Rebobinando #136: Mulan

Início/Destaques, Leia!, Rebobinando/Rebobinando #136: Mulan

Let’s get down to business! Em 1998 a Disney continuava tentando surfar na onda de sua renascença iniciada nos anos 90. E para isso eles foram até a China atrás de um novo conto de fadas. A Rebobinando de hoje é sobre Mulan.

Na quarentena eu também já tava querendo cortar o cabelo na espada mesmo.

Eu sempre fui um grande fã da Disney, como você pode notar em outras rebobinandos sobre os filmes do estúdio de animação, como O Rei Leão, Aladdin e Toy Story. Cresci consumindo quase tudo da Casa do Rato, e mesmo na adolescência (e hoje na idade adulta) eu ainda ia ao cinema sempre que alguma coisa nova estreava. Em 98 não foi diferente e eu fui muito curioso para assistir Mulan, afinal de contas era uma ideia completamente nova para a Disney que produzia apenas desenhos sobre contos de fadas europeus. 

A renascença da Disney começou lá em 89 com A Pequena Sereia, e seguiu durante quase todos os anos 90 quase sempre com seguidos sucessos bombásticos, porém depois do advento da Pixar. Porém eles amargaram alguns fracassos com O Corcunda de Notre Dame (1996) e Hércules (1997) e, por conta disso, Mulan tinha uma certa expectativa para cumprir. E muito embora o filme tenha arrecadado uma ótima bilheteria naquele ano (e superado a dos dois filmes anteriores) ele não chegou nem perto dos grandes sucessos do início daquela década.

Fui a sétima maior bilheteria de 98, beijos!

Eu lembro vagamente de ter gostado da história na época, eu já era um adolescente que suportava a parte musical da Disney muito bem, apesar de ter sido uma criança que odiava musicais. Não foi particularmente marcante, mas com o tempo Mulan foi ganhando mais e mais espaço no meu coração, até hoje ele ser facilmente, um dos Top 5 Filmes da Disney no meu ranking particular. Além disso, Fa Mulan é tranquilo a minha princesa da Disney favorita, se é que um marmanjo de quase 40 anos pode ter uma princesa da Disney favorita.

Já falei que eu sou muito fã da Disney?

Shan Yu tá de olho em você!

A BALADA DE HUA MULAN

A Balada de Mulan é uma canção folclórica chinesa cujo primeiro registro data das dinastias Wei, algo ali entre os séculos IV e VI d.C. A canção foi compilada em um livro de canções folclóricas dessa época que retratam o período de campanhas militares dessas dinastias contra um grupo de tribos nômades chamados de Rouranos. Ao longo do tempo, o poema/canção foi sendo adaptado e ganhando cada vez mais popularidade entre os chineses.

Como qualquer história folclórica que se preze, existem várias versões para a história de Mulan, bem como uma variedade de nomes para a protagonista. O mais aceito recentemente é o sobrenome Hua ou Fa, que significa “flor”, e que combina bem com o nome da personagem principal, que significa “magnólia”.

Basicamente a Mulan se chama “Magnólia Flores” em português.

Além disso, existem algumas versões diferentes da história e, como muito espírito de porco por aí gosta de dizer, “a Disney muda demais as histórias originais”. Apesar de ser verdade, eu entendo o lado da empresa de animações infantis querer amenizar algumas das histórias clássicas e torná-las mais palatáveis ao seu público. De fato, seria um filme um tanto traumático se a pequena sereia morresse virando bolhas no fim do filme, ao invés de casar com o príncipe Eric. No caso da Mulan, no entanto, o desenho animado se aproxima mais do conto original do que as outras versões.

A Balada de Mulan, o poema original conta a história de Mulan, uma jovem que se atende o chamado do exército Chinês no lugar de seu pai, já velho e incapacitado de lutar. Ela tem uma irmã e um irmão pequeno, que também não pode ir à guerra. Ela se disfarça de homem e fica no exército por 12 anos, até o fim da guerra, quando recebe honrarias do imperador e a proposta de um cargo de alto oficial do governo. Ela recusa e pede apenas um cavalo para voltar para casa. Só em casa, ao reencontrar sua família, Mulan se despe de sua armadura e revela aos seus camaradas de batalha que é uma mulher. A canção ainda termina com uma lição/metáfora sobre gêneros onde Mulan diz:

“A lebre macho tem patas dianteiras fortes. A lebre fêmea tem olhos pequenos. Mas quando ambas estão correndo lado a lado, bem próximo ao chão, quem é que pode me dizer qual é o macho e qual é a fêmea?”

Uma das páginas do poema original, e o mural retratando o recrutamento de Mulan, num templo em Taipei.

Outras histórias são variações pequenas desse poema, mas a mais diferente de todas vem do Romance de Sui e Tang, um romance histórico publicado no final do século XVII. Nele, o autor comentava sobre a diferença entre dinastias (ele preferia uma a outra) que mandavam na China, e lá pela metade ele resolveu colocar uma versão de Mulan na história. Nela, Mulan entra para o exército da mesma forma, mas encontra uma pessoa igual a ela, a filha do imperador, a princesa guerreira Xianninang.

As duas viram muito amigas, mas ao fim da guerra elas se sacrificam para salvar a vida do imperador. No entanto, Mulan consegue ser libertada e volta para casa apenas para descobrir que seu pai já havia morrido, sua mãe casado de novo, além de receber a notícia de que o imperador a havia convocado para ser sua concubina. Quando não havia mais tragédia para acontecer, Mulan se mata para não ter que servir a ninguém.

Ainda bem que nessa versão a Disney resolveu seguir a versão original, né? Apesar dos animais falantes. 

E só uma delas tem um dragão falante como sidekick.

A ANIMAÇÃO DE FA MULAN

De olho no mercado chinês, depois do sucesso absurdo de O Rei Leão e Aladdin por lá, os executivos da Disney decidiram que seria interessante procurar no oriente por outras histórias de domínio público para usar. Nessa busca, o recém-aberto estúdio de animação na Flórida começou a produção de um curta chamado Boneca Chinesa, que contava a história de uma menina chinesa oprimida que era salva por um príncipe encantado europeu. Ao mesmo tempo, os executivos do estúdio queriam outra história para um filme, e entraram em contato com um livro que adaptava a história da Balada de Fa Mulan. No fim, juntaram os dois projetos culminando no que seria o filme Mulan.

Na busca por um diretor para o longa, a Disney ofereceu dois projetos ao diretor Barry Cook. Um era Mulan e o outro um filme sobre dragões na escócia (Hum? Onde eu já vi isso antes…?). Cook apontou que na cultura chinesa também há dragões e no fim juntaram os dois projetos culminando no que seria o filme Mulan. Heh. Além dele, juntou-se ao projeto um outro diretor, Tony Bancroft, e pronto. Com o time formado, o filme começou a sair do papel.

Não há espaço para comédias românticas numa guerra!

Após três semanas na China, a equipe de animação começou a desenvolver o projeto, que tinha um apelo mais cômico, dado a temática da troca de gêneros. A heroína estaria prometida a o herói Li Shang, que ela não conhece, e ela foge de casa depois de uma briga com o pai, determinada a forjar seu próprio destino. A mudança vem com o roteirista Chris Sanders, que havia trabalhado em Rei Leão, e odiava o aspecto de comédia-romântica da história. Ele sugeriu a troca de motivação da Mulan e eles animaram a cena principal do filme, onde ela toma sua decisão e corta o seu próprio cabelo com a espada do pai antes de ir para a guerra.

Após a definição da história, faltava o elenco. Com um certo bom senso, os produtores foram atrás de talentos ásio-americanos (sim, essa palavra existe) para darem vida às vozes dos personagens. Desta forma, uma jovem Ming-Na Wen foi escolhida para ser a personagem principal e B.D. Wong saiu direto do Jurassic Park para viver o Capitão Li Shang. Além deles, dois grandes mestres do karatê e do sci-fi foram convidados: Pat Morita fez a voz do Imperador, e George Takei foi o Grande Ancestral da família de Mulan. E claro, o star power do filme veio na voz de Eddie Murphy como o carismático dragão Mushu.

Li Shang, o ídolo bi de gerações, e B.D. Wong, prestes a clonar o Mushu.

No Brasil, o elenco de peso contou com as vozes de Kakau Gomes (Mulan), Claudio Galvan (Li Shang), Leonardo José (Shan-Yu, o vilão mongol), e os inesquecíveis Isaac Bardavid (Yao), Mário Jorge (Mushu) e Pietro Mário (Grande Ancestral).

AS CANÇÕES DE FA MULAN

Depois de velho eu passei a ser um grande apreciador de musicais. E Mulan tem algumas música muito boas. Talvez não tão marcantes, claro, quanto um Aladdin, mas que são boas mesmo assim. O compositor Jerry Goldsmith entrou no projeto após muitas entradas e saídas de outros compositores. Entre esses, um foi cooptado pelo ex-CEO maldito da Disney, Jeffrey Katzenberg para trabalhar para a Dreamworks na época.

A trilha tem traços da música tradicional chinesa, mas ainda tem aquele popzinho típico da Disney. Reflection é a canção-tema da protagonista e dizem até que foi a responsável por lançar a carreira da Christina Aguilera ao estrelato. Entre as outras canções, a minha favorita é Be a Man, cantada por Li Shang. É uma marcha que vai crescendo e enumerando todas as características que “fazem um homem”, contrastando com a inabilidade não só da Mulan diante do treinamento árduo, mas de todos os outros homens ali presentes. A Girl Worth Fighting For é a mais bobinha, mas é um ponto de virada muito grande na história. No fim, eu ainda sei cantar a maioria delas.

Tô LendoPontos Fortes
  • Disney. É um filme da Disney, né? Rápido, fácil e família. É bom para entreter os pequenos, é divertido e com algumas piadas ótimas.
  • Representatividade. A gente nem sabia, ou ligava na época. Mas o filme foi um respiro nos clássicos europeus dos irmãos Grimm e Hans Christian Andersen. Mulan trouxe um novo olhar, de uma nova cultura e com um tema de feminismo moderno, colocando sua protagonista feminina num lugar de agência, diferente das heroínas-donzelas-em-perigo do passado.
  • Eddie Murphy. Não à toa ele é o star power do filme, quase na mesma pegada do Robin Williams em Aladdin. A maioria das piadas são dele, e o Mushu é quase um “estagiário de Burro do Shrek”, mas bem mais engraçado, pra mim.
Tô LendoPontos Meh
  • Fim da Renascença. O filme chegou num momento péssimo para o estúdio, onde as animações tradicionais já estavam capengando, graças ao sucesso da Pixar e afins. Ainda mais depois dos flops de Hércules e Corcunda de Notre Dame, ali no fim dos anos 90. Um momento complicado, no mínimo. Depois dele, a Disney ainda lançaria Tarzan em 1999, fechando a renascença e iniciando um novo caminho com muitos tropeços e poucos acertos até encerrar por completo sua animação tradicional com A Princesa e o Sapo.
  • Sandy & Junior. Sim, eles fizeram versões de algumas das canções do filme e é aquela coisa, né? ¯\_(ツ)_/¯  Além deles, Jackie Chan também dublou o Li Shang em chinês e cantou a versão em mandarim de Be a Man, e… é alguma coisa.

De dragão a burro namorado de dragão, hein Eddie?

Mulan é um filme bacana, no fim das contas. Reassisti recentemente e continuei gostando, e estou bastante empolgado com o lançamento do remake em live action, apesar de ainda estarmos em tempos de pandemia e quarentena. O Disney+ já anunciou o lançamento em streaming no início de setembro e, me parece, que já está disponível na plataforma e nos cantos obscuros da internet, por onde andam as pernas de pau, mãos de gancho e tapa-olhos.

Uma pena, porque me parece que, novamente, é um filme bom sendo lançado em um momento péssimo, não só para o estúdio, como para o mundo em geral. Talvez na China os cinemas já estejam abertos, mas lançar em streaming agora, cobrando 30 dólares parece ser um tiro no pé. Enfim, pretendo assistir assim que possível e, dependendo, passo aqui nos comentários para dar minhas impressões.

O que o meu reflexo diz?

E você? Tem alguma relação especial com algum filme da Disney? Lembram de algum com carinho, ou odeia musicais como um todo? Conta ai nos comentários!


Mulan (1998) vale três rebobinandos! 📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2020-09-08T01:29:35+00:00 7 de setembro de 2020|0 Comentários