Rebobinando #137: Marshal Law

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Ele é a lei, mas não é o Juiz Dredd. Ele é revolucionário, mas não é o V. Ele é bruto e violento, mas não é o Cavaleiro das Trevas. A Rebobinando de hoje vai falar sobre um herói pouco conhecido dessa mesma turma, mas tão importante quanto eles. Vamos rebobinar Marshal Law!

O policial nazista sadomasô com pinta de fascista, mas com um bom coração.

Marshal Law é um daqueles gibis que é quase uma “falsa rebobinando”. Isso porque ele passou batido por mim em 1991 quando foi lançado aqui no Brasil, mas que fui conhecer e ler alguns anos depois, já na faculdade, por recomendação de uma amiga. Ainda assim eu acho incrível como ele é um gibi que passou desconhecido por muita gente na época, porque ele é muito bom! Bom, se você olhar as capas do gibi e a pinta do herói principal, com certeza vai achar que ele tem uma vibe de que saiu na revista Metal Pesado. O cara tem um visual meio “nazista sadomasô” típico das histórias distópicas e ultraviolentas da publicação, sem falar no traço do desenho, que fugia um bocado do estilo “dinâmico” que borbulhava nas páginas da Marvel, DC e Image.

Meu primeiro contato com o personagem foi numa conversa entre amigos durante a faculdade, onde nós tínhamos vários planos para escrever histórias em quadrinhos e compartilhávamos ideias enquanto rabiscávamos uniformes e tramas envolvendo espionagem, guerra, sociopolítica e invasões alienígenas. Uma amiga me contou que um plot meu era bem parecido com o de Marshal Law e sugeriu que eu desse uma olhada no gibi, que tinha saído a muito tempo e foi um bocado difícil de achar. Depois de ler tudo, fiquei feliz e triste de ver que eu tive uma ideia que era potencialmente boa, mas que já tinha sido utilizada. #FUÉN

Durante anos, porém, esse personagem ficou guardado num canto escuro da minha memória, até eu lembrar dele recentemente, me fazendo ir atrás das edições antigas de novo e reler tudo com bastante prazer! 

Ele é uma ferramenta do sistema e sabe disso. E não liga!

MARTIAL LAW

Marshal Law foi criado em 1987 e publicado pela Epic Comics, um selo da Marvel. Ele teve inicialmente seis edições mensais publicadas (que é o que eu vou tratar aqui), mas teve várias outras histórias lançadas nos anos seguintes. A maioria foram edições one-shot e crossovers, com personagens como Savage Dragon, Máskara e Pinhead (ele mesmo, de Hellraiser). Aqui no Brasil, as revistas foram publicadas quinzenalmente pela Abril Jovem entre maio e julho de 1991. No entanto, a Panini lançou uma edição definitiva de Marshal Law em capa dura em 2019, que reúne tudo o que foi publicado do personagem nos EUA (sem os crossovers). 

O gibi foi concebido por Pat Mills (roteiro) e Kevin O’Neil (desenhos). E pode até ser que os nomes não sejam muito conhecidos pelo público médio, mas são dois caras com uma extensa carreira nos quadrinhos. Pat Mills por exemplo, foi o criador da revista britânica 2000 AD que foi basicamente a responsável por lançar os grandes talentos dos quadrinhos que conhecemos hoje em dia, como Alan Moore, Dave Gibbons, Grant Morrison, Brian Bolland, Garth Ennis, entre outros… além disso, ele trabalhou em diversas edições de Juiz Dredd, bem como quase todo o run de Justiceiro 2099 e Ravage 2099. Então já dá para notar qual a vibe desse cara nas histórias!

O desenhista Kevin O’Neil também teve vários trabalhos publicados na 2000 AD, além de ter trabalhado também em Juiz Dredd. Mas talvez uma de suas parcerias mais conhecidas (tirando Marshal Law) é com Alan Moore na Liga Extraordinária. E o traço dele combina um bocado tanto com o épico de Moore quanto com a distopia de Mills. Às vezes parece que ele foi uma inspiração direta para o Ryan Ottley em Invincible, mas aí sou só eu fazendo conexões absurdas.

Separados por um Capitão Nascimento.

MEDO E DESGOSTO

Marshal Law é uma típica desconstrução do gênero de super-heróis, tão em moda no fim dos anos 80. Graças a Moore e seus Watchmen todo mundo estava vestindo couro preto e sendo hiper violento, além disso, o clima político da Guerra Fria e o fim do mundo em potencial ainda eram ideias permanentes no zeitgeist. Sendo publicada apenas um ano depois de Watchmen e TDKR, não era de se admirar que ela seguisse a mesma temática.

Porém, enquanto as desconstruções anteriores seguiram pelo caminhos de “como contar uma história”, ou “como virar esse personagem infantil de ponta cabeça”, a criação de Mills e O’Neil tem uma vertente muito mais sociopolítica e arquetípica do que as outras.

Desde os tempos mais primórdios / O c*ralho taí, taí, taí / Roliço e veiudo / Pentelhudo e cabeçudo / Na Sapucaí!

Enquanto a história principal gira em torno de um “whodunnit?”, tipo uma história de detetive tentando desvendar quem é um assassino em série e prendê-lo, o pano de fundo apresenta uma história muito bem embasada e uma construção de mundo bem próxima do real, que chega até a ser um pouco assustadora. Algumas reviews do gibi na internet chegam até a especular que talvez esse pé na realidade tenha sido um fator de rejeição da história diante das outras obras da época.

O mundo de Marshal Law é um lugar péssimo de se morar. Ele vive na cidade de San Futuro, que foi erguida das ruínas de San Francisco, depois que o grande terremoto atingiu os EUA e separou a costa oeste do continente. A cidade ficou então dividida entre duas áreas, uma rica e uma pobre, obviamente. A parte pobre era povoada por poucas pessoas comuns e muitos veteranos de guerra com super poderes, que foram abandonados pelo governo e pela empresa que lhes deu esses poderes, a S.H.O.C.C (Super Hero Operational Command and Control). 

Olha OS GAROTOS aí, Garth Ennis!

Esse pessoal volta da guerra completamente sem amparo e cheios de transtornos pós-traumáticos, morando num lugar de merda e começam a se reunir em diferentes gangues, gerando cada vez mais violência na região. Na parte rica, no entanto, os super-heróis são uma grande parte da cultura popular e possuem todo tipo de merchandising, parques de diversões e glória que estimulam cada vez mais jovens a se alistar no exército para ganhar super poderes e defender o país na guerra! Um dos pontos mais interessantes, no entanto, é essa guerra. Como “criar super-heróis” virou uma espécie de “moeda” internacional, todos os países começaram a correr atrás de criar seus próprios super seres. Os países da América Latina (entre eles Panamá, Brasil, Venezuela e Equador) investem na criação de super seres com poderes mentais e alta inteligência, visando a extinção da pobreza no continente.

Alarmados com o avanço desses países, os EUA (e o dono da empresa, Doctor Shocc) atacaram toda a América Latina para impedir a “sovietização” do continente. Isso porque ao investir em super inteligência e poderes mentais, as mentes mais brilhantes dos países latinos chegaram a conclusão de que o marxismo era a solução para o fim da pobreza (heh). Com isso, surgiu a Zona, uma zona de guerra imensa, que ia desde a América Central, até o nosso país. 

Troque super poderes por petróleo e nós temos os últimos 10 anos de política externa dos EUA e América Latina.

Marshal Law, era um jovem inspirado pelo grande herói da nação (um Superman + Capitão América) chamado Espírito Público, e se alistou no exército para lutar na Zona. Ele ganhou super força e durabilidade e perdeu a capacidade de sentir dor. Quando ele voltou da guerra, abandonado e sem nada, vivendo na parte ruim da cidade após o grande terremoto, ele começou a perceber que o grande problema da sociedade eram os super-heróis, que agiam como se fossem os donos do lugar, desrespeitando a tudo e a todos. Ele entra para a polícia para pôr ordem nos super seres e assim surge o super-herói que caça super-heróis, o mata-capas, Marshal Law.

O nome, inclusive é um belíssimo trocadilho com o termo “lei marcial” que é uma lei estabelecida por uma autoridade militar, e o termo “marshal” que significa “oficial de alta patente”. 

A lei marcial e o espírito público.

EU CAÇO HERÓIS, MAS NÃO ACHEI NENHUM

Vou evitar os spoilers porque eu gosto bastante da história, portanto, vou explanar aqui só a ideia geral da HQ, caso você se interesse em ler depois (e eu recomendo).

Há um assassino na cidade, um “super jack, o estripador” que ataca exclusivamente mulheres que estejam vestidas como a super-heroína Celeste, que está noiva do icônico Espírito Público. O serial killer chamado de Homem-Sono já matou dezenas de moças e já está na mira de Marshal Law, que além de tentar impedir o assassino, precisa manter a ordem na parte baixa de San Futuro e colocar as diversas gangues na linha. 

Só o Sombra sabe a paródia que se esconde no coração dos gibis alternativos.

A empresa S.H.O.C.C. cria então um programa espacial que pretende levar super astronautas a uma estrela vizinha. Pouco antes do anúncio de quem seria escolhido para a viagem, Espírito Público sofreu um acidente aéreo com sua antiga noiva, uma super-heroína chamada Virago, que acabou morrendo em alto mar. Desta forma ele pode seguir para as estrelas sem se preocupar em deixar ninguém para trás, já que a viagem duraria apenas dois anos para ele, mas 25 anos para o resto do mundo.

Ao voltar, todos já se esqueceram da morte de Virago e Espírito Público pôde encontrar o amor em Celeste, uma heroína que possui poderes de “encantos sexuais”, capaz de convencer os homens a fazer qualquer coisa por ela. Como o assassino só mata moças vestidas como ela e como isso só passou a acontecer após o retorno do renomado super-herói, Marshal Law passa a desconfiar seriamente dele e resolve ir cada vez mais fundo na sua investigação, descobrindo coisas que ele nem sabia que eram possíveis.

“Infeliz a nação que precisa de heróis”.

Tô LendoPontos Fortes
  • Roteiro. É muito bom. A história começa meio devagar e um pouco confusa em certas partes, mas logo, logo você se encontra e tudo passa a fazer mais sentido. É bem bacana acompanhar a investigação de Marshal, apesar dela não ser o ponto central da trama.
  • Desconstrução. Acho uma desconstrução tão boa quanto Watchmen, apesar de ser beeem menos sutil. Ela é mais pé na porta e chega só nas duas edições finais, mas é ótima. 
  • Desenhos. Admito que li pouquíssima coisa de Juiz Dredd, mas li bastante da Liga Extraordinária e lembro de ter gostado bastante do traço de O’Neil. Aqui o desenho dele é mais antigo, as cores são diferentes, mas cai como uma luva para o tipo de história.
Tô LendoPontos Meh
  • Sexismo. Não me incomodou na época, mas achei meio ruim dessa segunda vez que eu li. Tudo bem, que a tal desconstrução dos quadrinhos passa pelo arquétipo do herói machão e em certo ponto Marshal Law é descrito como sendo mais rambo que o próprio Rambo, mas esse lance de “poderes sexuais” em mulheres é um troço que não envelheceu bem, infelizmente.
  • Medo. Não é um ponto ruim em si, mas o realismo de certas partes é meio assustador. Todos os grande heróis populares tem alguma temática religiosa envolvida, indicando uma sociedade distópica cheia de “cidadãos de bem” de moralidade duvidosa. Sem contar a lei e a ordem praticada com as próprias mãos (muito embora o gibi seja uma crítica a isso em si). Mas é próximo demais da nossa realidade para ignorar.

Enfim, Marshal Law é uma crítica bem pesada ao imperialismo e armamentismo americano dos anos 80 e, mesmo que as coisas não tenham mudado muito por lá nesse sentido, muita coisa da trama parece meio datada. Por outro lado, é assustador como muitas outras coisas soam tão atuais, porque a gente não sabe se elas nunca mudaram de verdade, ou se a gente está regredindo.

Acho super indicado para um leitor de quadrinhos ávido por revolução! E se você for fã de Juiz Dredd, Justiceiro e afins, e ainda não leu, deveria correr atrás agora mesmo. Esse é um dos heróis mais subestimados das histórias em quadrinhos, de fato.


Marshal Law vale cinco rebobinandos. 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2020-09-14T22:08:58+00:00 14 de setembro de 2020|0 Comentários