Rebobinando #16

Hoje é dia de ação! De aventura! De crianças portando armas! E de estereótipos raciais tratados de forma casual em um desenho animado! Hoje a Rebobinando volta às aventuras pulp dos anos 40 que, antes de inspirarem Spielberg a fazer Indiana Jones, inspiraram William Hanna e Joseph Barbera a fazerem um dos primeiros desenhos de aventura da TV americana: Jonny Quest!

De novo, pra ler ouvindo este clássico!

Durante as décadas de 30, 40 e 50, nos EUA, houve uma febre de “aventura”. Histórias sobre pessoas indo a continentes desconhecidos, enfrentando feras fantásticas, ou tribos perdidas da civilização eram muito comuns em gibis ou seriados de rádio. Pense, por exemplo, nos primeiros minutos de Up – Altas Aventuras… em comparação com os dias de hoje, os exploradores de outrora eram os super-heróis da época. Como mencionado anteriormente, esses heróis desbravadores foram a inspiração de muitos personagens que conhecemos atualmente, desde Indiana Jones, Quarteto Fantástico até Tom Strong e Nathan Drake.

Um personagem em particular chama a atenção: Jack Armstrong, the All-American Boy. Era um seriado muito popular durante os anos 30-40 e foi a inspiração direta para a criação de Jonny Quest. Jack era um garoto comum americano que tinha um tio industrialista, um tipo Howard Hughes, que o levava junto com seus primos em aventuras ao redor do mundo. Soa familiar? Bom, já fazendo sucesso com seus desenhos seriados na TV, a Hanna-Barbera pediu ao cartunista e quadrinista Doug Wildey para criar o design de Jack Armstrong para desenho animado. Quando as conversas sobre direitos autorais não gerou frutos, o estúdio pediu que Doug repaginasse suas ideias para um desenho original. Em uma noite, Doug Wildey havia criado todo o universo da família Quest:

Taí um relacionamento estável de mesmo sexo de sucesso! Um exemplo de família.

  • Jonathan ‘Jonny’ Quest –  o garoto-prodígio aventureiro que acompanha seu pai em aventuras pelo mundo;
  • Doutor Benton Quest – o patriarca. Cientista que trabalha para o governo americano e é chamado sempre que o governo não consegue descascar um abacaxi sozinho;
  • Roger ‘Race’ Bannon – o guarda-costas, piloto e superespião faz-tudo designado pelo governo para proteger a família Quest. O personagem foi baseado em duas tiras de quadrinhos do próprio Doug Wylde: Race Dunhill e Stretch Bannon;
  • Hadji – o irmão-adotivo de Jonny. Hadji era um órfão salvou a vida do Doutor Quest em Calcutá e acabou sendo adotado pela família. Baseado em uma série de estereótipos indianos, o personagem era bem-centrado e apresentava uma série de poderes “místicos” como encantamento de serpentes, hipnotismo, levitação, etc.

O seriado original durou apenas uma temporada de 26 episódios, exibidos em 1964. E depois, e depois, e depois, e depois em várias reprises, tanto nos EUA como em outros países. No Brasil, as redes de TV Bandeirantes, SBT e a extinta Manchete o exibiram ao longo dos anos em diversos horários e programas. Mais recentemente, ele foi exibido no Cartoon Network, Boomerang e no Tooncast. Com um certo afinco, deve dar pra achar em algum desses canais na madrugada, ou se você preferir dá pra comprar pela Amazon ou na sua loja de departamentos favorita!

O gibi lançado pela Editora Comico entre 1986 e 1988 durou cerca de 31 edições e também dá pra achar pela internet fácil, fácil.

O desenho era bastante incomum. Reza a lenda que acabou sendo cancelado por conta da falta de habilidade da Hanna-Barbera em lucrar com ele. Lançado muito antes da revolução liderada por He-Man & os Mestres do Universo, a falta de merchandising e o custo de manutenção da produção acabaram por encerrar uma história com um baita potencial.

Lembro inclusive de curtir muito o desenho pelo fato dele ser tão incomum aos desenhos que eu gostava na época, nos idos dos anos 80. O estilo de animação ainda era muito estático, típico dos seriados do estúdio do Zé Colméia, mas o traço era belíssimo! Parecia um traço de gibi e chamava muito a atenção. A temática aventureira também era um atrativo, pois era um desenho animado mais sério e que se levava mais a sério. Pessoas morriam, as armas disparavam balas, os monstros davam medo… Eu já tinha assistido Indiana Jones nessa época e conseguia identificar de onde vinham o tipo de histórias, isso sem contar que Jonny era um garoto bem diferente dos sidekicks que a gente estava acostumado. Ele tinha agência, atitude e, mesmo precisando de um resgate vez ou outra pelas mãos de Race Bannon, ele conseguia se safar de muita coisa por conta própria. É impensável  ver o que os produtores do desenho conseguiram colocar na TV, para crianças, naquela época!

Ok, crianças! Peguem suas armas!

As “temporadas” seguintes, na verdade foram totais repaginações dos personagens pra década em questão. Por volta de 1986, foi lançado um novo desenho chamado The New Adventures of Jonny Quest, que deve ser o que muita gente se lembra. Era um desenho mais bobinho, e arranjaram um sidekick que era um Centurião de Pedra que se metia em várias enrrascadas com os garotos. Já em 1995-96, o Cartoon Network lançou The Real Adventures of Jonny Quest, que teve até uns plots legais. As crianças viraram adolescentes, além da inclusão de uma nova personagem, a filha de Race, Jessie Bannon. Com o advento da internet, eles se metiam em aventuras pelo computador num mundo de “realidade virtual” chamado Questworld. O desenho acabou sendo um precursor dessa nova onda de desenhos em computação gráfica tipo Max Steel.

Repleto de controvérsias, dificilmente o desenho original passaria incólume pela TV. Mas atribuo isso como um produto de época. Todas as etnias representadas eram extremamente esterotipadas (pra não dizer racista), sendo inclusive um dos vilões o gênio maligno Doutor Zin, um chinês meio amarelado de bigodinho. O próprio Hadji era uma figura indiana típica dos faquires, um místico de turbante. Os capangas em geral eram hispânicos, ou aborígenes, todos com sotaques super pesados e caricatos. E mesmo com as repaginações dos desenhos posteriores, fica essa “mancha” no histórico do personagem.

Ok, Hadji! Eu atiro na cabeça daquele capanga e você ataca o outro por trás e corta a garganta dele!

Em meio às controvérsias, há várias teorias de fãs pela internet falando sobre a relação entre Doutor Quest e Race Bannon, com até um episódio de Harvey, o Advogado em que os dois entram com um pedido de casamento. Isso depois de um episódio em que ambos brigaram pela custódia das crianças. Haha.

Tô LendoPontos Fortes
  • A temática de aventura. Não vou negar. Eu adoro essa fase de histórias. Adoro os gibis e desenhos e filmes que retratam exploradores aventureiros andando por lugares desconhecidos, enfrentando feras perigosas. Jonny Quest é repleto de histórias do tipo, com uns designs meio retro-futuristas, com vilões espiões e gênios malignos.
  • O design de personagens. Doug Wildey era fantástico, e procurando pelos desenhos do cara na internet você pode conferir como o traço do cara era clássico e encontra muitos desenhos lindos!
Tô LendoPontos Fracos
  • O racismo casual como background das histórias. O problema de muitas dessas histórias de exploradores, infelizmente, é o que chamam da “síndrome do salvador branco”. O homem branco é sempre o cara detentor de todo o conhecimento e todos os povos que ele encontra, em sua maioria, são selvagens meio burros, ou capangas étnicos também meio burros. Joga nesse balaio aí as origens do Homem-de-Ferro, do Doutor Estranho, Tarzan, O Fantasma, etc, etc.
  • O fato de ser só uma temporada. Os desenhos subsequentes até tentaram ressuscitar a vibe do original, mas sem o mesmo efeito. Como eu disse antes, Jonny Quest original era mesmo um produto de época.

O que eu queria mesmo, mesmo, era um filme. Houve um papo no início dos anos 2000 de que Robert rodriguez iria dirigir um filme baseado no desenho, nos moldes de Pequenos Espiões e tals, mas pro bem (ou pro mal) isso nunca saiu do papel. Eu tenho a primeira temporada em DVD em casa (quase uma relíquia) e vez ou outra paro pra ver um episódio ou dois, só pra curtir e reclamar cada vez que alguém faz algo que hoje em dia não veríamos na TV.

Recentemente, a DC Comics lançou várias séries de gibis baseados nos desenhos antigos da Hanna-Barbera, entre eles Future Quest, contando uma aventura envolvendo todos os heróis aventureiros do Estúdio. Muito legal ver Space Ghost interagindo com a Família Quest, o Homem-Pássaro e os Herculóides.

Veredicto

Pela sensação de clássico, e pela animação paradona, eu diria que o seriado original vale pelo menos umas quatro rebobinadas! 📼📼📼📼


Rascunhos originais de Doug Wildey para Jonny Quest.

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2018-01-15T12:32:19+00:00 15 de janeiro de 2018|12 Comentários
  • Eu não era super fã do J. Quest, só depois que a banda mudou para Jota Quest que realmen…
    Hehehehe

    Mas eu curtia mais outras coisas da Hanna Barbera do que Quest, mas não desgostava. Tiveram umas coisas legais… mas sei lá, acho que eu era mais novo do que a faixa etária que o desenho queria atingir. Vai saber.

    E recomendo o Future Quest, o volume 2 fecha com chave de ouro!!

    • Cara, acredita que só consegui achar o volume 1 de Future Quest HOJE? Devorei rapidinho e agora estou seco procurando o Volume 2.🤣

  • Jean Carlos

    Não era também um dos meus favoritos eu gostava mais do “Os Impossíveis” mais eu gostava e na época também tinha muita coisa boa da Hanna Barbera, mais era o tipo de desenho que dava pra fazer uma adaptação para filme com certeza.

    Sei que o Fernando vai ficar um pouco com ciume Kadu mais o Rebobinando esta mandando bem a vera nos artigos!!!!

    • Os Impossíveis!!!

    • Hahaha. Obrigado!

      Eu também curtia os Impossíveis um pouco. Mas outro desenho que eu me amarrava além de JQ era Os Herculóides. Achava os monstros maneiríssimos.

  • Nossa, detestava esse desenho!!!
    Estou começando a achar que você não é imparcial em sua distribuição de rebobinadas. Absurdo isso. Onde esse país vai para meu deus

  • José Leonardo

    Irônicamente, eu não gostava de Johnny Quest quando era criança, só passei a gostar depois de um pouco mais velho. Mas a abertura do desenho eu adorava!

    • JQ é um gosto adquirido. Eu gostava muito da série de 95 tb.

  • andrefbr

    Esse desenho era sensacional! Gostava muito! A trilha orquestrada da abertura era um show à parte!

    Ainda não li, mas tô com muita curiosidade de ler Future Quest.

    • Uma dos melhores temas de abertura de desenhos, junto com o de Swat Katz.

  • Alan Antunes

    Só a abertura já te capturava. A WB tem uma mina de ouro nas mãos, mas está deixando se perder, ao não lançar filmes desses desenhos antigos. Em um momento de franquias e filmes de aventuras. J. Quest seria sucesso o planeta dos macacos.