castle conseguiu pôr as mãos na armadura do Máquina de Combate e deu revamp na pintura dela para deixar mais a sua cara. O arco de histórias chegou a durar mais ou menos um ano nos EUA, tempo esse em que o Justiceiro FEZ MISÉRIA com essa armadura em seu poder. Aqui no Brasil o arco inteiro saiu nas edições de Justiceiro #8 e #9, em 2018, pela Panini Comics. Pode ser só uma coincidência essas histórias terem acontecido dessa forma? Talvez. Mas também pode ser o universo olhando para uma What If e pensando “hum, o que aconteceria se essa o que aconteceria se não fosse só uma o que aconteceria se e acontecesse de verdade?”

Capitão Hydra e Justiceiro de Combate? Ou Capitão Caveira e Máquina de Justiça?

E você? Tem alguma ideia que poderia ser irada para uma história dessas, mas que nunca foi usada? Qual é o que aconteceria se você gostaria que acontecesse realmente? Me conta aí nos comentários.


O que aconteceria se o Capitão América não fosse o único super soldado e tivesse criado os Vingadores? Vale duas rebobinandos! 📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.