Rebobinando #138: Animatrix

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O mundo foi dominado por inteligências artificiais que fizeram da raça humana seus escravos. Não, não estou falando de 2020 e das redes sociais, mas de um universo cyberpunk que estava muito na moda em 2003. Pega o seu sobretudo preto que a Rebobinando de hoje é sobre Animatrix.

Quando eu falei aqui de Matrix há algum tempo, eu comentei o quanto eu adorava esse universo cinematográfico! Eu não era exatamente um jovem gótico que ouvia música eletrônica, mas toda a estética é toda a temática de Matrix me fascinava. Foi também o meu primeiro contato com fóruns de discussão e teorias de fãs e análises de cada pedaço dos trailers é videos do QuickTime disponíveis no site do filme. 

Matrix, de 1999, já era revolucionário por si só. Como filme de sci-fi e como filme de ação, ele trouxe inovações estéticas e visuais que a gente só tinha referência em desenhos animados. Desenhos animados muito específicos para falar a verdade. 

Assassin’s Creed: The Matrix Brotherhood

É inegável a influência dos animes japoneses em Matrix. As irmãs Wachowski durante o lançamento do filme já diziam abertamente que as influências delas vinham não só da filosofia e literatura europeia como dos clássicos desenhos de olhos grandes e da literatura cyberpunk, que andaram muito juntos desde os anos 80. Akira, inclusive, sendo uma das referências diretas. 

Durante a divulgação do filme no Japão, depois de um sucesso estrondoso nos EUA, as duas aproveitaram a viagem e visitaram seus estúdios de anime favoritos, encontrando alguns dos criadores dos quais elas já eram fãs há muito tempo. Desses encontros surgiu a ideia de fazer uma antologia de pequenos curtas em animação situados nessa mesma ambientação, com histórias apresentando novos personagens, novos conceitos, que iriam expandir o universo de Matrix além do sobretudo preto e dos óculos escuros. 

Forcei a barra, eu sei. Mas que tem referência, tem!

JAPANIMATION

Obviamente, Lily e Lana Wachowski não eram fãs de “qualquer um” na animação japonesa. Então os nomes arrebanhados para trabalhar nos curtas eram alguns dos maiores no gênero na época (e até hoje, pra ser sincero). Depois de definido, elas supervisionaram o projeto e escreveram o roteiro de apenas quatro dos nove curtas, deixando todo o processo nas mãos dos criadores. 

Um deles foi Shinichiro Watanabe, o diretor responsável por clássicos como Cowboy Bebop (1998), Samurai Champloo (2004) e Space Dandy (2014). Cowboy Bebop, aliás, é um dos meus animes prediletos e eu prometo que ainda vou fazer uma Rebobinando sobre ele! Ele comandou dois curtas, usando uma animação quase fora do convencional para um anime propriamente dito: Era Uma Vez Um Garoto, e História de Detetive

Olha, só melhorava animatrix se trocasse a música eletrônica por um jazz fodão, hein?

Além dele, o projeto contava com outros dois curtas produzidos pelo badalado Estúdio Madhouse. Um foi Coração de Soldado, dirigido por Yoshiaki Kawajiri, que foi o criador de títulos como Ninja Scroll e Vampire Hunter D: Bloodlust. O outro curta foi O Recorde Mundial, dirigido pelo então “novato” Takeshi Koike, que já acumulava inúmeros trabalhos como animador em séries conhecidas, como DNA², X e Card Captor Sakura, mas tinha poucos títulos sob sua direção até então. 

Quem ficou com mais três obras na antologia foi o Studio 4ºC. O co-fundador do estúdio, Koji Morimoto, foi o diretor de Além da Realidade. E Mahiro Maeda pegou o incrível O Segundo Renascer Partes I e II, o curta que é provavelmente o mais memorável de toda a série de animações porque conta a história por trás da criação de toda a Matrix e a guerra entre humanos e máquinas. 

Futuro Distópico ou Egito Antigo? Aliens?

Os dois últimos filmes ficaram a cargo de estúdios americanos diferentes. O Robô Sensível ficou a cargo do estúdio responsável pelo desenho da MTv Aeon Flux, juntamente com seu criador Peter Chung, na direção. E O Voo Final de Osiris, um prequel direto para o lançamento de Matrix Reloaded, ficou com a produtora de videogames que viria a se tornar a SquareEnix e foi dirigido por Andy Jones (um nome que não diz nada pra gente agora, mas a Wikipedia me diz que esse cara fez parte das equipes vencedoras do Oscar por efeitos visuais dos filmes Avatar e Mogli, o Menino Lobo). 

OS CURTAS 

Com o devido background de quem fez o que, agora nós podemos entrar nos curtas em si e em como eles conseguiram expandir ainda mais essa história de humanos sendo controlados por máquinas em um mundo digital pré-fabricado. 

O bacana é que como a maioria delas foge do eixo Neo-escolhido-guerra-agente-smith, a gente pode dar uma olhada em como a Matrix age e afeta outros, er, usuários. Claro que Neo e Trinity aparecem em algumas das histórias, mas eles não são nem de longe os protagonistas (muito embora tenham sido dublados pelos seus atores originais), e acabam funcionando mais como âncoras para o universo Matrix e menos como guias.

ABRE O OLHO, JUE!

– O Voo Final de Osiris (The Final Flight of Osiris) – É o curta que faz ligação direta com os filmes Reloaded e Revolutions. A animação era a coisa mais revolucionária em 2003 no quesito “corpo humano”, já que a SquareEnix já era uma produtora de games na época. Revendo hoje, acho que animação ainda se sustenta, apesar de ter uma vibe leve de “corpo de gelatina” em certos momentos. A conexão com as sequências de Matrix se dá porque durante a história, a nave Osiris encontra uma aglomeração de sentinelas-robôs com perfuratrizes exatamente sobre a cidade de Zion. Durante a fuga desesperada da nave após descobrir o exército de máquinas prestes a invadir, Jue, uma das tripulantes, entra na Matrix para enviar o recado para os outros capitães da resistência humana. O curta foi exibido nos cinemas poucos meses antes da estreia de Reloaded junto com outro filme qualquer. No Brasil, além disso, o SBT exibiu a animação em um double-feature com o primeiro matrix, um dia antes da estreia da continuação.

Se tivesse lido Asimov, não tinha esse problema!

– O Segundo Renascer, Partes I e II (The Second Renaissance, Parts I and II) – Essa é, fácil, a pérola da antologia. O curta conta a história do início da guerra entre humanos e máquinas e é um festival de referências cyberpunk, filosóficas e religiosas. A história é toda narrada por uma espécie de I.A. responsável pela biblioteca virtual de Zion, com uma voz meio doce de “moça do GPS” que contrasta bastante com o nível de violência da animação. Referências visuais de cenas de guerra conhecidas foram utilizadas, mas com robôs humanóides no lugar de humanos, como a cena do rebelde em frente aos tanques no massacre da praça da paz celestial. É de dar um nó no estômago em certos momentos. A escalada de eventos que levam ao fim do mundo como conhecemos é bem apresentada, mostrando a revolução robótica por causa do primeiro robô condenado por assassinato, B1-66ER, a união das máquinas em uma nova nação chamada Zero-Um, os avanços tecnológicos e financeiros desta nação, até um embargo econômico e a eventual guerra que leva ao fim da humanidade.

Três da manhã e eu aqui no chat do UOL com o N3O_GOSTOSO69 me dizendo que vai me levar prum outro mundo…

– Era Uma Vez um Garoto (Kid’s Story) – Lembra daquele carinha que pentelha o Neo em Reloaded, e que depois a gente acompanha durante a invasão de Zion em Revolutions? Pois é. Aqui ficamos conhecendo ele como Michael Karl Popper, codinome Kid. Sua história é um pouco triste, porque ecoa a história de vários adolescentes que encontraram algum fim trágico durante os anos do ensino médio americano. Isolado de tudo e de todos, um dia ele entra em contato com Neo pelo computador em um chat na internet, se perguntando porque ele não sente que a realidade é “real”? Ao ser perseguido por agentes no meio da escola no dia seguinte, Kid acaba se jogando do telhado do prédio onde estuda e ao morrer na Matrix, ele consegue se libertar da simulação. Em seguida, encontramos o garoto sendo acordado na nave Nabucodonozor por Neo e Trinity.

A heroína Cis, de uma história das Wachowskis trans.

– Coração de Soldado (Program) – Em meio a uma simulação do Japão feudal, encontramos a rebelde humana Cis. Em meio a sua luta contra inimigos aleatórios, ela acaba encontrando Duo, um outro rebelde humano, que ela parece gostar. Duo e Cis duelam agressivamente enquanto conversam, até que ele para a luta e diz que bloqueou o acesso das pessoas de fora para que ambos pudessem conversar sem interrupções. Cis acha que Duo vai pedi-la em casamento, porém ele a surpreende com uma proposta de voltar à Matrix. Lembra do primeiro filme, onde Cypher trai o grupo de Morpheus porque não suportava mais a realidade? É a mesma coisa. Cis se revolta e tenta sair da simulação de qualquer jeito, mas com a comunicação cortada, ela está presa ali. Ela se vê numa situação sem saída, onde deve aceitar a proposta de seu amado, ou derrotá-lo para se libertar. Em um momento decisivo, ela consegue derrotar Duo e, ao acordar descobre através do capitão de sua nave que tudo não passou de um programa-teste e que nada daquilo era “real”. Revoltada, Cis soca o seu capitão e sai da sala, abalada, sem falar nada. 

Será que o Bolt já saiu da Matrix?

– O Recorde Mundial (World Record) – Dan Davis é um corredor de atletismo em um momento de desgraça. Ele havia estabelecido um novo recorde mundial de 8.99 segundos e ganhado uma medalha de ouro nas últimas olimpíadas. Porém ela foi revogada porque identificaram que ele havia usado drogas. Desgraçado na vida, Dan resolve bater mais um novo recorde mundial dessa vez, sem drogas, e “mostrar pra todo mundo”. A história abre com uma narração da biblioteca de Zion, falando sobre humanos plugados que descobrem a existência da Matrix, mas não conseguem sair. Geralmente pessoas atingem esse conhecimento de diversas formas, pelo uso de meditação, intuição, etc. Em uma nova prova, apesar de todas as recomendações em contrário, Dan se esforça ao máximo e sofre uma lesão em meio a corrida. Agentes notam que ele está emitindo um sinal de instabilidade e tentam impedi-lo de correr, porém com uma extrema força de vontade, ele se levanta e termina a corrida em 8.72, batendo o seu recorde anterior. Ao fazer isso, Dan sai da Matrix e tem um vislumbre da realidade de dentro de seu casulo. Um sentinela o coloca para dormir novamente e quando Dan retorna à Matrix, os agentes o colocaram em um hospital, preso a uma cadeira de rodas… em um último esforços, ele se levanta mais uma vez de sua cadeira e murmura a palavra “livre” e cai novamente no chão.

Chuva dentro de casa? O climatempo não falou nada disso.

– Além da Realidade (Beyond) – Essa é uma das histórias que eu também acho super bacana. Sem muitos problemas ou questões filosóficas, é só uma história sobre um grupo de crianças no Japão brincando em uma “casa assombrada”. A casa, claro, é um glitch na Matrix, um erro, e ela acaba produzindo coisas estranhas no interior e ao redor dela, como loops de tempo, chuva dentro de um cômodo, ventos digitalizados, sombras erradas, gravidade alterada, essas coisas. A história acompanha a adolescente Yoko que procura por sua gata perdida e acaba chegando no local. Em meio à toda diversão, um grupo de agentes chega em um caminhão para corrigir o erro e derrubar a tal casa assombrada, expulsando os adolescentes de lá. No dia seguinte, Yoko volta ao local, mas toda magia se foi. As outras crianças também ficam decepcionadas e vão todos embora, no final.

Eu mandei desviar. Você não desviou…

– Uma História de Detetive (A Detective’s Story) – Como o nome já diz, ela é uma típica, er, história de detetive. Sabe como é, né? Narração, preto-e-branco, um detetive solitário e uma femme fatale. Este é um curta que conta com a presença de Trinity que vai ao encontro do detetive Ash depois que ele descobre que a misteriosa hacker investigada por outros três detetives que acabaram ou se matando ou ficando loucos. Ao conseguir se comunicar com ela usando trechos de Alice no País das Maravilhas, ela marca um encontro em uma estação de trens. Durante o encontro, ambos são emboscados por três agentes e, durante a fuga, um deles acaba tentando possuir o corpo de Ash. Trinity não vê outra opção a não ser atirar no seu novo amigo para impedir que o agente domine o corpo dele. Ferido, Ash se despede de Trinity e ela, para consolá-lo diz que acha que ele “seria capaz de encarar a verdade”. Ela pula do trem em movimento pouco antes dos agentes entrarem no vagão e deixando Ash para trás.

Contemplando as luzes fora da caverna…

– O Robô Sensível (Matriculated) – O último curta é um dos mais oníricos e “cabeçudo” de todas as outras animações. Um grupo de cientistas que vive sobre a Terra na realidade real, tem um plano de “reabilitar” as máquinas para ajudar os humanos, em vez de escravizá-los. Como eles compreendem que os robôs também são seres vivos, a solução de simplesmente reprogamá-los não é uma opção, já que eles estariam fazendo a mesma coisa que as máquinas fazem com os humanos. Para isso, eles atraem robôs com algum nível de inteligência própria e fazem ele passar por experiências oníricas dentro de uma simulação, para que desenvolvam algum nível de empatia pela raça humana. 

O robô do título é atraído pela cientista Alexa (que adora andar de calcinha pelo laboratório?), e passa por um longo e confuso processo de reabilitação, no qual ele parece se apaixonar por ela. Infelizmente, logo em seguida o laboratório é atacado por vários outros robôs, mas a equipe consegue se defender utilizando as máquinas que eles já haviam reabilitado antes, porém, com pouco sucesso. Todos os cientistas são mortos durante a luta e todos os robôs são destruídos. À beira da morte, Alexa é conectada novamente à simulação pelo “robô sensível” que se conecta junto a ela. Ao perceber que está dentro do programa, presa com um robô, ela se desespera e solta um grito de horror pouco antes de seu avatar desaparecer por completo. A tomada final mostra o robô sensível observando o mundo do alto de um morro, da mesma maneira que Alexa fazia durante o início do curta.

Tô LendoPontos Fortes
  • Anime. É o puro suco da animação japonesa, da mais alta qualidade. Se essa é a sua praia, aproveita. Se não, é uma ótima porta de entrada para o mundo da estilização do anime. São visuais incríveis, designs inovadores e sequências de luta muito fodas.
  • Música. Falei pouco sobre a música, mas ela é muito boa também, no geral. Durante a era de ouro dos downloads eu fui atrás de baixar tudo o que fosse possível dos filmes e a trilha de animatrix é uma das que eu não me arrependo e ainda tenho até hoje.
Tô LendoPontos Meh
  • Pesado. Obviamente, não é para crianças. Tipo quando as locadoras colocavam Akira na sessão de infantis. Tem sequências que podem ser pesadas até mesmo para adultos, mas aí vai de cada um.
  • Longo. Cada curta tem seus altos e baixos. Por conta do alto nível de cabeçudagem de algumas das histórias, elas podem soar meio chatas em certo ponto, fazendo o tempo se alongar mais do que o necessário. Eu, particularmente prefiro ver em partes, geralmente dividindo as minhas animações preferidas entre as assistidas.

O que é real?

Disse várias vezes no texto e repito aqui, Animatrix é um avanço das histórias de Matrix feita de um jeito que nem mesmo as diretoras originais conseguiram. Star Trek, Star Wars fizeram coisas parecidas com o lançamento de livros e séries derivadas, mas Matrix merecia uma expansão à altura e qual o melhor jeito senão usando suas referências mais diretas, não é?

No fim, fica a esperança de que o lançamento de Matrix 4 dê um novo fôlego, ou pelo menos um retcon nas partes ruins das continuações do primeiro filme. Além disso, eu ficaria muito feliz se as irmãs Wachowski resolvessem investir de novo em uma nova antologia de animes dentro do MECU, o “Matrix Expanded Cinematic Universe” (vamos ver se eu lanço tendência).

Olha só isso? Não dá a maior vontade de ver?

E você? Tem algum curta preferido em Animatrix? Ou nunca assistiu? Tem algum universo expandido que você ache mais maneiro, ou que acompanhou mais? Conta aí nos comentários!


The Animatrix vale cinco coelhos brancos! 🐇🐇🐇🐇🐇

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2020-09-28T22:51:08+00:00 28 de setembro de 2020|0 Comentários