Outubro taí, época de crianças e de fantasmas! A rebobinando então traz de volta nessa semana de Halloween três “espíritos de vingança” da Marvel, Wolverine, o Justiceiro e o Motoqueiro Fantasma contra o filho de Mefisto em Corações Negros.

Coração Negro buscando um novo tipo de homem, porque naquela época ainda não tinha Tinder, nem Grindr.

Ah, o trio parada dura da Marvel! Em meados dos anos 90 cada um deles estava passando por um auge próprio, com o mutante canadense no topo (talvez até hoje, claro). Já analisei em diversas outras colunas da rebobinando que os anos 90 foram uma década particularmente violenta e difícil para os quadrinhos. Em grande parte por causa do fim do “sonho americano” nos anos 80 e por causa da “onda adulta” lançada por grandes obras nos anos anteriores como Watchmen, V de Vingança e Cavaleiro das Trevas.

Por conta dessa decepção com o futuro, os heróis mais cínicos, céticos e violentos ganharam um novo apelo diante dos fãs de HQs, em geral porque muitos deles já estavam crescendo e indo em busca de outros temas além do clássico “bem vs. mal”. No entanto, nem todos os criadores de quadrinhos estavam felizes com essa guinada sinistra & sombria e várias histórias foram lançadas de forma a criticar este tipo de anti-herói que estava na moda. No entanto, o roteirista Howard Mackie pensou diferente e resolveu aproveitar esse conceito do “herói em tons de cinza” nesta história.

Essa faixa preta aí no meio era onde ficava a lombada. Tsc.

Acontece que todos nós conhecemos estes personagens. Mesmo que o Motoqueiro Fantasma não seja o mesmo (nesta época ele tinha acabado de passar por uma reformulação, trocando o antigo hospedeiro Johnny Blaze pelo herói mais novo Danny Ketch), ele ainda era um demônio que matava ou deixava os criminosos em coma com seu Olhar da Penitência. Então para reuni-los em uma história, era de se esperar muito sangue, morte e tripas voando, não é mesmo? Só que a revista não tem nada disso!

Tirando alguns demônios genéricos (e o próprio Coração Negro, coitado) contra os quais eles têm de lutar, nenhum dos anti-heróis atira ou fatia ninguém. Na verdade, eles basicamente se recusam a usar suas habilidades mais, er, mortais pela maior parte do tempo. Isso tudo para contrapor essa ideia de que “os heróis dos anos 90 eram violentos demais e que não são tão diferentes dos bandidos que eles matam”. E sim, para quem cresceu lendo Homem-Aranha e tendo ele como inspiração, é meio difícil de engolir o estilo de justiça deles, mas bom, é de controvérsias assim que os quadrinhos são feitos.

“É o que vocês fazem de melhor”, NÉ WOLVIE?

Não à toa que o nome da história é “Hearts of Darkness” (literalmente “corações das trevas”), fazendo referência não só ao nome do vilão, o demônio Coração Negro, mas também aos corações trevosos dos heróis. Aqui no Brasil o nome ficou como “Corações Negros”, deixando a conexão com o vilão mais direta ainda. 

Nos EUA, a história foi publicada em 1991, em uma única edição, com roteiro de Howard Mackie e arte do inconfundível Romitinha e arte-final de Klaus Janson. Por aqui ela também saiu em uma única edição especial, porém apenas em fevereiro de 1994.

A capa-pôster era bem fodona.

A HISTÓRIA

A história começa, claro, com um ritual satânico. Afinal, de que outra forma Coração Negro viria à Terra? Porém, ele já chega desdenhando da oferenda dos seus servos, dizendo que era pouco sangue, que ele não era um demoniozinho qualquer… e que então iria querer o sangue de todos os envolvidos no ritual, matando todo mundo. Num monólogo digno de Shakespeare, ele nos introduz a todo o drama que move a trama. Essencialmente, ele está bancando o adolescente rebelde diante do pai, o demônio-mor Mefisto. Para quem não sabe, Mefisto é basicamente o senhor do inferno, o maior demônio de todos, o cramunhão, o sete-pele, o rabo-de-seta, o tinhoso, Lúcifer, o rabudo, o capa verde, o pé de bode, o senhor de todos os sortilégios… não, péra, esse último aí era o Mr. M.

A questão é que Mefisto quer que seu filho vire um demônio clássico que siga suas regras, porém o “garoto” quer se vingar do próprio pai por ter reduzido seus poderes e tê-lo transformado em um demônio “menor”, como qualquer outro. Por isso, quando ele chega na Terra, está determinado a corromper um “novo tipo de homem”, na intenção de unir sua alma à deles para conseguir tirar Mefisto do trono de Senhor do Submundo. Para alcançar seus objetivos ele entra em contato coooom…? Adivinha!

“Vocês devem estar se perguntando por que reuni todos aqui hoje…?”

Em seguida acompanhamos o jovem Daniel Ketch, o novo hospedeiro do demônio Zarathos, a.k.a Motoqueiro Fantasma (será?) chegando na pequena e singela cidade de Coroa de Cristo. Ele se hospeda em uma pensão comandada por uma mulher chamada Flo e sua pequena filha Lucy. Diante da chegada de Danny, ela comenta que já possui dois outros hóspedes, o sr. Logan e o sr. Frank, que são bem mais mal-encarados, mas parecem ser gente boa apesar disso, e durante a janta todos se encontram. É no mínimo curioso para gente, os leitores, ver essa cena sabendo exatamente quem é quem.

Claro que Wolverine e Frank Castle, o Justiceiro, se reconhecem logo de cara, mas os dois ficam na dúvida sobre quem é o garoto que acabou de chegar. Até mesmo a gente fica meio em dúvida, porque apesar da arte do Romitinha estar muito boa nesta edição especial, o Danny Ketch dele tem MUITA cara de Peter Parker.

Credo, usa um hidratante Daniel.

Durante a noite, os três resolvem investigar o que lhes trouxe até essa cidade, mas são interrompidos cada um em seu próprio quarto pelo próprio Coração Negro, que vem fazer uma proposta. Para cada um dos heróis ele propõe algo diferente que é capaz de satisfazer o desejo mais profundo de seus corações, em troca de suas forças e habilidades para destruir Mefisto. Ao ser recusado, o demônio então resolve mudar o seu approach. Ele hipnotiza a todos na cidade, exceto a pequena Lucy, e os leva para a praça central.

Lá, o Justiceiro e Wolverine tentam passar pelos moradores da cidade até chegarem em Coração Negro, mas não conseguem. Danny chega logo após, a pé, porque o vilão, hehe, roubou a sua moto infernal. Claramente numa situação aquém de suas capacidades, ele se pergunta o que é capaz de fazer, quando nem mesmo os dois outros heróis ali presentes conseguem fazer algo.

VAI, MOTOCA!

É aí que o tema da história vem à tona. Coração Negro provoca os heróis dizendo que eles foram escolhidos justamente por serem uma “nova geração de heróis“, de homens que andam no limite entre o bem e o mal, e que não têm medo de cruzá-lo quando a situação pede. Ele diz que enquanto os outros vivem em um mundo preto-e-branco, eles ali vivem em uma área cinza, sendo capazes de matar, rasgar e fuzilar para fazer justiça! O demônio ainda diz que se quiserem salvar a pequena Lucy, a única que ele não pôde hipnotizar, eles só precisam matar os cidadãos que estão no caminho. Quando todos se recusam, mais uma vez, Coração Negro muda novamente sua abordagem, e sai de lá pilotando a moto infernal com a garota à tiracolo, que acaba com um corte no braço, tadinha.

O sangue dela cai no rosto de Danny que sai em sua busca, mais determinado ainda. Mesmo desnorteado, ele acaba sendo capaz de se transformar no Motoqueiro Fantasma sem precisar de sua moto (pela primeira vez, na época), e então rouba uma outra moto qualquer nas ruas da cidade para ir atrás do vilão como o espírito da vingança! Finalmente, os três heróis se reúnem e rechaçam mais uma proposta de Coração Negro, chegando até mesmo ao inferno e batendo de frente com o senhor do submundo em, er, pessoa? 

“Só há certo, errado e… justiça!” Um doce pra quem adivinhar quem falou isso.

No fim, o tema da história se fecha e vemos o Justiceiro perguntando “o que eles achavam que significava esse papo deles viverem no limite?” E o Motoqueiro respondendo que “não importa se há um limite, ou mesmo se nós o cruzemos às vezes, porque enquanto os inocentes estiverem a salvo… nossa causa é justa!

Será que é mesmo?

Lawful neutral? Ou Chaotic good?

Tô LendoPontos Fortes
  • Arte. Romitinha, né? A arte-final de Klaus Janson também é ajuda um bocado, é uma parceria que funciona muito bem. No meio da história ele ainda consegue meter umas splash pages sensacionais, dignas de se comprar uma segunda edição e transformar em pôster. 
  • Roteiro. A história em si é bem direta e simples, na verdade. Uma desculpa básica para unir os três num lugar só, mas sem a clássica luta entre eles. No entanto, o que eu mais gostei de reler foi perceber que é uma história que “abraça” a crítica ao “anti-heroísmo” da época e prova por A+B que eles são mesmo heróis, apesar das garras, armas e correntes.
  • Fácil de achar. Tem em vários sebos e sites de leilão por aí.
Tô LendoPontos Meh
  • Curta. A história é meio curta, na verdade. Quando ela termina a gente fica meio que querendo mais. Mas apesar de colocar aqui nos pontos ruins, não sei se chega a ser isso mesmo. Como é uma história bem direta, você lê bem rápido.
  • Continuidade. Apesar de ter um final fechado, um pouquinho antes ela deixa uma ponta solta para as histórias do Motoqueiro Fantasma. Todo o dilema sobre qual “espírito da vingança” está ocupando o corpo de Danny, se é mesmo o demônio Zarathos, ou não e… enfim, aquela lenga-lenga clássica da Marvel, que só se resolve depois de 90 edições.

Pronto pra porrada?

Bom, apesar dos pesares eu sempre fui mais fã do Motoqueiro do que do Wolverine ou do Justiceiro (mas eu sempre vou curtir mais o Motoqueiro de 2099) e acho que essa história é um contraponto bacana nessa polêmica sobre os heróis violentos dos anos 90. E por mais que eu, pessoalmente, discorde dos métodos deles, a gente precisa dar o braço a torcer que, dentro deste universo fantástico eles funcionem. Mesmo que não seja como forma de inspiração, mas como um conto preventivo, mostrando que esse caminho sombrio não deve ser trilhado por qualquer um com uma arma, uma corrente ou garras nas mãos.

O próprio autor do Justiceiro já deu o recado usando a voz do próprio herói nas páginas do seu gibi, quando viu que policiais em NY o idolatravam. Fica a crítica, mas fica também o exemplo.

Escuta aí o dono da bola.

E aí? Qual desses anti-heróis você é mais fã? Do Motoqueiro? Do Justiceiro, ou do Wolverine? Tem mais alguma história deles que você mais curte? Conta aí nos comentários!


Motoqueiro Fantasma, Wolverine, Justiceiro: Corações Negros vale quatro rebobinandos. 📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.