Sabe quando você acorda e percebe que o dia está chuvoso, frio e não sente a menor vontade de sair da cama? Mas você sai porque precisa trabalhar, mas passa o dia inteiro pensando o que aconteceria se você simplesmente tivesse ficado na cama? Bom, a Marvel pensou justamente nesse conceito e conseguiu bolar algumas histórias muito interessantes, diferente da sua, claro. Já que você só quis ficar na cama. Vem comigo rebobinar Capitão América #66!

To de olho…

Mas antes um pouquinho de história. Lançado em 1977 nos EUA, a revista What if começou como uma antologia de histórias curtas e fechadas que reimaginavam o universo Marvel através de mudanças específicas em alguns momentos-chave da editora. A primeira edição vislumbrava o que aconteceria se o Homem-Aranha entrasse para o Quarteto Fantástico. A ideia era boa, já que na primeira edição da revista do herói ele não sabia muito bem o que fazer e tentou de fato entrar para o supergrupo familiar. Só que ele acabou sendo recusado porque, bom, a equipe era formada por uma família, né? E até aquele ponto ninguém conhecia o herói. A primeira What If usa essa premissa e conta uma história bacana em que o aracnídeo acaba sendo aceito e eles se tornam o Quinteto Fantástico (imagina o trabalho que deu fazer todo o rebranding da marca, dos uniformes, etc.)!

Traduzida aqui para o Brasil com o nome gigantesco de O que aconteceria se? a revista funcionava basicamente como uma antologia de histórias alternativas, numa época em que ninguém sabia sequer soletrar a palavra “multiverso”. Aqui em terras brasucas, algumas das primeiras histórias foram publicadas só em 1982, no Almanaque Premiere Marvel da editora RGE. Porém o crédito de ser a primeira revista brasileira com uma What If no mix veio mesmo em 1981 com Capitão América #27, que examinava um mundo em que o sentinela da liberdade nunca havia sido congelado. Daí por diante a maioria das histórias alternativas saíam publicadas de acordo com os seus mixes definidos pelas editoras da época. Então as histórias do Aranha saíam nas revistas do Aranha, as dos X-men em X-men, etc. etc. 

Só clássico.

E todas elas seguiam um estilo bem conhecido e popular na época. Acho impossível não traçarmos um paralelo entre o modelo de What if com o de outro seriado, Além da Imaginação. Ambos examinam mundos ou histórias de universos paralelos, sempre com um teor sinistro (e às vezes mortal), e sempre com um apresentador onisciente que conhece e guia o espectador diante dessas tramas alternativas. No seriado, o apresentador era o narrador Rod Serling, e na Marvel esse papel ficou a cargo do Vigia. Sua presença ficou tão ligada à revista, com histórias que muitas vezes tinham um final trágico que sua mera presença em qualquer saga do universo Marvel acabou virando um presságio de “vai dar uma merda gigante”.

O gibi americano foi publicado por anos a fio, com cancelamentos e novas numerações nesse meio e, de acordo com seu histórico de publicação hoje em dia conta com 13 séries distintas. O nome mudou, acrescentando um sinal de reticências e um ponto de interrogação, virando o What if…? que conhecemos hoje. Uatu, o Vigia no entanto é o apresentador apenas das duas primeiras séries de gibis (as duas mais longas), que foram publicadas originalmente entre 1977 e 1984, e depois de 1989 até 1998. São desse período algumas das histórias mais memoráveis que, no melhor estilo Simpsons, chegaram a prever o futuro da Marvel Comics.

Hum, uma equipe de x-men mortos em Krakoa? Jane Foster de Thor? Clone-Aranha? Fim do Casamento? ONDE FOI QUE EU JÁ VI ISSO ANTES?

TÁ, MAS E O CAPITÃO AMÉRICA?

A história em questão, o que aconteceria se o Capitão América fosse descongelado nos dias atuais? saiu por lá no início de 1984 na edição de What if #44. Aqui no Brasil ela saiu pela editora Abril (olha só) no final de 1984, na edição de Capitão América #66. O título é bem auto-explicativo e conta a história de como Steve Rogers não foi encontrado pelos Vingadores no final dos anos 60, tendo ficado congelado até meados dos anos 80. Podemos supor que o tempo nessa realidade alternativa não segue a “cronologia estendida” do universo Marvel, em que a origem do Aranha é sempre de quinze anos atrás, por exemplo, colocando o personagem atual sempre na casa dos 30 anos de idade.

Pois bem o “evento de nexus” (para usarmos uma nomenclatura mais atual) que gerou essa realidade foi o fato do Namor ter virado à esquerda em Albuquerque, depois de fugir de uma luta com os Vingadores! Hehe, não. Sem sacanagem, é basicamente isso mesmo. O Vigia diz que após uma luta com os Vingadores, o príncipe submarino foge para as águas do Ártico, onde encontra um grupo de esquimós idolatrando uma figura humana presa no gelo. Rancoroso como só, ele diz que os esquimós deveriam estar idolatrando a ele, e joga o bloco de gelo no mar. Os Vingadores encontram o Capitão e o descongelam e, o resto é história. Mas dessa vez, em vez de fugir para o Ártico, Namor foge para o sul e uma série de eventos ocorre.

Eu não entendo muito de religião esquimó, mas tô achando que isso deve ser super ofensivo.

Sem Namor para zunir o bloco de gelo do Capitão, os Vingadores nunca o encontram e seguem a vida. Num determinado momento, por não terem uma “figura inspiradora” para mantê-los unidos, o supergrupo se desfaz e vai cada um procurar os seu caminho. Os anos passam novamente e lá para meados dos anos 70 (o gibi não faz muita questão de explicar exatamente, mas é durante o período de Nixon), um faxineiro misterioso reclama de uma visita do presidente à China, dizendo que os EUA estão se vendendo para os comunistas! E toma para si a missão de tirar de animação suspensa um OUTRO Capitão América e Bucky, que estão “guardados” em animação suspensa.

Mas quem é esse faxineiro? Onde ele trabalha? Por que um reles faxineiro consegue mexer num equipamento complexo de animação suspensa? Como ele sabe de uma coisa que deveria ser um segredo de Estado absoluto? Não sei. Não diz. Ele limpou o equipamento várias vezes e aprendeu só de olhar. Ele limpava a sala da animação suspensa todos os dias. Enfim, não tem A MENOR explicação plausível e a história nunca mostra o rosto do tal faxineiro, que fica sempre envolto nas sombras. Chega até a ser risível pensar que um faxineiro com paranoia anticomunista vai ser responsável pelas coisas horríveis que vão acontecer neste gibi, mas é o que temos para hoje.

Pavão misterioso / faxineiro formoso / Tudo é mistério / nesse teu voar!

Mas enfim. Se nós sabemos que o Capitão América verdadeiro ainda estava congelado, quem diabos são esse novo Capitão e Bucky congelados artificialmente numa instalação (aparentemente) do governo? E para isso, SIM, existe uma explicação plausível (ou quase). Veja bem, as histórias oficiais do Capitão América não terminaram exatamente no fim da segunda guerra. No nosso mundo real elas ainda continuaram a ser publicadas durante o fim dos anos 1940 e até os anos 1950, quando a grande paranoia anticomunista varreu os EUA e o mundo. Nessas histórias, o Capitão agia muito parecido com as pessoas da época, vendo o comunismo em todo lugar. No entanto, quando Stan Lee resolveu ressuscitar o personagem em 1964, ele também resolveu ignorar essa fase do herói e inventou a história de que ele havia sido congelado no final da segunda guerra.

Mas então quem era o Capitão dos anos 50? Isso ficou a cargo de um retcon de Steve Englehart e Sal Buscema nas revistas do Capitão América. Ele na verdade era um cara chamado William Burnside, que foi convocado para tomar o lugar do herói após o seu desaparecimento em 1945, sendo mais uma pessoa a vestir o uniforme na ausência de Steve Rogers. Só que diferente de Elijah Bradley e John Walker que encontraram seus caminhos no heroísmo, o cara dos anos 50 era só um paranoico psicótico mesmo. No retcon e em histórias mais atuais, o personagem reapareceu, mas alinhado com um grupo supremacista branco e claramente nazista (sério, os caras usavam uniformes brancos por inteiro, numa alusão à KKK e andavam com suásticas no braço).

William Burnside como o vilão “Grande Diretor” e como o Capitão América racista dos anos 50.

Para a galera que não gosta de política, é um prato cheio. E vindo de edições dos anos 70, 80 e 2000, olhaí. 

Voltando à história, o Capitão dos anos 50 volta à ativa e, para o leitor mais atento, vai deixando pistas da sua mentalidade, como por exemplo, ao impedir um assalto a banco cometido por homens negros, ele faz questão de dizer em alto e bom tom “a sua raça nunca muda, não é?”. Só que durante os anos ele continua agindo como herói, até ser cooptado por um grupo secreto que começa a pedir seu apoio em propagandas políticas. O novo Capitão vai à televisão criticar abertamente em uma entrevista como “o movimento estudantil e o movimento de minorias” não ajuda a desenvolver a América, só fazendo com que “o inimigo” fique mais forte. Até o Bucky entra na roda para dar aquele quê de machismo dizendo que “infelizmente perdeu o auge da minissaia” enquanto estava congelado.

Metido em política, seu apoio acaba elegendo um senador que começa a passar leis como um cartão nacional de identificação, que seria dado apenas a “americanos de verdade”, e garantiriam ainda mais privilégios, como empregos, empréstimos e etc. Até o ponto em que o herói vai confrontar um movimento pacífico, liderado por um reverendo negro (que provavelmente fazia alusão a Martin Luther King) e é alvejado de raspão pelo mesmo figurante misterioso do início da história. O atentado causa um rebuliço que estoura em ainda mais violência e repressão. Aos poucos vamos vendo como a conversinha mole do Capitão dos anos 50 vai convencendo mais e mais americanos a se aliarem a uma mentalidade de extrema direita (igualzinho a CERTOS países que vemos por aí)!

Seguindo a cartilha do fascismo.

Mais tempo passa e finalmente saímos dos anos 70 e chegamos em 1983/84. Os EUA viraram um estado claramente fascista e segregacionista, e enquanto isso, a tripulação de um submarino americano encontra Steve Rogers congelado no oceano e o resgatam. Aparentemente, o serviço de submarinos é meio mal visto, então só os marinheiros rejeitados serviam dentro dessas embarcações. Com uma tripulação majoritariamente de negros e judeus, eles quase eliminam Rogers por causa do seu uniforme que, segundo eles, pertencia aos “sentinelas da liberdade”, uma espécie de grupo paramilitar a serviço do governo. O capitão reconhece o verdadeiro Capitão América e lhe conta tudo o que aconteceu com o país durante o tempo em que ele esteve congelado. Steve escuta com pavor que seu país criou o Muro do Harlem, uma espécie de “muro de Berlim” que cercava o bairro do Harlem, segregando a população negra que vivia ali. Além disso, os EUA passaram a mandar judeus para campos de concentração novamente, e que havia guardas fortemente armados em cada esquina. 

O capitão do submarino leva Steve a um grupo de rebeldes liderados por Nick Fury e que contava com a presença de Sam Wilson como um dos líderes do movimento pantera negra, e também de Peter Parker, como Homem-Aranha. O Capitão América obviamente se une aos heróis rebeldes e invadem um discurso televisionado do Capitão Falso. Uma batalha é travada, mas não chega a ser um grande desafio, já que Steve Rogers é bem mais forte e habilidoso que o impostor. A cena pivô é justamente quando o herói derrota sua contraparte e usa seu escudo de vibranium para esmagar o escudo do adversário.

Meu escudo é melhor, seu proto-fascistinha de merda.

O final é super brega, porque acaba sendo super nacionalista também, o que parece ser meio sem sentido a princípio, já que foi o nacionalismo extremo dos vilões que levou o país àquele estado deplorável. Mas o Capitão acaba fazendo um discurso sobre como as liberdades civis são importantes e como isso é o significa ser “americano de verdade”. O mais legal, no entanto é que Steve Rogers não mede palavras e chama o vilão por repetidas vezes de “nazista”, chega até a compará-lo a uma mancha nazista na bandeira americana. E no fim, é até assustador ler um gibi de 1983 que ainda pareça tão atual e relevante hoje em dia, quase quarenta anos depois!

Com a derrota do Capitão Falso, o povo observa Steve Rogers, que desta vez faz um discurso para o país, criticando a forma como um novo governo que cerceia a liberdade do próprio povo foi eleito. Ao final do discurso, o povo começa a aplaudi-lo, mas o Capitão América tava com fogo nas ventas, e ainda emenda com um “Vocês resolveram seguir um líder que usava esta mesma roupa e ele os levou pelo caminho do mal. Não vou deixar que troquem um uniforme por outro! A guerra pela liberdade está só começando! (…) Eu tirei a muleta de vocês e me juntei àqueles que também foram rechaçados por essa sociedade. Olhem para dentro de si e descubram os ideais que guiam esse país, e encontrem o verdadeiro significado dos EUA novamente!”

Com o discurso brega, mas quaaaaase ali junto com o discurso do V de Alan Moore, a história se encerra com a multidão fazendo silêncio e depois recitando o hino americano. E de repente uma história que estava tão boa e atual termina de um jeito que me deixou com medo de repetirem tudo de novo.

Capitão dando lição de moral no povo.

Tô LendoPontos Fortes
  • História. Escrita por Peter Gillis, ela envereda rapidamente por um lado político muito inesperado para mim. Na época, claro, eu não entendia muita coisa porque eu sacava zero de política (e ainda assim eu só fui ler beeem depois, em versão de sebo). Mas hoje eu acho ela extremamente relevante, apesar da breguice americanoide no final.
  • Desenhos. Tá, é o Sal Buscema! Mas aqui o traço dele não tá esquisito e tá até bem bacana. Acho que varia muito de arte-finalista para arte-finalista, e aqui o Dave Simons tá dando uma ajuda espetacular na arte do Busceminha. 
  • Política. Essa é para esfregar na cara, junto com aquela graphic novel dos X-men, daquele seu coleguinha negacionista reclamão que acha que “gibi não pode falar de política”.
Tô LendoPontos Meh
  • Disponibilidade. Não existe em nenhum outro lugar, não foi publicado em nenhum outro encadernado, coletânea… nada. Se você ainda tiver, é um achado! Sempre há a possibilidade de ler online também, mas em geral só se você souber bastante inglês.
  • Breguice. Me senti meio “sujinho” com o discurso do Cap no final porque fica aquela sensação de que ele poderia alcançar mais gente se não estivesse falando única e exclusivamente dos EUA no seu discurso, mas de valores mais abrangentes para os seres humanos. Foi quase como eu me senti com o discurso do Dragon no final da sua primeira minissérie, mas enfim, não dá para esperar muito de um cara chamado Capitão AMÉRICA, né?

“Boas vindas à zona de além do que aconteceria se…?”

E aí? Essa O que aconteceria se…? foi uma marco, né? No twitter muita gente me lembrou dela quando eu perguntei sobre as histórias favoritas das pessoas e achei muito bacana poder relê-la assim, neste momento tão duro para a história da humanidade. É uma história providencial e, se você puder, eu recomendo muito sentar para ler novamente, do jeito que der.

Na pior das hipóteses, a gente ainda pode torcer para a Panini ler a minha coluna e fazer que como fizeram com a minissérie Red, White & Black, e publicar um encadernadão só com as histórias de What if…? e meter essa do Capitão no meio. Vamos lançar uma hashtag!

Na boa, que página é essa, né? Nem parece Sal Buscema!

Mas antes, me diz aí. Tem uma outra O que aconteceria se…? que você gosta? Tem alguma que você está esperando ansiosamente para aparecer no seriado do Disney+? Põe nos comentários!


O que aconteceria se o Capitão América fosse descongelado nos dias atuais? vale quatro rebobinandos. 📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.