Você curte um remake de He-man? Putz, que sorte! Porque existe uma porrada deles e hoje vamos falar da versão dos anos 2000. Pega sua tanga e sua espada e vamos rebobinar He-man & Os Mestres do Universo de 2002!

Re-Make e os Mestres do Universo!

Eu já cheguei a falar da linha de brinquedos do He-man dos anos 80 aqui em outra Rebobinando, então se você ainda não viu, passa lá. Prometi que ainda vou falar do desenho de 1983, mas por enquanto confesso que estou sem coragem. Revi metade de um episódio há alguns anos e a decepção foi tão grande que eu resolvi esperar mais um pouco. Enquanto isso, vamos falar de um dos raros casos onde o remake é BOM (quiçá até melhor que o original). 

He-man e os Mestres do Universo foi a galinha dos ovos de ouro da Mattel nos anos 80. Com um sucesso estrondoso, a linha de brinquedos deu origem a uma série animada quase que por acidente. O doc da Netflix Brinquedos que Marcaram Época explica bem todo o processo e eu recomendo bastante caso você ainda não tenha visto. O desenho original contou com apenas duas temporadas de 65 episódios cada (totalizando 130) que foram exibidos diariamente de 1983 a 1985, e depois em eternas reprises. Ainda assim, o rolo compressor que foi a linha de bonecos varreu as lojas de brinquedos até o fim dos anos 80 pelo menos, até a chegada de uns certos quelônios mutantes juvenis praticantes de ninjutsu

🎵 🎵 Pelos poderes de Grayskull / Você apareceu / Era tudo o que eu queria / HE-MAN DE FASES! 🎵 🎵

Os anos 90 viram uma caída na popularidade da franquia como um todo, levando a Mattel a se perguntar o que poderia fazer para manter o interesse das crianças que, ou já haviam crescido, ou estavam interessadas em coisas mais “radicais” do que um desenho caga-regra cheio de lição de moral no fim. O primeiro reboot da série surgiu ainda em 1990 retirando o bárbaro He-Man de sua ambientação de sci-fi de fantasia em Etérnia, e levando-o a um outro mundo, bem mais futurista, chamado Primus. Lá ele conhece um grupo de defensores da galáxia, que virariam uma nova linha de brinquedos e ele mesmo ganha uma repaginada no visual, mais adequado à moda da nova década: um rabo de cavalo e uma calça de lycra. Quase como uma indireta ao novo sucesso do momento, He-Man e seus novos amigos lutam contra um grupo de mutantes vilanescos, que se uniram ao bom e velho Esqueleto, em busca de, sei lá, conquistar o mundo, a galáxia, o que seja.

Obviamente a série não obteve o mesmo sucesso e acabou cancelada depois de uma temporada apenas. Depois desse fracasso, a Mattel segurou a onda pelo restante da década, deixando os mestres do universo de lado, até a virada do século, pelo menos. Foi aí que em 2002 surgiu a ideia de um novo reboot! Ou seria remake? Bom, eu me confundo. O fato é que essa nova série não se propôs a ser uma continuação do desenho de 1983, mas uma reimaginação do original, modernizando elementos das histórias antigas, sem fugir muito do tema, mas se aprofundando no lore dos Masters. Praticamente os sonhos molhados de um nerd barbudo!

Em vez de Man-at-Arms podiam ter mudado o nome do Mentor pra “Fodão”.

OI, EU SOU O PRÍNCIPE ADAM…!

Estreou então o novo He-Man e os Mestres do Universo! E as coisas não poderiam se distanciar mais do desenho original do que a abertura. Veja por si só. Essa aqui é a abertura original, cheia de lenga-lenga. Ainda assim, era uma explicação necessária para as crianças que não faziam ideia do que era aquele desenho animado na TV. 

Já o remake começava da seguinte forma:

O que é muito engraçado, na verdade, e demonstra como a evolução dos desenhos animados e das crianças se deu ao longo de mais ou menos duas décadas. Desapareceram as cornetas épicas e o coro vibrante, entraram os solos de guitarra. As lições de moral e os vilões idiotas se transformaram em ação ininterrupta e monstros ameaçadores. E até mesmo o design foi atualizado, deixando de lado aquelas técnicas preguiçosas de corta-custo, como usar o mesmo modelo de corpo para todos os personagens, e abrindo o caminho para personagens diversos (até onde é possível, quando se trata de um bando de homens musculosos, claro). Os heróis ficaram mais esguios, as armaduras mais elaboradas e os vilões mais monstruosos.

Além disso, o desenho novo não tinha como único foco vender brinquedos…. Bom, quer dizer, é claro que eles queriam vender brinquedos! Mas o lance é que não era aquela coisa dos anos 80, onde só faltou ter saído uma figura de ação da pia da cozinha do castelo de Grayskull. Uma nova linha de brinquedos foi lançada, mas a série resolveu focar também na questão da história e do roteiro. O criador da série original, Mike Halperin, voltou como produtor-chefe e trouxe de volta consigo vários dos roteiristas originais, para trabalhar em conjunto com o Cartoon Network.

Finalmente o Adam deixou de ser só o He-Man sem bronzeado.

Tudo estreou no bloco Toonami do canal, com muita pompa e destaque. Porém a mais nova promessa de grandes lucros não se reverteu em vendas de brinquedos. Estava claro que a Mattel tinha perdido o jeito, ou quem sabe perdido a época? Na virada dos anos 2000 o mundo ainda respirava os heróis cínicos de sobretudo, menos bombados, mas especialistas em kung-fu. Além de Neo, He-Man ainda precisava enfrentar uma outra figura musculosa que enfrentava monstros em lutas intermináveis com porradas e sangue jorrando: Son Goku. Ou seja, ele não era mais o único que tinha a força. Some-se a isso o fato de que as crianças dos anos 80 estavam entre seus 20-30 anos, o que não era tempo o suficiente para a nostalgia cantar alto (eu, por exemplo, tinha acabado de entrar na faculdade, não tava nem aí pro He-Man).

Com uma venda baixa de brinquedos e uma audiência morna, o desenho durou apenas duas temporadas, com um total de 39 episódios. Algo que, em retrospecto, é uma pena. Porque ao dar uma nova olhada nas histórias e nas sinopses de alguns episódios, as tramas eram bem bacanas. Além disso tudo, eu (particularmente) tenho uma teoria a mais sobre o fracasso do desenho, em especial no Brasil. Como ele surgiu na época em que a dublagem trabalhava em cima do conceito de localização e adaptação, além da mera tradução, os nomes dos personagens todos ficaram muito marcados na memória de todo mundo: Mentor, Gorpo, Pacato, Aríete, Aquático, Maligna, etc. etc. Na nova onda de merchandising que surgiu em meados dos anos 90, a Mattel proibiu o estúdio de traduzir os nomes dos personagens para não precisar gastar dinheiro com a produção de novas embalagens para o público brasileiro. Então conhecemos Man-at-Arms, Orko, Ram-Man, Mer-Man, Evil-Lynn, etc. Todos os personagens com seus nomes mantidos no original em inglês, como podemos ver logo de cara na nova abertura: “Olá, eu sou o Adam e esse é o meu amigo Cringer…”

Super cringe. Brr.

Jamais vou chamar esse cara de “bérol-cat”.

PELOS PODERES DE GRAYSKULL!

A série abre com uma batalha épica e conhecemos o capitão Randor protegendo o grande conselho de anciãos mágicos de Etérnia de um ataque do terrível Keldor. Eles brincam com as nossas expectativas e nos fazem pensar que é o próprio Esqueleto atacando o local, já que vemos um cara de pele azul entrar pela porta. Eventualmente descobrimos que ele carregava uma poção mágica (ou um vidrinho de ácido) para matar Randor, mas ele se defende e o líquido atinge Keldor bem no rosto!

Muitos episódios depois, descobriríamos que ele precisou da ajuda da magia de seu mestre Hordak para sobreviver, ganhando seu rosto esquelético amarelo e se tornando de vez o temível Skeletor (lembre que o desenho não traduzia os nomes). Randor deixa de ser capitão e é nomeado Rei de Etérnia logo após essa luta. Keldor é seus asseclas são aprisionados em um território distante, separados por uma barreira mística erguida pela Feiticeira, que avisa a Randor que um dia ele guiará um grande guerreiro, o defensor de Etérnia. 

O Castelo de Grayskull ficou maneiro, mas o original ainda é muito mais sinistro!

Anos depois, durante o o décimo-sexto aniversário de Adam, as forças de Esqueleto rompem a barreira mística e avançam em direção ao Castelo de Randor. A Feiticeira pressente o ataque e invoca mentalmente o Mentor e pede que ele leve Adam até ela, já que ele é o escolhido para defender Etérnia com a Espada do Poder. Como todo bom protagonista, ele recusa a princípio, só para ser forçado a aceitar a espada algum tempo depois, quando ele volta pra casa e vê seu pai ser raptado pelas forças do mal. 

Os três primeiros episódios são uma origem bacana e expandem bem os elementos dos anos 80 de um jeito mais épico e novelesco. É bacana ver que ninguém tem vergonha de adaptar nem mesmo os conceitos mais absurdos de outras famigeradas obras da franquia, como as plataformas voadoras do filme em live action! Além de Randor, Adam e Esqueleto, cada personagem tem episódios dedicados às suas origens e apresentações, até mesmo alguns bonecos que foram criados e vendidos, mas que nunca viram a luz de uma mesa de animação! 

Aríete, Teela e Mentor de rabinho de cavalo. Só ele sustenta esse visual!

A relação entre a Feiticeira e o Mentor é mais explicada. Ficamos sabendo que o herói Fisto é irmão de Mentor e surge a dúvida de que talvez ele seja o verdadeiro pai de Teela. Inclusive ela ganha mais destaque quando é finalmente revelado que ela é sim filha da Feiticeira, e destinada a ser a próxima sacerdotisa do Castelo de Grayskull. Enfim, muita coisa acontece e até de se admirar que a série não tenha durado mais. 

A segunda temporada muda os vilões para uma raça de Homens-Cobra que viviam aprisionados sob a Montanha da Serpente, jogando o Esqueleto pra escanteio por um tempo. O He-man também ganha uma nova armadura (e ainda assim, ele mudava constantemente de roupa entre os episódios, claro que para vender mais bonecos). A história chegou a avançar bastante e até mesmo a apresentar Hordak e a Horda, com uma possível participação da She-Ra no futuro, mas não deu tempo, infelizmente. 

Dois vilões bananas bem mais ameaçadores.

Essa é uma daquelas séries que tinha tudo para dar certo com o tempo, ou talvez se fosse feita alguns anos depois. Depois dela a Mattel colocaria o foco da franquia única e exclusivamente em artigos de colecionador, abrindo mão dos desenhos, pelo menos até os remakes e reboots mais recentes, lançados pela Netflix. Ambos excelentes, aliás.

As capas dos DVDs

Tô LendoPontos Fortes
  • Mitologia. Antigamente, a única fonte de histórias eram os quadrinhos que vinham com os bonecos e, ainda assim, eles não eram muito confiáveis. A série de 2002 arrumou o coreto e deu nome aos bois, estabelecendo uma mitologia concisa para os Mestres do Universo. 
  • Animação. Era bem boa. Bom, era um desenho de ação americano típico produzido no Canadá. Nessa época muitos desenhos tinham uma animação dinâmica bem rápida e fluida, então não era uma surpresa que essa fosse tão boa. Bom, diante do desenho original, nem precisava se esforçar muito. 
  • Dublagem. Coisa do Brasil, né? Com o respeito que temos aos dubladores clássicos, todos foram chamados para refazer seus personagens. Em especial o Isaac Bardavid de Esqueleto, e o Garcia Junior de He-man.
Tô LendoPontos Meh
  • Vida curta. Acho uma pena o desenho não ter durado mais, porque tinha tudo para ser um herdeiro digno da franquia. Mas admito minha parcela de culpa porque na época eu demonstrei ZERO interesse pelo desenho (meu amor por ele de fato só surgiu anos depois). 
  • Dublagem. Bom, não culpa da dublagem em si, apesar de eu não saber disso na época. Mas esse lance de manter os nomes no original é de uma pau-no-cuzice sem tamanho das produtoras dos desenhos! Como tradutor, hoje em dia eu fico indignado com nomes em inglês em desenho pra criança, quando a gente podia soltar umas localizações maneiras e fofinhas.
  • Música. Com tanta atenção em roteiro e marketing, a música do seriado deixou muito a desejar. Pode até ser só nostalgia, mas a música antiga era bem mais maneirinha do que a atual, quase inexistente da abertura.

Os brinquedos foram bem irados, aliás.

No fim, o desenho vive na memória de alguns fãs mais ávidos do He-man. Conheço algumas pessoas que gostam genuinamente dele e que sentem uma falta danada. Mas assim é a vida, né? Feita de ciclos, como uma eterna fênix, ardendo em chamas para depois renascer… algumas vezes gloriosa, pelas mãos de algum diretor bem nerd, e às vezes numa versão radical anos 90 com rabinho de cavalo. 

Mais recentemente a Netflix lançou um novo reboot dos Mestres do Universo que foi bem saudosista e nostálgico, mas que ainda assim causou uma polêmica, em especial entre uma galera aí que tem medo de mulher forte. Eu gostei do que vi até aqui e acho que a história tem um caminho bacana pra seguir. 

He-man saiu em HQs no passado e durou +30 edições no Brasil. Será que alguém lança o “Revelation” por aqui também?

E você? E fã do He-man? Tem saudades de 2002? Real baixo, futuro pela frente, He-man no Cartoon Network e trabalho de faculdade? Conta aí nos comentários! 


He-man & Os Mestres do Universo (2002) vale cinco rebobinandos! 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.