Ah, o espírito olímpico! As corridas, os skates, o surfe e… a embaixadinha? Ok, pode ser que hoje em dia alguns desses esportes já sejam olímpicos, mas nos anos 80 ele eram apenas conhecidos como Jogos de Verão. Vem comigo rebobinar California Games!

Tony Hawk’s Retro Skater

Eu gosto muito de videogame, mas nos dias de hoje, não sei se posso ser considerado um gamer. Primeiramente porque eu não sei dançar no tiktok, nem fazer live na Twitch. E segundo porque eu sempre me considerei um casual gamer durante minha vida porque videogame era mais uma distração do que um esporte ou um emprego. Fui dono de poucos consoles: um Mega Drive, um N64 e um PS3; e tive a minha cota de jogos. Em geral a maioria de aventura e sidescrolling beat’em up (como Streets of Rage, TMNT, ou Scott Pilgrim), ou ainda RPG e FPS como Zelda ou Goldeneye. E poucos. Pouquíssimos de esporte, aliás. Impressionantemente, a minha aura nerd de ser péssimo em esportes não era física apenas e se estendia até o mundo virtual com DEZESSEIS MILHÕES DE CORES!

Nas priscas eras do iniciozinho dos anos 90, no entanto, no auge das locadoras de bairro onde a gente alugava fita na sexta para aproveitar o final de semana pagando duas diárias apenas, eu alugava de vez em quando um joguinho irado, que era bem concorrido e que tinha uma capa maneirinha com uma moça de biquíni e patins. Aqui no Brasil ele era conhecido oficialmente pelo nome Jogos de Verão, mas a gente só chamava mesmo era de California Games. E como de praxe na maioria dos jogos de esporte, eu tomava uma surra em tudo.

Eu tomava surra especialmente desse footbag

CALIFORNIA GAAAMES / ON SUCH A WINTER’S DAAAY! 🎵 🎵

Lançado em 1987, o jogo fez bastante sucesso no final dos anos 80, em especial nos EUA. Ele saiu primeiro para os sistemas do Apple II  e do Commodore 64 e, nessa época no Brasil, eu acredito que só a galera que era bem ligada em computadores provavelmente conheceu o jogo (nós, as pessoas normais, ainda estávamos preocupados com o recente fim da ditadura e a inflação galopante). Eu, mais especificamente, estava com 5 anos e provavelmente ainda assistindo Clube da Criança e ouvindo Balão Mágico.

A produtora de videogame Epyx (não é de hoje que chamar as coisas de “épico” é moda, né?) tinha um filão de jogos de esportes na época, onde todos eles tinha o nome de “alguma-coisa-games”. Antes de California eles tinham lançado dois Summer Games e um  Winter Games, mas nenhum deles foi particularmente memorável. Os tais “jogos de verão” traziam esportes olímpicos reais, como salto em distância, salto em altura, mergulho, natação, remo, etc. etc. E os jogos de inverno contavam com, bom, esportes de inverno populares como esqui alpino, salto de esqui, trenó, patinação artística, entre outros. Qual o diferencial então, desses jogos para o outro?

Os verdadeiros jogos de verão e os jogos de inverno

Aparentemente, a escolha dos esportes mesmo. Vamos lembrar que esse periodo do fim dos 80, início dos 90, era uma época bem mais “radical” que a década dos nerds. Vários esportes estavam alcançando uma maior popularidade como skate e surfe, além de ser associado com a galerinha mais jovem através dos programas de TV e desenhos animados. Ora bolas, quer maior exemplo do que as Tartarugas Ninja andando de skate no esgoto? Ou a turma “super descolada” de Barrados no Baile curtindo “altas azarações” nas praias da Califórnia? (meodeos vou ter uma síncope se continuar escrevendo assim)

Com surfe, skate e patins no catálogo, não era muito difícil de chamar a atenção da molecada. Dá até para meter uma embaixadinha escrota ali no meio (que ninguém liga), chamar de esporte e meio que ignorar durante o resto do jogo. No fim, California Games vendeu mais de 500 mil cópias em 1989 e foi o maior título do catálogo da Epyx. Além disso, o presidente da empresa chegou a declarar que uma das prováveis razões para o sucesso do jogo foi que durante a fase de testes, ele conseguiu agradar tanto meninos quanto meninas. Olhaí.

Parece tudo calmo, mas essa calçada é um VERDADEIRO INFERNO!

Videogame não tem gênero, galera. Todo mundo pode se divertir!

Depois do sucesso nos computadores pessoais, foi só esperar o título chegar nos outros sistemas mais populares de videogame. A SEGA chegou a produzir a própria versão do jogo e lançou primeiro a versão do Master System ainda em 1989. Depois ele chegou ao Sega Genesis americano em 1991 e logo em seguida aqui no Mega Drive, provavelmente ainda no mesmo ano. Além dele, outros sistemas que puderam curtir os jogos californianos foram Atari 2600, Lynx, MSX e o Nintendinho.

As capas dos jogos de Commodore, PC, Nintendinho e Master System

CA-LI-FOR-NIA GAMES / ARE UNFORGETTABLE… 🎵🎵

Os esportes do jogo contavam com:

Half-Pipe. Era o skate básico. Você zunia de uma ponta a outra de uma pista, fazendo suas manobras na ponta, tomando muito cuidado para não cair. Para a molecada de hoje pode parecer incrivelmente chato, mas era bem complicado você conseguir girar na hora exata para não se estabacar no chão. California Games andou para que Tony Hawk’s Pro Skater pudesse correr!

Patins. Era o jogo da menina da capa, de biquíni e patins. Era basicamente um passeio com obstáculos NA CALÇADA MAIS IMUNDA DO MUNDO. Sério, nunca entendi como isso era um “esporte” se os obstáculos eram um ralo, um punhado de areia da praia, uma casca de banana e coisas do tipo. Era uma modalidade mais fácil de competir, apesar disso. Mas eu morria de pena quando a guria se estatelava de cara no chão. Era a própria visão da derrota e eu só pensava, “eu te entendo, menina de biquíni e patins, eu te entendo”.

A cara da derrota (chapiscada de areia)

Surfe. Também era uma modalidade ok de competir. Algumas manobras eram meio chatinhas de fazer, porque tinha que calcular a hora certa, como no half pipe. Era maneiro tentar um tubo sem cair, desviar das bolas (sério, a menina dos patins também tinha que desviar de bolas, que bando de gente babaca nessas praias da Califórnia jogando bolas nos esportes dos outros), eu torcer para o tubarão não aparecer na água, depois de você cair! Ele ainda era acompanhado pelo seu tema clássico.

BMX. Minhanossasinhora, como eu odiava essa modalidade. Não mais do que a da embaixadinha, mas lembro de ficar completamente perdido quando joguei da primeira vez. E da segunda. E da terceira. Etc. etc. Você entendeu. Eu não sacava os controles e tentava adivinhar como fazer as manobras, só para cair de cabeça e encerrar a competição por causa de um traumatismo craniano. Esse jogo era muito cruel.

Fim de jogo, você MORREU.

Footbag. O ÓDIO QUE EU TENHO DESSA MODALIDADE. Mais ódio ainda porque vários amigos meus adoravam ela e faziam miséria nesse esporte, acertavam passarinho, assobiavam e chupavam cana, pegavam reloginho, davam pirueta e tudo mais. Eu mal conseguia levantar a bolinha. Não tenho muito mais o que dizer, lamento. Tenho muitos traumas.

Frisbee. O lançamento de frisbee era um esforço duplo. Você primeiro controlava o bonequinho que fazia o lançamento e tinha que calcular certinho o ponto entre ângulo e velocidade para arremessar o frisbee bem distante. Depois disso, você controlava o receptor, que precisava correr e saltar em cima do negócio para pegá-lo nas mãos. Em geral todo mundo errava nessa parte e o bonequinho ficava na mesma posição de derrota humilhante que a garota dos patins, coitada. Essa modalidade, no entanto, não estava no Mega Drive, mas estava nos outros sistemas, então achei legal mencionar aqui.

No Master System tinha o lançamento de disco

Tô LendoPontos Fortes
  • Música. As músicas são bem maneirinhas. E como o jogo tem modalidades relativamente curtas, não chega a enjoar conforme você joga.
  • Multijogador. Dava para até quatro jogadores, um de cada vez e trocando os controles. Mas como na época isso era meio inovador porque eram poucos os jogos que davam para mais de duas pessoas, o fato dele ser um party game foi também um dos motivos do seu sucesso.
  • Gráficos. Pelo menos a versão do Mega Drive foi um avanço em comparação com várias outras. Mas mesmo assim, a própria versão original do jogo já era bem melhor que a maioria dos jogos de computador dos anos 80.
Tô LendoPontos Meh
  • Difícil. Eu sei que não sou parâmetro de gamer, mas meojesuis, como eu sofri com os controles desse jogo. Ainda mais pegando o jogo de surpresa na primeira vez onde não era muito óbvio o que você devia fazer ou sequer como fazer. Bem diferente de Sonic onde todos os botões eram “pulo”.
  • Vintage. Para nós, é uma bela duma viagem nostálgica aos confins da era dos videogames. Vai ser divertido ainda que seja um pouco frustrante reaprender a jogar certas modalidades (TE ODEIO ATÉ HOJE EMBAIXADINHA), mas acho que é um “espanta-geração-Z”. Se alguém quiser tentar jogar com a galerinha de hoje, me avisa aí a reação deles.

Olha a onda / Cuidado o tubarão vai te pegar 🎵🎵

No fim, eu lembro com carinho das horas em que passei jogando com amigos no meu Mega Drive ou no SNES de outros (que era o California Games II, mas tudo bem), mas bateu um gatilho feio aqui com todos os rage quits que eu tive, de tanta frustração. 

E você? Curte jogos de esporte? Manda bem no real e no virtual? Conta aí nos comentários.


Jogos de Verão / California Games vale quatro rebobinandos! 📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.