Rebobinando #139: Didi Volta Para o Futuro

Início/Destaques, Leia!, Rebobinando/Rebobinando #139: Didi Volta Para o Futuro

Hoje é dia das crianças, então para manter a Rebobinando no espírito da comemoração, vamos rebobinar algo mais específico da nossa infância. Ok, nem de todo mundo, mas com certeza é uma Graphic Novel que muitos guardam no coração. Hoje a Rebobinando é sobre Didi Volta Para o Futuro!

Você construiu uma máquina do tempo… num DeLorean…?

Nos final dos anos 80 e no início dos anos 90, o mercado brasileiro de quadrinhos atirava para todo lado. Com exceção das revistas da Turma da Mônica que são até hoje quase que imemoriais na infância de muita gente, durante essa época todo mundo tentava lançar um gibi infantil que poderia fazer frente ao powerhouse que é a Turminha do Limoeiro. Desta forma, quase todo mês tinha algum gibi que trazia alguma figura de celebridade ou da Tv da época. Às vezes alguns deles eram a versão adulta, como as revistas da Xuxa, do Faustão, da Angélica ou do Sérgio Mallandro. E em outras, eram uma versão mais infantil, como as do Pelezinho, Leandro & Leonardo, Ana Maria Braga e, claro, dos Trapalhões.

Mas é aqui que a gente separa o joio do trigo. Enquanto a maioria encontrou o seu cancelamento meros meses depois, os Trapalhões foi uma das que persistiu por mais tempo, em partes pelos talentos responsáveis pela revista, como o criador César Sandoval, o desenhista Watson Portela e o roteirista Marcelo Cassaro, entre outros artistas. Mas enquanto a revistinha mensal tinha aquele mesmo clima bucólico e de piadas que as da Mônica (peripécias infantis, cenário de grama, bairro pequeno, casinhas de um andar, etc), uma outra se destacou por ser basicamente o primeiro elseworlds do mercado brasileiro: As Aventuras dos Trapalhões.

Imagina Alan Moore tranformando essa época dos gibis brasileiros em Watchmen…?

Lançada em meados de 1989, a revista começou meio tímida, colocando os trapalhões em histórias de domínio público, como Rei Arthur, Arca de Noé e Robinson Crusoé. Mas logo eles foram se destacando com paródias de filmes e seriados de TV clássicos de várias épocas! E como tá na lei que paródia está livre de pagamento de direitos autorais, os criadores e a editora sorriram de orelha à orelha e meteram brasa! E todos nós saímos ganhando no processo! Algumas paródias eram bem mais divertidas e trabalhadas do que outras, claro, mas só de ver a turma dos Trapalhões fazendo graça com RoboCop, Máquina Mortífera, Star Trek, Indiana Jones, etc. etc., valia muito a pena.

Arrisco dizer que meu amor por trocadilhos provavelmente surgiu nessa época porque apesar da necessidade de incluir o nome “trapalhões” de alguma forma no nome dos filmes, gibis, novelas e séries, alguns funcionavam muito bem como Didiana Jones, As Traparugas Ninja, Eduardedé Mãos-de-Tesoura, Mocónan – o Barbeiro e História Sem Finzis. Lembrando de memória, assim, como quem não quer nada, pode ser que as paródias sejam bem mais bobinhas do que a gente espera, já que é um público infantil. Mas como eu não tenho mais a minha coleção completa (#FUÉN) eu não tenho como afirmar. Inclusive, como ela era produzida por uma galera bem mais velha que a média do público-alvo, algumas tiradas já passavam batidas desde aquela época. Então imagina hoje em dia.

Ainda assim, posso garantir que eram histórias bem divertidas.

Haja trapadilho… digo, trocadilho.

A GRAFIC TRAPA

Eu era fã das revistas das Aventuras dos Trapalhões a um tempinho quando vi na banca de jornal uma revista com eles, em um formato maior, satirizando um dos meus filmes favoritos. Não tive dúvida, comprei na hora! A edição tinha um formato luxuoso, de graphic novel mesmo, algo que eu ainda nem conhecia, apesar de já estar começando a ler os gibis de herói na mesma época. O trocadilho sensacional do nome “Didi Volta Para o Futuro” e a capa belissimamente desenhada como se fosse um pôster de filme mesmo chamavam a atenção de longe. Lembro de me sentir até um garoto mais importante com aquela revista nas mãos! 

Logo após a capa, havia um prefácio assinado pelos editores, explicando mais ou menos o processo e o motivo por trás daquela edição. Um deles era bem óbvio, que era aproveitar e comemorar o aniversário de 25 anos dos Trapalhões, que estava por toda a tv naquela época, com especial de televisão, disco (meodeos tô velho) e, porque não um gibi?

Referências! TANTAS! REFERÊNCIAS!

O prefácio contava que o roteiro havia sido escrito por Marcelo Cassaro (Capitão Ninja, Holy Avenger, Turma da Mônica Jovem) que trouxe a ideia de usar a trilogia de filmes de De Volta Para o Futuro como tema da graphic novel, porque poderia ocupar o tamanho que eles queriam para a obra, que era de 52 páginas. A arte ficou por conta de Gustavo Machado que fez o leiaute das páginas e desenhou os personagens principais, e também com Watson Portela que pegou os desenhos mais “sérios” (os carros, personagens secundários e cenários), além do arte-finalista João Anselmo. As cores ficaram por conta de Napoleão Figueiredo que já havia feito outras capas bem maneiras para a revista regular. Inclusive, no facebook de Gustavo Machado, ele menciona melhor o processo de criação da Graphic Novel e também da capa:

Certo dia, Marcelo Cassaro, que além de desenhista também era um dos argumentistas mais prolíficos da nossa equipe no setor de quadrinhos infantojuvenis na Abril Jovem, criou e apresentou uma adaptação para HQ do filme “De Volta Para o Futuro”. Era uma história pensada para a revista “As Aventura dos Trapalhões”, a edição mensal dos Trapalhões em quadrinhos, focada em sátiras de sucessos do cinema e clássicos da literatura, e nosso grande sucesso de vendas.

Primaggio Mantovi, nosso editor na época, gostou tanto da versão satírica de Cassaro, que encomendou as continuações referentes às partes dois e três, completando a trilogia de “De Volta Para o Futuro”.

A surpresa maior seria saber que a trilogia em quadrinhos do Cassaro se tornaria o roteiro da nossa primeira graphic novel, “Didi Volta para o Futuro”, com o genial trocadilho do título anunciando ser uma aventura dos Trapalhões e seu líder, Didi Mocó, alter ego de Renato Aragão.

Fui designado para dar partida nos desenhos da edição especial, levando três meses para conceber o visual das suas 53 páginas.

Uma equipe de talentosos artistas do nosso setor foi convocada por Primaggio para fazer parte da produção, com destaque para Napoleão Figueiredo, o responsável pela maravilhosa colorização de todo o álbum de quadrinhos.

A criação da capa da edição (vide imagem) foi a última arte que desenhei para o projeto, ganhando vida e destaque nas cores feitas em ecoline pelo mestre Napoleão.

Nossa “Grafic Trapa”, como foi carinhosamente batizada, começou a receber uma sucessão de premiações e troféus, como: Melhor Roteiro e Melhor Desenho (XVII Prêmio Abril de Jornalismo), Melhor Lançamento (8º Prêmio Angelo Agostini), Melhor Revista Infantil (Troféu HQ Mix – 1991), e Melhor Roteirista, Melhor Desenhista e Melhor Graphic (4º Encontro Nacional de HQ – Araxá-MG), chegando ao total de sete em apenas um ano.

Essa consagração daria a oportunidade para que fosse relançada uma nova tiragem um ano depois, em junho de 1992. Desta vez, com pompa e circunstância, estampando um selo colado na capa com os dizeres “7 vezes premiada!”, com a relação dos prêmios.

Com o passar dos anos, para satisfação dos envolvidos em sua produção, “Didi Volta Pra o Futuro” ganharia o status de um dos quadrinhos mais queridos e cultuados da sua época, marcado indelevelmente na memória afetiva de uma geração de leitores.

(Extraído de “Memórias Cronológicas e Afetivas de um Desenhista de Quadrinhos”)

E como vocês podem ver, o trabalho valeu super a pena. A revista foi super premiada naquele ano mesmo e se tornaria um dos gibis brasileiros mais bem lembrados pelos fãs até hoje. Tanto que a edição é raríssima, muito difícil de achar em sebos ou mesmo na internet. As poucas que você encontra à venda tem um preço super alto (já encontrei de R$ 150 a R$ 350). Quase me arrependo de ter doado a minha para um orfanato junto com minhas pilhas de revistas da turma da Mônica, dos Trapalhões, da Xuxa, da Angélica, do Sérgio Mallandro…

Insira um baile à fantasia na sua história e desenhe todos os heróis que você quiser!

A HISTÓRIA

A Grafic Trapa traz uma paródia simples e direta baseada no filme. Na primeira história, vemos Didi Mocófly indo ao encontro de Dr. Zac Brown em um estacionamento de shopping. Chegando lá, o doutor apresenta a máquina do tempo e o que permite que ela funcione, um capacete de fluxo, numa brincadeira com o capacitor de fluxo do filme original. Acontece que o “capacete de fluxo” é de fato um capacete, mas não é um qualquer. É o capacete do Fantástico Jaspion (ou “Jaspião”), que aparece logo depois, com um balde na cabeça, irritado. Didi cai dentro do DeLorean e volta no tempo para 1961. Chegando na cidade de Rio Valley do passado, ele descobre que o capacete ficou destruído e pede ajuda do Zac Brown do passado para, er, voltar para o futuro. Numa festa à fantasia eles encontram um capacete do herói Rocketeer e Didi volta ao seu presente, ou quase.

Só porque eu não falei do Mussum, porque ele foi mega coadjuvante nessa história.

A segunda história brinca com piadas sobre estacionamento e outros viajantes do tempo com os quais a dupla esbarra. Chegando em 2021 (!!!) O doutor Zac dá o carro a um velhinho chamado Dedé Bife para estacionar, mas ele acidentalmente volta a 1961. Mal sabia ele que em 2020 nós estaríamos às portas de 1964 de novo, mas isso é outra história. Zac fica super preocupado porque o jornal que ele usou para forrar o chão do carro se perdeu no passado. Como é uma fonte de notícias do futuro, eles não podem arriscar que alguém o leia, então os dois voltam à 1961 para pegá-lo. O único porém é que o Dedé Bife do passado usou o jornal para forrar o capacete de sua fantasia, o herói Rocketeer. As coisas dão relativamente certo, mas Zac acidentalmente ativa o seu capacete de fluxo e some no tempo, deixando Didi preso no passado sem ter como voltar para casa.

A terceira e última história mostra Didi encontrando o Zac Brown de 1961 de novo e pedindo ajuda. De novo. Eles descobrem que o outro doutor Zac se perdeu no velho oeste e, ao encontrar um novo capacete de fluxo guardado em uma caixa no porão, Didi vai ao passado buscar seu amigo. No passado, as confusões e referências rolam soltas até que eles arrumam encrenca com Dedé Dalton Bife e descobrem que precisam voltar para o futuro o quanto antes!

O carro sempre falha na hora H.

Tô LendoPontos Fortes
  • Humor Simples. Como o foco era o público infanto-juvenil, a revista nunca tinha um humor hiper mega rebuscado. As referências eram bem divertidas quando você conseguia sacar de onde vieram, o que às vezes era meio difícil já que a gente era “nerd em formação” lendo algo escrito por nerds com mais de 20 anos na nossa frente. Ainda assim era super divertido.
  • Desenhos. Você pode achar estranho eu elogiar um desenho de um gibi brasileiro de traços simples, mas como a gente viu na coluna, essa grafic trapa foi feita com muito esmero. A edição levou uns seis meses para ficar pronta, mas ficou excelente.
Tô LendoPontos Meh
  • IM-POS-SÍ-VEL DE A-CHAR. É isso. Você pode ler online em lugares obscuros da internet se procurar bem. Dada a impossibilidade de achar uma versão física sem ter que perder um rim, ou um braço para isso, nem acho ruim recomendar.
  • Humor datado. O lance das referências envelhece bem rápido. Se alguém mais jovem quiser ler hoje em dia corre o risco de não achar a menor graça. Se bem que ninguém mais jovem hoje em dia iria ler algo dos Trapalhões porque fatalmente nem deve conhecer os Trapalhões.

Parte do processo de criação da capa original por Gustavo Machado.

É uma pena que esta revista esteja basicamente perdida num limbo e nunca mais deve ser republicada. Eu nem faço ideia de como devem estar os direitos de publicação, nem sei para quem a gente pode pedir isso, se é a própria Abril Jovem (que fechou), ou se ao Marcelo Cassaro, pra ele pedir pro Maurício de Sousa, ou se para a Panini se meter e salvar a vida de um bocado de colecionadores, ou se pro próprio Doutor Renato Aragão, enfim… quem pode nos ajudar?

Por Odin, este gibi é… deveras incrível.

E você? Tem algum gibi dessa época, ou mesmo um gibi de celebridade que você curtia? Mesmo que fosse muito ruim? E se o Caruso lançasse “A Turma do Carusinho”? Você leria? Conta aí nos comentários!


Didi Volta Para o Futuro vale cinco rebobinandos!

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2020-10-12T01:48:43+00:00 12 de outubro de 2020|0 Comentários