Rebobinando #144: Uma Cilada para Roger Rabbit

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Estamos de volta! Depois de férias forçadas neste fim de ano de louco que foi 2020, a Rebobinando está de volta com um clássico do fim do anos 80, um projeto audacioso que mesclou desenhos animados e vida real como ninguém havia feito antes. Vamos rebobinar Uma Cilada para Roger Rabbit!

Uma cilada para ROGER Rabbit! Somos demais! PÃM!

Eu lembro vagamente de ter assistido esse filme no cinema. Muito embora eu tivesse apenas 7 anos na época, eram os anos 80 e, claro, meus pais nem piscaram duas vezes ao ver o filme comigo. Em geral o foco do filme para mim era o Roger, obviamente, porque ele era engraçado, e também os grandes encontros de desenhos animados (algo que para mim não fazia muita diferença porque eu achava que vinham todos do mesmo lugar e não tinha conhecimento dos diferentes estúdios e produtoras que eram os donos reais dos personagens). O fato é que o filme é bem mais “adulto” do que lhe dão crédito e tem um punhado de piadinhas picantes que, agora eu posso falar em primeira mão, passam batido pelas crianças.

Além disso, claro, o filme não recebe o crédito de ser absolutamente inovador a troco de nada. Claro, outros filmes já haviam colocado gente de verdade e desenhos em cena ao mesmo tempo, vide Mary Poppins, só para citar um exemplo. Mas nenhum, repito, nenhum havia feito isso com o nível de detalhamento e efeitos práticos necessários para mesclar, de forma convincente, a interação entre seres humanos de carne e osso e desenhos animados de tinta e acetato. Roger e os outros moradores da Desenholândia mexem nos casacos, nos chapéus, carregam bandejas de bebidas e fumam charutos reais. Cilada abriu as portas para várias coisas às quais estamos acostumados a ver em “filmes família” hoje em dia, sejam eles da Disney, Pixar, Dreamworks e WB. Sem Roger Rabbit talvez não tivéssemos Shrek, ou mesmo os Animaniacs

Os bastidores do filme mostrando os personagens em momentos íntimos…

“EU NÃO SOU MÁ, SÓ FUI DESENHADA ASSIM!”

Resolvi rever o filme neste final de semana (disponível no Disney+) e acabei aproveitando para ver um pequeno documentário de 30 minutos, que apresenta o processo de criação inteiro do filme. É muito divertido ver as opiniões de todo mundo, muito tempo depois do sucesso do filme, lembrando do quanto havia dúvidas dos executivos na época, de que tudo daria certo. 

O diretor Robert Zemeckis (De Volta Para o Futuro, Forrest Gump) se baseou livremente em um livro chamado Quem Censurou Roger Rabbit?, do autor Gary K. Wolf. Originalmente a história era sobre um personagem de quadrinhos, chamado Roger Rabbit, que era coadjuvante em uma tirinha e queria se tornar um personagem principal. Ele acaba sendo assassinado no meio da história, deixando apenas um balão de texto como pista. E aí que entra o detetive Eddie Valiant para resolver o caso (que, segundo a wikipédia, é cheio de reviravoltas meio absurdas, até mesmo para o gênero).

A capa do livro “Quem Censurou Roger Rabbit?” e uma das folhas de modelo do personagem do filme.

A mudança do meio de linguagem do livro para o filme é bem produtiva, aliás. Saem os personagens de quadrinhos, entram os desenhos animados. O filme então mescla o absurdo dos desenhos matutinos da década de 40, os quais nos acompanharam durante toda a infância dos anos 80, com um típico filme noir de detetives da mesma época. Esse é um dos pontos que eu acabei achando bem mais “adulto” do que me lembrava, porque a trama envolve traições e assassinatos frios e piadas de duplo sentido envolvendo “pirulito-que-bate-bate”. 

Além disso, é nessa vibe do filme noir que a parte de animação brilha mais do que nunca. No documentário, ao entrevistarem o diretor de animação, Richard Williams, ele comenta que o diretor Robert Zemeckis queria que a câmera se movesse como num “filme de verdade” e perguntou a ele se era possível fazer com que um desenho animado acompanhasse diferentes movimentos de câmera numa tomada só. Williams respondeu que, apesar de uma regra da animação ser “nunca mover a câmera em um desenho animado”, isso era algo totalmente possível de se fazer. “Por que existem diretores que dizem que isso não é possível, então?”, perguntou Zemeckis. A resposta foi, “porque eles são preguiçosos!”

“Jogos Mortais”: O Desenho Animado.

Claro, hoje em dia isso soa completamente absurdo se você for parar para pensar nos inúmeros longa-metragens animados que existem por aí. No entanto, vamos pensar no tipo de produção diária, ou pelo menos semanal da maioria dos desenhos que iam ao ar desde os anos 60 e lembrar daquela economia porca dos “corredores eternos” de Scooby-Doo, ou dos personagens de gravata da Hanna-Barbera.

Zemeckis partiu para fazer o seu filme com um “homem invisível”. Isso porque ele acabou criando três filmes em um só: Um filme noir de época, um filme de animação e um filme de efeitos especiais (ou “efeitos práticos”). Isso porque cada tomada e cada cena foi extensivamente planejada e decupada de antemão, para que fosse filmada pelo menos duas vezes. Uma com os atores reais interpretando diante de bonecos em tamanho real e outra sem os bonecos, com os atores lembrando a posição de cada um e mandando ver na pantomima! Depois disso a equipe de animação se ferrava para produzir a mão meros segundos de ação animada durante semanas, onde cada camada de luz e sombra tinha que ser animada separadamente para só então isso tudo ser juntado no filme e mandado para o pobre do editor.

Afe, haja “animação”… hein? Hein?

É quase impossível acreditar que ele está só “segurando o ar”.

OS ATORES REAIS E… TOONADOS?

Uma curiosidade que eu adorei descobrir foi que a produção bancou uma escola de mímicos para o Bob Hoskins (nosso eterno imediato Smee e Mario Bros). Isso tudo porque como o filme era recheado de efeitos práticos que só seriam preenchidos depois pela equipe de animação, ele precisava interagir de forma convincente com um coelho hiperativo que zanzava por todo o lugar. E, ok, eu sei que é sacanagem comparar um ator britânico com um jogador de basquete (mesmo que ele seja o Michael Jordan), eu nunca vi nenhuma interação melhor em toda a minha vida! Aqui no Brasil, o filme teve duas dublagens. A mais recente, pelos estúdios Herbert Richers (que nem é tão recente assim) tem o grande Mauro Ramos como a voz Eddie Valiant.

Além dele, claro, havia a voz e o “espírito” de Roger Rabbit, a estrela principal, interpretado pelo ator Charles Fleischer. Ele esteve no set de filmagem o tempo inteiro fornecendo a voz do coelho, interagindo de longe com Bob Hoskins em cada cena. Como ator de método, ele fez questão de se vestir como Roger Rabbit para entrar no espírito do personagem, o que gerou comentários engraçados de uma galera que não estava envolvida com o filme. Muitos achavam, quando passavam pelo estúdio, que o filme iria “flopar” porque o coelho era “um cara muito mal fantasiado”, hahahaha. Aqui no Brasil, Roger Rabbit foi dublado pelo irreconhecível, Garcia Jr (sério, o cara fez Arnold Schwarzenegger e Harrison Ford em uma porrada de filmes, e de repente me faz um coelho de voz estridente e língua presa? Foi uma surpresa! hehe).

“Já viu o cara vestido de coelho? Esse filme vai ser uma m…!”

O vilão, Juiz Doom, foi interpretado por um parceiro de Robert Zemeckis, o ator Christopher Lloyd. Lembro que na época eu nem o reconheci, óbvio, porque ele estava muito diferente do dr. Emmet Brown de De Volta Para o Futuro. Apesar de ser um “murder mystery” o filme não finge esconder quem é o vilão da história, então a grande revelação do plot fica por conta de descobrirmos que o grande juiz que odeia desenhos e os mata friamente colocando-os no “caldo”, era também um desenho! Uma curiosidade sobre o personagem é que Christopher Lloyd não piscou em nenhuma das cenas do filme em que o juiz aparece, segundo ele, “como o personagem era um desenho, não havia a necessidade de piscar”. E claro, sua cena favorita é justamente aquela que deve ter traumatizado um monte de criancinhas, em que ele assassina a sangue-frio um pobre sapatinho de desenho, colocando-o lentamente no caldo… O ator disse em uma entrevista que:

“Eu sei que é maligno e cruel, e um bocado de gente me falou que teve pesadelos com a cena (…) Bom, alguns dos primeiros filmes da Disney que eu vi, como Branca de Neve, sempre acontecia alguma coisa horrível que também me deu pesadelos. Então a gente pode considerar isso a minha revanche”. 

Red, a personagem de Tex Avery. Besty Brantley, a atriz que foi a referência corporal no filme. E as musas Veronica Lake (abaixo) e Rita Hayworth (à direita).

E claro, não podíamos deixar de falar de Jessica Rabbit. Muito embora ela hoje em dia fosse idealizada de uma outra forma, ela COM CERTEZA permeou os sonhos de um bocado de jovens (e porque não, adultos?) impressionáveis nos anos 90. A inspiração para o look final dela veio de várias fontes diferentes, entre ela a personagem Red dos desenhos de Tex Avery, além das Rita Hayworth e Veronica Lake. E ao contrário da maioria dos personagens animados do filme que foram criados basicamente com um boneco e uma voz, a femme fatale teve nada menos do que três intérpretes diferentes. A atriz que serviu de stand-in para Jessica e inspirou boa parte de seus movimentos foi Betsy Brantley. Suas vozes, no entanto, foram duas: a voz “falada” foi feita por Kathleen Turner que, por algum motivo, não foi creditada; e a voz “cantada”,que podemos ouvir em sua apresentação cantando “Why Don’t You Do Right”, foi feita pela atriz e cantora Amy Irving

Vai dizer que essa música não dá um arrepiozinho? No Brasil ela foi dublada por nossa própria dama fatal, Mônica Rossi, que fez as vozes de Demi Moore, Cameron Diaz e Kim Basinger, entre outras tantas.

Tô LendoPontos Fortes
  • Revolucionário. Essa mescla de efeitos práticos com animação rendeu três oscars para o filme e não foi à toa. O filme inovou em diversas áreas, entre elas a animação e o conceito de filme-família blockbuster. 
  • Divertido. O filme se sustenta até hoje, viu? E engraçadíssimo, bem animado, bem interpretado, com uma trama bacana, mesmo que bem óbvia, né? Mas vale total a reassistida.
  • Crossovers. O filme tem dois grandes crossovers que foram muito bacanas de se ver, mesmo que com pouquíssimo tempo de tela.
Tô LendoPontos Meh
  • Humor. Muito embora ele já seja de “época”, afinal é anos 80 ainda, e retratando uma outra época, o humor não é algo que passe incólume hoje em dia. Ainda mais se você tem crianças tão “perguntadeiras” como eu tenho aqui em casa… A violência cartunesca nem chega a ser um grande problema, mas durante o filme a gente vê crianças reais mexendo em cigarros (indicando que elas fumam), bebês de animação com charutos, entre outras coisas. Nem quero bancar o puritano, nem nada, mas se você acha isso ruim, é bom repensar o filme na hora de ver com os pequenos.

Eu sei que você quer saber da lenda… mas é só isso, gente. Lenda. 😉

Uma das coisas que eu gosto no Robert Zemeckis é que se tem alguma coisa que não existe, mas ele precisa para fazer o filme dele, ele vai lá e inventa. Ou arranja alguém para inventar. No minidocumentário disponível no Disney+, é bem bacana ver as traquitanas de engenharia que ele desenvolveu para dar vida aos objetos que seriam manipulados pelos desenhos em cena. Como um braço robô que segurava um charuto e copiava os movimentos de alguém que estivesse usando um outro braço robô (parece mais complicado do que é). E aí, se você parar para pensar, isso já era uma prévia do “motion capturing” que ele experimentaria anos depois em O Expresso Polar. Ou ainda a interação com elementos animados que ele experimentaria também em cenas de Forrest Gump (veja a cena do Tenente Dan dando a volta na mesa, durante o ano novo).

Não é magia, é T E C N O L O G I A.

Uma Cilada Para Roger Rabbit tem muito disso. É uma coisa, um tipo de “espírito aventureiro” no cinema que a gente quase não vê hoje em dia, de colocar uma ideia para trazer um filme à vida e fazer de tudo para isso dar certo (claro que alguns milhões de dólares ajudam também). Star Wars nasceu assim. Indiana Jones também. Até mesmo De Volta Para o Futuro. 

E isso sem contar que foi provavelmente o sucesso estrondoso de Roger Rabbit que preparou o público, um anos antes, para o lançamento de um novo longa-metragem que faria história nos estúdios Disney, marcando sua renascença: A Pequena Sereia.

Na verdade, os maiores heróis desse filme foram os ADVOGADOS DE DIREITOS AUTORAIS!

Ah, que pena seria se não tivéssemos Roger Rabbit.


Uma Cilada para Roger Rabbit vale sem sombra de dúvida, cinco rebobinandos. 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2021-01-11T16:04:26+00:00 11 de janeiro de 2021|0 Comentários