Ah, irmãos! Quem nunca teve um irmão (ou irmã) escroque, mau-caráter, que adora te sacanear e passar a perna, que atire a primeira pedra! *ai, para, chega!* Bom, Thor é definitivamente um cara que sofre nas mãos do seu irmão, Loki. E a rebobinando hoje é justamente sobre isso, vamos rever a Superaventuras Marvel #103, com Throg, o Sapo do Trovão!

Hello, my baby / Hello, my darling / Hello, my god of thunder!

Eu tenho amigos que gostavam muito e curtiam a revista Superaventuras Marvel. Eu não tinha muito o hábito de lê-la todo mês, então só comprava quando via uma capa mais maneira, geralmente envolvendo o Homem-Aranha ou o Wolverine… Enfim, essa edição em específico eu lembro de ter sido comentada na escola (“Gente, vocês viram que o Thor virou um sapo? Que ridículo!”), e eu acabei pegando emprestada de um amigo e de ter achado divertida, muito embora eu não entendesse nada.

Como eu não era um grande fã do Thor, geralmente pulava algumas histórias quando elas apareciam no mix de uma história do Homem-de-Ferro, dos Vingadores ou do Capitão América, seja na própria Superaventuras ou na Grandes Heróis Marvel, etc. Eu achava o herói meio rebuscado e verborrágico demais, e não suportava ter que ler um gibi onde o personagem principal falava em português antigo usando “lhes vós sois vais tes lhes vos sais” (pausa para um agradecimento eterno ao Sérgio Aragonés por essa piada). Portanto, eu não sabia apreciar verdadeiramente o trabalho da fase de Walt Simonson, que é bem bacana.

As capas das edições americanas com o arco de histórias

Ao reler a história do Sapo do Trovão de novo, pude perceber o porquê de eu ter ficado confuso e não achado essas coisas quando li da primeira vez: A “Saga de Throg” é um arco de histórias que durou quatro edições mensais (#363-366) na revista original The Mighty Thor em 1986. E aqui no Brasil ela saiu em Superaventuras Marvel #103, mas as duas primeiras edições do arco saíram respectivamente em SAM #101 e #102. Ou seja, para entender de maneira adequada a história, eu precisaria ter lido pelo menos as duas revistas anteriores! É a vida! ¯\_(ツ)_/¯

RAIOS E TROVÕES!

Primeiramente, vamos entender mais ou menos o contexto do Thor naquela época. Em Superaventuras Marvel #101 temos uma história do herói ligada com a saga Guerras Secretas II, e a interferência do todo-poderoso Beyonder. Thor havia acabado de voltar de uma aventura contra Hela e Malekith na versão asgardiana do inferno, Hel. Quando ele chega em Midgard, ops, na Terra, ele estaciona em um beco a sua carruagem carregada por carneiros de batalha imensos. O deus do trovão está com o rosto coberto com uma máscara feita por trapos da sua capa, de forma a esconder o desfiguramento causado pela luta contra a deusa da morte.

Sabia que Thor é de capricórnio?

Em meio a isso, o vilão Kurse desperta em meio a Nova Iorque, após uma batalha contra Bill Raio Beta e a molecada do Quarteto Futuro. E ok, beleza. A história é até bacana, mas completamente irrelevante para o que queremos aqui. Os dois lutam e, no fim, Thor vence Kurse. Acontece que durante a história vemos dois acontecimentos interessantes. O primeiro é o vilão Loki utilizando um maquinário esquisito para lançar um raio de energia mágica sobre uma dona de casa qualquer na Terra; e o segundo são os filhos de Volstagg brincando em Asgard e encontrando a espada caída do demônio gigante Surtur, com um aparelho enorme contectado a ela, como se estivesse drenando sua energia.

É para surtar com a espada do Surtur.

Posteriormente, vamos descobrir que o tal aparelho estava de fato sugando a energia da espada e transferindo para o maquinário de Loki, que utilizou para jogar uma magia em uma pobre dona de casa humana, que aparece ao final da batalha entre Thor e Kurse, e tasca um beijo no herói! Esse é o gatilho para a transformação de Thor em um sapo! E a revista termina com um susto para todos, porque esse gancho surge absolutamente do nada!

Pô, Thor. De nada adianta usar máscara sem manter o distanciamento!

A edição seguinte, Superaventuras Marvel #102 continua a história, claro. Nela nós acompanhamos Thor transformado em sapo e cruzando NY até a Mansão dos Vingadores em busca de ajuda. Como é de praxe numa história dessas, todos os Vingadores estão, sei lá, brigando com alguém, fazendo compras, ou visitando a avó e apenas o mordomo Jarvis está no local. Ele acaba espantando o sapo fuxiqueiro que surgiu do nada na mansão. 

Thor acaba se perdendo no Central Park e enfrentando um grupo de ratazanas de esgoto! Mesmo mantendo sua força de uma maneira proporcional, e sendo capaz de dar um cacete nos roedores, ele acaba sendo sobrepujado e é salvo por um outro sapinho, Puddlegup. O novo amigo conta a ele que há uma guerra territorial entre sapos e ratos no Central Park e pede sua ajuda. Lendo a história a gente fica meio “por que raios o Thor iria se importar com uma guerra entre sapos e ratos, sabe?” E aparentemente, Walt Simonson também pensou nisso e inventou um papo de que as ratazanas pretendiam jogar veneno de rato num reservatório de água e, como isso poderia afetar muitas pessoas, o anfíbio do trovão resolve ajudar!

A Grande Guerra Anfíbio-Roedora de 1986.

ENGOLINDO SAPOS

A edição de SAM #103 com o Sapo-Thor na capa conclui a história com as duas edições restantes, mas já começa com o herói no meio da guerra anfíbio-roedora, enfrentando um cara chamado flautista, capaz de controlar outros animais com sua, er, flauta. Em meio a essa guerra, Thor ainda enfrenta os famigerados jacarés de esgoto, o humano flautista e o exército de ratos, vencendo a todos com uma certa facilidade.

Enquanto isso, Asgard está em polvorosa! Durante uma enorme batalha contra o demônio Surtur, o rei Odin se sacrificou deixando o trono de Asgard vago. Como toda boa monarquia, os nobres do reino organizam uma espécie de assembleia onde o povo inteiro se junta em uma arena para escolher o próximo rei em um tipo de debate entre os candidatos escolhidos, mediado por um sábio. Como Thor está desaparecido graças à magia de Loki, seus amigos Balder, Hogun e Heimdall estão ansiosos com a possibilidade do deus da trapaça ocupar o trono. De ambos os lados, cada um bola um jeito de enganar a todos. Loki quer aproveitar a ausência do irmão. E os amigos de Thor disfarçam um deles para aparecer na tal assembleia, como se fosse o deus do trovão.

Até na monarquia tem debate, viu? Nem Thor, nem Loki fugiram do debate, aliás.

Na Terra, Thor está às voltas com os problemas pequenos do mundo animal, mas acaba ajudando e salvando a vida dos sapinhos na lagoa. Puddlegup acaba virando o novo rei e revela que ele também havia sido um humano antes, que foi transformado por uma cartomante e que reconheceu Thor! Os dois se despedem e cada um segue seu caminho. No entanto, as ratazanas preparam uma última ofensiva e seguem o herói até o beco onde ele havia estacionado sua carruagem e seus carneiros de batalha. Ele havia chegado à conclusão de que talvez fosse possível romper com a magia que o transformou num sapo, se fosse capaz de erguer seu martelo encantado, o Mjolnir. No último instante e após muito esforço, ele consegue e recebe o “poder de Thor”, de acordo com a inscrição mágica. Só que a magia não se quebra por completo e ele vira um sapo de dois metros de altura com a roupa do Thor!

Agora vai chover sapo e perereca!

E bicho, agora é que o sapo vai fumar!

Em meio a assembleia Loki e o “falso Thor” debatem sobre quem deve ser o novo rei de Asgard e o deus da trapaça se aproveita da situação de seu adversário. Ele arranca o Mjolnir falso da mão do outro Thor e impressiona a todos no local por ser “digno”. Heimdall e Hogun ficam preocupados e percebem que Loki sabe o que está acontecendo e que, muito provavelmente, está por trás do sumiço de seu meio-irmão. 

Loki abusa da sorte e lança o Mjolnir longe, aguardando o objeto voltar a sua mão. Só que o verdadeiro Mjolnir ressurge, puxando um sapo de dois metros com ele! Os dois saem voando rapidamente do local, sem ninguém perceber o que havia acontecido, e vão resolver seus problemas longe dali. Ao mesmo tempo, Volstagg segue um de seus filhos para ver a espada de Surtur e o tal aparelho gigante conectado a ela (lembra disso?). Ele acidentalmente derruba um bando de pedras sobre o aparelho e o destrói, interrompendo a absorção de energia extra, o que por sua vez acaba com o encanto de Loki.

Ah, acabou o encanto…!

Thor volta ao normal, justamente quando o povo de Argard se aproxima do local. Loki, malandramente avisa ao irmão que não existe nenhuma prova de que foi ele quem o transformou em Sapo, ou sequer que Thor houvesse sido transformado em sapo (vamos lembrar que um dos amigos do herói se disfarçou como ele para comparecer à assembleia). Aproveitando a dúvida generalizada do povo, o deus da trapaça se adianta, tentando garantir o trono para si, mas Thor, mais malandramente ainda, joga o martelo para as mãos do meio-irmão dizendo “olha, meu irmão, se você vai falar com o povo de Asgard, é melhor segurar isso!”

E fim. Com Loki não sendo mais “digno”, o povo elege Thor como o novo rei (acho que não é assim que uma monarquia funciona, né?), mas ele recusa o título, dizendo que é o filho de dois mundos: Midgard e Asgard. Porém, ele passa seu status de regente para o amigo Balder! Enquanto isso, Loki continua lá preso no chão com o martelo…

“Mas e se o Loki fosse um elevador…?” – Teorias de canal de youtube

Tô LendoPontos Fortes
  • Grandiosidade. Walt Simonson é conhecido por fazer histórias muito épicas! Mesmo com uma coisa bobinha, como o Thor virando sapo, ele ainda tenta manter um ar de coisas grandes acontecendo, como a tal Assembleia Geral de Asgard.
  • Arte. Cara. Simonson escreve E desenha essa super famosa fase do herói e, caramba, que arte! Mesmo com uma história só de sapos e ratos, ele ainda mantém uma ação empolgante com traços bem claros. 
  • Disponibilidade. Fácil de achar nas pilhas de formatinho de qualquer site de compras online. Não tem encadernado, mas não é necessário. Só tenha atenção para comprar as três edições de SAM #101-102-103 juntas.
Tô LendoPontos Meh
  • Sapos e Ratos. Apesar dos pesares, a guerra entre os bichos é completamente desinteressante. Simonson tenta arranjar uma desculpa para o Thor e os leitores se importarem, mas parece meio forçado. A história podia ter uma edição a menos e concluir quase da mesma forma. O ponto forte mesmo é a tal Assembleia Geral de Asgard.
  • Continuidade. A edição sozinha tem o finalzinho da história, que é até bacana, vai? Mas ainda assim, como falei nos pontos fortes, faz toda a diferença ter pelo menos a edição anterior para você ler a história completa. E isso pode passar batido por um bocado de gente porque a capa é do Justiceiro.

As capas brasileiras de Superaventuras Marvel

No início eu chamei o Sapo-Thor de Throg, mas na verdade eles não são o mesmo personagem. Se você lembrar do pequeno Puddlegup, o sapo que revelou ser um ser humano transformado, ele finalmente ganhou uma origem na minissérie de 2009, Lockjaw & The Pet Avengers (Vingadores de Estimação, 2018, Salvat). A história é bem divertida, e nos apresenta quem foi o humano que virou o sapinho amigo de Thor. Numa homenagem ao escritor dessa fase do herói, o humano se chamava Simon Walterson (hehe) e vivia uma vida normal. Após a perda da esposa, ele se envolveu com místicos e cartomantes procurando ter um último contato com sua amada. Ao finalmente conseguir, ele já estava sem dinheiro e tão desenganado que não conseguiu pagar, a mulher era uma bruxa de verdade e lançou a maldição que o transformou em Puddlegup.

Após o final da edição, Simon/Puddlegup foi atrás do herói para avisá-lo do ataque das ratazanas e o viu se transformar em Sapo-Thor! Logo em seguida, ele se vê sozinho em meio aos roedores e repara em uma lasca metálica no chão. Era uma lasca do Mjolnir e, ao levantá-la, ele se transforma em Throg, o sapo do trovão! Ele ainda teve outras aparições em histórias da Marvel e finalmente virou um personagem canônico em Mighty Thor #700, que saiu aqui na minissérie em duas edições, A Morte de Thor (2018), pela Panini.

Esse Simon não engole sapo, não!

E você? Tem alguma outra história clássica de Thor e Loki para sugerir? Gosta de mais algum animal super-herói dos quadrinhos? Porco-Aranha? Gato Lanterna? Conta aí nos comentários!


Superaventuras Marvel #103 vale três rebobinandos! 📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.