Rebobinando #149: O Casamento do Super-Homem

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Ah, o amor está no ar…! Mas enquanto o Brasil está comemorando a pegação do Carnaval (ou quase), o resto do mundo celebrou ontem o dia dos namorados. E seguindo essa vibe de São Valentim, vamos rebobinar uma das maiores ações coordenadas da DC entre quadrinhos e TV. A Rebobinando de hoje é sobre o Casamento do Super-Homem!

A edição americana veio com frufrus, tipo um convite para o casamento e capa em alto relevo.

Diferente do que se pode imaginar, casamentos são eventos constantes nos quadrinhos. Mas é aquele negócio, por mais que os quadrinhos de super-heróis sejam sobre batalhas infindáveis e sacrifícios épicos, eles também refletem o nosso lado mais humano, em busca de romance, de conexão humana. E qual o supra sumo da conexão humana com elementos de romance, né? Um casamento!

Um dos mais memoráveis e mais duradouros (apesar de muitos altos e baixos) é o casamento de Reed Richards e Sue Storm, do Quarteto Fantástico, em 1965. Temos também o casamento do Homem-Aranha em 1987, e o de Scott Summers e Jean Grey em 1994 (não vamos entrar aqui no caso dele ter casado com um clone dela alguns anos antes). Então não era um evento assim tão inesperado, digamos assim. 

Lois, miga, se valoriza mulé! Tá fazendo pacto com o demo só pra casar? Já ouviu falar de Santo Antônio? Ou terapia?

A NAMORADA DO SUPERMAN 

Ainda mais se considerarmos que Lois Lane e Clark Kent/Super-Homem são personagens que já existiam na cabeça do público em geral como um casal inseparável. Você pode perguntar para qualquer pessoa no planeta, que ela saberia te dizer que a intrépida repórter é a namorada do escoteiro azulão. A grande pergunta, no entanto, fica sendo “por que isso não aconteceu antes?” 

Bom, o casamento entre os dois ATÉ aconteceu antes, mas era sempre uma “história alternativa”, ou um elseworld, ou um sonho, etc. Geralmente eram histórias figurando naquelas revistas dos anos 50-60, cheias de estereótipos machistas, onde a Lois era uma repórter determinada a correr atrás do homem de aço, querendo forçá-lo a casar. A revista era voltada, ahem, para o “público feminino”, com historinhas mais água com açúcar e hoje em dia são vistas mais como piadas de mau gosto de uma época super equivocada.

Fazendo as pazes depois do ano sabático de Lois em que ela quase casou com o líder de um cartel de drogas só para escrever uma notícia.

NOVAS AVENTURAS DO SUPERMAN

O lance é que durante os anos 90, o Super-Homem passou por muitas reformulações. Primeiro em 1986, quando John Byrne deu uma atualizada na sua origem e até mesmo na caracterização de seus personagens secundários. Depois em 1992 e 1993, o personagem morreu e ressuscitou, ganhando ainda mais novos aliados e coadjuvantes no seu lore. Em 1995 a DC passou pela Zero Hora e em 1996 ainda teve a a saga Noite Final, que o deixou sem poderes. E todas essas histórias geraram um novo interesse no personagem, fazendo com que os fãs quisessem mais e mais produções com ele. 

Nessa onda vieram os projetos como o finado filme do Tim Burton com o Nic Cage, e também um novo seriado de TV, que alcançou um certo sucesso, chamado Lois & Clark: As Novas Aventuras do Superman. O seriado chegou a passar na Globo e foi um sucesso por aqui também. Mas o foco dele, como o título já entrega, era a relação entre Lois Lane e Clark Kent, em vez das superaventuras do homem de aço. O que movia a maioria dos episódios era o romance, o “vai ou não vai” do relacionamento entre os dois e, durante três temporadas, os produtores conseguiram enrolar o público com essa história.

Mas como toda série que envolve um romance, um dos pontos altos é sempre o casamento dos protagonistas. E de acordo com o clima estabelecido pelos produtores, esse era o caminho natural. O único problema era que nos quadrinhos, os personagens não eram casados, mesmo que os editores da revista já tivessem pensado nisso há muito tempo. O que houve então foi que a produção da série “atrasou” o evento nos quadrinhos até que ela pudesse fazê-lo primeiro! Nesse meio tempo a DC matou o Super, ressuscitou, trouxe quatro Super-Homens diferentes, “matou” o Clark Kent, levou o Super para ser julgado no espaço, a Lois Lane rompeu o noivado, o sol foi apagado, o Super perdeu os poderes e Perry White sofreu um infarto, colocando Clark como o editor interino do Planeta Diário… ufa! 

Roger Stern, um autor de longa data do Super e que fazia parte da equipe criativa na época, comentou em uma entrevista qual era o plano original para o personagem nos anos 90:

“Quando nos reunimos em 1992 para discutir a trama das edições de Superman #75 e Adventures of Superman #500… bom, nosso plano original era fazer o casamento de Clark Kent e Lois Lane. Só que o casamento ficou na geladeira porque a Warner autorizou a produção da série de TV da rede ABC, Lois & Clark. Eles não estavam nem aí se nós casássemos os dois, contanto que o seriado fizesse isso primeiro. Então nosso trabalho ficou meio contido. Tudo o que a gente planejou precisou ser postergado. 

Não foi nenhuma surpresa que o caos reinou nessa reunião, com todo mundo dando novas ideias. Em algum momento, Jerry Ordway soltou uma piada dizendo “a gente bem que podia matar o Super”. E aí alguém completou, não lembro quem, “É, se a gente não pode casá-lo, vamos matá-lo!” Nessa hora, nosso editor Mike Carlin pescou a ideia e disse “beleza, gente, digamos que a gente mate o Superman, o que acontece depois disso…?”

E o resto é história.

Lois experimenta vestidos e eu pergunto: QUEM VESTIU MELHOR?!

O lance é que esse interesse renovado nos personagens animou a DC (que não era boba) e resolveu alavancar seus gibis, sem ter que precisar pela série de TV, que a essa altura já estava rolando e chegando na quarta temporada. Houve então a coordenação de uma espécie de crossover entre TV e revistas permitindo que, em outubro de 1996, Lois e Clark se casassem na televisão e nas páginas de uma edição especial chamada Superman: The Wedding Album

Clark Kent disfarce ZERO!

LÁ VEM OS NOIVOS

Aqui no Brasil, no entanto, o evento chegou com o atraso de sempre nas publicações, em maio de 1998. Pelo menos aqui eles tiveram a decência de lançar a publicação no “mês das noivas”, né? Nos EUA, já havia um ano que Lois rompera o noivado com Clark e tinha virado correspondente internacional do Planeta Diário, viajando pelo mundo. Em terras brasucas, esse período sabático foi reduzido a quatro meses, publicados entre as edições #16 e #19 da revista Super-Homem, da Abril Jovem.

A edição especial, no entanto, não tem uma história super essencial. O que é meio normal, para ser sincero, já que é uma edição comemorativa e que provavelmente seria comprada por muitas pessoas que não acompanhavam as aventuras do herói. A história é fechada e, tirando uma leve retrospectiva no início, mostrada através de uma conversa entre Lois (que havia retornado de seu período sabático) e Clark, ela não tem nada de muito memorável. A trama é um clichêzinho básico de qualquer romance que envolva um casamento: briga com os pais, escolha do vestido, despedida de solteiro surpresa, escolha do padrinho e da madrinha, etc. etc.

Quem nunca teve que enfrentar um sr. Mxyzptlk no dia do casamento também, não é?

Ainda assim, ela tem lá os seus momentos, como quando o Super-Homem resolve continuar combatendo o crime, mesmo sem poderes. Ele começa a lutar contra uma gangue no meio da rua, mas quando começa a ter dificuldades, o Batman aparece e salva o dia… er, a noite. O morcego sabe o que está acontecendo com seu amigo Clark e diz que o herói pode casar tranquilo e sair em lua-de-mel sem problemas, porque ele organizou um revezamento da Liga da Justiça na proteção de Metrópolis enquanto ele estiver fora. Bruce Wayne ainda comenta que, como presente de casamento, o casal poderia se mudar para um apartamento que eles haviam visitado e adorado… porque o edifício pertence à Wayne Enterprises.

Além disso, a revista é feita a muitas mãos de uma vez, por vários artistas de longa data do Super-Homem, como também dos que trabalhavam nas revistas da época. Assim sendo, o roteiro ficou por conta de Dan Jurgens, Karl Kesel, David Michelinie, Louise Simonson e Roger Stern. Os desenhos entre uma outra c*ralhada de artistas, saca só a lista: Jonh Byrne, Kerry Gammill, Gil Kane, Stuart Immonen, Paul Ryan, Jon Bogdanove, Kieron Dwyer, Tom Grummett, Dick Giordano, Jim Mooney, Curt Swan, Ron Frenz e, claro, o próprio Dan Jurgens também, que ficou com as páginas finais, as da cerimônia de casamento em si.

Um ponto bom é que o Clark FINALMENTE tirou o mullet no casamento!

Tô LendoPontos Fortes
  • Arte. Mesmo com tantos artistas, a arte não chega a ser inconsistente. É bacana ver uma galera ainda no auge, junto com outros artistas mais antigos que ainda mandam benzaço.
  • Continuidade. Mesmo passando por reboots e mudanças, esse é um dos casamentos que ainda se sustentam com o passar do tempo. Como o apelo do Super como personagem é diferente do apelo que o Aranha tem, por exemplo, nenhum editor achou necessário apagar o casamento dos dois da continuidade! Maldito seja, Quesada!
  • Capa. Assim como a edição de sua morte, a edição especial de casamento tem uma capa especial, parecendo um convite mesmo. É bonitinha e eu caio fácil nesses truques.
Tô LendoPontos Meh
  • História. Mesmo com várias pessoas escrevendo, a história é meio mais do mesmo. Parece que foi para não assustar um público novo em potencial com muita continuidade, mantendo a história num lugar seguro. Mas ela entrega o que se propõe.
  • Crossover. Na época, a gente imaginava que o casamento tinha ocorrido nos quadrinhos por causa da série, né? Ainda mais porque ela chegava no país antes e tinha um alcance maior por ser exibida em horário nobre na Globo. Só que essa não era a primeira vez que um programa de TV ou um filme interferia na continuidade dos gibis, nem foi a última, claro. Mas em geral é uma pena que essas mudanças afetem o material original de maneira negativa.

Os convidados são artistas que já trabalharam nas revistas do Superman e o padre é o Jerry Siegel.

Apesar de eu ter gostado muito do seriado na época (afinal não havia toda essa profusão de filmes e séries de super-heróis como tem hoje em dia), atualmente ela permanece mais como uma espécie de guilty pleasure. Dean Cain, antes de se revelar uma pessoa horrível, era um superman meio esquisito, mas eu gostava do Clark Kent dele. E óbvio, Teri Hatcher era a Lois Lane mais linda que eu tinha visto (e continua, hein?)!  

A inspiração notória das histórias da reformulação de John Byrne ajudaram bastante a dar um tom de comédia-romântica aventuresca que o seriado precisava e, não à toa, ele fez bastante sucesso nas suas primeiras temporadas. O problema é que ele enrolou tanto com suas tramas e tentou tapear os espectadores com pelo menos dois casamentos falsos (lembram do clone da Lois?), que quando o casamento finalmente ocorreu, o título do episódio na série foi “Nós Juramos Por Deus que Desta Vez é de Verdade”. No fim, a série acabou sendo cancelada de surpresa no final da quarta temporada. Nem mesmo o episódio de casamento, lançado em outubro de 1996, mesmo mês da revista, foi o suficiente para segurar a audiência, infelizmente.

E você? Curte o casamento de super-heróis? Tem algum casamento dos quadrinhos que chamou sua atenção? Algum par de heróis que você gostaria que se casassem, mas que ainda não casaram? Conta aí nos comentários.


O Casamento do Super-Homem vale três rebobinandos! 📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2021-02-16T16:20:00+00:00 15 de fevereiro de 2021|0 Comentários