Sangue, tripas e fatalidades! Essa é a receita mágica para um videogame de sucesso nos anos 90 e um filme que tinha tudo para dar certo, mas que deu espetacularmente errado! A Rebobinando de hoje é sobre o filme de 1995 de MORTAAAAL KOMBAAAAAAT!

Dá o play e vamos nessa!

O jogo Mortal Kombat foi um fenômeno dos anos 90. No auge da grande batalha de consoles da época e aproveitando os gráficos cada vez melhores dos sistemas, o jogo caiu no coração da molecada e foi arrancado com força por um fatality bem nojento! Hehehe. Bom, o lance é que é muito improvável você encontrar alguém na casa dos 30-40 anos, talvez até um pouco mais velho, que não tenha se divertido horrores tentando exterminar os coleguinhas do jeito mais sanguinolento possível.

Seu próximo adversário é um cara muito frio…

O jogo surgiu como um arcade em 1992 e tem uma origem no mínimo curiosa. Os criadores Ed Boon (programação), John Tobias (arte e história), John Volgel (gráficos) e Dan Forgen (design de som) trabalhavam na produtora Midway nos idos de 1991. O projeto inicial era um jogo de luta entre ninjas, com sprites digitalizados em vez de desenhados à mão, mas acabou sendo recusado logo de cara. Logo em seguida, eles foram chamados para trabalhar em um jogo envolvendo o filme Soldado Universal onde utilizariam essa técnica de digitalizar a imagem de um ator para colocar o Jean Claude Van Damme no jogo, porém ele também acabou não indo para a frente. Isso no fim das contas, deu à equipe uma certa inspiração, de fazer um jogo de luta mais bruto, mais “real”, envolvendo um torneio inspirado nos filmes do ator belga, como em O Grande Dragão Branco… Daí surgiu um dos primeiros kombatentes: o ator de Hollywood Johnny Cage!

Deste ponto em diante foi só sucesso. Mortal Kombat chegou até a criar uma certa rivalidade com outro jogo de luta de sucesso na época, Street Fighter II, e essa rivalidade virou um grande clássico das disputas idiotas que todo mundo ama tipo Coca vs Pespi, Rio vs SP, Flamengo vs Vasco, Biscoito vs Bolacha, etc. etc. O jogo contava com personagens marcantes e foi talvez um dos primeiros jogos de destaque que fervia com easter eggs, piadas internas e personagens secretos. Havia até um comando secreto para ativar o sangue na versão do jogo do Mega Drive, porque muitos pais achavam que ele era “violento demais” para as crianças. Ah, bons tempos!

TOASTYYYYY!

GET OVER HERE!

O filme em si também foi um enorme sucesso, apesar dos pesares. Com um valor de produção baixíssimo até mesmo para a época, o filme custou cerca de 18 milhões de dólares, mas faturou mais de 120 milhões de bilheteria! Com uma classificação etária baixa, o clássico PG-13 americano, os produtores do filme apostaram no público mais seguro que era a molecada fã do jogo mesmo, mas infelizmente foi preciso dar um fatality em todo o gore e violência tão característicos da franquia de games. 

A maioria da crítica caiu de pau no roteiro, no elenco e nos diálogos, mas vamos combinar, né? Ninguém foi ao cinema para ver a história do Mortal Kombat, mas sim as lutas. Na época, muitas delas pareceram muito maneiras e com certeza empolgaram a maioria da molecada (eu entre eles), mas hoje em dia todas as lutas tem uma pegada muito risível, bem no nível de “filmes de luta para crianças” como Power Rangers, ou As Tartarugas Ninja. Pelo que pude rever, talvez (e é um grande talvez) a melhor luta do filme inteiro seja a do Johnny Cage vs. Scorpion, mas só porque é a única luta que tem um mínimo de referências satisfatórias aos golpes do jogo, como o clássico “Get over Here” do Scorpion, além do seu teleporte, seu fatality e o golpe de friendship do Johnny Cage.

Scorpion é o campeão de Pedra, Papel e Arpão Demoníaco.

E eu sei que pode ser difícil aceitar, mas o filme é bem fraco mesmo. Ele tem cerca de 1 hora e 40 minutos de duração, com um fiapo de plot que corre desesperadamente para sair de uma luta para outra com personagens que ninguém reconhece. E poxa, não é como se não houvesse uma galeria enorme de personagens na época em que o filme foi produzido. Até o lançamento, MK1, MK2 e MK3 já haviam sido lançados, então não era tão difícil substituir o cara que luta contra Liu Kang na primeira luta, ou o cara que luta contra o Goro, o incrível Art, o personagem que todo mundo conhecem e ama!

Aliás, eu ainda acho o Goro um ponto super positivo desse filme. Acho incrível como ele é um personagem semi-animatrônico, e ainda me impressiono quando vejo o making of dele no youtube. É fantástico ver como essa galera que criava personagens “reais” para os filmes dessa época era super criativa para fazer com que esses bichos se movimentassem da maneira mais natural possível. 

YOUR SOUL IS MINE!

Vou ter que fazer comentários separados aqui para os dois melhores atores desse filme. Dois caras que parece que se divertiram um bocado e não levaram nem um pouco a sério seus papéis, sabendo bem o tipo de filme em que estavam trabalhando: Christopher Lambert e Cary-Hiroyuki Tagawa

Christopher Lambert foi uma escolha curiosa, digamos. Em especial porque ele é um ator francês falando inglês com sotaque e interpretando uma divindade chinesa/tibetana. No entanto, apesar de lembrarmos dele com carinho por filmes clássicos como Highlander e suas continuações, parece que vira e mexe ele pega uns filmes esquisitos e de baixo orçamento como este aqui. A impressão que fica é que ele foi chamado para dar um certo star power na produção, e que gravou todas as cenas dele em dois ou três dias, porque ele aparece muito pouco e fala muito pouco! Inclusive, o bordão dele no filme é “I don’t think so!” (“eu acho que não”) que ele fala pelo menos umas três vezes como respostas aos vilões. Lambert parece que está sempre achando graça de tudo secretamente, mas que está falhando miseravelmente em esconder.

Eu tinha uma professora na faculdade que era a cara do Raiden.

Já o Carl-Hiroyuki Tagawa parece felizaço em interpretar o vilão Shang Tsung. Ele está caricato, fazendo caras e bocas, e o seu bordão clássico “Your Soul is Mine!” é um daqueles que já nasceu sendo repetido por todos os fãs, passando a ser incorporado até mesmo nas continuações do game. Eu só queria que ele entendesse melhor o conceito de uma “flawless victory” porque ele declara isso para quase todas as vitórias do filme, quando obviamente, a maioria delas não foi “flawless”.

“À meia-noite levarei sua alma!”

MORTAAAL KOMBAAAAT

O filme começa já começando. A porrada da música-tema já estoura os nossos tímpanos, nem bem a primeira logo de produtora aparece na tela, e prepara bem o nível do filme que vem aí. A abertura de fato é um pesadelo de Liu Kang, assistindo a morte do irmão pelas mãos de ninguém menos que Shang Tsung, ele olha pro espectador e pronuncia com todas as letras “Your Brother’s Soul ir MINE!” fazendo nosso herói acordar no susto.

É tudo tão caricato nessa apresentação que é inevitável a gente já não sorrir mesmo com uma cena tão dramática. Em seguida, somos apresentados aos outros membros do trio de heróis, Johnny Cage está fazendo um filme, lutando contra seus dublês (é uma cena até engraçada, porque a luta é RUIM, mas vendo o ator lutando a sério depois, a gente entende que essa “luta de cinema” é ruim de propósito). Enquanto Johnny se decepciona com seus dublês e vai para o seu trailer, vemos o diretor reclamando, uma cara com uma baita pinta de Steven Spielberg. Reza a lenda (e a wikipedia) que Spielberg foi convidado para aparecer nessa cena e aceitou, mas que não pode por causa de “horários indisponíveis”. Ahã, sei.

JCVD: Johhny Cage Vai Detonar!

Johnny tem sido massacrado pelos jornais dizendo que ele não sabe lutar e que seus filmes são “fake”, então seu sensei vai até ele e o convida a participar do Mortal Kombat, dizendo que se ele vencer, ninguém mais vai duvidar dele. Só que aparentemente o MK é um torneio secreto, que ninguém conhece, que põe em jogo a segurança do mundo inteiro! Como é que vencer um “torneio secreto” o ajuda a provar que não é fake, eu não sei. Logo em seguida, acompanhamos Sonya Blade, uma agente militar, invadindo uma rave atrás do misterioso Kano. Ele trabalha para Shang Tsung e sua função basicamente é provocar Sonya ao máximo a ponto de levá-la ao MK. Por algum motivo que ninguém sabe, Tsung quer a soldado lá de qualquer jeito. Rola uma troca de tiros no meio da rave, ninguém liga para isso e a história segue.

Depois descobrimos as motivações de Liu Kang. Ele havia sido escolhido por um grupo de monges para lutar no MK e defender a Terra, mas recusou por achar que tudo aquilo era mitologia e bobagem. Só que o irmão de Liu, Chan Kang, resolveu enfrentar Shang Tsung e acabou sendo morto. Liu decide então participar do MK, mas não para defender nossa realidade, mas sim por vingança. Nem mesmo a aparição do deus Raiden o convence do contrário. Todos os três logo se encontram nas docas, para pegar um barquinho sinistro em direção à ilha onde o “combate mortal” vai ocorrer. Durante a viagem, eles quase trocam sopapos com Scorpion e Sub-Zero, que estão sendo dominados pelo vilão, mas Raiden interfere e conta para todos eles o que está em jogo.

🎶🎶 O amor / É o calor / Que aquece / A alma! 🎶🎶

A dimensão do Imperador Shao Khan, o OutWorld, está em eterno embate com a nossa. Os grandes deuses determinaram que a cada geração ocorre o temido mortal kombat e, se o outworld vencer dez torneios seguidos, ele vai poder invadir a Terra. É uma regra super específica? É. Parece meio que tirada do c*? Parece. Mas é o suficiente para garantir várias cenas de luta depois, mesmo que as regras do torneio não sejam tão aparentes.

Na ilha conhecemos a última das participantes, a princesa Kitana (interpretada pela Talisa Soto) e o kombate tem início. As lutas que se seguem são Liu Kang contra um cara que ninguém conhece. Sonya versus Kano (a primeira com um resultado mortal de verdade do elenco principal). Johnny Cage contra Scorpion. Liu Kang contra Kitana, em uma luta que não se resolve, que não tem sentido e que dá um fade out para a luta seguinte quase que diretamente, Liu versus Sub-Zero. 

Kitana, me arranja um leque, esse abraço me deu um… calooor!

Nesse ponto eu já desisti dos diálogos e de qualquer desculpa esfarrapada de mistério, porque o roteiro tenta parecer inteligente e cheio de segredos, mas é só mal ajambrado mesmo. Logo depois disso, Shang Tsung fica nervoso e diz que já está na hora do campeão dos outros torneios, o monstrengo Goro derrotar os heróis da Terra. Ele aparece derrotando uma infinidade de lutadores humanos que a gente não faz ideia de quem são, até que Johnny Cage decide enfrentá-lo, depois da morte de Art Lean, um lutador que surge do nada, mas cuja morte deixa todos os heróis abaladíssimos. Sério, eu queria um gibi, ou um jogo contando a história desse cara e do porquê a morte dele foi tão motivante para todos os mocinhos do MK enfrentarem o chefão.

Art, o guerreiro injustiçado.

Depois da derrota de Goro, Shang Tsung rapta Sonya e a leva para o outworld. Seu plano é basicamente enfrentar Sonya, que ele considera ser a mais fraca dos três, em uma batalha final valendo o resultado definitivo do torneio. Como as regras não são claras, eu não entendo como Shang Tsung perde todos os seus lutadores, não luta contra ninguém, mas se derrotar uma pessoa em uma luta, de repente ele é o vencedor. Além disso, que machista escroto da porra, hein?

Enfim, Liu e Cage vão até o outworld para salvar Sonya, com a ajuda de Kitana. Liu Kang ainda precisa derrotar o chefe secreto do filme, o ninja Reptile. A luta final é até bacaninha, para o filme que estamos vendo, que fique claro. E obviamente, Shang Tsung acaba sendo derrotado sem fatality e liberando as almas de todos os guerreiros que ele absorveu. Mas o final brilhante mesmo é quando todos os heróis se reúnem no templo chinês do povo de Liu Kang e o imperador Shao Kahn aparece DO NADA dizendo que vai dominar o mundo.

Shao Kahn é o equivalente do coleguinha que desligava o jogo quando perdia.

Raiden apenas responde “eu acho que não” e todos eles ficam em posição de luta e pimba! O filme acaba! MOOORTAAAAAL KOMBAAAAAAT *música eletrônica estoura*

Sério, esse filme é brilhante!

Tô LendoPontos Fortes
  • Clássico cult. É aquilo, né? Filmes horrorosos do passado acabam se tornando uma imensa diversão no futuro justamente por serem ruins. Mortal Kombat é bem exemplar nesse quesito. É um filme que foi divertido na época, mas que hoje em dia ainda diverte mas por outros motivos.
  • Trilha sonora. Bicho, acho que foi a escolha mais acertada desse filme! Em 1995 esse estilo de eletrônico estava começando a ficar em alta, e ainda era um som reminiscente de videogames com uma pitada de rock industrial. Impossível não se empolgar ao ouvir aquele grito de MOOOORTAAL KOMBAAAAAAAT!
  • Disponibilidade. A princípio, ele só está disponível no aplicativo do Telecine, mas procurando bem você deve achar em outros lugares por aí.
Tô LendoPontos Fracos
  • Elenco. O elenco é bem mediano. Aparentemente, a atriz Cameron Diaz havia sido escalada para fazer a Sonya Blade,mas por conflito de projetos, acabou cedendo o lugar para Bridgette Wilson. Pelo menos Robin Shou (Liu Kang) e Linden Ashby (Johnny Cage) eram bons de luta.
  • Roteiro. O roteiro também não ajudava, né? Adaptando bem amplamente o básico da história dos jogos (que só foi aprofundada em MK2), ele fala de um torneio que serve apenas de desculpa para encadear diversas cenas de luta. A gente não sabe como o torneio funciona, quais são as chaves, quem enfrenta quem, em qual arena, etc. etc.
  • Fatalities. Bom, a falta de fatalities. Não tem uma gota de sangue nesse filme de Mortal Kombat, algo que por si só já é um absurdo.

Esse era o elenco de MK1, MK2 e MK3 disponível na época do lançamento do filme.

No fim das contas, o filme vale por algumas gargalhadas e pela nostalgia. Ainda mais se você ainda é fã da série de games. Ainda não cheguei a ver o tal do reboot de 2021, mas já ouvi muita gente falando que é bem ruim. Eu tenho minhas dúvidas dele ser pior do que esse filme de 1995, mas um ponto positivo dele é justamente a galhofa. Faz uma pipoca e assiste sem culpa.

Arrisco dizer que, para os rebobinanders que já possuem seus pequenos rebobinandinhos e rebobinandinhas vale até a pena assistir com a molecada. Bom, seguindo a orientação indicativa de idade, né? Nâo vai me mostrar um filme com uma caveira flamejante pruma criança de 4 anos, olha lá hein?

Eu diria que pelo fator nostalgia, Mortal Kombat (1995) mereceria quatro rebobinandos, mas vou deixar meu lado crítico de cinema agir aqui e dizer que


Mortal Kombat (1995) vale duas rebobinandos. 📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.